São Paulo não é cidade para pedestres?

Uma motorista conseguiu a façanha de atropelar e matar, segundo amigos ouviram da família, um respeitado professor do Instituto de Psicologia da USP, César Ades. Ele estava fazendo caminhada na Paulista.

[EDITADO: Segundo o HC, o professor continua internado em estado gravíssimo. Não teve morte cerebral.]

Pedestres morrem mais do que ciclistas na cidade. Por estarem desprotegidos, se um carro bate neles, no mínimo se machucam mais do que o motorista.

A julgar pelo que se ouviu quando morreu a ciclista, vão colocar a culpa no professor. Quem manda andar a pé na rua? São Paulo não está preparada para o pedestre. Andar a pé em São Paulo é utopia, deslumbramento de quem foi à Europa e achou bonito.

Recapitulando: na semana passada, uma ciclista foi atropelada e morreu na Paulista. Alguns especialistas consultados pela imprensa foram rápidos em dizer que a cidade não está preparada para as bicicletas. Comentaristas no Twitter, blogs e seções de cartas também. Muita gente inteligente culpando os ciclistas por se arriscarem no trânsito paulistano – mais ou menos como culpar uma mulher estuprada por andar de saia curta.

Não adianta lembrar que em outros países os ciclistas têm espaço garantido no trânsito – vão dizer que é coisa de elitista, de quem foi à Europa e achou bonito. Não adianta lembrar que o Código de Trânsito prevê respeito às bicicletas – nem as autoridades de trânsito levam a sério essa parte da lei.

Em pior situação do que os ciclistas estão os pedestres. Os pedestres têm as calçadas, dirá um ciclista. Mas será que têm? Em muitos bairros, o pedestre precisa andar pelo meio da rua porque, além de estreitas, as calçadas têm obstáculos – muros recuados, bueiros abertos, carros estacionados, árvores na frente dos muros recuados e todo tipo de coisa garantida pela criatividade dos moradores do quarteirão.

Mesmo assim, calhou de o professor morrer justamente caminhando pela calçada mais decente de São Paulo. Porque precisa atravessar a rua de intervalos em intervalos, e alguns motoristas não podem parar quando o sinal fecha – seu tempo é muito precioso, o trânsito é guerra mesmo e guerra sem vítimas não tem graça.

Cá pra nós? O que falta é respeito.

E a numeralha, que motiva este blog? A prefeitura de Gilberto Kassab ficou devendo.

Eles têm, bem escondido, um sistema de estatísticas de saúde semelhante ao do Datasus. Complexo, mas excelente nas funcionalidades.

O problema é que ele precisa ter a alimentação de dados. A última alimentação foi em janeiro deste ano, com dados de 2009 e 2010. Não há dados de nenhum dos meses de 2011, e os de 2012 ainda são um sonho.

Muito conveniente em ano eleitoral, não?

[EDITADO: Via Twitter, a Secretaria Municipal de Saúde diz que não há conveniência eleitoral e que os dados de 2011 devem ir ao ar no segundo semestre deste ano. Quando, aliás, a campanha estará nas ruas. No Datasus, já estão disponíveis os dados de todas as outras cidades do Estado até dezembro de 2011.]

De qualquer forma, veja neste link minha planilha com os dados de 1996 a 2010, separados por tipo de vítima e tipo de algoz. Compare por si mesmo.

Ser homem-antena deve ser melhor do que catar latinhas

Causou polêmica no Twitter uma iniciativa apresentada no festival South x Southwest, no Texas (EUA): mendigos foram transformados em hotspots ambulantes de wi-fi 4G para acesso rápido à internet. Eles usam camisetas informando seu código pessoal, e o usuário paga usando SMS. O blog Vi na Internet, do Charles Nisz, resume o caso.

Saneel Radia, da empresa de marketing que idealizou o projeto, se antecipou às críticas, segundo o Tecmundo:

“A preocupação é que essas pessoas sejam vistas apenas como hardware. Mas, francamente, eu não teria criado isso se não acreditasse no oposto”

Tem lá seu sentido. Mas mesmo o sujeito ser visto como hardware já é um grande avanço em relação a como ele é visto em outras ocupações disponíveis para mendigos.

Se você acha que carregar antena de wi-fi é indigno porque atende a um luxo de um playboy, pense no grau de dignidade de juntar do lixo a latinha da cerveja bebida pelo playboy. Essa é a ocupação mais frequente para  mais de seis em cada dez moradores de rua de São Paulo, segundo o Censo da População de Rua feito pela prefeitura em 2010 (baixe aqui).

Veja aqui como as opções se dividem:

Os catadores de latinhas seguem uma longa tradição de reciclagem no ambiente urbano. São profissionais úteis, por mais desagradável que seja revirar o lixo. Quem leu o livro “O Mapa Fantasma“, de Steven Johnson, sabe que a situação já foi muito pior nos primórdios do urbanismo. (Leia o primeiro capítulo aqui.)

No meio do século 19, quando uma epidemia de cólera atacou forte no centro de Londres, a profissão mais bem-paga no ramo da reciclagem era a dos sujeitos que recolhiam os dejetos orgânicos depositados nos porões das casas. Cada um tomava um terço de garrafa de conhaque pra encarar o tirão. Dois terços de século depois, quando minha avó era jovem, ainda existia a figura do “cabungueiro” no Brasil. Outra classe de recicladores recolhia cocô de cachorro para vender a quem curtia couro.

