Como o Pato Donald revelou um segredo da CIA

Desde 1917, a CIA guardou a sete chaves um segredo estratégico: a receita de uma tinta invisível usada para comunicar segredos militares. Durante mais de 20 anos, pesquisadores brigaram na Justiça pra obter esses dados. Além de fazerem parte da história, hoje em dia há métodos mais seguros – tipo criptografia.

Ontem, o segredo caiu. A agência resolveu liberar os documentos secretos mais antigos de sua coleção. Leon Panetta, diretor da CIA, disse que esses documentos “ficaram em sigilo por quase um século até que recentes avanços tecnológicos tornaram possível liberá-los”. Arrã. Revelou porque foi obrigada, isso sim.

Os EUA têm uma lei de acesso a informações públicas desde 1966. Foi preciso brigar na Justiça pra obter os documentos, mas no final o governo foi obrigado a revelar. Mais de 80 países do mundo já têm leis de acesso.

No Brasil ainda não temos uma lei assim, mas as comissões pertinentes do Senado aprovaram ontem o projeto de lei que acaba com o sigilo eterno de documentos. Atualmente, até documentos sobre a GUERRA DO PARAGUAI são eternamente sigilosos. O projeto de lei deve ir a votação no Senado dia 3 de maio.

E a tinta?

São várias receitas, na verdade. Algumas são mais difíceis. Mas uma delas (a quinta deste documento)  fala em escrever com suco de limão e revelar com ferrocianeto de potássio.

Eu, porém, conhecia essa receita ultrassecreta desde a infância. Duvida? Pois leia este trecho do Manual do Escoteiro-Mirim, então (valeu @odildavid e @aliceviralata por me refrescarem a memória):

Pois vejam só. O Pato Donald agiu como um Julian Assange versão 1.0, furando um segredo militar de décadas. E sem precisar nem de ferrocianeto. (A lâmpada funciona. Já testei no século passado. O problema é queimar os dedos.) Isso me lembra da situação em que o Superman revelou segredos da Ku-Klux-Klan. Não conhece? Então leia aqui.

Esse tipo de segredo, quando revelado, só ilustra o que eu sempre digo sobre acesso a informações públicas: geralmente o sigilo não tem sentido. É desnecessário e só serve a fins burocráticos. Só serve a orgulhos políticos ou de outra sorte.

Por isso é que eu fico meio de cara quando leio títulos como este que o Estadão publicou ontem:

Câmara aprova projeto que dá prazo para divulgar documentos sigilosos

Isso significa que não adiantou toda a movimentação feita desde 2004 pela Abraji por uma lei de acesso a informações públicas. Nem os jornalistas, maiores interessados no assunto, sabem direito para que serve uma lei de acesso. Mesmo excelentes jornalistas, como é o caso da autora da reportagem aí linkada.

Mas qual é o problema com o título?

Simples. A lei não servirá para divulgar documentos sigilosos. Sim, eles também deverão ser divulgados. Mas ela serve para QUALQUER CIDADÃO ter acesso a TODOS os dados produzidos pela administração pública com o NOSSO dinheiro. O sigilo é a exceção. A lei define prazos para o sigilo, prazos após os quais os documentos devem se tornar de domínio público.

Hoje, na falta de regulamentação, até documentos naturalmente públicos são tratados como sigilosos, dependendo da boa vontade e conveniência política do barnabé da vez.

É complexo. Mas é uma briga que vale a pena. Vai saber quantos sucos de limão não tem nos documentos sobre a guerra do Paraguai, atualmente sob sigilo eterno.

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Data redonda: 14 de março, o dia do Pi.

No ano passado, tive a satisfação de editar para a Abril alguns volumes didáticos sobre matemática numa série voltada para a gurizada que faria o Enem. O material é recheado de histórias, curiosidades e notícias que conectam a matemática com coisas do dia-a-dia.
Uma das curiosidades tem a ver com o dia de hoje. Esta é uma versão do texto mais longa que a que efetivamente saiu publicada (a imagem não saiu no livro):

Dia do Pi

Nerds ao redor do mundo comemoram a data com festas recheadas de formas redondas, como pizzas e bolos. 

O dia 14 de março não é lembrado no mundo da matemática apenas pelo aniversário do gênio da física Albert Einstein. A data é considerada um “feriado nerd”, algo pouco convencional para os simples mortais, mas a causa é nobre.

O número do Pi é a constante matemática que representa a razão entre o comprimento da circunferência de qualquer círculo e o seu diâmetro, algo como 3,141592653… . Simplificado, o Pi é conhecido apenas como 3,14 e, por isso, é comemorado no 14º dia do mês 3, ou seja, 14 de março.

