Apagões, pedras, vidraças e o trouxa do cidadão

Na madrugada de sexta (4), oito estados do Nordeste ficaram às escuras. Nossa caríssima classe política adora essas horas. Toda ela, tanto oposição quanto governo.

Os oposicionistas aproveitam o ensejo para tachar o governo de incompetente. Os governistas aproveitam o ensejo pra fazer a dança das cadeiras. O trouxa do cidadão, que banca a brincadeira, é que tem que aguentar não apenas os apagões, entra governo e sai governo, como também o blablablá da classe política.

Vale a pena olhar a semântica, que faz tanto barulho, e os dados, que a gente olha tão pouco.
.

A SEMÂNTICA

O ministro Edison Lobão, por exemplo, repeliu o uso da palavra “apagão” pra descrever o ocorrido. Para ele, na lógica do seis por meia dúzia, o que houve foi uma “interrupção”. (Assim como o caixa-dois para o Delúbio eram “recursos não-contabilizados”.)

“Apagão” é uma tradução bastante decente de “blackout”. Melhor que “blecaute”, que abrasileira sem traduzir. Se faltou luz e oito estados ficaram no escuro, foi apagão.

Discutindo sobre o assunto na internet, disseram que o problema é com o uso indiscriminado da palavra “apagão” – “apagão aéreo”, “apagão dos portos”, “apagão (fill the blanks)”. Dizem que é coisa da oposição pra desgastar o governo injustamente. Vale dar uma olhada.

OK, eu também não curto essa coisa de ampliar o âmbito da palavra. O dicionário Aulete, porém, considera que a palavra também abrange colapsos estruturais em outras áreas que não a de luz. Pessoalmente? Prefiro usar “apagão” quando cidadãos ficam às escuras. Foi o caso, e não tem tergiversação que resolva.

Pior ainda: os primeiros a adaptarem a palavra “apagão” para outros âmbitos foram membros do PT, que hoje reclama do uso da palavra. Em entrevista à Folha em dezembro de 2002, o hoje novamente ministro Antônio Palocci dizia:

“A capacidade de planejamento estratégico do Brasil teve um apagão maior do que na energia. E ninguém fala nada.” (FSP, 22.dez.2002, para assinantes)

Outro argumento do mesmo amigo que reclamou do uso indiscriminado da palavra “apagão” foi o de que o que houve no Nordeste não se compara à falta de energia que levou a um espartano racionamento no governo Fernando Henrique. Verdade, não se compara. Mas, mesmo na época do racionamento, blecautes semelhantes ou até menores do que o havido ontem no Nordeste também eram chamados de apagões. Inclusive durante a campanha eleitoral:

Pane, que durou aproximadamente uma hora, afetou o fornecimento em 30% da região; causa ainda é desconhecida

Curto-circuito provoca apagão no Nordeste

FÁBIO GUIBU
DA AGÊNCIA FOLHA, EM RECIFE

Um curto-circuito em uma linha de transmissão de energia elétrica da Chesf (Companhia Hidrelétrica do São Francisco) provocou na manhã de ontem um blecaute de até uma hora em cerca de 30% da região Nordeste.
O problema, de causa ainda desconhecida, aconteceu às 10h35, a 70 km de Angelim, município do agreste pernambucano. A linha afetada, de 500 mil volts, abastece a subestação Recife 2, a maior do Estado, localizada em Jaboatão dos Guararapes, na região metropolitana. (FSP, 11.out.2002, para assinantes)

O que mudou de 2002 para cá?

Já vimos que, entra governo e sai governo, o cidadão continuou ficando às escuras por falhas do governo de plantão. Falhas diferentes, mas ainda falhas. Que precisam ser solucionadas, até pra fazer jus ao tanto que a gente paga por um serviço tão precário.

Já vimos que a palavra usada pelos jornalistas para descrever esses incidentes era exatamente a mesma. Não é pra atender ao capricho dos simpatizantes de um governo ou de outro que se vai ter motivo pra mudar.

Já vimos que a ampliação do significado da palavra por parte da oposição ao governo de plantão também já ocorria. Eu pessoalmente não gosto dessa ampliação, mas até o dicionário aceita. Sem falar que os simpatizantes do governo de agora usavam essa mesma ferramenta retórica pra criticar o governo ao qual se opunham.

Então, a única coisa que mudou foi o seguinte: quem era vidraça passou a ter a pedra na mão; quem tinha a pedra na mão passou a ser a vidraça. Quem com semântica fere, com semântica será ferido – esse é o jogo da classe política.