Essas profissões, indignas, acabaram quando se teve um sanitarismo mais eficiente. Hoje, foram substituídos pelos catadores de latinhas, que vivem numa situação melhor do que a dos cabungueiros. Os catadores devem existir até que a separação do lixo seja realmente eficaz. (Sim, eu sei que você acha que isso é quase impossível – mas os londrinos que morriam de cólera também tinham ideias definitivas sobre o destino do seu esgoto em 1854.) Aí, quem vivia dessa atividade vai ter que arrumar outra, que provavelmente será melhor mas não sei se tanto.

Convenhamos, carregar antenas para vender acesso rápido à internet é bem mais digno do que ser cabungueiro ou remexer no lixo.

Ainda quero chegar a viver num mundo onde a profissão mais indigna que alguém possa ter seja a de carregar antena pra acessar a internet. O ideal seria nem isso ser preciso – mas o ideal, por definição, não existe.

Com o aumento da frota, caem mortes e dispara a invalidez

A Folha de S.Paulo publica hoje uma reportagem interessante, mostrando que quintuplicaram os pagamentos de seguro por invalidez após acidentes de trânsito. Foram pagas 31 mil indenizações em 2005, e em 2010 o número saltou para 151,5 mil.

Em novembro, o jornal já havia publicado reportagem sobre o aumento no número de mortes no trânsito. Levando em conta o aumento da frota de carros no Brasil, porém, a proporção das mortes caiu. Se em 2005 morriam 83,5 pessoas para cada 100 mil veículos circulando no país, em 2010 morreram apenas 62,5 pessoas para cada 100 mil veículos. Isso é positivo. Mas e como se comparam os inválidos a esses mortos?

Como jornais não costumam calcular esse tipo de proporção, ou mesmo cruzar dados de estudos diferentes, a nova reportagem não compara os casos de invalidez nem com a frota e nem com as mortes no trânsito. Fui atrás.

Na proporção da frota, em 2005 mais gente morria do que ficava inválida no trânsito: eram 85,5 mortes versus 73,9 casos de invalidez a cada 100 mil veículos. Em 2010, foram 62,5 mortes versus 233,8 casos de invalidez a cada 100 mil veículos. O gráfico fica assustador:

Boa parte desse crescimento nos inválidos tem a ver com o aumento da quantidade de motocicletas. Sete em cada dez dos inválidos por acidentes são motoqueiros e jovens, diz a reportagem. O motoqueiro está muito mais exposto a ferimentos graves do que o motorista – que, bem ou mal, está protegido deles por uma armadura de lata.  Na moto, mesmo sem o piloto morrer, ainda pode acontecer muita coisa ruim a ele num acidente.

O aumento das motos tem tudo a ver com o aumento dos carros: quanto mais carros, mais lento o trânsito; quanto mais lento, mais as empresas recorrem a motoboys para fazer entregas cortando pelo trânsito.

Considerando o tamanho da indenização paga (os mesmos R$ 13.500 para morte ou para invalidez permanente), quer-me parecer que quem morre se ferra menos do que quem fica inválido. Sem falar que a invalidez é para sempre, enquanto a morte é uma só vez. Se for considerar que o aumento das motos tem a ver principalmente com  cidadãos mais pobres que buscam um bico, pode ter aí inclusive um corte social desigual. É uma medida da crueldade da lógica do trânsito brasileiro.

Estes são os dados que eu usei:

Frota Mortes Invalidez Mortes por 100 mil Invalidez por 100 mil
2005 42.071.961 35.994 31.121 85,55 73,97
2006 45.372.640 36.367 45.635 80,15 100,58
2007 49.644.025 37.407 80.333 75,35 161,82
2008 54.506.661 38.273 89.474 70,22 164,15
2009 59.361.642 37.594 118.021 63,33 198,82
2010 64.817.974 40.610 151.558 62,65 233,82

As fontes:

London burning

(Publicado primeiro no blog Novo em Folha.)

A imagem da primeira página da Folha, hoje, é chocante: um prédio em Londres, incendiado por manifestantes que protestavam contra a morte de um homem pela polícia. Foram presas 160 pessoas no final de semana.

Os protestos e saques começaram em Tottenham, um bairro pobre com grande população negra, e chegaram até o centro da cidade, em Oxford Street. E o prefeito, Boris Johnson, está em férias. Como sói acontecer nessas horas complicadas, o elemento mais difícil de obter é o porquê. Os manifestantes não são organizados a ponto de publicar uma declaração dos seus princípios. A rigor, praticamente entra no protesto quem quer. E é justamente nessas horas que vêm as interpretações apressada, as simplificações.

Há quem diga que a revolta tem a ver com os cortes nas verbas sociais do Orçamento. O Daily Telegraph diz que comprar essa versão deixa os culpados à solta. Ele culpa a “yob culture”, algo como “cultura de mano”. Para The Sun, não tem conversa: quem se revoltou é tudo bandido mesmo. Mas será que é? O Guardian lembra que Tottenham não é “um lugar mau cheio de gente má”. É um lugar com más condições de vida (mal comparando, é como se fosse uma favela), onde a maioria não é por natureza violenta.

Kevin Anderson, um jornalista freelance, olhou a situação e viu paralelos com um clássico do jornalismo de 1967.

Naquele ano, no bairro negro de Detroit, alguns soldados negros voltaram da guerra do Vietnã e foi feita uma festa para recebê-los. Em dado momento, a polícia bateu lá e botou todo mundo da festa em cana. Daí para estourar uma revolta incendiária foi um pulinho. Até porque já tinha acontecido em outros lugares antes. A reação imediata foi mais ou menos a mesma: especulação desenfreada.

