Quer ajudar o planeta? Esqueça iniciativas marqueteiras

Mais uma vez, somos chamados a contribuir com uma iniciativa simbólica cheia de boas intenções e com praticamente zero de resultado. É a “Hora do Planeta“, que ocorre todo ano por iniciativa do WWF no último sábado de março. A intenção declarada é conscientizar sobre a necessidade de agir para contribuir menos para o aquecimento global.

OK, sem que cada um faça alguma parte a coisa não muda mesmo. Nada muda. Mas iniciativas como essa e a infame do xixi no banho, do SOS Mata Atlântica, são um troço mais útil para promover as ONGs do que para reduzir as emissões de carbono.

Não me entendam mal: considero sérias as duas ONGs e justas as suas causas. Sei da necessidade de visibilidade para garantir a arrecadação de fundos, e coisas assim chamam a atenção da imprensa, das redes sociais e etc. “Dá mídia”, como se diz.

Ocorre, porém, que a necessidade de elas aparecerem, a pretexto de botar o tema em discussão, deixa de lado seus aspectos mais importantes, os que realmente fazem a diferença todo dia.

Antigamente as ONGs se batiam nisso, mas era uma coisa que não chamava muito a atenção. “Ah, lá vêm aqueles chatos mandando eu deixar de fazer o de sempre”, é a reação comum. E compreensível. Aí elas apelam a marquetagens que pelo menos garantem uma visibilidadezinha temporária. Não chega a conscientizar muita gente, mas faz uma marola. Não acho que a qualidade disso seja grande, mas não sou eu que tenho que julgar.

De qualquer maneira, a numeralha nos ajuda a ver melhor a questão dos hábitos.

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NA PONTA DO LÁPIS

Você já calculou quanto gasta de luz? Pegue lá sua conta pra ver. A minha, que vence nesta semana, deu 260 kWh. É um consumo meio alto, porque dois computadores ficam ligados a maior parte do dia para trabalharmos. É considerado baixo em São Paulo o consumo de menos de 220 kWh por mês. A tarifa é inclusive menor.

Em média, se considerarmos 24 horas por dia e 28 dias no mês de fevereiro a março, gastei 0,38 kW a cada hora (divida o total pela quantidade de horas e quantidade de dias). Mas é claro que a média coloca o pé no forno e a cabeça no freezer.

Isso leva em conta as horas em que todos os aparelhos exceto a geladeira, o rádio-relógio e o carregador de celular estão desligados. Consumo muito baixo, portanto. Isso também leva em conta as horas em que já escureceu, acendemos algumas luzes, ainda tem alguém no computador e já tem alguém tomando banho. Consumo muito alto, portanto.

Vamos dar uma mandrakeada nesse dado e dividir esses 260 kW por apenas umas 10 horas do dia, depois dividir pelos 28 dias mesmo. Ou seja: dando de barato que todo o consumo se concentra em algumas horas. Vai dar 0,9 kW gastos a cada hora. É mais que o dobro da média das 24 horas, portanto.

Então digamos que apagando a luz durante uma hora para colaborar com a campanha de marketing do WWF isso é o que eu economizaria para o planeta: 0,9 kW.

Você pode muito bem dizer que 0,9 kW não é nada, mas os meus 0,9 somados aos 0,8 de outro e aos 1,0 do vizinho acabam virando bastante coisa. E é verdade. Mas eu prefiro olhar por outro aspecto: o dos hábitos.

Desligar a luz por uma hora, ficando em paz com sua consciência planetária, e depois pegar seu carro ou ligar o ar condicionado é mais ou menos o mesmo que pensar que um Big Mac é um alimento balanceado porque tem alface, cebola e pepino. Ou mais ou menos o mesmo que aquela cena de “O Poderoso Chefão” em que os mafiosos vão à igreja pedir perdão por seus pecados pra depois sobrecarregarem o coveiro de trabalho.

Dois exemplos pra deixar isso mais claro.

