O plano de saúde do José Alencar

Morreu hoje o ex-vice-presidente José Alencar, aos 79 anos. Meus respeitos. Parecia um homem sério, salvo um ou outro escorregão feio. Em 2002, ele era considerado conservador, o que em si não é problema; ao longo do governo Lula, especialmente quanto mais frequentava hospitais, o ex-vice foi ganhando outra imagem pública.

(Para saber mais sobre o ex-vice, leia a biografia “José Alencar: Amor à Vida”, escrita pela Eliane Cantanhêde.)

Assistindo aos telejornais de hoje e lendo o noticiário na Web e em outros lugares, você vai ler uma litania de elogios à sua vontade de viver. À sua força na luta contra o câncer. Até em heroísmo vão falar. Realmente é fofo ver um velhinho saindo do hospital e dizendo querer assistir à formatura do bisneto que ainda não tinha nascido.

Mas devagar com o andor nas homenagens. Se Alencar deixou um exemplo, é um exemplo muito difícil de seguir.

Caso dependesse do Sistema Único de Saúde, como lembrou a Leandra Lima, ele já estaria morto há muito tempo. Marcar uma consulta simples no SUS demora muito. O sistema é relativamente eficiente no básico, mas conforme a situação vai complicando fica mais difícil ter tratamento. E a situação do ex-vice era extremamente complicada (veja no gráfico do IG).

Se ele fosse fazer todas essas cirurgias pagando como particular, não haveria dinheiro que chegasse. Ele devia ter um plano de saúde muito bom – quem não tem plano de saúde morre três vezes mais do que quem tem, segundo estudo de 2006. Mas um plano tão bom quanto o que ele usava também não é pra qualquer um.

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QUANTO CUSTARIA

Consultei o corretor Paulo Sérgio Dias dos Santos, com quem comprei o meu plano de saúde há algum tempo. Perguntei a ele quanto custaria um plano de saúde que cobrisse internações no Einstein e no Sírio-Libanês para procedimentos tão complexos quanto esses pelos quais o ex-vice precisou passar nos últimos anos.

Resposta: na idade dele (79 anos), para essa cobertura, custaria nada menos do que R$ 2.200 por mês, nas principais empresas do ramo no Brasil. Mas elas não costumam aceitar clientes novos depois de certa idade. Geralmente os pacientes que pagam tudo isso já tinham o plano há tempos.

Lembre que planos de saúde são feitos para serem pouco usados. Quando o são, o cliente sadio paga pelo cliente doente, e é daí que vem o lucro. Aos 34 anos, por exemplo, eu pago mais de R$ 200, mas dificilmente faço consultas mais de uma vez ao mês. Geralmente são consultas “light”: otorrino, nutricionista, um eventual check-up. Na teoria, acaba sendo uma espécie de poupança: hoje você paga mais do que usa para depois usar mais do que paga, caso precise.

Mesmo quando precisa, enfrenta problemas. Alguns hospitais pararam de atender pacientes de planos de saúde em suas emergências, alegando que os planos pagam pouco.

No ano passado, no Notícias MTV, mostramos algumas vezes o caso do Marcelo Yuka, ex-baterista do Rappa. Ele foi baleado e perdeu a capacidade de caminhar. Seu plano de saúde brigou na Justiça para cortar alguns dos tratamentos.

Em 2010, pelo 11º ano consecutivo, os planos de saúde foram líderes de reclamações ao Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor.

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GERALMENTE É VOCÊ QUEM PAGA

Por ter sido senador entre 1999 e 2002, Alencar tinha direito a um plano de saúde vitalício. Consta que teria recusado. Mas mais de 400 senadores e ex-senadores – inclusive os que serviram por apenas meses – têm direito a esse benefício, continuado em março deste ano. Ex-senadores não precisam pagar um centavo sequer por isso. Ex-deputados, por um plano semelhante, pagam R$ 280 mensais. Pouco mais do que eu pago pelo meu.

Quando ficam velhinhos, muitas vezes eles precisam usar esse tipo de plano para coisas caras: no ano passado, o senador Romeu Tuma recebeu um coração artificial de R$ 300 mil no dia 7 de outubro para morrer 19 dias depois. Duvido que tenham lavado o aparelho para implantá-lo em outro paciente com mais chance de viver.

Saíam dos cofres públicos para a cobertura de nossas ex-autoridades, em 2009, o equivalente a R$ 32 mil por senador, todo ano. Isso dá R$ 2.666 por mês, pago por mim, por você e por nossos pais. Fecha mais ou menos com o valor que o corretor me informou.

Não acho injusto que nossos representantes tenham um bom plano de saúde. Acho complicado apenas que eles, que ganham bem e por vezes são empresários, não precisem pôr a mão no bolso sequer para pagar um pedaço do plano.

