O economês, o câmbio, seu bolso e a importância da economia

Hoje tive uma conversa interessante com a leitora @RenataPetry. Ela perguntou no Twitter o que é alíquota. É uma palavra que sempre aparece no noticiário, muitas vezes em questões divisivas, mas para muita gente não fica claro de que se trata. É uma das coisas clássicas do tal “economês”, o jargão de iniciados que é dado de barato para os não iniciados.

Não existem definições que expliquem direito que raio é isso. No Aulete, consta:

Parcela (calculada ou definida percentualmente) do valor de algo, e que deve ser paga como imposto. Divisor exato de uma quantidade; parcela que está contida num todo um número exato de vezes.

Confuso, parece. Vamos à Wikipedia, fonte de tantos trabalhos escolares:

Em Direito tributárioalíquota é o percentual ou valor fixo que será aplicado sobre a base de cálculo para o cálculo do valor de um tributo. A alíquota será um percentual quando a base de cálculo for um valor econômico, e será um valor quando a base de cálculo for uma unidade não monetária. As alíquotas em percentual são mais comuns em impostos e as alíquotas em valor ocorrem mais em tributos como empréstimo compulsóriotaxascontribuição de melhoria.

Acuma?

Alíquota é uma coisa que eu sei o que é mas nunca me importei em definir. Para ajudar a estudante, tentei explicar da seguinte maneira. Imagine que juro, ou imposto, é uma moeda. Alíquota é o preço, expresso em percentual. Ou seja, ele incide proporcionalmente sobre outro valor de acordo com um percentual.

Conhecer isso é crucial para controlar o bolso. Pense nos juros de um empréstimo bancário, por exemplo.

Se você tomou um empréstimo de R$ 100 a 6% de juros ao mês, pra pagar daqui a seis meses, isso significa que o cálculo é feito aumentando em 6% sua dívida acumulada a cada mês. Só então são divididas as parcelas. No primeiro mês, sua dívida aumenta R$ 6. No segundo, aumenta mais R$ 6,36. No sexto, além dos R$ 100 que já tomou e gastou, você deve mais R$ 41,85 de juros. Dividido em seis parcelas, dá R$ 23,64 por mês. Parece pouco, mas só de juros você pagou quase a metade do que tomou.

Se alongasse a dívida por mais um mês, em mais uma parcela, você pagaria só de juros praticamente a metade do que pegou emprestado. E, quando R$ 100 importam tanto a ponto de você tomar empréstimo nesse valor, pagar R$ 50 a mais sai caro. E, como a alíquota é uma coisa proporcional, se o empréstimo fosse de R$ 1.000, os juros seriam de R$ 503,63 em sete meses.

O pai da Renata, que lhe propôs o desafio, chamou sua atenção a respeito do aumento da alíquota do Imposto sobre Operações Financeiras para comprar em dólar no cartão de crédito, para 6,38%. A intenção declarada pelo governo é frear a desvalorização do dólar. Acontece, porém, que até agora não está adiantando – o pessoal continua comprando em dólar e o dólar continua caindo. Só o que cresce é a arrecadação do governo.

Pense assim.

Como o dólar está barato para gastar (exatamente agora está a R$ 1,585), você pode ir a Nova York, ida e volta com uma escala, por US$ 805. Isso dá R$ 1.275, o que torna uma visita a Nova York potencialmente mais barata que uma visita a vários lugares no Brasil.

Se você vai aos EUA e compra lá um iPad 2 16GB no cartão de crédito, você vai pagar US$ 615 à vista (R$ 972,80 ao câmbio de hoje). Em cima disso, vai incidir um IOF de 6,38%, que acresce R$ 62,06 à sua conta do cartão de crédito. Somando tudo, seu iPad 2 novinho em folha saiu por R$ 1.034,86.

Nas lojas aqui no Brasil, um iPad 1, também de 16 GB, sai por R$ 1.257,32 à vista. Pode parcelar, também, mas a loja bota juros à alíquota de 1,99% ao mês, o que eleva o preço pra R$ 1.399,00.

Os R$ 62 acrescidos ao preço mais baixo do produto de lá acabam não fazendo nem cócegas pro consumidor. Mas entram no caixa do governo que é uma beleza. Assim o governo pode de um lado contabilizar os ganhos e de outro lado dizer que está fazendo alguma coisa pra tentar parar a supervalorização do real, mas os consumidores é que não ajudam.

Mais ainda: existe sempre a possibilidade de o dólar estar AINDA MAIS BAIXO quando vier a fatura do cartão.

Maluco isso, né?

Parece bom para o consumidor, que paga menos. Mas pense por exemplo nas empresas brasileiras que querem exportar produtos pra fora. Todos os custos dela estão em reais, mas a exportação é em dólares. Geralmente quem importa produtos brasileiros em escala comercial paga uns 30 dias depois, no mínimo. Isso significa que ou o exportador brasileiro aumenta o preço dos seus produtos em dólar, ou ele corre o risco de vender em dólar esperando ganhar um valor determinado em reais e, na hora de receber, ganhar menos.

Temendo vender menos, ele precisa cortar custos. Geralmente, porém, os custos que as empresas cortam têm braços, pernas e famílias para alimentar. Complicado, né?

***

Em 1996, quando eu era estudante de jornalismo, tive uma experiência que me abriu os olhos. Fui participar do Encontro Nacional de Estudantes de Comunicação, na UFSC. Verde de baladas e farras, me inscrevi numa oficina de jornalismo econômico com o professor Hélio Schuch. Pior: assisti todas as aulas. Mais ainda: isso me mudou a cabeça.

O Hélio é um cara que faz conexões várias (ainda ontem saiu um artigo dele). É um cara de bom papo e senso de humor peculiar (vide sua foto no Lattes). Viramos amigos, tamanha a gratidão que levei pra casa.

Mestre Hélio me apontou o que é Teoria dos Jogos, uma técnica usada para avaliar custo-benefício em situações várias. Uso esse tipo de raciocínio até para decidir que hora sair de casa em São Paulo se tenho um compromisso às 8 da noite. Mas, antes de mais nada, mestre Hélio me abriu os olhos para a ideia de que a economia é a “verdadeira” psicologia.

Usamos o raciocínio econômico, pesando custos e benefícios, pra todo tipo de decisão. Ainda que inconscientemente. Se eu não consigo perder peso por muito tempo é porque com frequência recebo um parente em casa, quero agradar, aí sempre acabamos comendo ou bebendo bem demais. Isso tem um custo em termos de peso, por exemplo.

Para um jornalista, especialmente se jovem, conhecer um pouco de como funciona o raciocínio econômico é fundamental para tudo. A Renata é fascinada por moda, pelo que vi. Conhecer como funciona o raciocínio econômico pode apontar os porquês de várias coisas em sua área (que pra mim é uma ilustre desconhecida). Aponta os porquês de preços, aponta os porquês de materiais e até de ocasiões.

Depois que o mestre Hélio me apontou a importância da economia, resolvi que queria aprender o suficiente pra entender o que acontece. Na época, fui atrás de “Introdução à Análise Econômica”, um clássico do Paul Samuelson. Comprei na segunda edição, de 1968, por R$ 16 num sebo. Ainda se acha baratinho em sebos.

Apesar de didático, é uma leitura acadêmica demais – eu com 20 anos adorava esse tipo de leitura, mas compreendo quem não goste.

Hoje em dia, existem opções interessantes. Dou duas dicas:

Freakonomics, de Steven Levitt e Steve Dubner

De longe o livro mais famoso dessa leva de economistas didáticos. Eles levantam pesquisas de economistas e mostram o lado divertido da disciplina antigamente conhecida como “a ciência lúgubre”. Leia a introdução aqui. O sucesso do livro fez com que os autores lançassem uma sequência, o Superfreakonomics.

O Economista Clandestino, de Tim Harford

De longe o meu favorito. Harford é britânico, jovem, curte games e apresenta um programa na BBC chamado “More or Less”. Nele, ele discute os números do dia-a-dia. O More or Less é a grande inspiração do Numeralha. Este livro também é mais amplo, procurando explicar como os conceitos básicos da economia se aplicam ao dia-a-dia. Leia uma entrevista com Harford.

***

Você pode se perguntar: curtindo tanto economia, por que não virou jornalista econômico?

Simples: oferta e demanda.

Em 2000, cheguei a participar do Programa de Treinamento em Jornalismo Econômico, da Folha de S,Paulo. Mas, ao final do curso, a vaga que estava aberta era em política. Eu não curtia política, nunca simpatizei com partido nenhum, mas topei a vaga.

O fato de eu não curtir o críquete dos engravatados, o “disse Fulano” do dia-a-dia, somado ao fato de eu ser redator (ou seja, não tinha obrigação de ter matéria própria todo dia) e fascinado por dados, me levou a procurar pautas que aplicassem esse raciocínio à análise da política.

Fiquei fascinado. Porque a lógica econômica subjacente explica muita coisa.

Foi daí que eu peguei gosto por olhar quanto nossos caríssimos políticos gastam. Ou como gastam. Ou a que incentivos eles respondem na hora de gastar dinheiro público a rodo. Ou por que raios quando tem um escândalo eles preferem defenestrar o rato a fechar o ralo.

Foi daí que eu incentivei minha mulher, fanática por cinema desde criança, a procurar olhar como funciona a produção de filmes. E ela ficou craque nisso, por conta própria.

Enfim, recomendo a todo mundo. Seja jornalista, seja mero curioso. Ou ambos, o que é sempre ótimo.

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