Jack Kirby, um Shakespeare em quatro cores e muita retícula

Sou fascinado pela obra de Jack Kirby. Se você nunca tinha ouvido falar dele, vai ouvir falar neste ano por conta de dois lançamentos cinematográficos.

Foi ele quem criou o Capitão América há 70 anos e o tirou do gelo pela mão dos Vingadores em 1964. Tive a honra de traduzir as primeiras histórias dessa segunda fase para a Panini no Brasil. O filme do Capitão, “O Primeiro Vingador“, estreia em 27 de julho nos EUA.

Também foi Kirby, ao lado do hoje popstar Stan Lee, quem resgatou da mitologia nórdica o Thor, deus do trovão e filho de Odin. Essas primeiras histórias também saíram aqui pela Panini. O filme “O Poderoso Thor” estreia em 29 de abril por aqui.

Mas na verdade não são bem esses dois personagens que me fascinam na obra de Kirby, embora haja muito neles que eu admire. É o conjunto. É o quanto ele conseguia resumir num personagem, numa ideia, questões universais. Os personagens foram muito atualizados desde a passagem de Kirby, mas existe um motivo para eles permanecerem. Esse motivo, quer-me parecer, é a universalidade que Kirby procurava imprimir em seu trabalho.

Pegue o Hulk, por exemplo: o pacato cientista que, após um acidente radioativo, passa a se tornar um monstro sempre que perde as estribeiras. A luta pelo autocontrole, o “ter outro por dentro”, é um dilema universal.

Mas os meus favoritos mesmo são os habitantes de Nova Gênese e Apokolips, criados por ele nos anos 70 para a DC Comics. Especialmente o conceito de “Equação Antivida” dá muito pano pra manga.

Só que a arte de Kirby não envelheceu muito bem. Seu texto soa antiquado. Outro dia vi alguém chamando o sujeito de “rabiscador” num fórum de quadrinhos. Li o mesmo adjetivo aplicado ao mesmo artista em 1985, quando a editora Abril publicava sua fase no título solo de Jimmy Olsen (a “saga do DNA”). Lembro de levar um daqueles gibis para a sala de aula em 1991, quando a professora de ciências do segundo grau explicava o que era genética.

Não sou desses leitores puristas que consideram sacrilégio ouvir esse tipo de adjetivo aplicado a artistas que admiro. Um desses leitores, ao ouvir coisas do gênero, disse algo como “você nunca vê nenhum especialista dizer que Dostoiévski é datado”. E é verdade: porque não precisa dizer, está na cara, de certa maneira. É muito mais pedregoso do que o que é facilmente digerível por alguém que vive numa ração de TV e games. Não é pra consumo imediato.

Desenvolvi esse raciocínio num  fórum de quadrinhos, o da Panini. Copio abaixo o que escrevi. O que você pensa a respeito? Escreva aqui nos comentários.

***

Lógico que ler o original “bruto” resulta pedregoso pra quem não está acostumado. Aliás, Machado de Assis, que é muito mais recente, costuma resultar pedregoso para os adolescentes obrigados a lê-lo para o vestibular. Por isso surgem edições adaptadas. Há algum tempo minha mulher fazia um curso de inglês e foi ler uma edição de “O Mercador de Veneza”. Ela não sabia ser adaptada, mas eu notei já no primeiro parágrafo:

ANTONIO [unhappily]: I don’t know why I’m so sad. My sadness makes me tired – and you say that it makes you tired, too. I don’t understand what’s causing it. It makes me feel so stupid that I don’t recognize myself.

Abri o original:

ANTONIO
In sooth, I know not why I am so sad:
It wearies me; you say it wearies you;
But how I caught it, found it, or came by it,
What stuff ‘tis made of, whereof it is born,
I am to learn;
And such a want-wit sadness makes of me,
That I have much ado to know myself.

O motivo pelo qual essas obras permanecem é simples: seus temas e situações são universais. Ciúme doentio existia quando Shakespeare escreveu Macbeth e continua existindo. E atire a primeira pedra o fã de quadrinhos, essas modernas novelas de cavalaria, que nunca ouviu críticas semelhantes às que Dom Quixote ouvia antes de se armar cavaleiro e partir a esmo com seu pançudo amigo.

De maneira mais ou menos parecida, os gibis já dos anos 60 – meros 50 anos atrás – estão claramente datados. Porque, como tudo no século 20, a linguagem dos quadrinhos evoluiu muito rapidamente. Se for pensar, bem no meio do caminho entre a criação do Quarteto Fantástico e o dia de hoje tem um Watchmen. Exatamente no meio. E é muito clara a diferença de linguagem entre o Quarteto e Watchmen, ou mesmo entre um gibi de hoje e o que se fazia em Watchmen.

Só que o que faz essas histórias permanecerem são os temas de que elas tratam. E (acho) ninguém foi tão feliz ao tocar nesses temas primais quanto o Jack Kirby. Hoje ele soa datado facilmente. Ainda outro dia vi um cara chamando o sujeito de “rabiscador” num tópico de avaliação de um especial da DC. Mas, caramba, olha o que dá de pano pra manga tudo o que ele criou. O dilema do Bruce Banner (adaptado do Robert Louis Stevenson, OK, mas ainda assim), o conceito de Equação Antivida (que o Morrison compreendeu como ninguém, mas não soube mastigar bem e ficou com fama de matão), a própria questão dos mutantes como minoria (que o Morrison também soube reinterpretar como ninguém).

Tentar ler histórias antigas com os olhos de hoje causa coisas como a censura a Mark Twain nos EUA e a rotulação de Monteiro Lobato como racista no ano passado. (Minha opinião a respeito: claro que ele era racista – o Brasil era um país completamente racista na época em que ele escreveu -, mas a obra dele é maior que isso.) Daqui a pouco ainda vão querer vetar Machado de Assis, um escritor do século 19, por ser machista. Lembre o quanto citaram o autor no Twitter por causa do nome da vice-primeira-dama, em janeiro.

Enfim. Não julgo mal quem não consiga curtir essas histórias antigas que deram origem a tudo. São pedregosas, como é pedregoso um Shakespeare no original. O próprio Shakespeare hoje acho que é consumido mais em versões adaptadas do que no original – esse fica só para os fanáticos ou estudiosos. A Marvel andou fazendo há uns anos um esforço de “modernizá-las” com artistas recentes. E de dois em dois anos a DC reinterpreta a origem do Superman. Faz parte. As histórias antigas muitas vezes precisam ser lidas com um olhar mais habituado.

Pra iniciantes, acho que tem que apresentar uma coisa mais moderna, com uma linguagem que lembre mais a do cinema atual. Claro que tem caras que conseguem ser quase atemporais, tipo um Eisner pós-Spirit. Mesmo alguma coisa do Spirit é atemporal, mesmo sendo tão antiga quanto a origem do Aranha. Vai muito de feeling.

Ao tentar apresentar um quadrinho “clássico” pra um iniciante, apenas por ser “clássico”, corre-se o mesmo risco de obrigar adolescentes acostumados a jogar videogame a ler Machado de Assis porque “precisa pro vestibular”. Passa por “chato” e o cara desiste, por mais que a obra seja perfeitamente curtível e muito divertida a olhos mais acostumados.

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