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A. O AR CONDICIONADO

Nesse calor, um ar condicionado sempre vem bem, né? Digamos que você tenha um de 7500 BTU (1000 watts, ou 1 kW). Para calcular seu consumo em kWh, você multiplica a potência pelo tempo em horas. Se você não o ligou durante uma hora, economizou 1 kWh. Ou seja: economizou mais do que eu economizaria desligando tudo em casa por uma hora.

Um ventilador de teto consome 120 watts, ou 0,12 kW. Se você trocou o ar condicionado pelo ventilador durante uma hora, você economizou 0,88 kWh. Quase toda a economia que eu teria desligando tudo na minha casa por uma hora.

Mudar hábitos é sempre mais eficaz do que fazer uma “boa ação” esporádica. E não põe azeitona na empada de marqueteiros.

Se você trocou o ar condicionado pelo ventilador durante todo seu sono de 8h, economizou 7,04 kWh. Se você fez isso durante o mês inteiro que veio de fevereiro a março, economizou 197,12 kWh – ou 75% da minha conta de luz.

Sim, eu não tenho ar condicionado em casa. Tem a ver com a renite, mas também tem a ver com ter feito as contas. Não necessariamente as contas do que economiza em kWh, mas do que economiza na conta de luz. Cada kWh em São Paulo, na minha faixa de consumo, custa R$ 0,29651000. Gastar 197,12 kWh a mais me tiraria do bolso R$ 58,44 a mais todo mês.

Veja aqui o consumo médio de outros aparelhos.

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B. O CARRO

Outra comodidade de que eu não faço questão é o carro particular. Pra mim, é uma máquina de endoidar gente, ainda mais em São Paulo. Claro que preciso me deslocar como qualquer um, mas pra isso existe transporte público. Que tem todos os defeitos do mundo, ainda mais em São Paulo, mas pelo menos não sou eu que dirijo. Meu stress e os postes da cidade agradecem. Queisso, não há de quê.

Certa vez fiz as contas de quanto gastaria tendo um carro – prestação, combustível, seguro, estacionamento, manutenção, flanelinha, eventuais multas -, observei minhas necessidades de deslocamento e cheguei à conclusão de que ter carro sairia mais caro do que andar só de táxi. Obviamente, eu não ando só de táxi, então economizo bastante com isso.

Mas o carro também gasta energia, embora não elétrica. Gasta energia na forma de combustível. E emite mais carbono, e mais diretamente, do que a energia elétrica que se usa no Brasil. Nos EUA e na Europa a maior parte da geração vem de termelétricas, aqui a maior parte da energia vem de hidroelétricas.

É possível comparar os gastos de energia do combustível com os gastos de energia da luz, convertendo ambos para outra unidade, que é o joule.

Calcular isso na mão é complicado. Por isso eu uso um conversor como este. Um kWh, segundo ele, são 3600 kilojoules. Ou 3,6 milhões de joules.

Segundo o HowStuffWorks, um galão de gasolina (3,75l) tem 132 mil kilojoules. Portanto, um litro de gasolina tem 35,2 kilojoules. Ou quase o equivalente em joules a 10 kWh.

Segundo a Quatro Rodas, o Astra, um carro bastante popular no Brasil, roda 10 quilômetros por litro de gasolina.

Portanto, se você trabalha a 5km de casa e vai e volta de carro, sendo seu carro esse, você gasta um litro de gasolina por dia só nesse deslocamento. Em joules, isso seria o equivalente ao que eu gastaria em 11 horas de energia elétrica.

Ou seja: se você consome o mesmo que eu em energia elétrica, deixando o carro em casa um dia só você poupa ao planeta o equivalente a dez anos de sua participação nessas iniciativas marqueteiras.

Você pode argumentar que o dia mundial sem carro é só em 22 de setembro. Mas é outra iniciativa marqueteira. O que realmente faz a diferença são os hábitos. Fazer pequenas mudanças neles é muito mais eficaz e não tem dia marcado.

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Faça as contas. A numeralha é sua amiga. As iniciativas marqueteiras é que são uma furada.

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14 comentários sobre “Quer ajudar o planeta? Esqueça iniciativas marqueteiras

  1. SPAM: se você estudou em colégio público a vida toda, dou aula particular de matemática gratuita para fazer as continhas acima. Infelizmente esse público, provavelmente, não chegará a ler esse post aqui.

