Quando o café era uma rede social

Tive o prazer de almoçar hoje com o Milton Jung, da rádio CBN, que brinquei ser o grande animador de torcida do Adote um Vereador. Também estava lá meu amigo Everton Alvarenga, que faz parte da rede do Adote.

Agora, a Câmara Municipal de São Paulo adiou a discussão do aumento para suas excelências. Adiou porque sentiu medo da pressão popular. Essa pressão vem principalmente via internet, mas quem faz a pressão não é “a internet”. São as pessoas que a usam para conversar sobre assuntos públicos e cobrar postura de seus representantes. O Adote um Vereador é isso: vários blogueiros que ficam de olho nos seus representantes e contam o que eles andam fazendo.

O uso da internet pra fazer pressão é fundamental atualmente, mas é preciso ter vagar com o andor, pra não tomar a parte pelo todo. No Webmanário, o Alec Duarte faz uma justa provocação ao tipo de comentário que surge glorificando o Twitter pela revolução do Egito:

“As redes sociais e sua incontestável capacidade de mobilização e difusão de notícias são o ingrediente perfeito para catalisar e amplificar os anseios de um povo em ebulição.

Mubarak desligou a internet no Egito. Em vão: feita pelas pessoas, a rede só reproduz nossas atitudes. São elas que fazem revoluções.”

E é verdade.

O que derrubou o Mubarak foi o povo na rua. O povo se organizou pra ir à rua conversando. O meio utilizado pra essa conversa é quase irrelevante – precisa ser o mais eficiente que estiver à disposição.

Nas revoluções clássicas, a rede social da vez tinha outro nome: café. Ou bar. Ou universidade. Ou clube. Ou barbearia, sei lá. Ou qualquer espaço em que as pessoas possam trocar ideias e se articular, que seja relativamente público o suficiente pra entrar na conversa quem quiser e relativamente privado o bastante pra não dar na cara dos alvos assim tão fácil.

Um dos livros mais fascinantes que já li foi “História do Mundo em 6 Copos“, do Tom Standage. Ele era editor de tecnologia da Economist. Não sei se ainda é; hoje escreve às vezes na “Intelligent Life“, que é da mesma empresa. Enfim: esse livro mostra como seis bebidas emblemáticas de seis épocas diferentes ilustram as mudanças no comportamento da sociedade.

O capítulo sobre o café chama-se “O café público como rede de comunicação”. A partir do século 17, as cafeterias passaram a ser o lugar onde se ia para conversar, para saber as notícias, para fechar negócios e até para tomar café. Mas eram fundamentalmente pontos físicos de troca de informação. Standage foi o primeiro sujeito que eu vi fazer um bom paralelo entre os cafés e as “redes sociais”, quando elas ainda não tinham esse nome da moda:

“Como os websites modernos da internet, eram fontes de informação ressonantes e muitas vezes não confiáveis, normalmente especializadas em determinado tópico ou visão política. Tornaram-se as saídas naturais para uma onda de informativos, panfletos, filipetas de propaganda e ataques verbais.”

Noves fora o cafezinho, é mais ou menos para isso que servem as redes sociais, não? Dependendo de quem você “frequenta”, recebe um fluxo de informações especializado em um assunto ou outro. São saídas naturais para uma onda de links, propaganda e ataques verbais, certo? Standage continua:

“Os debates nos cafés ao mesmo tempo moldavam e refletiam a opinião pública, formando uma ponte única entre o mundo público e o privado. Teoricamente, os cafés eram locais abertos para qualquer homem (as mulheres eram excluídas, pelo menos em Londres), mas sua decoração simples e mobiliário confortável, bem como a presença de clientes habituais, também lhes conferiam um ar caseiro e aconchegante. Esperava-se que os fregueses respeitassem certas regras que não se aplicavam ao mundo exterior. De acordo com o costume, as diferenças sociais deviam ser deixadas na porta.”

Mas peraí, o Egito era uma ditadura, só se podia trocar informações usando a internet. E o Mubarak ainda conseguiu bloquear. Pois bem, isso também acontecia nos cafés pré-Revolução Francesa, como lembra Standage:

“Mas a circulação de informação nos cafés franceses, tanto oralmente quanto por escrito, estava sujeita a uma vigilância governamental rigorosa. Com fortes restrições à liberdade de imprensa e um sistema burocrático de censura estatal, havia um número muito menor de fontes de notícias do que na Inglaterra ou na Holanda. Isso levou ao surgimento de panfletos noticiosos escritos à mão a respeito de mexericos parisienses, transcritos por dezenas de copistas e enviados por correio para assinantes dentro e fora de Paris. (…) Mesmo assim, os fregueses tinham de tomar cuidado com o que diziam, pois os cafés viviam cheios de espiões do governo. Qualquer um que falasse contra o Estado arriscava-se a ser aprisionado da Bastilha. Os arquivos da Bastilha contêm relatórios de centenas de conversas triviais em cafés públicos, anotadas por informantes da polícia. (…)

À medida que a França esforçava-se para enfrentar uma crise financeira crescente, basicamente causada por seu apoio aos Estados Unidos na guerra revolucionária, os cafés públicos tornavam-se centros de fomento revolucionário. De acordo com uma testemunha ocular em Paris, em julho de 1789: ‘os cafés públicos estão não somente abarrotados, mas multidões se espremem nas portas e janelas para ouvir atentamente alguns oradores que discursam de cadeiras e mesas, cada um para sua pequena plateia; a ânsia com que são ouvidos e o barulho dos aplausos que recebem a cada manifestação mais intensa de violência ou ousadia contra o governo não podem ser facilmente imaginados’.”

A tomada da Bastilha foi em 14 de julho, se não me falham as aulas da professora Rosaura na quinta série. No dia 12, observa Standage, partiu de um café o grito “às armas, cidadãos”, que foi parar no hino francês (ou, na versão de Gainsbourg, “aux armes, etcetera”).

Tudo isso mostra que a questão não é a tecnologia. Mas ninguém diria que foram os cafés que cortaram a cabeça de Luís XVI, da mesma forma como os parvos dizem que foi o Twitter que derrubou o Mubarak. O diferencial foram as pessoas na rua. Elas se organizaram pra ir pra lá por terem conversado.

O que é revolucionário é haver um espaço livre para que o pessoal converse mais livremente sobre assuntos públicos. O pessoal perdeu o costume de conversar livremente sobre assuntos públicos em espaços públicos. Bar é entretenimento, o pessoal geralmente vai ao bar pra esquecer dos problemas. Mas a internet está aí pra facilitar a troca de informações e impressões. Permite que o pessoal se organize. Essa tecnologia pode ser o Twitter hoje, como na falta de silício foi o café em 1789. E a tecnologia atual ainda tem a vantagem de permitir registros em tempo real lidos no mundo inteiro, o que só potencializa a coisa.

Só que, pra tudo isso acontecer, o mais importante é as pessoas conversarem e se mobilizarem. Essa tecnologia está disponível aos seres humanos desde que desenvolvemos a linguagem.

Anúncios

2 comentários sobre “Quando o café era uma rede social

  1. Sempre será o povo na rua, evidente que com alguma coordenação. As redes nos ajudam a nos coordenarmos sem um “comitê central”, mas o repasse de info (digamos, os RTs) e recomendações (via FB) ajudam nesse processo de definição de metas. Papo pra meses…
    abs

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s