Ainda sobre o Belas Artes e a especulação imobiliária

O Valor publicou hoje na internet uma notícia interessante que joga luz sobre a especulação imobiliária por trás do contencioso do Belas Artes. Segundo a urbanista Raquel Rolnik, os proprietários do imóvel querem aumentar o aluguel em 138%, de R$ 63 mil para R$ 150 mil – ou seja, querem aumentar o aluguel em 138%.

Isso é muito dinheiro por qualquer ângulo que se possa olhar. Levantamento do Conselho Regional de Corretores de Imóveis de São Paulo (CRECI-SP), porém, noticiado pelo Valor, mostra que tem gente enfrentando coisa ainda pior. E sem poder tentar tombar imóvel. Segundo o CRECI, os imóveis usados valorizaram até 269% no ano de 2010 em algumas partes de São Paulo.

Da notícia:

A maior alta foi vista nos apartamentos de médio padrão, com tempo de construção entre 8 e 15 anos, situados em bairros da Zona B, como Aclimação, Brooklin, Chácara Flora, Sumaré e Vila Mariana. O preço do metro quadrado saltou de R$ 1.250 em janeiro para R$ 4.613,60 em dezembro.

Outros quatro tipos de imóveis, em regiões diversas da capital paulista, tiveram valorização acima de 100% em 2010. O percentual supera em grande escala o retorno do ouro (32,26%), da poupança (6,81%) e do Ibovespa (1,04%) no período.

Veja só: investir em metros quadrados deu mais retorno que o ouro e que a Bolsa. Pouco antes, deu que os preços pararam de subir no começo de janeiro. Contradição? Não. Tava alto demais, como se viu no Belas Artes. Aí é que vem o medo.

O aumento de mais de 100% no caso do Belas Artes, cujo imóvel além da excelente localização atual ainda deve valorizar muito por conta do metrô, acaba não sendo excepcional, infelizmente. Enquanto o cinema, um dos melhores de São Paulo, está pleiteando algum tipo de tombamento, outros locatários atingidos pela especulação imobiliária desenfreada geralmente não podem sequer espernear. No máximo, podem arrumar suas trouxinhas e ir morar mais longe.

Estou mais preocupado com o aluguel dos não-tombáveis – como eu e você – do que com o aluguel do Belas Artes. Será que vem uma bomba aí nesse mercado? Não sou especialista no assunto, longe disso, mas observo com o interesse de quem paga aluguel. E observo o que os especialistas estão fazendo.

Sam Zell, por exemplo, é um especialista. Dono de uma empresa que investe forte em imóveis, ele aportou no Brasil no auge da crise causada pela explosão da bolsa imobiliária dos EUA. Nos últimos 5 anos, segundo o Estadão, ele colocou meio bilhão de dólares nas empresas imobiliárias Gafisa, Bracor, BR Malls, AGV Logística e Brazilian Finance & Real Estate. Veio mais forte a partir de 2007, quando estourou em sua terra natal a bolha dos imóveis. Desde outubro, porém, está vendendo suas participações por aqui.

Caras como ele não costumam perder dinheiro – ele comprou o jornal Los Angeles Times, para o qual presto serviços desde 2006, e passou os últimos anos cortando custos adoidado. Senti isso no bolso: o primeiro correspondente com quem trabalhei foi chamado de volta à sede. O segundo virou frila fixo. Os dois tinham sido correspondentes no Iraque. A cobertura do Brasil foi reduzida drasticamente.

Zell não entende nada de jornal, mas de ganhar dinheiro com imóveis certamente entende. Antes de estourar a bolha imobiliária dos EUA, ele vendeu sua empresa do ramo para um fundo por lá. Em entrevista ao Estadão, nessa mesma matéria, o pesquisador da universidade Columbia John F.Tsui disse que a saída dele do Brasil “pode ser uma saída de uma bolha de propriedade”.

A absurda valorização dos imóveis em São Paulo em um ano – da qual o rolo do Belas Artes é um caso emblemático – também parece indicar uma bolha.

Qual é o problema de uma bolha?

Os imóveis se valorizam. Muita gente bota dinheiro neles, inclusive de fora. Os imóveis se valorizam mais por isso. Os preços sobem, até chegar a um nível insustentável. Chega uma hora em que o pessoal acumula dívidas e não tem grana pra pagar. Começa a dar calote. Ainda ontem estavam discutindo no Senado uma lei pra expulsar mais rápido “inquilino indesejado”. Aí é dança das cadeiras: quem tem grana na jogada e ganhou com a valorização pula fora correndo pra não ficar com o mico na mão. Só que a grana investida nos imóveis também já virou investimento de fundos de pensão, já virou investimento em outras empresas. Aí todo mundo começa a quebrar junto e aumenta desemprego. Foi isso que rolou nos Estados Unidos. Com o desemprego o pessoal começa a não conseguir pagar aluguel. Começa a não conseguir pagar até as dívidas de financiamento de imóveis.

Todo mundo se ferra. Menos quem ganhou com a bolha e saiu correndo antes de micar.

Localizei três blogs que vêm observando isso mais atentamente: o Bolha Imobiliária (que chama o “Minha Casa, Minha Vida” de “Minha Bolha, Minha Vida”), o Bolha Imobiliária em Brasília e no Brasil e o Blog do Imóvel, do Salomão Mendes. na dúvida, vou assinar seus feeds de RSS.

Como eu disse antes, não sou especialista no mercado imobiliário. Mas farejo uma história muito maior aí por trás do contencioso do Belas Artes. Por sorte, se é que dá pra falar em sorte nessas horas, meu contrato de aluguel ainda tem mais um ano e meio. Sorte será se a bolha estourar antes de encerrar o contrato e a gente chegar lá ainda conseguindo pagar o aluguel ou o financiamento.

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