Enquanto isso, o trouxa do cidadão é quem fica no escuro, tomando pedrada de raspão na cabeça e tendo que pisar em cacos de vidro. Um pouco de memória, que a internet ajuda, e um tanto de honestidade intelectual, que é disciplina e hábito, ajuda a não entrar nas torcidas organizadas de um lado ou de outro nesse pacto de canalhas entre governo e oposição.
.

OS DADOS

Outro argumento que ouvi foi que o apagão de ontem foi exceção. O Estadão diz, sem informar nem dados e nem fonte, que “Apagões no Brasil aumentaram nos últimos três anos“. Acho possível que tenham aumentado, mas eu queria ter acesso aos dados inteiros pra tirar conclusões mais detalhadas.

Na falta deles, é possível checar de uma maneira mais trabalhosa.

O site do Operador Nacional do Sistema, uma espécie de guarda de trânsito da energia elétrica do Brasil, publica um boletim diário do estado do sistema. Abra em nova janela ou aba o link “Principais eventos e ocorrências”. Você pode trocar a data no link e ver, dia a dia, voltando no tempo, o que houve. Na maior parte dos dias, você pode ver coisas assim:

No dia 03/02/2011, não foram verificadas ocorrências significativas com origem na Rede de Operação do Sistema Interligado Nacional – SIN.

No dia 4, o boletim disse isto:

No dia 04/02/2011, à 00h21, ocorreu a interrupção de cerca de 5.754 MW de cargas na região Nordeste, atingindo os Estados da Bahia, Sergipe, Alagoas, Penambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará, devido ao desligamento de diversas linhas de transmissão em 500/230 kV e de usinas geradoras nessa região. Posteriormente, à 00h29, devido as condições de degradação das tensões e frequência, houve o desligamento de outras linhas de transmissão e usinas geradoras remanescentes, causando uma interrupção adicional de cerca de 2.246 MW, atingindo os Estados citados anteriormente.
Na Celpe (Estado de Pernambuco) permaneceu o suprimento de cerca de 70 MW e na Coelba (Estado da Bahia), cerca de 340 MW.
O processo de recomposição das cargas foi iniciado à 01h10 e concluído às 05h.
A causa está sendo pesquisada pela Eletrobras Chesf e ONS.

E não foi a primeira vez no ano. Olha só:

No dia 26/01/2011, às 22h15, ocorreu o desligamento automático de todas as unidades geradoras da UHE Funil (Furnas), com geração de 200 MW, e das LT 138 kV Funil/Saudade C1 e C2 e Saudade/Volta Redonda C1. Em seguida, entre 22h23 e 22h25, ocorreram os desligamentos automáticos das LT 138 kV Cachoeira Paulista/Volta Redonda C1 e C2, Nilo Peçanha/Volta Redonda C1 e C4 e Saudade/Volta Redonda C2.
Houve interrupção de 510 MW de cargas no interior do Estado do Rio de Janeiro, sendo 445 MW da LIght e 65 MW da Ampla.
Às 22h28 foi iniciada a recomposição das cargas da Light, sendo concluída à 01h57 do dia 27/01/2011.
À 00h48 foram normalizadas as cargas da Ampla.
A causa está sendo pesquisada pelos agentes Furnas e Light.

ou

No dia 20/01/2011, às 10h26, ocorreu o desligamento automático de toda a SE Figueira.
Em consequencia, houve interrupção de 126 MW de cargas da Copel, na região norte do Estado do Paraná.
A normalização das cargas foi iniciada às 11h00 e concluída às 11h04.
A causa foi cabo rompido na chave seccionadora de 230 kV da SE Figueira, que interligava as barras BP1 e BP2 da referida SE.

ou

No dia 15/01/2011, às 17h44, ocorreu o desligamento automático da LT 230 kV Porto Velho / Abunã, causando a desenergização da LT 230 kV Abunã / Rio Branco e de toda a transformação 230/138/69 kV da SE Rio Branco I, todos os equipamentos e linhas de transmissão da Eletrobras Eletronorte.
Em consequência houve a interrupção de 11 MW do agente de distribuição Ceron, atingindo a cidade de Guajará Mirim, no Estado de Rondônia e de 88 MW de cargas do agente de distribuição Eletroacre, atingindo a região das cidades de Rio Branco, Xapuri, Epitaciolândia e Sena Madureira, no Estado do Acre.
A recomposição das cargas foi iniciada às 18h06 e concluída às 18h16.
A causa está sendo pesquisada pela Eletrobras Eletronorte.

