Nova ordem mundial

Recebi hoje um email em mau português, de uma deputada que herdou uma fortuna do marido e quer doar para uma instituição de caridade cristã. O marido trabalhava na embaixada iraniana na Costa do Marfim. Está com câncer, coitada, e pede minha ajuda para ajudar a transferir a bolada para quem merece. Cita a Bíblia uma série de vezes, e sabe como é – cristãos e Irã não fecham muito bem. Por causa disso, a transação deve ser clandestina.

É claro que é lorota, e lorota perigosa. É uma nova versão do golpe nigeriano. Eventualmente você deve acabar recebendo algo do gênero também, se é que já não recebeu. A fraude já teve diversas versões, e a primeira que eu vi chegou por fax para um parente contador de empresa em meados dos anos 90. Ele não caiu, mas aqui no Brasil um pretenso esperto na diretoria do Banco Noroeste caiu no golpe e desviou US$ 242 milhões entre 1995 e 1998. Lá fora tem gente que morreu e que foi pra cadeia por isso. Em janeiro, um sul-coreano e sua filha foram sequestrados ao ir buscar o dinheiro na África do Sul.

Esse tipo de fraude joga com a ganância do cidadão – OK, a mulher prometeu depositar alguns milhões de dólares na sua conta, daqui a oito meses ela morre, ninguém vai saber se você não acabar doando pra uma igreja.

Só que do outro lado tem alguém mais esperto do que a vítima julga ser. Depois que o pato morde a isca, a rica viúva (ou algum sobrinho, ou sei lá quem) pede que ele mande uma soma relativamente pequena de dólares, algo como US$ 1000, para propinar alguém. O que são mil dólares perto de muitos milhões? Aí o esperto do outro lado vai subindo a aposta aos poucos, sempre com muita educação e apelando ao instinto de piedade do trouxa.

Geralmente, quando alguém cai nessa, demora a cair a ficha e pular fora. Nessa hora, já é tarde demais. Porque ele próprio já chegou ao ponto de cometer fraudes que o tornam sério candidato a ver o sol nascer quadrado.

O interessante nessa versão nova da fraude nigeriana é a roupagem.

Está em português, possivelmente por conta do bom momento econômico do Brasil. O mundo inteiro já reconhece o Brasil como um país caro. Um apartamento em algumas áreas de São Paulo custa mais caro do que um em Miami, carro popular é mais caro que um carro de luxo lá fora, a gasolina é mais cara do que em muitos países mais ricos e até a expressão “preço de banana” perde sentido quando se percebe que o quilo da fruta custa tão caro aqui quanto em Nova York. Um engraxate brasileiro nos EUA cobra mais barato do que seu colega daqui.

Fala no Irã, porque o Irã é a bola da vez na geopolítica internacional. Você conhece a fama do Irã de país fundamentalista e intolerante, brigando com os EUA. Imagina o que não fariam com uma pobre velhinha rica, viúva de um diplomata americano.

A fraude nigeriana se atualiza, mas nunca acaba. Porque a estupidez humana não tem limite. E o melhoir jeito de ser trouxa é se achando muito esperto ao topar uma oferta que parece boa demais para ser verdade. Geralmente costuma ser exatamente isso, mas a ganância desliga desconfiômetros – e torna a vítima tão culpada quanto o criminoso.

Isso acontece em outros contextos também, como no caso de gente que compra iPad por R$ 500 em site chinês de procedência duvidosa e recebe uma caixa de pedras em casa. Grupos do crime organizado exploram o mesmo bug quando mandam SMS dizendo que você ganhou um caminhão do Faustão e que precisa ligar para um celular do Ceará para acertar o recebimento dos prêmios. É o lado simpático do golpe do falso sequestro, mas o efeito é o mesmo.

Se você ainda assim achar razoável atender ao apelo da pobre viúva rica, fale comigo. Sei de um viaduto lindo para vender a você no centro de São Paulo, que pode ser seu a um preço imperdível.

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