Meu mestre Philip Meyer, que trabalhava para a rede de jornais que publicava o Detroit Free Press, resolveu fazer a cobertura tentando deixar o fígado de lado. Especializado em métodos de pesquisa das ciências sociais, ele preparou um questionário para testar o senso comum. Escolheu uma amostra estatisticamente correta dos moradores do bairro para tentar descobrir o perfil de quem se revoltou, e de suas razões. Chegou a conclusões bem diferentes desse senso comum. Uma delas era que os mais revoltados estavam entre os que mais estudaram, colado com os que largaram os estudos no ensino médio, e não entre os ignorantes.

Inspirado nesse post, o Guardian resolveu adaptar o velho questionário do mestre Philip Meyer e colocar na internet, esperando que viessem respostas interessantes. Além de perguntar se o respondente participou ou não das revoltas e qual seu perfil, são feitas perguntas sobre aprovação ou desaprovação ao governo e sobre como uma vigília tranquila virou uma rebelião incendiária. Algumas das respostas dos leitores parecem interessantes para dar uma perspectiva mais nuançada sobre o que houve.

O uso de enquetes eletrônicas para reportagem tem limitações sérias. Primeiro e antes de mais nada porque responde quem quer. Segundo porque responde quantas vezes quiser, do jeito que quiser. Em seu livro “Precision Journalism”, nunca publicado no Brasil, Meyer enfatiza bastante a necessidade de rigor e aleatoriedade na amostra de uma pesquisa séria.

Mandei um email para Meyer perguntando o que ele achou. Ele disse o seguinte:

“Interessante! O problema não é tanto que os dados são coletados online, mas que os entrevistados se auto-escolhem. E a decisão de participar da pesquisa pode estar correlacionada a algo interessante que devia ser medido. Por exemplo, se as pessoas com maiores reclamações tiverem mais probabilidade de participar da pesquisa, então o nível de reclamação medido será exagerado. Ainda vale a pena como pesquisa exploratória. Pode trazer dicas para os repórteres e para uma eventual pesquisa mais rigorosa. Até lá, será difícil resistir à tentação de generalizar a partir dos resultados online. Entrevistas pessoais com os presos também podem trazer dicas. O Guardian é um ótimo jornal, e desejo o melhor para eles.”

Afinal, a estrutura brasileira de aeroportos está bem ou mal?

Sei que pelo menos uma leitora deste blog conhece a fundo o assunto. Eu não entendo absolutamente nada de aeroportos, fora a experiência cada vez menos confortável como usuário deles, mas gosto de observar alguns movimentos na política.

Dia 14 de abril, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) divulgou um estudo sobre aeroportos no Brasil. Você pode baixar a íntegra do estudo aqui.

Os dois autores afirmam, com base nos dados disponíveis, que com base na situação atual dos aeroportos e com os investimentos atuais, dificilmente o Brasil conseguirá terminar até a Copa de 2014 dez dos 13 aeroportos em que há investimentos, se forem mantidos os prazos médios para cumprir as etapas de expansão.

Em português: na avaliação dos pesquisadores, só termina a tempo se correr com a obra. Correr com a obra acarreta problemas, como vimos nas obras da Linha Amarela do metrô de São Paulo e do Rodoanel. Ou acarreta outros tipos de problemas, tipo a necessidade de botar mais dinheiro pra finalizar a tempo. Mas tudo isso por ora está no terreno das possibilidades.

O Ministério Público Federal está pedindo agilidade nas obras  (e não só nas de aeroportos) para que não seja preciso pedir dispensa de licitação nas obras. Foi a dispensa de licitação, em grande parte, que fez os custos das obras dos Jogos Panamericanos terem um superfaturamento de até 600%.  Esse dinheiro sai do meu bolso, do seu bolso e do bolso da sua mãe.

Como não sou especialista em aeroportos, não entro no mérito de o estudo dos economistas do IPEA estar ou não correto. Apenas chamo atenção para um ponto: a reação política.

No que depender do secretário-geral da Presidência, Gilberto Carvalho, o estudo sequer foi feito pelo IPEA: “Não foi o Ipea que fez o estudo. Um pesquisador juntou recortes de jornais para fazer esse pronunciamento. Não representa a posição do Ipea nem do governo. Estamos preocupados em realizar tudo dentro do previsto. Não há desespero nem nenhuma dúvida de que daremos conta. O Brasil vai fazer uma copa bem organizada.”

Ponto a ponto.

1) “Não foi o IPEA que fez o estudo”

O Instituto convocou entrevista coletiva, oficialmente, para divulgar o estudo. Ela foi transmitida ao vivo, em vídeo, pelo site do IPEA. Foi noticiado no site do IPEA. O estudo foi publicado como Nota Técnica da Diretoria de Estudos Setoriais do instituto. É um estudo do IPEA ou não é um estudo do IPEA? Esse estudo especificamente não traz a observação, mas as Notas Técnicas do IPEA costumavam informar na folha de rosto:

As Notas Técnicas visam divulgar, de forma rápida e ampla, 
análises e resultados parciais de pesquisas realizadas no IPEA
ou em parceria com outras instituições, estimulando o debate
corrente em torno de questões específicas de natureza conjuntural
ou metodológica.

O potencial atraso nas obras dos aeroportos se encaixa no primeiro parágrafo.

