Noção de risco, essa arte pouco apreciada

“Isso aí é um Fokker 100? Ah, essa não. Foi esse mesmo avião que estava no acidente da TAM. Nunca mais compro passagem desta empresa aérea.”

Ouvi a frase hoje pela manhã, quando embarcava em Brasília voltando para São Paulo. O acidente com o Fokker da TAM ocorreu em 1996. Ao todo, houve apenas 9 acidentes nesse modelo de aeronave (dos quais só três com mortes). O de 1996, com 99 vítimas, foi o pior de todos – elas são mais da metade das 178 mortes nesses acidentes com Fokker. É irracional o medo dela, não? Quase perguntei que modelo de carro ela tem, pra levantar casos de acidentes com ele.

(Veja aqui uma tabela com 450 acidentes de avião ocorridos no Brasil desde 1942.)

Isso me lembrou várias manifestações que ouvi nos últimos dias, que demonstram como o pessoal não tem um feeling muito apurado pra avaliar riscos. Pegue por exemplo a frase do tio de um dos alunos mortos na escola Tasso da Silveira, publicada no sábado na Folha:

“Eu também tenho um filho. Como posso mandá-lo para a escola na segunda-feira? Como posso ficar tranquilo?”

Compreendo que o filho do entrevistado possa ter péssimas lembranças ao voltar à escola onde o primo foi morto. Ninguém gosta de expor um filho a esse tipo de lembrança – e o trauma das crianças é perfeitamente compreensível. Poxa, podiam ser elas, né?

O “como posso ficar tranquilo” é que me intriga.

Ora, se a preocupação que lhe tira a tranquilidade é a possibilidade de outro atirador aparecer na escola, as chances são absurdamente baixas. O ataque aparentemente não era uma ação organizada contra a escola, e sim uma coisa pessoal lá do atirador. Como ele se matou, não existe muita chance de ele voltar lá. Houve tiroteio lá perto hoje, mas foi um assalto a banco. Pode acontecer em qualquer lugar, infelizmente.

Pior. A escola Tasso da Silveira estará vigiada pela polícia e pela imprensa nos próximos dias. Outras, nem tanto. Isso torna a Tasso da Silveira mais segura do que a maioria das outras. Nas outras, sempre pode um deserdado da noção resolver ir de arma, sabe-se lá por que motivo, mas possivelmente impressionado com a atenção dispensada nacionalmente ao assassino carioca. Aconteceu hoje em Florianópolis. Pode acontecer em outros lugares.

Isso pode ser a desculpa ideal para uma criança preguiçosa que não quer acordar para ir estudar. “Tá louca, mãe? Vai que um ex-aluno aparece lá de arma na mão…” (Pior: por observação, sei que muitas considerariam isso sensato.)

Em termos de debate público, porém, é completamente contraproducente.

***

O canadense Dan Gardner escreveu um livro precioso, cuja leitura é importante em semanas como esta, cheias de especialistas palpitando sobre tudo. Seu título é “Risco – a ciência e a política do medo“. Logo no prólogo, Gardner conta uma das reações ao 11 de Setembro. Com medo de voar, muita gente passou a pegar seu carro e ir para a estrada.

“Só que ninguém falou a respeito do aumento explosivo das viagens de automóvel. Por que falariam? Era secundário. Havia ameaças mortais com que se preocupar. Uma coisa que nenhum político mencionou foi que as viagens aéreas são mais seguras do que as viagens terrestres. Sensivelmente mais seguras – tanto que a parte mais perigosa de um típico voo comercial é o percurso até o aeroporto. Na verdade, a diferença em termos de segurança é tão grande que os aviões continuariam sendo mais seguros que os carros mesmo que a ameaça de terrorismo fosse inimaginavelmente pior do que ela realmente é: um professor americano calculou que, mesmo que os terroristas estivessem sequestrando e derrubando um jato de passageiros por semana nos Estados Unidos, uma pessoa que voasse uma vez por mês durante um ano teria apenas uma chance em 135 mil de morrer em um sequestro – um risco pequeno se comparado à chance anual de uma em 6 mil de morrer em um acidente de automóvel.”

Isso me lembra em boa parte argumentos que ouço sempre que defendo que faz bem não ter carro. Eu não tenho por opção, por pesar vários bons motivos: um carro a mais na rua é um carro a mais engarrafando a rua; transporte público (ônibus, metrô e até táxi) tá na rua pra isso mesmo; não dirigindo, posso aproveitar o tempo dos deslocamentos pra atualizar as leituras.

“Ah, mas eu prefiro gastar mais pra ter o meu carrinho a ficar pegando ônibus e ser assaltado”, já ouvi. Ora, eu ando de ônibus desde criança. Nunca fui assaltado em ônibus. Talvez um dia seja, embora prefira não – há gente que é, sim, mas não é todo mundo e nem é todo dia.

Eu não conheço ninguém que tenha sido assaltado no ônibus, mas conheço quem tenha sido assaltado no carro. Conheço quem tenha tido o carro roubado – o que é um prejuízo maior do que ter a carteira roubada no ônibus. E conheço mais gente que sofreu acidente de carro do que de ônibus. Aliás, um levantamento recente mostrou que armas de quatro rodas matam muito mais do que armas de fogo em alguns estados.