De qualquer forma, quem tem a atribuição de alocar recursos para o sistema público de saúde passa MUITO longe dele. Quem tem a atribuição de criar regras mais justas para planos de saúde não precisa pagar pelo melhor do mercado. E isso é sempre chato.

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Meus respeitos à família do José Alencar. Meus respeitos aos seus fãs. Mas façam-me o favor de não exaltar exemplos que não possam ser seguidos por qualquer um que não seja poderoso. OK, é fundamental um velhinho ter vontade de viver. Mas se não tiver como bancar, só a vontade não adianta.

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15 comentários sobre “O plano de saúde do José Alencar

  1. Caro,
    Nem precisaria você mencionar que suas consultas são “lights” para perceber que você não conhece o cotidiano de uma pessoa com uma doença séria. Independente de José Alencar ser político e ter um excelente plano de saúde, a sua força de vontade, contribuiu SIM, para que ele vencesse várias etapas. Falo isso por conhecimento de causa e não tinha plano de saúde excepcional, muitas vezes fiz exames pelo SUS. Não estou fazendo apologia ao SUS, mas, quando você enfrenta uma luta com a saúde; você tem 2 caminhos: ou se entrega ou luta a cada dia, cada segundo por uma vitória. A vontade de viver nos leva a procura da cura. Ao irmos ao SUS ou ao Sírio-Libanês a vontade de vencer nos acompanha em todos os lugares. poderia aqui citar vários casos que conheço que fizeram acompanhemento pelo SUS e tiveram vitória. E que em comum além do SUS tinham a força de vontade.
    E é realmente ” fofo ver um velhinho saindo do hospital e dizendo querer assistir à formatura do bisneto que ainda não tinha nascido.” Isso que você falou em tom de deboche, é o que se chama de entusiasmo.
    Mas, infelizmente, para muitos conhecerem esse caminho precisam passar pela dor. O caminho da compreensão, o mais fácil, paradoxalmente é o mais difícil.
    “O homem morre a primeira vez quando perde o entusiasmo.” [Honoré de Balzac]
    Eliane

    1. Eu não estava zombando. Realmente acho simpática a forma como ele enfrentou a doença. Eu e todo mundo.

      O que eu acho é que ter vontade de viver não é suficiente se o cidadão não tem como bancar a continuidade dessa vontade de viver. Qualquer outro velhinho com a mesma doença e a mesma vontade de viver do ex-vice-presidente dificilmente duraria tanto, por ineficiência do sistema público de saúde e pelo custo altíssimo do sistema privado.

      É isso que eu acho que deve ser colocado em perspectiva. Até porque hoje todos os poderosos sairão homenageando o ex-vice. Está na mão deles regular melhor tanto o SUS quanto os planos de saúde pra garantir que outros velhinhos com vontade de viver possam durar, se não tudo, pelo menos metade do que o José Alencar durou.

  2. Caro numeralha. Excelente texto. Muito bom, afinal de contas eu tb lutaria como ele para viver. Uai, quem quer morrer? O problema sim é essa questão da desigualdade, do SUS e de todas as falcatruas, como vc citou (planos de saúde para nossos ilustres bandidos senadores e afins).
    De acordo, conte com minha leitura.
    Abs

  3. Entendi o seu raciocínio e concordo plenamente. De fato há muitas pessoas passando pela mesma situação que o ex-presidente enfrentou, com a mesma vontade de lutar e viver, mas que não têm acesso a um sistema de saúde que permita isso. O fato de ter um plano de saúde bom não desmerece nosso ex-vice-presidente de forma alguma. O que eu penso é que nós, brasileiros, tendemos a enxergar sempre o lado mais fácil ou mais bonito da situação. Essa seria uma boa chance para discutirmos a situação da saúde no Brasil. Como você bem disse, não é justo que políticos tenham ótimos planos de graça enquanto pessoas não podem realizar pelo SUS procedimentos que salvariam suas vidas.

  4. Algumas considerações:

    – O José de Alencar seria ponto fora da curva mesmo em terapia pelo SUS. Mesmo entre os ricos com chance de serem atendidos pela medicina mais cara do mundo, quantas pessoas se tem notícia que enfrentam com galhardia 17 cirurgias para câncer por 13 anos ? Começo por aí, seu histórico tem algo de diferente, talvez pelo tipo de tumor, talvez pelo tipo de tratamento, talvez por variáveis pessoais próprias.

    – A partir daí, atribuir o sucesso de sua sobrevida apenas por uma dessas variáveis, é planificar demais. Tenho certeza que os mesmos médicos do Sírio, jamais prometeriam resultado parecido para qualquer outro paciente que viesse a ser tratado por eles.