    Marcelo, considerando que poucas pessoas saberão fazer as continhas simples, mas importantes, que você fez acima, isso só reforça minha tese, talvez simplória, que é mais importante focarmos no problema da educação do que ficarmos tão focados em iniciativas como essas de salvar o planeta.

    E educação num sentido mais amplo, não só saber fazer conta ou ler. A pessoa ter consciência do tanto de energia que ela gasta individualmente e refletir que esse gasto, se somado com a da sociedade em que vive, poderá ter um impacto negativo real. É uma questão muito abstrata, ao meu ver, pois envolve questões éticas e noções de cidadania que, infelizmente, principalmente a última, não estamos acostumados a lidar por aqui.

    E você deu um excelente exemplo como o aprendizado pode ficar gostoso. Imagine uma criança numa aula de matemática com um professor que mostre exemplos como esse que envolvem conceitos de ciência (energia, eletricidade etc.), filosofia (ética), sociedade e política. Mas não, temos que seguimentar tudo.

    P. S. a nota do spam foi para chamar atenção de um monte que me incomoda e não permite que uma maioria das pessoas da nossa sociedade possam chegar a entender o ponto desse post. Se entender, não saberá o que fazer.

  2. Bom eu acho que o projeto é apenas para conscientização, para mostrar como o mundo inteiro está preocupado com o planeta e as condições climáticas. Não sei se essa iniciativa é para economizar energia e outra, no Brasil existe o horário de verão que faz o Brasil economizar muito.

    Concordo com você com relação aos hábitos, mudar os hábitos são bem mais eficazes do que essas iniciativas de marketeiros, mas essa iniciativa não é uma forma de conscientiza a todos? não é uma forma de começar um novo hábito?

    Gostei e concordo com o exemplo do carro. Parabéns, você tem toda razão

    1. Oi, Valdemar. Aí é que tá o problema: é impossível saber se conscientiza, porque conscientização é imensurável. Conta de luz é mensurável. O horário de verão funciona por causa disso.

  3. Olá!
    Li o seu texto e resolvi fazer um breve comentário. Poderíamos discorrer por horas sobre o assunto que não o esgotaríamos. Concordo com você assim como grande parte da população brasileira. O problema é assumir o compromisso de fazer a sua parte. Vejo o homem como “escravo do prazer”. Explico: Apesar de saber dos danos causados à natureza devido ao seu consumismo, não abre mão dos prazeres da vida. Até porque não é a sua geração que sofre as consequências.
    Abraço, Ademir

    1. Oi, Ademir. É exatamente por concordar com sua visão a respeito do compromisso de cada um fazer a sua parte que eu não levo a sério a iniciativa. Desligar a luz por uma hora e depois voltar aos hábitos dispendiosos é mais ou menos o mesmo que aquela cena de O Poderoso Chefão em que Michael Corleone vai à igreja pedir pra ter seus pecados perdoados antes de abrir fogo contra os mafiosos rivais.

  4. Muito Bom e eclarecedor o seu comentário, realmente são reflexões como estas que formam a verdadeira consciência social, se as pessoas antes de mais nada, passarem a ter o senso de coletivo, passarem a visualizar o bem estar alheio como sendo importante para sí próprio, muita coisa mudará, só para refletir:
    Antes o homem tinha a seu dispor vários escravos para fazer suas vontades, hoje esses mesmos “escravos”, são representados pela tecnologia, ora… se antes precisavam de alguém para esquentar a água do banho, hoje o chuveiro faz isso, e já não precisamos mais de alguém para dirigir nossas carroças( Hoje nem de cavalos), pois bem, todo esse conforto gerou uma sociedade conformista com seu conforto e luxo, a ponto de se tornarem cada vez mais egoistas, afinal, pensam alguns, “Posso joga r a bituca do cigarro no chão, alguém vai varrer mesmo”, mas e o péssimo hábito, não conta?.

  5. As populaçoes de de começar a perceber que, para salvar o planeta não basta uma hora por ano! Não é uma hora durante 1 dia por ano que vai eliminar todos os seus gastos no resto dos dias, verdade?

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