Não estou em condições de saber se a retirada da observação implica alguma coisa. Mas, pra mim, essas condições não desqualificam de antemão o estudo.

O IPEA faz parte da estrutura do governo federal, dentro do Ministério do Planejamento, ora loteado para o PMDB via Moreira Franco. Em 2009, o IPEA produziu vários estudos que critiquei no “Dicas de um Fuçador”, pai do Numeralha, pela manipulação numérica do oba-oba. Então, ficamos assim: se o IPEA lança um estudo que enche a bola do governo, é do IPEA. Se o estudo não enche a bola do governo, não é do IPEA?

.

2) “Um pesquisador”

Na verdade, ministro, foram dois: Carlos Alvares da Silva Campos Neto e Frederico Hartmann de Souza, pesquisadores do IPEA.

.

3) “Juntou recortes de jornais para fazer esse pronunciamento”

De fato a bibliografia cita várias notícias publicadas em jornais. Mas boa parte das afirmações feitas no texto se baseia em consultas à execução orçamentária da União (com dados pesquisados nos bancos de dados do SIGA Brasil, DEST e Contas Abertas) e aos dados da Infraero – que mostram aeroportos como o de Vitória (ES) usando atualmente 472% de sua capacidade. Clique nos links para ter acesso direto aos dados.

.

4) “Não representa a posição do Ipea nem do governo. ”

Por motivos óbvios o ministro quis chamar atenção para o segundo parágrafo que a observação costumava ter e nesse caso não tem:

As opiniões emitidas nesta publicação são de exclusiva e inteira
responsabilidade dos autores, não exprimindo, necessariamente, o
ponto de vista do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada ou do
Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão.

OK, embora feito por funcionários do instituto e divulgado oficialmente pelo órgão, de fato aquela Nota Técnica pode não ser a posição oficial do IPEA ou do governo. Mas precisa representar a opinião do IPEA ou do governo para ser uma observação importante de ser discutida? Eu acho que não.

.

5) “Estamos preocupados em realizar tudo dentro do previsto.”

Os atrasos apontados sugerem o contrário, ainda que eu pressuponha a maior boa vontade do pessoal da Infraero dentro dos recursos de que dispõe. Adoraria que o governo fizesse valer a declaração do ministro. Mas notícias como a de que o governo executou apenas 1% do orçamento dos aeroportos da Copa me fazem crer que é blablablá. Em se tratando de governo, preocupação é execução.

.

6) “Não há desespero nem nenhuma dúvida de que daremos conta. ”

Nenhuma dúvida da parte de quem?

.

7) “O Brasil vai fazer uma copa bem organizada.”

Trata-se mais de uma declaração de intenções do que de uma enunciação de fato. Só se saberá em 2014 se o Brasil fez uma Copa bem organizada. Por ora, sabe-se apenas que a preparação não parece bem organizada. E também se sabe que o Pan não foi bem organizado, tanto que custou 600% a mais no nosso bolso.

***

E você, o que pensa a respeito? Da minha parte, espero sempre mais transparência da parte dos governos nessas questões que mexem no nosso bolso. Fazer blablablá de avestruz não é transparência, ministro.

Indústria de multas? Mas multa-se tão pouco…

Outro dia o Fantástico passou uma reportagem do Giovani Grizotti sobre trampolinagens na compra de “pardais”, as câmeras que flagram e multam motoristas barbeiros. Imediatamente surgiu uma gritaria contra a “indústria da multa”. Sempre vem alguém dizer que isso demonstra que a preocupação das prefeituras não é “educativa”, mas “arrecadatória”.

Esse último ponto, aliás, é o que eu acho mais risível. Não existe nada mais educativo do que a certeza da punição. O motorista que comete barbeiragem só o faz quando julga que vai escapar sem problemas. Quando julga que ninguém está vendo. Ora, se o sujeito fez barbeiragem, colocou a segurança alheia em risco de alguma maneira e merece no mínimo uma multinha. Ele tinha opção. Onde o motorista supõe que corre mais risco de ser multado se abusar da boa vontade alheia, ele costuma ser mais prudente.

Multa-se pouco no Brasil. Toda. Hora. Sai. Alguma. Matéria. Mostrando. Isso. E isso não acontece necessariamente porque a lei é severa demais a ponto de ser incumprível (embora possa ser). Ocorre em boa parte porque ela não é fiscalizada. Isso beneficia os maus motoristas e prejudica todos os outros – especialmente os pedestres, como este escriba.

Pessoalmente, sou a favor de colocarem pardais sobre cada faixa de pedestres, multando automaticamente cada carro que parar nela quando ela deve estar liberada ou passando por ela depois de o sinal fechar. A gente já tem pouco tempo pra atravessar, e esse pouco costuma ser invadido pelos carros. Não adianta reclamar com a CET: mesmo quando tem fiscal no cruzamento, eles dizem que se forem ficar de olho só nisso não fazem mais nada.

Certa vez contei num cruzamento de São Paulo: dava 120 segundos abertos para os carros e 7 segundos abertos para os pedestres. Se você descontar os dois segundos e meio que alguns barbeiros roubaram cruzando o sinal vermelho, você tem quatro segundos e meio pra chegar ao outro lado da rua antes de os carros voltarem a rugir. Eu dou uma corridinha. Daqui a 30 ou 40 anos, já vai ser mais difícil.

(Claro que isso não é prioridade pras prefeituras, e nem vai ser enquanto continuarem representando a indústria da barbeiragem.)