E para celebrar a razão matemática em grande estilo aritmético, engenheiros, físicos, matemáticos – ou simplesmente tarados pela teoria dos números – organizam festas com quitutes em formas redondas. Alguns preferem pizzas, outros as tradicionais tortas e bolos ou uma simples maçã. O que não pode é deixar o dia passar em branco. Para os simpatizantes dos números, o Dia do Pi é tão importante quanto o Dia dos Namorados, por exemplo.

A primeira festa em comemoração à data foi realizada em 1988, no museu Exploratorium, de São Francisco, nos Estados Unidos. A ideia foi do físico Larry Shaw, que trabalhava no museu e que depois ficou conhecido como o “Príncipe do Pi”.

No Twitter, postei o número Pi até a última casa após a vírgula que cabia nos 140 caracteres:
3.1415926535897932384626433832795028841971693993751058209 74944592307816406286208998628034825342117067982148086513 282306647093844609550582231
Se você quer conhecer mais sobre o Pi e outras histórias da matemática, recomendo vivamente “O Livro dos Números – uma história ilustrada da matemática“, de Peter Bentley. O autor não se preocupa em ensinar você como se eleva um número ao quadrado. Ele conta como surgiu a necessidade e como os antigos a resolveram.
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Eu, que na escola fui mais fã de história que de matemática, fiquei fascinado. Se a professora Carmen Regina, da sétima série, tivesse um décimo daquela didática, eu dificilmente teria cabulado justamente a aula dela pra assistir à estreia do filme “Batman”, aquele com o Jack Nicholson no papel do Coringa.
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Na Livraria Cultura, porém, o livro consta como “esgotado no fornecedor”. Mas sebo é pra isso, né? A Estante Virtual tem três volumes à venda.
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(Por transparência: eu ganho 4% do preço de qualquer coisa que você comprar no site da Livraria Cultura a partir dos links que eu coloco aqui para o site deles. Não sai nem um centavo mais caro para você. Já com a Estante Virtual, que efetivamente tem o livro, eu não tenho acordo nenhum. Meu compromisso com você: eu só indico livros de que eu goste. Vai atrás da dica quem quiser.)

Especulação imobiliária sideral: planeta Terra valeria US$ 5 quatrilhões

Você, que está sendo vítima da especulação imobiliária no Brasil, precisa saber o valor do planeta em que vive: US$ 5 quatrilhões, ou cerca de 100 vezes o PIB de todos os países.

O cálculo foi feito pelo astrofísico Greg Laughlin, que levou em conta para isso as condições de habitabilidade de planetas para onde, quem sabe um dia, a humanidade possa se mudar. Os fatores vêm dos dados descobertos pela sonda Kepler sobre outros planetas.

Pelas minhas contas, a considerar só a superfície, se a Terra (511 milhões de km² , incluindo oceanos) vale tudo isso, o Brasil (8,5 milhões de km² de superfície) valeria US$ 83,2 trilhões.

Lembre que o PIB mundial, segundo o FMI, é de US$ 61,9 trilhões. O do Brasil é cerca de 3 trilhões. Demoraria anos pra poder pagar o próprio imóvel, enfim.

Mal comparando, se a sua renda familiar é de R$ 30 mil anuais (R$ 2.307 por mês), o Brasil é um imóvel que custaria R$ 832 mil. Fui ao simulador de financiamento imobiliário da Caixa Econômica Federal pra ver se dava pra comprar. Disse que era um imóvel residencial, usado. Botei que tenho 3 anos de FGTS, pra facilitar o financiamento.

Daria pra comprar via carta de crédito, mas eles só financiam R$ 49 mil do valor do imóvel em 360 meses. A entrada teria de ser de R$ 782.313 – ou, convertido para os trilhões, de US$ 78.2 trilhões. Mais do que o PIB mundial, só de entrada. Ou seja: se o Brasil fosse um imóvel, seria impossível de se comprar com o PIB atual, nem com financiamento.

Comprar, nem pensar. Mas quem curte Raul Seixas e acha que a solução é alugar o Brasil pode calcular o preço usando um critério mais ou menos comum: o preço mensal do aluguel costuma ser de até 1% do valor de venda do imóvel. Digamos, então, que o aluguel do Brasil custaria US$ 832 bilhões (R$ 1,4 trilhões) por mês, ou mais que o PIB anual de São Paulo (cerca de R$ 1 trilhão em 2008). No ano, isso dá pouco mais da metade do PIB anual dos EUA (US$ 14,6 trilhões).

Vai ser difícil alugar, parece.

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Mas, enfim, voltemos à especulação imobiliária cósmica.

Eu tendo a achar fascinantes assuntos que tenham um pé no nerdismo. Mas também tendo a desconfiar de muitas extrapolações numéricas.

Antes de ler a entrevista do Laughlin ao Boing Boing, achei que era maluquice ou pelo menos uma tentativa desesperada de aparecer. Mas aí li detalhadamente a entrevista, olhei o que ele levou em conta, e achei a equação simplesmente fascinante:

bigequation.jpg

Esse monte de números assusta, mas Laughlin explicou tintim por tintim.