No limite, precisamos conviver com a noção de que só não corre risco quem não vive. Dá pra avaliar riscos racionalmente, com algum bom senso e um pouco de pesquisa. Riscos avaliados podem ser reduzidos. O lado triste disso é que meus colegas de profissão não ajudam muito a dar a medida das coisas. Especialmente com o tipo de cobertura que fazem de casos como o do tiroteio da escola Tasso da Silveira.

O que não dá é pra deixar o medo mandar em nós.

No filme “Elsa & Fred“, há uma frase que resume bem isso. Elsa, uma viúva divertida e trapalhona, conhece Fred, um viúvo quietão e hipocondríaco. Acho que a frase vem numa cena em que Fred diz que não pode comer uma sobremesa por causa do colesterol. Elsa diz:

— No tienes miedo de morirte; vos tenés miedo de vivir.

Quem tem medo de tudo não vive.

***

EDITADO: Para você não pensar que eu quero dizer que sou bonzão e sei evitar todos os riscos, vale eu contar uma história de 2006. Fui ao Rio de ônibus e, pra não acordar muito cedo meus amigos, resolvi caminhar pela beira da praia com minha mulher. No aterro do Flamengo, entrando pelo finalzinho da Rio Branco. Em certo trecho, um sujeito veio nos assaltar com uma faca. Eu reagi. O cara me esfaqueou o braço. Podia ser pior.

Pessoas passavam ao redor e não fizeram nada. Mais tarde, pensando no que houve, caiu a ficha de qual era meu fator de risco. Nós éramos os únicos trouxas que não estavam de roupa de banho e além de tudo usavam mochila. Tudo em nós gritava “ATENÇÃO, DOIS TROUXAS DE FORA DA CIDADE”. Estando vestidos, éramos os únicos que corriam o risco de estar com uma carteira – ou máquina fotográfica, que foi o que o sujeito levou.

Passei um tempo com medo de qualquer mendigo que me encarasse na rua. Aí comecei a avaliar o que eu podia ter feito pra não acontecer mais aquilo. Onde? Quando? Vestido como? Andando como? E é aí que está o que realmente dá pra tirar de lições de uma coisa dessas.

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6 comentários sobre “Noção de risco, essa arte pouco apreciada

  1. O Lívio Nakano comentou e eu comecei a ler o livro Cisne Negro, que, basicamente, fala de eventos Improváveis, Impactantes e Preteritamente Previsíveis (depois que aconteceu, é plenamente explicável), e ele discute bastante essa questão do 11 de setembro e de como esses eventos são extremamente relevantes na nossa vida.

    Comecei AGORA (sério, no ônibus vindo pro escrit) mas me parece muito bom.

    Agora, quanto ao texto propriamente dito, o problema é que os nossos cérebros são feitos para pensar em termos de preto e branco (eu acho que escrevi algo a respeito: um Neanderthal que empatiza com um Homo Sapiens tá um passo atrás na guerra).

    Essa tendência do nosso cérebro de tomar partido irracional sem a consciência da irracionalidade é que é um problema. Existem argumentos para se andar de ônibus. Existem argumentos para se andar de carro. Se as pessoas (usando esse exemplo) simplesmente assumissem suas razões secretas sem se preocupar com uma necessidade de estar certo, essas discussões não existiriam.

    “Ônibus é mais barato, existe pra isso, é mais rápido, é mais ecológico-”

    “Meu carro tem ar condicionado. Foda-se o planeta.”

    Case closed.

    1. Acho razoável. Acho que ter consciência da irracionalidade é tremendamente importante. Mas tentar ser racional vale muito a pena, também. Porque irracionais nós já somos por default de fábrica. Caramba, eu tinha medo de QUALQUER cachorro até dois anos atrás, porque o cãozinho de uma vizinha me mordeu quando eu tinha 7 anos. Chegou um ponto em que eu fazia piada com isso de antemão, pra desarmar as piadas dos outros. Eu sabia que era ridículo e irracional. Aí um dia me expus a um cachorro de uma amiga e perdi todo o medo.

      Pra mim, o bom senso está a meio caminho entre Freakonomics e Cisne Negro. Tipo: eu sei que de vez em quando dá merda e isso está fora do controle e previsão de qualquer um, mas como é que funciona na maior parte do tempo?

      1. Agreed: o fato de que estamos sujeitos a cisnes negros não justifica a total e completa aversão às tentativas de previsão.

        Na verdade, eu defendo pessoalmente que a vida é feita 90% de Freakonomics e 10% de Cisnes Negros: Que você vai tomar uma invertida de tempos em tempos, vai, mas se não prestar atenção, vai ser muito mais frequente.

        Ou, como eu digo, o triste é ser meio inteligente, porque o inteligente evita as merdas, o burro acha que foi azar, o meio inteligente percebe apenas depois do que aconteceu. Life is hard. It’s harder if you’re stupid.

  2. Muito bom, doutor. só acho que são duas coisas diferentes: probabilidade de um determinado evento (probabilidade frequentista) e a percepção de risco desse evento. as pessoas têm percepção de risco diferentes. o avião é mais seguro do que o carro; no entanto, alguém pode pensar que, em caso de acidente, o risco de morte no avião é maior do que nos carros. quantos acidentes de carro não acabam em morte? enfim, o Bernoulli (um deles) foi o primeiro a atentar pra esse aspecto psicológico de medir risco. Cine Negro é bom, mas eu considero melhores outros dois livros: Against the Gods e Drunkward’s walking. já deves ter lido, né. abração

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