ou

No dia 11/01/2011, às 14h32 (Horário Brasileiro de Verão), ocorreu o desligamento automático dos transformadores TR2, TR3 e TR4 230/69 kV – 100 MVA da SE Cotegipe, da Eletrobras Chesf.
Em consequência houve a interrupção de 245 MW de cargas do agente de distribuição Coelba, atingindo a região metropolitana da cidade de Salvador, no Estado da Bahia.
A recomposição das cargas foi iniciada às 14h34 e concluída às 14h55.
A causa está sendo pesquisada pela Eletrobras Chesf.

ou

No dia 05/01/2011, às 14h27min houve o desligamento do C2 da LT 230 kV Gravatai 2/Porto Alegre 6 (CEEE-GT) e às 14h28min o desligamento do C3 da LT 230kV Gravatai 2/Porto Alegre 6 (CEEE-GT) e da LT 230 kV Porto Alegre 10/Porto Alegre 4 (CEEE-GT). A LT 230 kV Gravataí 2/Porto Alegre 6 C1 (CEEE-GT) já se encontrava desligada em urgência desde às 13h37min devido discordância de pólos no Disjuntor 230 kV 5201 na SE Porto Alegre 6 (CEEE-GT), no estado do Rio Grande do Sul.
Em consequência a partir das 14h28min houve interrupção de 470 MW de cargas da distribuidora CEEE, na região metropolitana de Porto Alegre.
A recomposição das cargas, iniciou às 14h34min, com o religamento da LT 230 kV Porto Alegre 4/Porto Alegre 10, sendo totalmente recompostas às 15h53min.
A causa está sendo pesquisada pela CEEE.

ou

No dia 04/01/2011, às 15h17, ocorreu o desligamento automático da LT 230 kV Cícero Dantas / Catu C1, dos transformadores TR1 230/13,8 kV – 40 MVA da SE Olindina e TR3 230/69 kV – 50 MVA da SE Cícero Dantas, da Eletrobras Chesf.
Em consequência houve a interrupção de 30 MW de cargas do agente de distribuição Coelba, atingindo a região metropolitana da cidade de Salvador, no Estado da Bahia.
A recomposição das cargas foi iniciada às 15h38 e concluída às 16h18.
A causa está sendo pesquisada pela Eletrobras Chesf.

ou

No dia 1º/01/2011, à 00h15, ocorreu o desligamento automático dos transformadores TR1 e TR3 345/88 kV – 400 MVA, da SE Milton Fornasaro, da CTEEP.
Em consequência houve a interrupção de 294 MW de cargas do agente de distribuição Eletropaulo, atingindo a região metropolitana da cidade de São Paulo, no Estado de São Paulo.
A recomposição das cargas, em torno de 280 MW, foi concluída à 00h24. Demais cargas interrompidas, em torno de 14 MW foi concluída à 01h03.
A causa está sendo pesquisada pela CTEEP.

Praticamente um apagão a cada cinco dias, mais ou menos. Isso significa que aumentaram os apagões? Ou significa que reduziram? Ou significa um fluxo normal?

Só tem um jeito de saber: recolhendo os dados de todos os apagões dos últimos vários anos e analisando. É possível transformar esses dados numa planilha. Aí se compara, pode-se até mapear pra ver se eles são mais frequentes em algum ponto mais específico.

Só que cada incidente tem sua característica. Vai ter atingido um número X de consumidores, vai ter atingido um número Y de cidades, vai ter durado Z horas.

Eu suponho que uma medida relevante para comparar incidentes díspares ponderaria as horas de interrupção versus a quantidade de pessoas atingidas.

Não sei qual a melhor maneira de fazer isso. Algum economista na área?

Anúncios

Um comentário sobre “Apagões, pedras, vidraças e o trouxa do cidadão

  1. (tããããão melhor e amigável ler isso com fundo branco… 🙂

    Da série “coisas que não entendo” : custava o Estadão dizer de onde tirou os números, ou como ele chegou a essa conclusão? Fica meio incompleto né?

    E acho que vc podia ter linkado o teu texto sobre o “pacto de canalhas”; eu por acaso li e sei do que vc tá falando, mas não sei se todo mundo sabe, valia colocar aí.

    bjs

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s