Primeiro, pega o custo da missão Kepler (US$ 600 milhões) e divide pela quantidade de planetas que podem ser encontrados (100). Ou seja: é o custo-benefício do que se gastou pra descobrir. É isso que vai permitir calcular o valor em dólares.

Aquela coisa que parece um T, dividido por meio bilhão de anos, é a idade da estrela em torno da qual o planeta gravita. Quanto mais velha, melhor, segundo Laughlin: “provavelmente  você deve se interessar mais por estrelas tão velhas quanto ou mais velhas do que o Sol, que oferecem mais tempo para os planetas desenvolverem vida”.

Multiplica isso pela relação entre a massa da estrela e a massa do planeta, elevada a um terço. Ou seja: quanto menor, melhor. “Quanto mais massiva é uma estrela, mais curta é sua existência, e menos oportunidade  ela dá ao surgimento da vida”, diz Laughlin. Outra vantagem é que estrelas menores são mais fáceis de estudar.

Aí vêm três expoentes elevados a quantidades negativas.

O primeiro (do logaritmo) busca calcular uma distribuição normal em torno da massa da Terra. Ou seja: se a Terra pode ser considerada como tendo as condições ideais para o surgimento da vida, como se distribuem as probabilidades de que valores de outros planetas permitam a vida? Quanto mais próximo do da Terra, melhor. Quanto mais afastado, mais difícil.

“Para a habitabilidade, eu acho que precisamos ser fortemente inclinados para planetas com a massa da Terra, porque realmente não sabemos muito sobre planetas cuja massa está entre a da Terra e a de Urano. Não existe nenhum no nosso sistema solar”, diz Laughlin.

O segundo expoente (o do Teff) leva em conta a quantidade de luz e calor que o planeta pode receber de sua estrela, e também gera uma curva normal em torno dos valores da Terra. Faz sentido: se for quente ou frio demais, prejudica. Se tiver luz demais ou de menos, atrapalha.

“Temos apenas um exemplo de planeta habitável, que é a Terra. Então, isto favorece planetas que são semelhantes em quantidade de energia que recebem de sua estrela. Se um planeta possivelmente ganha consideravelmente menos – como Marte – ou consideravelmente mais – como Vênus -, a equação não o trata bem”.

O terceiro expoente (o do 2009) leva em conta o tempo que levou, a partir de seu lançamento em 2009, para a Kepler descobrir o planeta. Quanto mais tempo demorar, significa que mais longe está o planeta, e portanto fica mais difícil de chegar. Mais ainda: quanto mais demora, menos novidade é. “Descobrir um planeta na zona habitável de uma estrela semelhante ao Sol no ano 2060 não tem chance de ser grande coisa”, pondera Laughlin.

O último termo, o do 2.5, verifica o quanto a estrela parece próxima da Terra, por seu brilho. E é isso que permite calcular o valor da Terra, segundo Laughlin. É ele que dá o valor da Terra para quem está aqui.

“Pense assim: se estamos sentados aqui na Terra, o nosso Sol é extraordinariamente brilhante no céu. O brilho do Sol torna esse termo enorme, se calcularmos essa equação para a Terra. Se fizermos para a Terra, temos uma resposta de cerca de 5 quatrilhões de dólares. E esse é basicamente o valor de toda a nossa infra-estrutura, acumulado ao longo da história. Essa não é uma declaração tipo ‘o homem que vendeu a Terra’, é colocar as coisas em perspectiva do outro lado. O de estar lá. Quanto vale um planeta habitável pra quem está lá? Bom, isto mostra que vale bastante.”

Pelas contas de Laughlin, Marte valeria US$ 14 mil. “É realista, no sentido que você duraria 5 segundos se pintasse lá”. O exoplaneta Gliese 581 g, descoberto em janeiro, teria um valor estimado de US$ 160. É pouco. Mas pode ser que haja planetas valendo bem mais, algo na casa dos bilhões. E talvez descobri-los faça valer a pena gastar milhões de dólares numa missão exploratória.

Um planeta que fosse descoberto na zona habitável de Alpha Centauri B, a mais próxima do sistema solar, poderia valer US$ 6 bilhões, segundo Laughlin. E ele acha que isso talvez fizesse valer a pena gastar essa grana pra ir até lá pra ver se é habitável. Quanto mais se aproxima do planeta, o valor também aumenta – vide o valor do planeta em que estamos.

Mas a mesma conta também sugere que ir a Marte – como os EUA já fizeram, com a missão Mars Rover – é um desperdício de dinheiro. Foram gastos US$ 820 milhões só na missão de 2007, por exemplo. Pra um planeta que teoricamente vale US$ 14 mil.