Para descartar “previsões” numéricas

Em 30 de julho de 2010, a Agência Câmara anunciava:

Estudo aponta aumento de 40% no número de deputadas em 2011

O raciocínio, do demógrafo José Eustáquio Alves, do IBGE, era o seguinte: como tinha 40% a mais de candidatas à Câmara dos Deputados em relação a 2006 (1253 contra 737), devia aumentar linearmente a quantidade de eleitas. A projeção dele sugeria que 63 mulheres seriam eleitas deputadas.

Muita gente boa deu essa matéria. Chegaram a sugerir que eu fizesse uma matéria a respeito para a TV. Eu me recusei e argumentei meus motivos. São basicamente três:

1) Não dá pra projetar linearmente assim os números. Mais candidatas mulheres não significam automaticamente mais mulheres eleitas.  Precisa ver se os partidos dariam visibilidade a essas novas candidatas, porque voto depende de reconhecimento e propaganda eleitoral de deputado dificilmente passa do “Fulano de Tal, 000, saúde, educação e moradia”. Mal dá tempo pro “você me conhece”. E, enfim, precisa combinar com os russos que vão apertar o botão verde da urna eletrônica.

2) Qualquer candidato que tenha o mínimo de votos pra ser eleito pode perder a vaga por causa da matemática do voto proporcional – o coeficiente partidário e o coeficiente eleitoral. Foi o caso de Luciana Genro, no Rio Grande do Sul. Ela teve 129 mil votos, mas ficou sem cadeira porque o seu partido, o PSOL, não teve o mínimo necessário de votos pra garantir uma vaga.

3) Esse boom nas candidaturas femininas provavelmente tinha a ver com a necessidade de cumprir a lei que exige de cada partido 30% de candidaturas femininas. Só os partidos pequenos conseguiram cumpri-la, porque apresentaram poucos candidatos. Alguns partidos usaram “laranjas” pra tentar chegar mais perto de cumprir a cota. É difícil pra qualquer candidato em qualquer uma dessas situações ganhar eleição.

Os colegas entenderam os argumentos e não entramos nessa canoa furada.

O resultado final mostrou que era isso mesmo: foram eleitas 44 mulheres para a Câmara dos Deputados, não alterando em nenhum ponto percentual a composição feminina da legislatura anterior.

Eu pessoalmente não levo previsões a sério.

Não dá pra comprar qualquer número dito por aí pelo valor de face. Mesmo quando quem o calculou foi alguém com todas as credenciais do professor da Escola Nacional de Ciências Demográficas do IBGE. Ele teria possivelmente acertado se o crescimento da população da Câmara dos Deputados seguisse o padrão do crescimento de populações. Só que o crescimento ali depende de voto e composição partidária, variáveis que ele aparentemente não levou em conta.

É por isso que eu encasqueto quando alguém cita Philip Meyer como o sujeito que “previu” que os jornais acabariam em 2043. O que ele disse, numa nota de rodapé da página 16 de um livro de mais de 200 páginas, é que, se a queda continuasse linearmente no mesmo ritmo que ele detectou a partir de 40 anos de dados de circulação, a linha acabaria lá em 2043. Mas no meio do caminho alguém podia lançar uma tecnologia barata que poupasse árvores na impressão e caminhões na distribuição – e isso poderia acelerar a escassez do impresso.

No caso do Meyer, o problema é de quem o leu mal, ou curte repassar o que outros souberam de orelhada.

No caso da projeção destacada neste post, o problema parece ser outro: o de não levar em conta variáveis fundamentais. A principal é que os humanos são quase imprevisíveis, o que muitas vezes deixa as estatísticas penduradas no pincel. O próprio professor José Eustáquio errou ao projetar a população do Brasil em 2010 a partir dos dados da contagem da população de 2008 (cresceu menos que o previsto) e constatou em 2008 que a taxa de fecundidade das brasileiras caiu mais do que o esperado, chegando já então ao nível previsto para o mesmo ano em que mestre Phil Meyer “previu” que o jornal acabaria.

Eu pessoalmente acho o assunto fascinante. Fica o convite ao professor para uma entrevista.

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