O “Top de Linha” do jornalismo, edição 2011

Divertido, isso. Acabo de notar que praticamente todo ano coloco este post num blog diferente. Centralizei aqui os ganhadores das versões anteriores.

Desde 2006, meu maestro soberano Philip Meyer é patrono de um prêmio de jornalismo que reconhece as reportagens de apuração mais complexa publicadas no ano. Semana passada, saíram os três vencedores da sexta edição. “O prêmio reconhece os melhores usos de métodos da ciência social no jornalismo”, diz a descrição oficial.

Trata-se do “top de linha” do jornalismo. Esses trabalhos combinam levantamento de informações públicas, por meio do Freedom of Information Act, análise sofisticada de estatísticas e a sempre eficaz arte de sujar os sapatos.

Em termos de dinheiro, o prêmio Philip Meyer é modesto comparado até aos prêmios brasileiros: US$ 500, US$ 300 e US$ 200, respectivamente, para cada colocação. O significado desse prêmio para o desenvolvimento do jornalismo, porém, é bem mais valioso. Na inscrição dos trabalhos, é preciso descrever todo o processo de apuração. É a complexidade da apuração, e não o produto final ou seu impacto, que pesa mais na avaliação. As descrições dos trabalhos ficam, depois, disponíveis para os sócios da IRE, para que possam aprender com a experiência dos colegas.

Vale a pena conhecer esses trabalhos, que forçam com louvor os limites autoimpostos ao jornalismo pela falta de conforto com os números. Estes são os vencedores de 2011, na descrição feita pela IRE:

1º LUGAR:Dando notas aos professores“, Los Angeles Times

Equipe: Jason Felch; Jason Song, Doug Smith, Sandra Poindexter, Ken Schwencke, Julie Marquis, Beth Shuster, Stephanie Ferrell e Thomas Lauder (Los Angeles Times); Richard Buddin (RAND Corporation)

“Grading the Teachers” é um exemplo de primeira linha de forte narrativa fiscalizadora combinada com o uso inovador de métodos das ciências sociais. De fato, o mote do projeto foi a falha das autoridades de educação de Los Angeles em usar métodos eficazes pra medir a performance dos professores. O Los Angeles Times, aplicando um método chamado “gain-score analysis” (análise de ganho de classificação?) numa imensa base de dados de notas de provas de estudantes e de seus professores, identificou os docentes mais e menos eficientes com base no quanto as notas de seus alunos melhoraram. O Times contratou um especialista nesse tipo de análise para cruzar os dados, dando mais credibilidade aos resultados, mas também fez outras análises estatísticas pra identificar escolas de alta e baixa performance e checar suas conclusões. Ao identificar e classificar 6 mil professores pelo nome, o Times deixou o sindicato dos professores ultrajado, mas a série permitiu que as autoridades distritais passassem a negociar com o sindicato para usar o mesmo método de análise em suas avaliações. Outro sinal do impacto dessa série é o fato de jornais do país inteiro terem começado a solicitar dados semelhantes dos distritos escolares locais.

2º LUGAR:Ataques Sexuais no Campus,” uma colaboração de sete empresas jornalísticas lideradas pelo Center for Public Integrity

Equipe: David Donald, Kristen Lombardi, Gordon Witkin, Kristin Jones e Laura Dattaro (Center for Public Integrity); Robert Benincasa e Joseph Shapiro (NPR)

A série usou métodos sofisticados de pesquisa de opinião como fundamento de uma série de alto impacto que detalhou o custo humano do crime oculto de estupro nos campi, mostrando que os réus identificados por ataques sexuais em instituições públicas e privadas muitas vezes não sofrem punição e que as estudantes que são vítimas enfrentam empecilhos para denunciar os crimes. O trabalho combinou pungentes histórias pessoais das vítimas com uma sólida pesquisa para embasar as tendências mais amplas. O Centro juntou registros de estudantes que concordaram em compartilhar suas histórias, revisou 10 anos de relatórios das universidades, pesquisou centros de apoio a vítimas de estupro dentro e fora do ambiente universitário e compilou processos e queixas movidas junto ao Departamento de Educação. A pesquisa de opinião, além de ajudar a documentar o problema de ataques sexuais não registrados e impunes em campi universitários do país inteiro, também ajudou os jornalistas a encontrar fontes e pautas para suas reportagens. A série levou a mudanças nas políticas a respeito do tratamento de estudantes responsabilizados e à introdução de leis nacionais para consertar o problema.

3º LUGAR:Imigrantes e a Economia da Califórnia,” The Orange Country Register
Equipe: Ron Campbell

Trata-se de uma meticulosa e reveladora série de reportagens que faz um uso extraordinário dos dados do Censo e de imigração, mostrando que a Califórnia utiliza trabalho imigrande mais do que qualquer outro Estado e quase mais do que qualquer país desenvolvido. Analisando microdados públicos do Censo publicados entre 1970 e 2008, e combinando isso com outros dados e apuração, o repórter Ron Campbell iluminou “a economia da imigração” e demonstrou que os imigrantes na Califórnia preencheram a maior parte dos novos postos de trabalho desde 1970 e que trabalhadores estrangeiros se tornaram a fonte primária externa de mão-de-obra. Ele também cruzou suas análises do Censo com dados de imigração e estudos que revelam terem sido as políticas de imigração ignoradas por décadas, e que “as chances de um imigrante ilegal ser detido no trabalho eram de 1 em 1.300”. A série de reportagens deixou furiosos muitos leitores que interpretaram o trabalho como sendo “pró-imigrantes”, mas ninguém questionou a exatidão dos dados. A análise que Campbell faz dos microdados e sua atenção particular à margem de erro em seus resultados é um tutorial em si para jornalistas que empregam métodos estatísticos. No geral, é um projeto voltado a dados completo e instigante, que substitui percepções pelos fatos.

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2 comentários sobre “O “Top de Linha” do jornalismo, edição 2011

  1. Tem alguma idéia ou estimativa, de quanto custa, em termos financeiros, um projeto desses ? Só na possibilidade remoto de encontrarmos algum mecenas ou patrono…

  2. Tendo a equipe (jornalista, programador, designer), o custo maior é de tempo. Às vezes tem que pagar pelas cópias. Cada projeto é um projeto. Sai caro quando precisa contratar programador fora, por exemplo.

    Trabalhei em alguns projetos do Center for Public Integrity, por exemplo, que fez o projeto que ficou em segundo lugar. Eles contrataram o David Donald como editor de bancos de dados. Está lá em tempo integral. Nesse projeto, eles trabalham com os repórteres dos jornais parceiros. Não sei se pagam alguma coisa pra eles, mas os jornais têm direito a publicar as matérias produzidas pelos repórteres que emprestaram, depois de prontas. Em projetos de que eu fiz parte, eles contrataram um repórter por país. No meu caso, eu não tinha afiliação a jornal, mas a Folha publicou as matérias.

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