Tombamento do Belas Artes, desabamentos do Rio

Na sexta-feira passada, enquanto o Brasil assistia ao resgate do que até agora são mais de 700 corpos na tragédia da região serrana do Rio de Janeiro, fui ao cinema Belas Artes, em São Paulo, pra encarar uma maratona de filmes ao longo da madrugada e uma homenagem.

O cinema, pra mim um dos melhores do Brasil, passa por bocados complicados. Vai abrir metrô do lado, talvez neste ano, talvez depois (por ora só atende UMA estação durante poucas horas), e o dono do prédio quis cobrar um aluguel muito maior que o então vigente. A ideia do dono do prédio, herdeiro do dono original, é alugar o imóvel para alguma empresa de que possa cobrar mais, tipo uma loja de departamentos. Na boca do metrô, seria um filé de vendas. Mas aí fecharia o cinema. Ou ele teria que procurar outro lugar. É a especulação imobiliária, enfim. Isso é ruim pra qualquer um que não seja o proprietário – que o diga quem procura apartamento levando em conta a localização e os serviços disponíveis.

Há uma choradeira na cidade sobre isso, especialmente entre o pessoal cinéfilo. Eu mesmo gosto do lugar, que tem várias vantagens: fica na esquina da Paulista, pára ônibus na frente dia e noite e tudo mais. Mas aí, como estamos no Brasil, já começou a gritaria pra pedir a ajuda do paizão Estado pra proteger o cinema da especulação imobiliária. É preciso proteger a arte, dizem.

Num intervalo do Noitão, escrevi no Twitter mais ou menos o seguinte: pra mim tanto faz cinema de rua ou cinema de shopping. A diferença é a mesma entre vinho de rolha e vinho de tampa rosca – o que realmente faz diferença é o que tem dentro. Nada impede cinema de shopping de passar filme bom. Aliás, tem vários que o fazem. A única coisa que eu realmente lamento, se fechar o cinema, é o espaço pra ficar de bobeira sem ninguém tentar te vender ou pedir alguma coisa.

Eu adorava sentar naquele janelão pra ler enquanto esperava minha mulher sair de algum filme iraniano que eu não teria saco de assistir. Ali eu tinha certeza que não viria um garçom perguntando se eu quero fazer algum pedido, nem um mendigo pedindo uns trocados pra comprar pão, nem um moleque querendo engraxar meus tênis, nem nada assim. Nem mesmo a balbúrdia de gente te olhando de cara feia por estar ocupando uma mesa de shopping quando eles estão com uma bandeja querendo sentar.

Claro que posso ficar de bobeira em casa. Mas em casa não corro o menor risco de ser encontrado por acaso por algum amigo ou conhecido pra botarmos o café em dia. Espaços assim são preciosos e cada vez mais raros.

Só que mesmo assim eu não acho que seja papel do Estado preservar esses lugares. Ele já renuncia a impostos por meio das leis de incentivo à cultura para o patrocínio do cinema, sem falar na produção e distribuição dos filmes nacionais. Agora também tem que ter o papel de proteger essa empresa da especulação imobiliária? Não adianta dizer “ah, mas então você acha que o Estado não tem que dar cultura pro cidadão”. Não se trata disso, até porque não “dá”: o ingresso lá não é nada barato.

O Brasil montou um sistema em que se espera que o paizão Estado resolva tudo. Que alfabetize as crianças no ensino básico, qualifique a elite no ensino superior, mantenha a qualidade de vida de todos num sistema universal de saúde, dê de graça até os remédios mais exóticos de que até os brasileiros que podem pagar precisem, salve bancos falidos, ajude empresas grandes a comprar empresas no exterior, garanta que as montadoras continuem tendo lucros a cada ano mais fabulosos mesmo no meio da crise e até mesmo proteja cinema da especulação imobiliária.

Aí nem quando a natureza interfere e 700 morrem sem precisar o pessoal se liga na verdade universal de que quem tenta fazer tudo não consegue fazer nada direito.

Sou completamente a favor de tentar convencer o proprietário a especular menos. Sou completamente a favor de manter o cinema aberto. Mas acho que botar o Estado no meio é querer matar rato com bazuca.

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6 comentários sobre “Tombamento do Belas Artes, desabamentos do Rio

    1. Seria possível negociando, assim:

      Mas não acho que seria necessariamente ruim se o cinema fosse pra outro imóvel. Só acho difícil acharem um espaço tão bom quanto aquele. Na frente do ônibus, perto de padaria 24h, seis salas, rua iluminada, perto de metrô.

      Só acho que o papel razoável do Estado nisso já está mais do que cumprido ao conceder renúncia fiscal ao patrocinador do cinema. (E mesmo assim acho complicado porque continua caro o ingresso, mesmo que para mantê-lo o Estado renuncie a uma grana que poderia teoricamente ser usada, por exemplo, em obras contra enchentes.)

  1. Mas essa desculpinha da nova estação é uma balela. Já há uma estação bem próxima do cinema – a consolação, que fica na paulista (a nova estação se chama paulista e fica na consolação. go figure…), além das inúmeras linhas de ônibus próximas, como vc citou.

    1. A estação Consolação tem sua saída a duas quadras de distância do Belas Artes. Mas taí uma coisa interessante pra procurar os dados: a diferença de uma quadra a mais ou uma quadra a menos do metrô em relação a um imóvel. Se você já procurou apartamento pra alugar, sabe que quanto mais perto mais caro fica. Vou dar uma olhada nisso. Pode render um post interessante para o Numeralha.

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