As bicicletas e o Carmageddon em Porto Alegre

Sexta-feira à noite, um sujeito descontrolado avançou com seu Golf  sobre um grupo de cerca de 100 ciclistas que pedalavam na Cidade Baixa, em Porto Alegre. Atropelou intencionalmente vários deles, derrubando bicicletas e ferindo mais de 10, fugindo logo depois. Pela placa do carro, o motorista foi rapidamente identificado como Ricardo José Neif, um senhor de 47 anos. A polícia diz que o dono do carro prometeu aparecer pra depor nesta segunda. (Ao jornal Zero Hora, a ex-mulher de Neif diz que foi “legítima defesa“, porque o carro estaria sendo agredido pelos ciclistas com tapinhas na lataria.)

A TV Globo obteve imagens da câmera de um prédio mostrando o momento em que o sujeito praticamente passou por cima dos ciclistas. Depois, mostrou as imagens do chão, quando ele passa por cima. Parece videogame, Carmageddon.E o pior: o cara estava com o filho de 15 anos do lado. Daqui a 3 anos, esse moleque vai estar dirigindo. Que lição ele vai tirar do resultado desse crime? A de que motorista pode tudo ou a de que respeito é fundamental?

Não obstante, a EPTC – responsável pelo controle do trânsito de Porto Alegre – queixou-se de os ciclistas “não terem avisado” que pedalariam naquele dia e local. Por isso, não havia guardas de trânsito acompanhando o grupo Massa Crítica – que toda sexta-feira programa “bicicletadas” saindo do mesmo lugar e fazendo o mesmo trajeto. Eles têm recomendações bastante detalhadas a seus participantes sobre como pedalar mais seguro no trânsito.

Seria excelente ter guardas de trânsito lá pra ir imediatamente pra cima do “monstrorista”. Mas precisava MESMO ter a supervisão da EPTC, como se fosse babá?

Nessa mesma linha, vi comentários tipo “quem manda sair de bicicleta no trânsito” – coisa que me lembra muito saber que uma mulher foi estuprada e dizer “também, com aquela sainha curta…”.

Um sujeito que respeito muito tuitou que esse negócio de pedalar é muito bonito de ver na Europa, mas que aqui “as cidades não estão preparadas” pra isso. De fato é bonito ver na Europa. Ainda ontem li que em Lyon, na França, estão dando prioridade às bicicletas. E também é fato que as cidades “não estão preparadas” pra isso, como também não estão preparadas para oferecer condições de moradia, saneamento, transporte público decente e segurança para seus moradores.

“Estar preparado” é questão de prioridade das autoridades. E nada costuma ser mais prioridade para elas do que o que pode fazer pingar dinheiro no caixa ou no bolso, tipo abrir estradas, repavimentar ruas e multar por excesso de velocidade. Outro dia, no Rio, ouvi um taxista reclamar que estava mais difícil convencer guardas de trânsito locais a aceitar propina pra aliviar multas. A carrocracia é um excelente negócio pra quem quer lucrar com ela. Pedestre e bicicleta, porém, não garantem cervejinha para o guarda, multa para os cofres públicos, relatórios otimistas para as montadoras e contratos de obras para quem financiou a campanha do prefeito.

Não precisa de muita coisa pra “estar preparado” pra magnanimamente deixar o pessoal andar de bicicleta, não. O Código de Trânsito Brasileiro prevê o uso de bicicletas como meio de transporte. Supõe-se que todos os motoristas devam conhecê-lo pra poder tirar carteira sem comprar. Ele prevê prioridade às bicicletas no trânsito:

Art. 58. Nas vias urbanas e nas rurais de pista dupla, a circulação de bicicletas deverá ocorrer, quando não houver ciclovia, ciclofaixa, ou acostamento, ou quando não for possível a utilização destes, nos bordos da pista de rolamento, no mesmo sentido de circulação regulamentado para a via, com preferência sobre os veículos automotores.

O pessoal da Massa Crítica sabe e usa isso pra dar visibilidade à noção de que bicicleta não é (só) pra lazer. Supõe-se que o órgão regulador do trânsito deva saber disso. Se não sabe, alguém dê uma cópia da lei a Vanderlei Cappellari, diretor da EPTC, por favor. URGENTE.

(Sr. Capellari, caso esteja lendo este post, o link do texto completo do CTB é este aqui. Grato pela audiência.)

Não sou ciclista, mas sou pedestre convicto. E ninguém está mais nu no trânsito do que o pedestre. Os ciclistas vêm logo depois em grau de nudez – e é talvez por isso que tão pouca gente se encoraje a sair de bicicleta. Segundo o Datasus, entre 2008 e 2010 e apenas no Estado de S.Paulo, houve 27.441 pedestres e 9.604 ciclistas internados por acidentes de trânsito. Foram internados 5.352 pedestres e 588 ciclistas após colidir com carros, mas 74 ocupantes de carro foram internados após colidir com pedestres ou animais e 28 foram internados após colidir com ciclistas (baixe o CSV aqui).

Ou seja: para cada ocupante de carro internado após bater em pedestre, 72 pedestres foram internados após bater em carro. Para cada ocupante de carro internado após bater em ciclista, 21 ciclistas foram internados após bater em carro.

Isso ocorre em boa parte porque as autoridades de trânsito dão prioridade absoluta para o carro, apesar de a lei recomendar prioridade para quem é menos protegido por lata em volta. O resultado disso são cidades atravancadas de castelos de lata. O pedestre que se exploda, em calçadas detonadas e dispondo de poucos segundos pra atravessar a rua (e mesmo assim com carros invadindo seu tempo). O ciclista que vá brincar no parque, porque a rua pertence ao carro.