Acho justo as prefeituras cobrirem as ruas de câmeras, ainda que com intenção arrecadatória. Punição aos abusos, ou ao menos a perspectiva de punição, educa. Mas ainda assim acho importante a reportagem do Grizotti. Ela revelou que:

1) Empresas que vendem os equipamentos permitem desmultar quem devia ser multado, a pedido de pessoas influentes. Isso é sacanagem da grossa e dá margem à corrupção.

2) Contratos eram obtidos na base da propinagem. Isso é corrupção.

Acho que tem que multar, mas tem que ser transparente e dentro da lei. É sacanagem baixar ridiculamente o limite de velocidade num ponto da rua, por exemplo, e instalar uma câmera pra multar quem em qualquer outro ponto da cidade estaria numa velocidade razoável.

Quer ajudar o planeta? Esqueça iniciativas marqueteiras

Mais uma vez, somos chamados a contribuir com uma iniciativa simbólica cheia de boas intenções e com praticamente zero de resultado. É a “Hora do Planeta“, que ocorre todo ano por iniciativa do WWF no último sábado de março. A intenção declarada é conscientizar sobre a necessidade de agir para contribuir menos para o aquecimento global.

OK, sem que cada um faça alguma parte a coisa não muda mesmo. Nada muda. Mas iniciativas como essa e a infame do xixi no banho, do SOS Mata Atlântica, são um troço mais útil para promover as ONGs do que para reduzir as emissões de carbono.

Não me entendam mal: considero sérias as duas ONGs e justas as suas causas. Sei da necessidade de visibilidade para garantir a arrecadação de fundos, e coisas assim chamam a atenção da imprensa, das redes sociais e etc. “Dá mídia”, como se diz.

Ocorre, porém, que a necessidade de elas aparecerem, a pretexto de botar o tema em discussão, deixa de lado seus aspectos mais importantes, os que realmente fazem a diferença todo dia.

Antigamente as ONGs se batiam nisso, mas era uma coisa que não chamava muito a atenção. “Ah, lá vêm aqueles chatos mandando eu deixar de fazer o de sempre”, é a reação comum. E compreensível. Aí elas apelam a marquetagens que pelo menos garantem uma visibilidadezinha temporária. Não chega a conscientizar muita gente, mas faz uma marola. Não acho que a qualidade disso seja grande, mas não sou eu que tenho que julgar.

De qualquer maneira, a numeralha nos ajuda a ver melhor a questão dos hábitos.

.

NA PONTA DO LÁPIS

Você já calculou quanto gasta de luz? Pegue lá sua conta pra ver. A minha, que vence nesta semana, deu 260 kWh. É um consumo meio alto, porque dois computadores ficam ligados a maior parte do dia para trabalharmos. É considerado baixo em São Paulo o consumo de menos de 220 kWh por mês. A tarifa é inclusive menor.

Em média, se considerarmos 24 horas por dia e 28 dias no mês de fevereiro a março, gastei 0,38 kW a cada hora (divida o total pela quantidade de horas e quantidade de dias). Mas é claro que a média coloca o pé no forno e a cabeça no freezer.

Isso leva em conta as horas em que todos os aparelhos exceto a geladeira, o rádio-relógio e o carregador de celular estão desligados. Consumo muito baixo, portanto. Isso também leva em conta as horas em que já escureceu, acendemos algumas luzes, ainda tem alguém no computador e já tem alguém tomando banho. Consumo muito alto, portanto.

Vamos dar uma mandrakeada nesse dado e dividir esses 260 kW por apenas umas 10 horas do dia, depois dividir pelos 28 dias mesmo. Ou seja: dando de barato que todo o consumo se concentra em algumas horas. Vai dar 0,9 kW gastos a cada hora. É mais que o dobro da média das 24 horas, portanto.

Então digamos que apagando a luz durante uma hora para colaborar com a campanha de marketing do WWF isso é o que eu economizaria para o planeta: 0,9 kW.

Você pode muito bem dizer que 0,9 kW não é nada, mas os meus 0,9 somados aos 0,8 de outro e aos 1,0 do vizinho acabam virando bastante coisa. E é verdade. Mas eu prefiro olhar por outro aspecto: o dos hábitos.

Desligar a luz por uma hora, ficando em paz com sua consciência planetária, e depois pegar seu carro ou ligar o ar condicionado é mais ou menos o mesmo que pensar que um Big Mac é um alimento balanceado porque tem alface, cebola e pepino. Ou mais ou menos o mesmo que aquela cena de “O Poderoso Chefão” em que os mafiosos vão à igreja pedir perdão por seus pecados pra depois sobrecarregarem o coveiro de trabalho.

Dois exemplos pra deixar isso mais claro.

.

A. O AR CONDICIONADO

Nesse calor, um ar condicionado sempre vem bem, né? Digamos que você tenha um de 7500 BTU (1000 watts, ou 1 kW). Para calcular seu consumo em kWh, você multiplica a potência pelo tempo em horas. Se você não o ligou durante uma hora, economizou 1 kWh. Ou seja: economizou mais do que eu economizaria desligando tudo em casa por uma hora.

Um ventilador de teto consome 120 watts, ou 0,12 kW. Se você trocou o ar condicionado pelo ventilador durante uma hora, você economizou 0,88 kWh. Quase toda a economia que eu teria desligando tudo na minha casa por uma hora.

Mudar hábitos é sempre mais eficaz do que fazer uma “boa ação” esporádica. E não põe azeitona na empada de marqueteiros.