    – Pode ser meio sinal dos tempos, quando se premiam pessoas em reality shows por fazerem… nada de mais! E ainda por cima, serem chamados de “Guerreiros”, por ficarem semanas em uma mansão com piscina, academia, festas e alcool. Então, uma pessoa que passa por tanto tempo de convalescência, enfrenta tratamentos debilitantes e cirurgias traumáticas, claro, merece muito mais nosso respeito.

    – Mas não podemos atribuir seu sucesso a sua atitude, por que todos os pacientes que tinham a mesma atitude e doença, e que começaram a ser tratados lá em 1997, poderiam já ter morrido há muito tempo . Ou, ao contrário, uma pessoa irascível, chata, insuportável, reclamenta, podia ter igualmente sobrevivido (é o famoso Vaso Ruim Não Quebra) ! Só conhecemos o José de Alencar por que ele é famoso. Quantos anônimos podiam ter personalidade parecida, mas resultados diferentes ?

    1. Grande Lívio, bons pontos. Acho que é uma grande ocasião pra tentar olhar esses aspectos de como a saúde é atendida no Brasil. O caso do Alencar mostra que o Brasil tem estrutura para prolongar vidas em casos complicadíssimos – mas também mostra que isso é pra muito, muito poucos, até por conta da imensa desigualdade.

      De qualquer maneira, se ele continuasse tendo todas as suas características pessoais e metabólicas, mas dependesse de um plano de saúde disponível a nós outros ou mesmo do SUS, provavelmente duraria bem menos, não? Até pela complexidade e custo dos procedimentos.

      Sobre o reality show, de fato não dá pra comparar. Exatamente por isso não comparei. Sequer assisto.

  5. Bom, me lembro de casos que atendia quando era interno ou residente, que espantavam justamente pela força que os pacientes apresentavam – memoráveis – e pessoas simples, agrestes, quase toscos, mas com uma força, resignação e determinação espetaculares. Outros pontos fora da curva, e pelo SUS.

    Se morreriam mais ou menos – certamente, se pensarmos em grandezas estatísticas. Mas um indivíduo, apenas, pode ser um tremendo de um azarado, e morrer por algo banal, ou, sobreviver além das mais ousadas provações, doenças e tratamentos.

    E é engraçado, por que há certas areas onde, se prolongar interminavelmente a vida, também é algo injusto. Tem uma piada que se dizia, que se o João Paulo II tivesse internado em algum hospital via convênio, talvez ele ainda estaria vivo (com traqueostomia, nutrição enteral, antibióticos, e etc) e em coma, já que sairia tudo do bolso do convênio, se esquecendo até da finalidade de um tratamento se destina.

    No link que destacou, o que há, é que os médicos e seus honorários, são as despesas que, de longe, tem o menor reajuste, em toda e qualquer planilha de plano de saúde. E sem ter a quem recorrer (os sindicatos são desmobilizados, a classe é desunida);

    José de Alencar pode ser um bom exemplo, para algum doente não desanimar, esmorecer, ainda mais se partilhar do mesmo diagnóstico que ele tinha..

    1. Certamente é um bom exemplo. Mas isso todo mundo fala. Queria mostrar um lado que pouco se vai falar nesses dias. É um bom exemplo de postura frente à doença. Isso é ótimo. Mas nem todo mundo pode arcar com os recursos de que ele dispunha. Talvez eles não sejam determinantes. Mas têm sua importância, que não me parece pouca.

  6. Oportunismo sem base. É o que posso falar sobre esse psot. Todo mundo sabe o quão sucateado é o sistema público de saúde. Foi usado um exemplo totalmente desconexo com o assunto para abalizar suas idéias. Num mundo em que a grande maioria das pessoas, amparadas pelo SUS ou pelo mais caro plano de saúde, buscam cada vez mais a auto-destruição e mostram cad vez menos forças diante das adversidades, Seu Zé(como era conhecido em Muriaé) mostrou a vontade de viver. Em público nunca amaldiçoou ou pareceu subserviente com sua condição. Ele foi acima de td, um exemplo repetitivo da história de alguém que veio do nada, alcançou um ponto crucial na vida, caiu e se reergeu. No fim, saiu vitorioso de qualquer forma. Mandela, Jesus, Buda, cada um à sua maneira mostoru como é difícil fazer o certo quando o certo parece inalcansável. José Alencar é mais um exemplo! Obrigado, Seu Zé!

  7. 1- Ele sofreu muito, sem dúvida nenhuma, mas o que ele fez pela saúde brasileira???

    2 – O que ele fez para os que sofrem do mesmo problema dele e que nao tem condições como ele teve???

    3 – Poder para fazer ele tinha, mas ele fez????

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