Automóveis são vendidos com a sedução da velocidade, e esta vem em doses ilegais. O Golf que atropelou os ciclistas pode chegar a 188 km/h – e sequer é um dos veículos mais potentes à venda. Muito raramente, tanto em cidades quanto em estradas, é permitida uma velocidade de mais de 120 km/h. Isso permitida, porque a velocidade média dos carros em São Paulo é de 15 km/h. Por causa dos engarrafamentos.

Pra que tanta velocidade potencial, então? OK, antes de mais nada pra vender mais caro. Mas isso tem o efeito colateral de estimular deserdados da noção a pisar no acelerador.

Existe um excelente desenho da Disney em que o Pateta encarna um pacato cidadão que vira um bicho feroz atrás do volante. Quero crer que foi isso que aconteceu com o sr. Ricardo e ele não é psicopata fora do carro. Pessoalmente, estou curioso pra ver o que o Pateta vai dizer à polícia nesta segunda. Enquanto isso, fique com os vídeos com as vítimas da bicicletada e com o Pateta motorista. E conte aqui nos comentários como é sua experiência no trânsito.

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6 comentários sobre “As bicicletas e o Carmageddon em Porto Alegre

  1. Só discordo de uma coisa: Os ciclistas estão mais desprotegidos.

    Sim, o número de pedestres internados é três vezes maior… Mas quantos pedestres saem nas ruas todos os dias? E quantos ciclistas?

    Os ciclistas têm que disputar espaço com os carros, enquanto os pedestres estão “a salvo” nas calçadas.

    1. Não necessariamente. A cada colisão de carro com pedestre que mandou alguém do carro pro hospital, 76 pedestres foram. A cada colisão de carro com ciclista que mandou alguém do carro pro hospital, 21 ciclistas foram. É proporcionalmente menor, se observar apenas os eventos em que há colisão. Talvez porque ciclistas costumeiros e prudentes usem capacete e joelheira, sei lá.

      O pedestre também está exposto a ser atropelado por ciclistas imprudentes. No mesmo período, houve 119 ciclistas traumatizados em colisão com pedestres e 5.477 pedestres traumatizados em colisão com ciclistas. É um ciclista a cada 46 pedestres que vai pro hospital quando os dois se fecham. Porque a bicicleta vem em maior velocidade, porque a bicicleta é de metal…

      E pessoalmente não acho que se esteja necessariamente a salvo nas calçadas. Primeiro porque as calçadas são finitas e logo depois tem que atravessar a rua, exposto à pressa dos deserdados da noção motorizados. Segundo porque carro, moto e bicicleta sobem calçada. Terceiro porque as calçadas são geralmente muito ruins, muito estreitas, e mesmo que ninguém suba na calçada você corre o risco de ser derrubado pela própria.

  2. Eu sou a favor de usar a bicicleta como meio de transporte, é mais saudável para o ar e para o corpo; elas ocupam menos espaço nas ruas; não fazem barulho… enfim, apoio o processo de educação no trânsito para uma convîvência plena e amigável entre pedestres, bicicletas e demais utilitários. Já esse motorista se comportou como se os ciclistas fossem “formiguinhas” no caminho dele, enquanto as formigas são pequenas e nem sempre conseguimos desviar delas, pessoas e bicicletas são suficientemente visíveis, logo, bastaria um pouco de paciência, um toque na buzina ou até mesmo, mudar a rota!
    Desejo que seja feita justiça, torço para isso!

  3. Eu comentei em outro blog sobre esse assunto e vou comentar aqui, já que vc pediu explicitamente para falarmos sobre “nossa experiência no trânsito”.
    Eu não sou ciclista, mas sou pedestre. Não tenho carro, não quero ter, não quero dirigir e só tirei carteira aos 24 anos (tenho 25) meio que por pressão familiar.
    Não gosto de carros. Pra mim são monstrinhos fumacentos e barulhentos utilizados para muito além do necessário. Não são mais um mero meio de transporte. São luxo, status, brinquedo de gente grande. São adorados como pequenos deuses, desejados. Tem que trocar de carro todo ano. Cada membro da família com um carro na garagem. Se vc não tem carro, vc não é livre. Vc não tem nem possibilidade de ir e vir, pq é meio que a única alternativa que é incentivada.
    Não só as ruas são só deles: as cidades inteiras são deles. Pedestre – gente – é secundário, incômodo. Se pudessem, não tinha nem calçada, era tudo asfalto. A gente é obrigado a olhar pros lados qdo vai atravessar a rua, a tomar cuidado, a esperar o sinal fechar pra poder atravessar rapidinho, a respirar o ar q eles poluem, a conviver com o barulho constante q eles produzem.

    Eu tenho medo de andar de bicicleta na cidade. Eu costumava ir passear pela ciclovia até o parque nos domingos, mas meio que parei com isso também, sei lá, me sinto exposta. As cidades não são lugares agradáveis para caminhar e pedalar. São grandes, cinzas e duras demais. Eu acho que até isso influencia nosso modo de vida. Vivermos num lugar bonito e bem cuidado, tranquilo, nos deixa mto mais propensos a sermos agradáveis uns com os outros. Mas isso não é considerado importante. O que importa é a tal da praticidade, mais asfalto, mais concreto, mais propagandas, menos verde, menos parque, menos beleza. Pessoalmente, não dá mto gosto ir caminhando até algum lugar, só pra variar. A gente meio q quer chegar logo, sair daquele inferno das ruas, passar o menos tempo possível nele.
    E lógico que isso não importa pras autoridades. Nada disso é mesmo CONSIDERADO. É supérfluo. Do que eu to falando? O negócio deles é expansão, progresso, dinheiro.
    Na boa, falta tantos tipos de inteligência em quem cuida das cidades…

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