Se você trocou o ar condicionado pelo ventilador durante todo seu sono de 8h, economizou 7,04 kWh. Se você fez isso durante o mês inteiro que veio de fevereiro a março, economizou 197,12 kWh – ou 75% da minha conta de luz.

Sim, eu não tenho ar condicionado em casa. Tem a ver com a renite, mas também tem a ver com ter feito as contas. Não necessariamente as contas do que economiza em kWh, mas do que economiza na conta de luz. Cada kWh em São Paulo, na minha faixa de consumo, custa R$ 0,29651000. Gastar 197,12 kWh a mais me tiraria do bolso R$ 58,44 a mais todo mês.

Veja aqui o consumo médio de outros aparelhos.

.

B. O CARRO

Outra comodidade de que eu não faço questão é o carro particular. Pra mim, é uma máquina de endoidar gente, ainda mais em São Paulo. Claro que preciso me deslocar como qualquer um, mas pra isso existe transporte público. Que tem todos os defeitos do mundo, ainda mais em São Paulo, mas pelo menos não sou eu que dirijo. Meu stress e os postes da cidade agradecem. Queisso, não há de quê.

Certa vez fiz as contas de quanto gastaria tendo um carro – prestação, combustível, seguro, estacionamento, manutenção, flanelinha, eventuais multas -, observei minhas necessidades de deslocamento e cheguei à conclusão de que ter carro sairia mais caro do que andar só de táxi. Obviamente, eu não ando só de táxi, então economizo bastante com isso.

Mas o carro também gasta energia, embora não elétrica. Gasta energia na forma de combustível. E emite mais carbono, e mais diretamente, do que a energia elétrica que se usa no Brasil. Nos EUA e na Europa a maior parte da geração vem de termelétricas, aqui a maior parte da energia vem de hidroelétricas.

É possível comparar os gastos de energia do combustível com os gastos de energia da luz, convertendo ambos para outra unidade, que é o joule.

Calcular isso na mão é complicado. Por isso eu uso um conversor como este. Um kWh, segundo ele, são 3600 kilojoules. Ou 3,6 milhões de joules.

Segundo o HowStuffWorks, um galão de gasolina (3,75l) tem 132 mil kilojoules. Portanto, um litro de gasolina tem 35,2 kilojoules. Ou quase o equivalente em joules a 10 kWh.

Segundo a Quatro Rodas, o Astra, um carro bastante popular no Brasil, roda 10 quilômetros por litro de gasolina.

Portanto, se você trabalha a 5km de casa e vai e volta de carro, sendo seu carro esse, você gasta um litro de gasolina por dia só nesse deslocamento. Em joules, isso seria o equivalente ao que eu gastaria em 11 horas de energia elétrica.

Ou seja: se você consome o mesmo que eu em energia elétrica, deixando o carro em casa um dia só você poupa ao planeta o equivalente a dez anos de sua participação nessas iniciativas marqueteiras.

Você pode argumentar que o dia mundial sem carro é só em 22 de setembro. Mas é outra iniciativa marqueteira. O que realmente faz a diferença são os hábitos. Fazer pequenas mudanças neles é muito mais eficaz e não tem dia marcado.

.

Faça as contas. A numeralha é sua amiga. As iniciativas marqueteiras é que são uma furada.

As bicicletas e o Carmageddon em Porto Alegre

Sexta-feira à noite, um sujeito descontrolado avançou com seu Golf  sobre um grupo de cerca de 100 ciclistas que pedalavam na Cidade Baixa, em Porto Alegre. Atropelou intencionalmente vários deles, derrubando bicicletas e ferindo mais de 10, fugindo logo depois. Pela placa do carro, o motorista foi rapidamente identificado como Ricardo José Neif, um senhor de 47 anos. A polícia diz que o dono do carro prometeu aparecer pra depor nesta segunda. (Ao jornal Zero Hora, a ex-mulher de Neif diz que foi “legítima defesa“, porque o carro estaria sendo agredido pelos ciclistas com tapinhas na lataria.)

A TV Globo obteve imagens da câmera de um prédio mostrando o momento em que o sujeito praticamente passou por cima dos ciclistas. Depois, mostrou as imagens do chão, quando ele passa por cima. Parece videogame, Carmageddon.E o pior: o cara estava com o filho de 15 anos do lado. Daqui a 3 anos, esse moleque vai estar dirigindo. Que lição ele vai tirar do resultado desse crime? A de que motorista pode tudo ou a de que respeito é fundamental?

Não obstante, a EPTC – responsável pelo controle do trânsito de Porto Alegre – queixou-se de os ciclistas “não terem avisado” que pedalariam naquele dia e local. Por isso, não havia guardas de trânsito acompanhando o grupo Massa Crítica – que toda sexta-feira programa “bicicletadas” saindo do mesmo lugar e fazendo o mesmo trajeto. Eles têm recomendações bastante detalhadas a seus participantes sobre como pedalar mais seguro no trânsito.

Seria excelente ter guardas de trânsito lá pra ir imediatamente pra cima do “monstrorista”. Mas precisava MESMO ter a supervisão da EPTC, como se fosse babá?

Nessa mesma linha, vi comentários tipo “quem manda sair de bicicleta no trânsito” – coisa que me lembra muito saber que uma mulher foi estuprada e dizer “também, com aquela sainha curta…”.

