Qual é o problema de ter um nome esquisito?

A Fundação Wecsley, do saudoso blog do Rui Goiaba, acaba de ganhar uma nova cliente: Kéthellyn Kevellyn, uma criança de pouco mais de um ano de idade moradora de Ibiá (MG). Sua mãe, Márcia Maria Costa da Silva, ficou frustrada quando o cartório não quis registrar a menina com esse nome criativo. Segundo o cartório, um nome estranho desses poderia causar situações vexatórias à menina no futuro.

Como a mãe insistiu no nome, ficou Kéthellyn Kevellyn mesmo. Pior, segundo a procuradoria, seria deixar a criança sem documentos por mais tempo. Ela se une aos irmãos Kéllita Kerolayne, 11, Kayck Kayron, 10, Kawãn Kayson, 7, e Kawane Kayla, 2. Segundo a mãe das crianças, complicado mesmo é ter nome comum e ver três atendendo quando se é chamado na rua. É um ponto de vista, eu diria.

Nomes criativos fazem parte da liberdade de expressão, e é difícil saber que tipo de problema um nome pode, ou não, acarretar. Já tentaram fazer estudos para verificar.

Um deles saiu em 2009. Uma pesquisa, noticiada pelo G1, indicaria que ter um nome incomum aumentaria a chance de delinquência de um jovem. Como é que é?

Sempre que eu vejo essas notícias muito taxativas e muito esdrúxulas, fico com o pé atrás. MUITO atrás. Porque eu sei que isso pode ter a ver com a nossa má compreensão da matemática e da metodologia de pesquisa.

Como a gente não entende muito de matemática, não entende muito bem a diferença entre correlação e causa. Correlação é o seguinte: 100% dos seres humanos bebem água, 100% dos humanos são mortais. Os dois fatores estão correlacionados, porque todo mundo que bebe água um dia morre. Mas, tirando afogamento, é difícil que beber água cause a morte. Há um fator externo que leva a beber água e a morrer. Por exemplo, todos os seres humanos bebem água e morrem porque têm um organismo que funciona de tal e tal jeito.

Existem métodos estatísticos para determinar se a correlação entre dois fatores é forte ou fraca. Isso pode dar dicas para compreendê-los. No Excel, existe uma função chamada “Correl”, em que você pode comparar duas colunas de dados. Por exemplo, as dimensões de educação e saúde do IDH. Você vai ver uma correlação alta (maior do que 0,7) entre os dois. Mas será que uma causa a outra?

A incerteza é sobre se é apenas uma correlação (o fator que garante educação e saúde está fora delas próprias, na administração) ou uma causação (mais educação, mais busca por saúde, menos doenças evitáveis). Essa é a diferença que dificilmente nós entendemos por sermos analfabetos numéricos. E é essa diferença que faz correlações cheias de condicionais virarem causações absolutas nas manchetes.

O economista Steve Levitt, co-autor do livro Freakonomics, é craque no assunto.

O capítulo 6 de seu livro (“A Roshanda by any other name”, no original) analisa a correlação entre nomes estrambóticos e o sucesso escolar. Ao ler o noticiário sobre os nomes que “causam” crimes, Levitt foi procurar o estudo original.

Logo de saída, no “abstract” , Levitt encontrou uma ressalva que derruba os títulos do G1 e do Washington Times: “Nomes incomuns possivelmente não são a causa do crime , mas podem estar correlacionados a fatores  que aumentam a tendência à delinqüência juvenil.”

Levitt traduz essa declaração para termos mais compreensíveis:

    É mais ou menos como dizer: sabemos que as pessoas que regularmente usam macacão laranja são mais possivelmente criminosas, porque macacão laranja vem a ser o uniforme da prisão estadual. Usar macacão laranja não é a causa da atividade criminosa, mas é altamente correlacionado ao envolvimento com crimes no passado.

Levitt também vê outros problemas na metodologia do estudo.

Os autores calculam a probabilidade criminosa de um nome ao contar quantos criminosos há com um nome estrambótico X e dividi-la pela quantidade total de cidadãos que portam aquele nome. Como a quantidade de criminosos dentro do total da sociedade é relativamente pequena, isso ao mesmo tempo infla a percentagem de Wecsleys criminosos, desinfla a quantidade de Joões bandidos (a quantidade de Joões com folha corrida deve ser relativamente pequena em comparação com o total dos Joões) e deixa completamente de lado os outros nomes estrambóticos que não têm passagem policial.

Enfim: que problemas pode trazer um nome desses?

Dá pra dizer que Kéthellyn certamente vai perder mais tempo na vida soletrando seu nome. Podia aproveitar esses preciosos segundos para alguma coisa mais útil, mas enfim.

Caso o Orkut ainda exista quando ela estiver mais velha, certamente vai participar da comunidade “Ninguém escreve meu nome direito”.

Talvez receba um ou outro apelido.

Talvez pegue raiva da mãe pela sua criatividade.

Talvez faça como uma das filhas da Baby Consuelo, que se chamava Riroca e trocou de nome para Sarah Sheevah, e mude seu nome.

Não dá pra saber.

No Google Buzz, discutindo a notícia, o leitor José Agripino disse que talvez o ideal mesmo fosse facilitar a troca de nome para quem quiser. Hoje não é fácil, ele diz.

E você, o que acha?

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4 comentários sobre “Qual é o problema de ter um nome esquisito?

  1. Eu acho que a única chance de um nome esquisito aumentar as chances de uma pessoa cometer um crime é a raiva acumulada de soletrar toda vez que usa-se o telefone. Mas eu posso ter uma evidência anedótica sobre o assunto. 😛

  2. É uma questão que depende muito da tão falada ‘aceitação social’, seja lá o que isso significa. Com uma sociedade imbecilizada, um nome estranho pode ganhar contornos até meio dramáticos…

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