Um sujeito que respeito muito tuitou que esse negócio de pedalar é muito bonito de ver na Europa, mas que aqui “as cidades não estão preparadas” pra isso. De fato é bonito ver na Europa. Ainda ontem li que em Lyon, na França, estão dando prioridade às bicicletas. E também é fato que as cidades “não estão preparadas” pra isso, como também não estão preparadas para oferecer condições de moradia, saneamento, transporte público decente e segurança para seus moradores.

“Estar preparado” é questão de prioridade das autoridades. E nada costuma ser mais prioridade para elas do que o que pode fazer pingar dinheiro no caixa ou no bolso, tipo abrir estradas, repavimentar ruas e multar por excesso de velocidade. Outro dia, no Rio, ouvi um taxista reclamar que estava mais difícil convencer guardas de trânsito locais a aceitar propina pra aliviar multas. A carrocracia é um excelente negócio pra quem quer lucrar com ela. Pedestre e bicicleta, porém, não garantem cervejinha para o guarda, multa para os cofres públicos, relatórios otimistas para as montadoras e contratos de obras para quem financiou a campanha do prefeito.

Não precisa de muita coisa pra “estar preparado” pra magnanimamente deixar o pessoal andar de bicicleta, não. O Código de Trânsito Brasileiro prevê o uso de bicicletas como meio de transporte. Supõe-se que todos os motoristas devam conhecê-lo pra poder tirar carteira sem comprar. Ele prevê prioridade às bicicletas no trânsito:

Art. 58. Nas vias urbanas e nas rurais de pista dupla, a circulação de bicicletas deverá ocorrer, quando não houver ciclovia, ciclofaixa, ou acostamento, ou quando não for possível a utilização destes, nos bordos da pista de rolamento, no mesmo sentido de circulação regulamentado para a via, com preferência sobre os veículos automotores.

O pessoal da Massa Crítica sabe e usa isso pra dar visibilidade à noção de que bicicleta não é (só) pra lazer. Supõe-se que o órgão regulador do trânsito deva saber disso. Se não sabe, alguém dê uma cópia da lei a Vanderlei Cappellari, diretor da EPTC, por favor. URGENTE.

(Sr. Capellari, caso esteja lendo este post, o link do texto completo do CTB é este aqui. Grato pela audiência.)

Não sou ciclista, mas sou pedestre convicto. E ninguém está mais nu no trânsito do que o pedestre. Os ciclistas vêm logo depois em grau de nudez – e é talvez por isso que tão pouca gente se encoraje a sair de bicicleta. Segundo o Datasus, entre 2008 e 2010 e apenas no Estado de S.Paulo, houve 27.441 pedestres e 9.604 ciclistas internados por acidentes de trânsito. Foram internados 5.352 pedestres e 588 ciclistas após colidir com carros, mas 74 ocupantes de carro foram internados após colidir com pedestres ou animais e 28 foram internados após colidir com ciclistas (baixe o CSV aqui).

Ou seja: para cada ocupante de carro internado após bater em pedestre, 72 pedestres foram internados após bater em carro. Para cada ocupante de carro internado após bater em ciclista, 21 ciclistas foram internados após bater em carro.

Isso ocorre em boa parte porque as autoridades de trânsito dão prioridade absoluta para o carro, apesar de a lei recomendar prioridade para quem é menos protegido por lata em volta. O resultado disso são cidades atravancadas de castelos de lata. O pedestre que se exploda, em calçadas detonadas e dispondo de poucos segundos pra atravessar a rua (e mesmo assim com carros invadindo seu tempo). O ciclista que vá brincar no parque, porque a rua pertence ao carro.

Automóveis são vendidos com a sedução da velocidade, e esta vem em doses ilegais. O Golf que atropelou os ciclistas pode chegar a 188 km/h – e sequer é um dos veículos mais potentes à venda. Muito raramente, tanto em cidades quanto em estradas, é permitida uma velocidade de mais de 120 km/h. Isso permitida, porque a velocidade média dos carros em São Paulo é de 15 km/h. Por causa dos engarrafamentos.

Pra que tanta velocidade potencial, então? OK, antes de mais nada pra vender mais caro. Mas isso tem o efeito colateral de estimular deserdados da noção a pisar no acelerador.

Existe um excelente desenho da Disney em que o Pateta encarna um pacato cidadão que vira um bicho feroz atrás do volante. Quero crer que foi isso que aconteceu com o sr. Ricardo e ele não é psicopata fora do carro. Pessoalmente, estou curioso pra ver o que o Pateta vai dizer à polícia nesta segunda. Enquanto isso, fique com os vídeos com as vítimas da bicicletada e com o Pateta motorista. E conte aqui nos comentários como é sua experiência no trânsito.

Tombamento do Belas Artes, desabamentos do Rio

Na sexta-feira passada, enquanto o Brasil assistia ao resgate do que até agora são mais de 700 corpos na tragédia da região serrana do Rio de Janeiro, fui ao cinema Belas Artes, em São Paulo, pra encarar uma maratona de filmes ao longo da madrugada e uma homenagem.

O cinema, pra mim um dos melhores do Brasil, passa por bocados complicados. Vai abrir metrô do lado, talvez neste ano, talvez depois (por ora só atende UMA estação durante poucas horas), e o dono do prédio quis cobrar um aluguel muito maior que o então vigente. A ideia do dono do prédio, herdeiro do dono original, é alugar o imóvel para alguma empresa de que possa cobrar mais, tipo uma loja de departamentos. Na boca do metrô, seria um filé de vendas. Mas aí fecharia o cinema. Ou ele teria que procurar outro lugar. É a especulação imobiliária, enfim. Isso é ruim pra qualquer um que não seja o proprietário – que o diga quem procura apartamento levando em conta a localização e os serviços disponíveis.

Há uma choradeira na cidade sobre isso, especialmente entre o pessoal cinéfilo. Eu mesmo gosto do lugar, que tem várias vantagens: fica na esquina da Paulista, pára ônibus na frente dia e noite e tudo mais. Mas aí, como estamos no Brasil, já começou a gritaria pra pedir a ajuda do paizão Estado pra proteger o cinema da especulação imobiliária. É preciso proteger a arte, dizem.

Num intervalo do Noitão, escrevi no Twitter mais ou menos o seguinte: pra mim tanto faz cinema de rua ou cinema de shopping. A diferença é a mesma entre vinho de rolha e vinho de tampa rosca – o que realmente faz diferença é o que tem dentro. Nada impede cinema de shopping de passar filme bom. Aliás, tem vários que o fazem. A única coisa que eu realmente lamento, se fechar o cinema, é o espaço pra ficar de bobeira sem ninguém tentar te vender ou pedir alguma coisa.

Eu adorava sentar naquele janelão pra ler enquanto esperava minha mulher sair de algum filme iraniano que eu não teria saco de assistir. Ali eu tinha certeza que não viria um garçom perguntando se eu quero fazer algum pedido, nem um mendigo pedindo uns trocados pra comprar pão, nem um moleque querendo engraxar meus tênis, nem nada assim. Nem mesmo a balbúrdia de gente te olhando de cara feia por estar ocupando uma mesa de shopping quando eles estão com uma bandeja querendo sentar.

Claro que posso ficar de bobeira em casa. Mas em casa não corro o menor risco de ser encontrado por acaso por algum amigo ou conhecido pra botarmos o café em dia. Espaços assim são preciosos e cada vez mais raros.

Só que mesmo assim eu não acho que seja papel do Estado preservar esses lugares. Ele já renuncia a impostos por meio das leis de incentivo à cultura para o patrocínio do cinema, sem falar na produção e distribuição dos filmes nacionais. Agora também tem que ter o papel de proteger essa empresa da especulação imobiliária? Não adianta dizer “ah, mas então você acha que o Estado não tem que dar cultura pro cidadão”. Não se trata disso, até porque não “dá”: o ingresso lá não é nada barato.

O Brasil montou um sistema em que se espera que o paizão Estado resolva tudo. Que alfabetize as crianças no ensino básico, qualifique a elite no ensino superior, mantenha a qualidade de vida de todos num sistema universal de saúde, dê de graça até os remédios mais exóticos de que até os brasileiros que podem pagar precisem, salve bancos falidos, ajude empresas grandes a comprar empresas no exterior, garanta que as montadoras continuem tendo lucros a cada ano mais fabulosos mesmo no meio da crise e até mesmo proteja cinema da especulação imobiliária.

Aí nem quando a natureza interfere e 700 morrem sem precisar o pessoal se liga na verdade universal de que quem tenta fazer tudo não consegue fazer nada direito.

Sou completamente a favor de tentar convencer o proprietário a especular menos. Sou completamente a favor de manter o cinema aberto. Mas acho que botar o Estado no meio é querer matar rato com bazuca.

Surpresa com data marcada

Todo ano, a chuva tem data marcada para pegar os governos de surpresa. Em São Paulo, costuma ser em janeiro. Todo ano, os governos reclamam da fúria de Deus, São Pedro ou Thor, sei lá. A destruição acontece “por causa do excesso de chuvas”, assim como o congestionamento (desculpe, “lentidão”) no trânsito ocorre “por excesso de veículos”. É fato que chove. Mas também é fato que os danos poderiam ser reduzidos com um pouco mais de ação humana.

A cidade de São Luiz do Paraitinga (SP) é um excelente exemplo disso. Ela foi destruída pela chuva em 2 de janeiro de 2010. Oito em cada 10 dos moradores da cidade estavam desalojados. Parte do dinheiro enviado teria sido desviada. De notícia de agosto:

No total, foram arrecadados R$ 539.949,09. Levantamento feito pela Defensoria mostra que R$ 96 mil foram direcionados para a reforma do prédio da prefeitura e R$ 55 mil, para aquisição de medicamentos. Os R$ 388.460 restantes encontram-se “sem destinação definida”, segundo o município. (Leia também a nota de esclarecimento da prefeitura.)

No final do ano, ainda havia famílias sem casa, em parte por considerações de preservação do patrimônio histórico – justas, mas lentas. Em janeiro, voltou a chover, como sói ocorrer, e em 8 de janeiro desabaram barreiras na cidade. Choveu? Choveu. Mas a ação humana, a ação política, tem um papel importante nisso. Uma distribuição eficiente e rápida dos recursos pode reduzir os danos no ano seguinte. Mas chega março e os casos já foram esquecidos. Em ano eleitoral, quando chega o dia da urna em outubro, longe passam os problemas.

Enquanto chove, chovem notícias de desastres e mortes com as chuvas. Uma maneira de compreendê-las melhor é visualizando sua distribuição no território. O mapa abaixo, feito com dados publicados pela Defesa Civil de São Paulo, mostra os incidentes ocorridos desde primeiro de janeiro de 2011. Clique nos ícones para ler de que se trata.

Veja especialmente São Paulo e Região Metropolitana: