Quer ganhar no bolão do Oscar? Entenda a cabeça dos jurados

Domingo temos a festa do Oscar, e o esporte favorito dos cinéfilos nessa época é tentar adivinhar quem serão os vencedores.

Se você quer vencer um desses bolões, porém, precisa deixar seu gosto pessoal de lado.
Os vencedores de cada categoria precisam agradar a uma quantidade suficiente dos membros da Academia (algo entre 250 a 300 votos) para vencer. Eles levam alguns critérios em conta, e conhecê-los sempre ajuda na hora de pensar nas probabilidades.
A revista Variety conversou em novembro com gente que conhece por dentro a votação do Oscar para ver que critérios são esses. Algumas dicas:
  • “O sistema recompensa filmes que são favoritos populares, ainda que só sejam favoritos de uma pequena minoria, ao invés de um flme que seja muito apreciado por todos, mas não seja o favorito de todos”, disse Cyntia Swartz, da empresa Strategy PR. Se é um filme que não desagrada ninguém, mas também não ganha corações e mentes, pode ter certeza: dançou. “Babel era um filme divisivo, ou você amava ou odiava. Mas pra quem amava era o favorito”, diz Tony Angelotti, descrito como “estrategista de Oscar”, seja lá o que for isso.
  • O timing é importante, tanto no lançamento quanto na narrativa. Se o filme foi lançado muito cedo na temporada, pouca gente vai lembrar e as chances caem. Se for muito longo, quem vota fica com preguiça (eles também têm preguiça de ler legendas, aliás). Durante o filme tem que ter um ritmo que surpreenda, que balance a audiência. “Se tem uma coisa que os indicados compartilham, de certa maneira, são momentos vistosos contrabalanceados com momentos mais quietos”, disse Dave Karger, da Entertainment Weekly. Filmes muito homogêneos – ação o tempo inteiro ou marasmo toda vida – tendem a impressionar menos.
  • Também influi o fator pessoal, para o bem e para o mal. O “pedigree” do diretor e do elenco pesa, claro – quem é aclamado tende a chamar mais a atenção. Mas, se o diretor é polêmico – nível Roman Polanski -, também reduz as chances. Mesma coisa se o tema for mórbido, mas isso às vezes varia dependendo dos outros atributos do filme.
  • Ah, sim: um filme sobre o qual pesem expectativas tem boas chances. Se as expectativas forem pesadas demais, porém, elas podem acabar jogando contra. “Você sente o balão desinflar. Tem sempre aquela coisa na última hora que transforma ‘mal posso esperar’ em ‘não tô nem aí'”, diz Mark Harris, editor colaborador da revista New York.
Na dúvida, ao preparar seu bolão, pense em fazer duas listas: uma dos filmes que você gostaria de ver ganhar e outra dos filmes que você acha que ganhariam de acordo com esses critérios. Depois, compare suas apostas com os resultados oficiais. Diversão garantida, ou sua pipoca de volta.
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O campo de batalha da Web é o seu tempo

No Bubot, uma de nossas preocupações principais é como oferecer bons filtros para os usuários pouparem seu tempo na internet. Dois assuntos altamente comentados no Twitter ilustram um pouco onde queremos chegar com isso.

Ontem, durante o dia todo, vários amigos tuiteiros passaram fazendo piadinhas com o nome de uma garota que foi morar no exterior. A frase dita pelo pai da garota num comercial de empreiteira no Nordeste virou meme. Embora a maior parte das brincadeiras tenha sido em tom crítico, certamente os publicitários que fizeram a campanha estouraram champanhe ontem. Viralizou. Em menos de duas horas já tinha portal noticiando que a família anunciou a volta da garota ao Brasil. Aposto que vai ser um evento de repercussão nacional a chegada dela ao aeroporto.

Ao longo do domingo e segunda, o Twitter foi inundado de mensagens a respeito do que acontecia sob os edredons de um programa de alta audiência. Foi abuso sexual ou não? Deu polícia e tal. Houve portais que resolveram transformar isso em seu único assunto durante três dias. Resultado: 80% a mais de audiência para o programa criticado. Oitenta. Por. Cento. A. Mais. Sucesso, sem dúvida.

Existe um conceito que pouca gente entende na internet: o da economia da atenção (surgido neste livro interessantíssimo, há 11 anos). Há um bom artigo no Read/Write Web a respeito, mas vale a pena dar uma olhada no que significa em bom português.

O princípio fundamental da economia é que os desejos são infinitos mas os recursos são escassos. A economia é a ciência severa da escassez. Num mundo em que as formas de deixar o tempo passar são abundantes, o recurso mais escasso é o seu tempo. Você aloca seu tempo usando uma moeda chamada atenção.

Assim como na economia de reais você pode decidir se vai à balada ou se bota o dinheiro na poupança para usar depois, na economia da atenção você decide a todo instante o que fazer com seu tempo. Você pode assistir TV ou ler um livro ou curtir a família. Você pode prestar atenção no seu trabalho ou retuitar memes da internet.

“Tempo é dinheiro” é uma equação inversamente proporcional: se você tem pouco tempo, você gasta mais dinheiro (ir a um compromisso de táxi versus ir de ônibus); se você tem tempo sobrando, gasta menos dinheiro (espera para comprar passagens de avião quando há uma promoção). Geralmente somos mais ricos em tempo do que em dinheiro. Exatamente por isso tendemos a gastar mal essa moeda.

Assim como na economia de reais, a atenção “non olet”. Para o lojista do shopping center, não importa como você ganhou seu dinheiro; o que importa é que ele entre no caixa. Na economia da atenção, não importa se a atenção é positiva ou negativa. O que importa é fazer barulho, o que se traduz em cliques, vendas e pontos de Ibope.

Rebecca Black descobriu isso do jeito mais doloroso possível para uma menina de 13 anos. Ela gravou um clipe bobinho, infantil (afinal, qual era a idade dela, mesmo?), feito com a grana dos pais. Caiu na má boca do povo – teve 55 milhões de acessos em menos de um mês, com 90% de avaliações negativas e pilhas de sátiras. Mesmo com tanta vibe ruim, rendia R$ 27 mil por semana com vendas no iTunes e anúncios no YouTube. Em 2011, ela lançou mais um clipe.

Que o diga Avnash Kaushik, um papa da análise de métricas da Web, ao discutir as dificuldades de medir o “engajamento” do público online no livro “Web Analytics 2.0“:

“Dados quantitativos são limitados no sentido em que eles podem medir o grau de engajamento, mas não o tipo de engajamento.”

Ele define grau como um contínuo que vai da apatia (não vi, não cliquei) até o envolvimento acima da média com o objeto (passar o dia inteiro bombando a hashtag). O tipo é que pode ser positivo ou negativo, mas as métricas de Web não verificam isso. O clipe de Rebecca Black teve um alto grau de engajamento, ainda que do tipo negativo. Todos os 55 milhões que o assistiram viram impressões de anúncios do YouTube. Mais de 27 mil pessoas por mês compraram a música.

Com o que você gasta seu tempo? Já prestou atenção?

Existem algumas ferramentas como o RescueTime, que ficam no seu browser medindo o tempo que você passa em cada tipo de site. Os relatórios dele chegam a ser assustadores.

O tempo é efetivamente jogado fora quando você o gasta com algo de que não gosta. Eu conheço o sabor do prazer mórbido de falar mal das coisas de que não gosto. Afinal, eu era fã de heavy metal em pleno auge do pagode mauricinho dos anos 90, antes mesmo do Tchan. Mas naquela época falar mal não se traduzia em cliques e trending topics. Que são medidas de sucesso, enfim.

Em bom português: não gosta? Ignore, em vez de ficar criticando. Isso não significa que “é feio criticar”. Significa que a energia que você gasta criticando se traduz em sucesso para os fenômenos que você critica.

Na internet, “sua inveja faz o meu sucesso” não é frase de pára-choque de caminhão. É modelo de negócios.

A cauda longa das 500+ da Kiss

Todo ano, a rádio Kiss FM pede que os ouvintes votem nas 500 músicas que mais curtem na história do rock. Levantei os dados desde a primeira até a mais recente (2011), para ver quantas vezes as bandas aparecem em cada ano. Um dado curioso: em 2010, ano em que Paul McCartney veio ao Brasil, os Beatles tiveram seu recorde de indicações: 50.

O padrão é o da cauda longa: poucas bandas com muitas indicações, muitas bandas com pouquíssimas. Se a cabeça da distribuição é bem previsível, com Beatles e Queen e Led Zeppelin e Rolling Stones, lá pro final tem Ritchie Sambora e Ugly Kid Joe aparecendo uma só vez. Bandas que aparecem com 12 indicações ou menos dificilmente apareceram na lista em todos os anos.

Clique na imagem para ter acesso ao gráfico interativo.

Qual é o problema de ter um nome esquisito?

A Fundação Wecsley, do saudoso blog do Rui Goiaba, acaba de ganhar uma nova cliente: Kéthellyn Kevellyn, uma criança de pouco mais de um ano de idade moradora de Ibiá (MG). Sua mãe, Márcia Maria Costa da Silva, ficou frustrada quando o cartório não quis registrar a menina com esse nome criativo. Segundo o cartório, um nome estranho desses poderia causar situações vexatórias à menina no futuro.

Como a mãe insistiu no nome, ficou Kéthellyn Kevellyn mesmo. Pior, segundo a procuradoria, seria deixar a criança sem documentos por mais tempo. Ela se une aos irmãos Kéllita Kerolayne, 11, Kayck Kayron, 10, Kawãn Kayson, 7, e Kawane Kayla, 2. Segundo a mãe das crianças, complicado mesmo é ter nome comum e ver três atendendo quando se é chamado na rua. É um ponto de vista, eu diria.

Nomes criativos fazem parte da liberdade de expressão, e é difícil saber que tipo de problema um nome pode, ou não, acarretar. Já tentaram fazer estudos para verificar.

Um deles saiu em 2009. Uma pesquisa, noticiada pelo G1, indicaria que ter um nome incomum aumentaria a chance de delinquência de um jovem. Como é que é?

Sempre que eu vejo essas notícias muito taxativas e muito esdrúxulas, fico com o pé atrás. MUITO atrás. Porque eu sei que isso pode ter a ver com a nossa má compreensão da matemática e da metodologia de pesquisa.

Como a gente não entende muito de matemática, não entende muito bem a diferença entre correlação e causa. Correlação é o seguinte: 100% dos seres humanos bebem água, 100% dos humanos são mortais. Os dois fatores estão correlacionados, porque todo mundo que bebe água um dia morre. Mas, tirando afogamento, é difícil que beber água cause a morte. Há um fator externo que leva a beber água e a morrer. Por exemplo, todos os seres humanos bebem água e morrem porque têm um organismo que funciona de tal e tal jeito.

Existem métodos estatísticos para determinar se a correlação entre dois fatores é forte ou fraca. Isso pode dar dicas para compreendê-los. No Excel, existe uma função chamada “Correl”, em que você pode comparar duas colunas de dados. Por exemplo, as dimensões de educação e saúde do IDH. Você vai ver uma correlação alta (maior do que 0,7) entre os dois. Mas será que uma causa a outra?

A incerteza é sobre se é apenas uma correlação (o fator que garante educação e saúde está fora delas próprias, na administração) ou uma causação (mais educação, mais busca por saúde, menos doenças evitáveis). Essa é a diferença que dificilmente nós entendemos por sermos analfabetos numéricos. E é essa diferença que faz correlações cheias de condicionais virarem causações absolutas nas manchetes.

O economista Steve Levitt, co-autor do livro Freakonomics, é craque no assunto.

O capítulo 6 de seu livro (“A Roshanda by any other name”, no original) analisa a correlação entre nomes estrambóticos e o sucesso escolar. Ao ler o noticiário sobre os nomes que “causam” crimes, Levitt foi procurar o estudo original.

Logo de saída, no “abstract” , Levitt encontrou uma ressalva que derruba os títulos do G1 e do Washington Times: “Nomes incomuns possivelmente não são a causa do crime , mas podem estar correlacionados a fatores  que aumentam a tendência à delinqüência juvenil.”

Levitt traduz essa declaração para termos mais compreensíveis:

    É mais ou menos como dizer: sabemos que as pessoas que regularmente usam macacão laranja são mais possivelmente criminosas, porque macacão laranja vem a ser o uniforme da prisão estadual. Usar macacão laranja não é a causa da atividade criminosa, mas é altamente correlacionado ao envolvimento com crimes no passado.

Levitt também vê outros problemas na metodologia do estudo.

Os autores calculam a probabilidade criminosa de um nome ao contar quantos criminosos há com um nome estrambótico X e dividi-la pela quantidade total de cidadãos que portam aquele nome. Como a quantidade de criminosos dentro do total da sociedade é relativamente pequena, isso ao mesmo tempo infla a percentagem de Wecsleys criminosos, desinfla a quantidade de Joões bandidos (a quantidade de Joões com folha corrida deve ser relativamente pequena em comparação com o total dos Joões) e deixa completamente de lado os outros nomes estrambóticos que não têm passagem policial.

Enfim: que problemas pode trazer um nome desses?

Dá pra dizer que Kéthellyn certamente vai perder mais tempo na vida soletrando seu nome. Podia aproveitar esses preciosos segundos para alguma coisa mais útil, mas enfim.

Caso o Orkut ainda exista quando ela estiver mais velha, certamente vai participar da comunidade “Ninguém escreve meu nome direito”.

Talvez receba um ou outro apelido.

Talvez pegue raiva da mãe pela sua criatividade.

Talvez faça como uma das filhas da Baby Consuelo, que se chamava Riroca e trocou de nome para Sarah Sheevah, e mude seu nome.

Não dá pra saber.

No Google Buzz, discutindo a notícia, o leitor José Agripino disse que talvez o ideal mesmo fosse facilitar a troca de nome para quem quiser. Hoje não é fácil, ele diz.

E você, o que acha?

Eu sou um criminoso: quebrei a lei seca do Kassab

A discussão sobre três proibições me chamou a atenção nos últimos dias. A lógica de todas elas é a mesma, e é por essa mesma lógica que sou contra todas elas da maneira como estão propostas. O motivo está ilustrado pela quarta proibição.

1)      Após o ataque do assassino de Realengo, o Senado quer mostrar serviço e empurrar um novo referendo pra ver se DESTA VEZ a população aceita a proposta de proibir a venda legal de armas no país, sob a comoção da morte de 12 jovens.

2)      O ministro Ricardo Lewandowski, atual presidente do TSE, defendeu a proibição das doações eleitorais por parte de empresas, na tentativa de corrigir o desequilíbrio no financiamento de candidatos.

3)      O líder do PT na Câmara, Paulo Teixeira, publicou em seu site um vídeo defendendo a liberação do plantio de maconha por cooperativas de usuários. Num arroubo de grêmio estudantil, disse que comer no McDonald’s pode ser “talvez o maior crime”.

Não uso armas (nem pretendo), não fumo maconha (nem pretendo) e não faço doações eleitorais (nem pretendo). Mas gosto de beber cerveja com moderação. Exatamente por isso, me tornei neste final de semana um perigoso infrator da lei seca do prefeito Gilberto Kassab, em São Paulo.

A cidade promoveu a Virada Cultural – uma série de shows variados ao longo de 24 horas onde tem shows pra todos gostos, inclusive o meu. Por exemplo, o do incrível Brian Auger e sua família:

Neste ano, porém, Kassab resolveu proibir a venda de bebidas alcoólicas no evento. Em parte a atitude dele foi uma reação ao nojento “vinho químico” vendido baratinho por camelôs a deserdados da noção que não gostam das próprias entranhas. Em parte era talvez uma tentativa de gastar menos com a varrição da cidade depois.

Fazia calor. Os shows eram bons. O povo queria tomar cerveja gelada. E a cada cinco metros se achava alguém vendendo. No começo eram sujeitos encostados em portinholas, timidamente arrastando sacolas térmicas e oferecendo discretamente seu produto. Depois das 10 da noite, já se viam camelôs com isopor na cabeça. Perto da meia-noite, já se via jovens caídos ao lado de garrafas de vinho químico. E, fora dois casos isolados em meio a quatro milhões de pessoas curtindo, a Virada foi pacífica. O Kassab até fechou alguns bares, a prefeitura apreendeu algumas toneladas de bebida. Mas ninguém deixou de beber só porque o Kassab mandou.

É exatamente esse o problema das proibições. Você pode sufocar a oferta legal, proibindo. Ocorre, porém, que você não sufoca a demanda – seja por cerveja, seja por maconha, seja por financiar político. Quem quer, acha. Se não achar legalmente, vai achar no mercado ilegal. E o mercado ilegal é surpreendentemente mais eficiente do que qualquer mercado legal.

Que o diga Moisés Naím, autor do livro “Ilícito”. É uma leitura ao mesmo tempo esclarecedora e perplexa. Esclarecedora porque mostra a dinâmica do mercado negro. Perplexa porque simplesmente não existe saída simples para os problemas trazidos por ele – e as proibições, por mais simples que sejam de entender, simplesmente acabam por fomentar o mercado negro. No capítulo “Por que estamos perdendo”, ele diz:

“A guerra contra os traficantes coloca a força dos governos contra a força do mercado. A história e o senso comum dizem que, no longo prazo, as forças do mercado tendem a prevalecer sobre as dos governos. Nesse sentido, o tráfico moderno tem muito em comum com o antigo contrabando que apareceu assim que os governos começaram a impor barreiras comerciais. As commodities valiosas e os métodos de comércio podem ter mudado. Mas os incentivos econômicos são antigos.”

Como discorri no post anterior, os incentivos econômicos são o que importa observar.

O atirador do Realengo não comprou suas armas em loja. Comprou por baixo dos panos, até porque hoje para comprar uma arma legalmente é preciso apresentar muita documentação. O estatuto do desarmamento atual já torna bastante difícil a vida de quem quer comprar arma legalmente, e isso é bom. Em dez anos, o estatuto reduziu em 90% a quantidade de armas vendidas legalmente. A lei poderia se tornar mais exigente e dificultar ainda mais. Por exemplo, sei lá, exigir que quem quer ter porte se apresente todo dia às 18h à Polícia Federal pra contar seu dia ao delegado. Ou responsabilizar ex-donos de armas roubadas usadas em crimes. Só que nada disso vai reduzir os crimes se não se agir decentemente sobre o mercado ilegal de armas.

Os usuários de maconha de que o deputado Paulo Teixeira fala, plantando em casa, não precisariam recorrer a traficantes. Porque os que querem fumar maconha sempre sabem bem onde achar, e não é em loja. Comprando de traficantes, financiam o crime. Esqueça o arroubo de grêmio estudantil sobre o McDonald’s e o argumento do deputado não parece irrazoável.

No caso das doações eleitorais, não consigo entender como raios alguém imagina que proibir o caixa-um pode eliminar o caixa-dois. OK, as doações de empresas são desequilibradamente maiores que as de pessoas físicas. Mas elas ao menos são mais ou menos transparentes, fora aquela malandragem de doar para o diretório do partido e no dia seguinte o partido doar para o candidato de escolha das empresas.

Se as empresas não puderem doar com seu próprio nome, vão doar por meio das pessoas físicas de seus diretores. E qualquer um que já tenha tentado decifrar a composição societária de uma empresa grande sabe o quanto isso é difícil. Quanto maior a empresa, mais complicado. Fora a chance de doar via laranjas.

Ora, as doações deviam ser MAIS transparentes, de preferência em tempo real. Doou hoje? Publica obrigatoriamente no sábado, pra todo mundo saber quem doou pra quem. Pra todo mundo saber quem está tentando influenciar quem. Porque aí é possível ver que políticos estão incorrendo no conflito de interesses de beneficiar seus doadores indevidamente por meio de sua atividade parlamentar.

Se isso for proibido, será impossível ter sequer indícios. Mas, assim como a minha cerveja de sábado, não vai ter proibição que impeça de rolar.

Noção de risco, essa arte pouco apreciada

“Isso aí é um Fokker 100? Ah, essa não. Foi esse mesmo avião que estava no acidente da TAM. Nunca mais compro passagem desta empresa aérea.”

Ouvi a frase hoje pela manhã, quando embarcava em Brasília voltando para São Paulo. O acidente com o Fokker da TAM ocorreu em 1996. Ao todo, houve apenas 9 acidentes nesse modelo de aeronave (dos quais só três com mortes). O de 1996, com 99 vítimas, foi o pior de todos – elas são mais da metade das 178 mortes nesses acidentes com Fokker. É irracional o medo dela, não? Quase perguntei que modelo de carro ela tem, pra levantar casos de acidentes com ele.

(Veja aqui uma tabela com 450 acidentes de avião ocorridos no Brasil desde 1942.)

Isso me lembrou várias manifestações que ouvi nos últimos dias, que demonstram como o pessoal não tem um feeling muito apurado pra avaliar riscos. Pegue por exemplo a frase do tio de um dos alunos mortos na escola Tasso da Silveira, publicada no sábado na Folha:

“Eu também tenho um filho. Como posso mandá-lo para a escola na segunda-feira? Como posso ficar tranquilo?”

Compreendo que o filho do entrevistado possa ter péssimas lembranças ao voltar à escola onde o primo foi morto. Ninguém gosta de expor um filho a esse tipo de lembrança – e o trauma das crianças é perfeitamente compreensível. Poxa, podiam ser elas, né?

O “como posso ficar tranquilo” é que me intriga.

Ora, se a preocupação que lhe tira a tranquilidade é a possibilidade de outro atirador aparecer na escola, as chances são absurdamente baixas. O ataque aparentemente não era uma ação organizada contra a escola, e sim uma coisa pessoal lá do atirador. Como ele se matou, não existe muita chance de ele voltar lá. Houve tiroteio lá perto hoje, mas foi um assalto a banco. Pode acontecer em qualquer lugar, infelizmente.

Pior. A escola Tasso da Silveira estará vigiada pela polícia e pela imprensa nos próximos dias. Outras, nem tanto. Isso torna a Tasso da Silveira mais segura do que a maioria das outras. Nas outras, sempre pode um deserdado da noção resolver ir de arma, sabe-se lá por que motivo, mas possivelmente impressionado com a atenção dispensada nacionalmente ao assassino carioca. Aconteceu hoje em Florianópolis. Pode acontecer em outros lugares.

Isso pode ser a desculpa ideal para uma criança preguiçosa que não quer acordar para ir estudar. “Tá louca, mãe? Vai que um ex-aluno aparece lá de arma na mão…” (Pior: por observação, sei que muitas considerariam isso sensato.)

Em termos de debate público, porém, é completamente contraproducente.

***

O canadense Dan Gardner escreveu um livro precioso, cuja leitura é importante em semanas como esta, cheias de especialistas palpitando sobre tudo. Seu título é “Risco – a ciência e a política do medo“. Logo no prólogo, Gardner conta uma das reações ao 11 de Setembro. Com medo de voar, muita gente passou a pegar seu carro e ir para a estrada.

“Só que ninguém falou a respeito do aumento explosivo das viagens de automóvel. Por que falariam? Era secundário. Havia ameaças mortais com que se preocupar. Uma coisa que nenhum político mencionou foi que as viagens aéreas são mais seguras do que as viagens terrestres. Sensivelmente mais seguras – tanto que a parte mais perigosa de um típico voo comercial é o percurso até o aeroporto. Na verdade, a diferença em termos de segurança é tão grande que os aviões continuariam sendo mais seguros que os carros mesmo que a ameaça de terrorismo fosse inimaginavelmente pior do que ela realmente é: um professor americano calculou que, mesmo que os terroristas estivessem sequestrando e derrubando um jato de passageiros por semana nos Estados Unidos, uma pessoa que voasse uma vez por mês durante um ano teria apenas uma chance em 135 mil de morrer em um sequestro – um risco pequeno se comparado à chance anual de uma em 6 mil de morrer em um acidente de automóvel.”

Isso me lembra em boa parte argumentos que ouço sempre que defendo que faz bem não ter carro. Eu não tenho por opção, por pesar vários bons motivos: um carro a mais na rua é um carro a mais engarrafando a rua; transporte público (ônibus, metrô e até táxi) tá na rua pra isso mesmo; não dirigindo, posso aproveitar o tempo dos deslocamentos pra atualizar as leituras.

“Ah, mas eu prefiro gastar mais pra ter o meu carrinho a ficar pegando ônibus e ser assaltado”, já ouvi. Ora, eu ando de ônibus desde criança. Nunca fui assaltado em ônibus. Talvez um dia seja, embora prefira não – há gente que é, sim, mas não é todo mundo e nem é todo dia.

Eu não conheço ninguém que tenha sido assaltado no ônibus, mas conheço quem tenha sido assaltado no carro. Conheço quem tenha tido o carro roubado – o que é um prejuízo maior do que ter a carteira roubada no ônibus. E conheço mais gente que sofreu acidente de carro do que de ônibus. Aliás, um levantamento recente mostrou que armas de quatro rodas matam muito mais do que armas de fogo em alguns estados.

No limite, precisamos conviver com a noção de que só não corre risco quem não vive. Dá pra avaliar riscos racionalmente, com algum bom senso e um pouco de pesquisa. Riscos avaliados podem ser reduzidos. O lado triste disso é que meus colegas de profissão não ajudam muito a dar a medida das coisas. Especialmente com o tipo de cobertura que fazem de casos como o do tiroteio da escola Tasso da Silveira.

O que não dá é pra deixar o medo mandar em nós.

No filme “Elsa & Fred“, há uma frase que resume bem isso. Elsa, uma viúva divertida e trapalhona, conhece Fred, um viúvo quietão e hipocondríaco. Acho que a frase vem numa cena em que Fred diz que não pode comer uma sobremesa por causa do colesterol. Elsa diz:

— No tienes miedo de morirte; vos tenés miedo de vivir.

Quem tem medo de tudo não vive.

***

EDITADO: Para você não pensar que eu quero dizer que sou bonzão e sei evitar todos os riscos, vale eu contar uma história de 2006. Fui ao Rio de ônibus e, pra não acordar muito cedo meus amigos, resolvi caminhar pela beira da praia com minha mulher. No aterro do Flamengo, entrando pelo finalzinho da Rio Branco. Em certo trecho, um sujeito veio nos assaltar com uma faca. Eu reagi. O cara me esfaqueou o braço. Podia ser pior.

Pessoas passavam ao redor e não fizeram nada. Mais tarde, pensando no que houve, caiu a ficha de qual era meu fator de risco. Nós éramos os únicos trouxas que não estavam de roupa de banho e além de tudo usavam mochila. Tudo em nós gritava “ATENÇÃO, DOIS TROUXAS DE FORA DA CIDADE”. Estando vestidos, éramos os únicos que corriam o risco de estar com uma carteira – ou máquina fotográfica, que foi o que o sujeito levou.

Passei um tempo com medo de qualquer mendigo que me encarasse na rua. Aí comecei a avaliar o que eu podia ter feito pra não acontecer mais aquilo. Onde? Quando? Vestido como? Andando como? E é aí que está o que realmente dá pra tirar de lições de uma coisa dessas.

Data redonda: 14 de março, o dia do Pi.

No ano passado, tive a satisfação de editar para a Abril alguns volumes didáticos sobre matemática numa série voltada para a gurizada que faria o Enem. O material é recheado de histórias, curiosidades e notícias que conectam a matemática com coisas do dia-a-dia.
Uma das curiosidades tem a ver com o dia de hoje. Esta é uma versão do texto mais longa que a que efetivamente saiu publicada (a imagem não saiu no livro):

Dia do Pi

Nerds ao redor do mundo comemoram a data com festas recheadas de formas redondas, como pizzas e bolos. 

O dia 14 de março não é lembrado no mundo da matemática apenas pelo aniversário do gênio da física Albert Einstein. A data é considerada um “feriado nerd”, algo pouco convencional para os simples mortais, mas a causa é nobre.

O número do Pi é a constante matemática que representa a razão entre o comprimento da circunferência de qualquer círculo e o seu diâmetro, algo como 3,141592653… . Simplificado, o Pi é conhecido apenas como 3,14 e, por isso, é comemorado no 14º dia do mês 3, ou seja, 14 de março.

E para celebrar a razão matemática em grande estilo aritmético, engenheiros, físicos, matemáticos – ou simplesmente tarados pela teoria dos números – organizam festas com quitutes em formas redondas. Alguns preferem pizzas, outros as tradicionais tortas e bolos ou uma simples maçã. O que não pode é deixar o dia passar em branco. Para os simpatizantes dos números, o Dia do Pi é tão importante quanto o Dia dos Namorados, por exemplo.

A primeira festa em comemoração à data foi realizada em 1988, no museu Exploratorium, de São Francisco, nos Estados Unidos. A ideia foi do físico Larry Shaw, que trabalhava no museu e que depois ficou conhecido como o “Príncipe do Pi”.

No Twitter, postei o número Pi até a última casa após a vírgula que cabia nos 140 caracteres:
3.1415926535897932384626433832795028841971693993751058209 74944592307816406286208998628034825342117067982148086513 282306647093844609550582231
Se você quer conhecer mais sobre o Pi e outras histórias da matemática, recomendo vivamente “O Livro dos Números – uma história ilustrada da matemática“, de Peter Bentley. O autor não se preocupa em ensinar você como se eleva um número ao quadrado. Ele conta como surgiu a necessidade e como os antigos a resolveram.
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Eu, que na escola fui mais fã de história que de matemática, fiquei fascinado. Se a professora Carmen Regina, da sétima série, tivesse um décimo daquela didática, eu dificilmente teria cabulado justamente a aula dela pra assistir à estreia do filme “Batman”, aquele com o Jack Nicholson no papel do Coringa.
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Na Livraria Cultura, porém, o livro consta como “esgotado no fornecedor”. Mas sebo é pra isso, né? A Estante Virtual tem três volumes à venda.
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(Por transparência: eu ganho 4% do preço de qualquer coisa que você comprar no site da Livraria Cultura a partir dos links que eu coloco aqui para o site deles. Não sai nem um centavo mais caro para você. Já com a Estante Virtual, que efetivamente tem o livro, eu não tenho acordo nenhum. Meu compromisso com você: eu só indico livros de que eu goste. Vai atrás da dica quem quiser.)

Jack Kirby, um Shakespeare em quatro cores e muita retícula

Sou fascinado pela obra de Jack Kirby. Se você nunca tinha ouvido falar dele, vai ouvir falar neste ano por conta de dois lançamentos cinematográficos.

Foi ele quem criou o Capitão América há 70 anos e o tirou do gelo pela mão dos Vingadores em 1964. Tive a honra de traduzir as primeiras histórias dessa segunda fase para a Panini no Brasil. O filme do Capitão, “O Primeiro Vingador“, estreia em 27 de julho nos EUA.

Também foi Kirby, ao lado do hoje popstar Stan Lee, quem resgatou da mitologia nórdica o Thor, deus do trovão e filho de Odin. Essas primeiras histórias também saíram aqui pela Panini. O filme “O Poderoso Thor” estreia em 29 de abril por aqui.

Mas na verdade não são bem esses dois personagens que me fascinam na obra de Kirby, embora haja muito neles que eu admire. É o conjunto. É o quanto ele conseguia resumir num personagem, numa ideia, questões universais. Os personagens foram muito atualizados desde a passagem de Kirby, mas existe um motivo para eles permanecerem. Esse motivo, quer-me parecer, é a universalidade que Kirby procurava imprimir em seu trabalho.

Pegue o Hulk, por exemplo: o pacato cientista que, após um acidente radioativo, passa a se tornar um monstro sempre que perde as estribeiras. A luta pelo autocontrole, o “ter outro por dentro”, é um dilema universal.

Mas os meus favoritos mesmo são os habitantes de Nova Gênese e Apokolips, criados por ele nos anos 70 para a DC Comics. Especialmente o conceito de “Equação Antivida” dá muito pano pra manga.

Só que a arte de Kirby não envelheceu muito bem. Seu texto soa antiquado. Outro dia vi alguém chamando o sujeito de “rabiscador” num fórum de quadrinhos. Li o mesmo adjetivo aplicado ao mesmo artista em 1985, quando a editora Abril publicava sua fase no título solo de Jimmy Olsen (a “saga do DNA”). Lembro de levar um daqueles gibis para a sala de aula em 1991, quando a professora de ciências do segundo grau explicava o que era genética.

Não sou desses leitores puristas que consideram sacrilégio ouvir esse tipo de adjetivo aplicado a artistas que admiro. Um desses leitores, ao ouvir coisas do gênero, disse algo como “você nunca vê nenhum especialista dizer que Dostoiévski é datado”. E é verdade: porque não precisa dizer, está na cara, de certa maneira. É muito mais pedregoso do que o que é facilmente digerível por alguém que vive numa ração de TV e games. Não é pra consumo imediato.

Desenvolvi esse raciocínio num  fórum de quadrinhos, o da Panini. Copio abaixo o que escrevi. O que você pensa a respeito? Escreva aqui nos comentários.

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Lógico que ler o original “bruto” resulta pedregoso pra quem não está acostumado. Aliás, Machado de Assis, que é muito mais recente, costuma resultar pedregoso para os adolescentes obrigados a lê-lo para o vestibular. Por isso surgem edições adaptadas. Há algum tempo minha mulher fazia um curso de inglês e foi ler uma edição de “O Mercador de Veneza”. Ela não sabia ser adaptada, mas eu notei já no primeiro parágrafo:

ANTONIO [unhappily]: I don’t know why I’m so sad. My sadness makes me tired – and you say that it makes you tired, too. I don’t understand what’s causing it. It makes me feel so stupid that I don’t recognize myself.

Abri o original:

ANTONIO
In sooth, I know not why I am so sad:
It wearies me; you say it wearies you;
But how I caught it, found it, or came by it,
What stuff ‘tis made of, whereof it is born,
I am to learn;
And such a want-wit sadness makes of me,
That I have much ado to know myself.

O motivo pelo qual essas obras permanecem é simples: seus temas e situações são universais. Ciúme doentio existia quando Shakespeare escreveu Macbeth e continua existindo. E atire a primeira pedra o fã de quadrinhos, essas modernas novelas de cavalaria, que nunca ouviu críticas semelhantes às que Dom Quixote ouvia antes de se armar cavaleiro e partir a esmo com seu pançudo amigo.

De maneira mais ou menos parecida, os gibis já dos anos 60 – meros 50 anos atrás – estão claramente datados. Porque, como tudo no século 20, a linguagem dos quadrinhos evoluiu muito rapidamente. Se for pensar, bem no meio do caminho entre a criação do Quarteto Fantástico e o dia de hoje tem um Watchmen. Exatamente no meio. E é muito clara a diferença de linguagem entre o Quarteto e Watchmen, ou mesmo entre um gibi de hoje e o que se fazia em Watchmen.

Só que o que faz essas histórias permanecerem são os temas de que elas tratam. E (acho) ninguém foi tão feliz ao tocar nesses temas primais quanto o Jack Kirby. Hoje ele soa datado facilmente. Ainda outro dia vi um cara chamando o sujeito de “rabiscador” num tópico de avaliação de um especial da DC. Mas, caramba, olha o que dá de pano pra manga tudo o que ele criou. O dilema do Bruce Banner (adaptado do Robert Louis Stevenson, OK, mas ainda assim), o conceito de Equação Antivida (que o Morrison compreendeu como ninguém, mas não soube mastigar bem e ficou com fama de matão), a própria questão dos mutantes como minoria (que o Morrison também soube reinterpretar como ninguém).

Tentar ler histórias antigas com os olhos de hoje causa coisas como a censura a Mark Twain nos EUA e a rotulação de Monteiro Lobato como racista no ano passado. (Minha opinião a respeito: claro que ele era racista – o Brasil era um país completamente racista na época em que ele escreveu -, mas a obra dele é maior que isso.) Daqui a pouco ainda vão querer vetar Machado de Assis, um escritor do século 19, por ser machista. Lembre o quanto citaram o autor no Twitter por causa do nome da vice-primeira-dama, em janeiro.

Enfim. Não julgo mal quem não consiga curtir essas histórias antigas que deram origem a tudo. São pedregosas, como é pedregoso um Shakespeare no original. O próprio Shakespeare hoje acho que é consumido mais em versões adaptadas do que no original – esse fica só para os fanáticos ou estudiosos. A Marvel andou fazendo há uns anos um esforço de “modernizá-las” com artistas recentes. E de dois em dois anos a DC reinterpreta a origem do Superman. Faz parte. As histórias antigas muitas vezes precisam ser lidas com um olhar mais habituado.

Pra iniciantes, acho que tem que apresentar uma coisa mais moderna, com uma linguagem que lembre mais a do cinema atual. Claro que tem caras que conseguem ser quase atemporais, tipo um Eisner pós-Spirit. Mesmo alguma coisa do Spirit é atemporal, mesmo sendo tão antiga quanto a origem do Aranha. Vai muito de feeling.

Ao tentar apresentar um quadrinho “clássico” pra um iniciante, apenas por ser “clássico”, corre-se o mesmo risco de obrigar adolescentes acostumados a jogar videogame a ler Machado de Assis porque “precisa pro vestibular”. Passa por “chato” e o cara desiste, por mais que a obra seja perfeitamente curtível e muito divertida a olhos mais acostumados.

Ainda sobre o Belas Artes e a especulação imobiliária

O Valor publicou hoje na internet uma notícia interessante que joga luz sobre a especulação imobiliária por trás do contencioso do Belas Artes. Segundo a urbanista Raquel Rolnik, os proprietários do imóvel querem aumentar o aluguel em 138%, de R$ 63 mil para R$ 150 mil – ou seja, querem aumentar o aluguel em 138%.

Isso é muito dinheiro por qualquer ângulo que se possa olhar. Levantamento do Conselho Regional de Corretores de Imóveis de São Paulo (CRECI-SP), porém, noticiado pelo Valor, mostra que tem gente enfrentando coisa ainda pior. E sem poder tentar tombar imóvel. Segundo o CRECI, os imóveis usados valorizaram até 269% no ano de 2010 em algumas partes de São Paulo.

Da notícia:

A maior alta foi vista nos apartamentos de médio padrão, com tempo de construção entre 8 e 15 anos, situados em bairros da Zona B, como Aclimação, Brooklin, Chácara Flora, Sumaré e Vila Mariana. O preço do metro quadrado saltou de R$ 1.250 em janeiro para R$ 4.613,60 em dezembro.

Outros quatro tipos de imóveis, em regiões diversas da capital paulista, tiveram valorização acima de 100% em 2010. O percentual supera em grande escala o retorno do ouro (32,26%), da poupança (6,81%) e do Ibovespa (1,04%) no período.

Veja só: investir em metros quadrados deu mais retorno que o ouro e que a Bolsa. Pouco antes, deu que os preços pararam de subir no começo de janeiro. Contradição? Não. Tava alto demais, como se viu no Belas Artes. Aí é que vem o medo.

O aumento de mais de 100% no caso do Belas Artes, cujo imóvel além da excelente localização atual ainda deve valorizar muito por conta do metrô, acaba não sendo excepcional, infelizmente. Enquanto o cinema, um dos melhores de São Paulo, está pleiteando algum tipo de tombamento, outros locatários atingidos pela especulação imobiliária desenfreada geralmente não podem sequer espernear. No máximo, podem arrumar suas trouxinhas e ir morar mais longe.

Estou mais preocupado com o aluguel dos não-tombáveis – como eu e você – do que com o aluguel do Belas Artes. Será que vem uma bomba aí nesse mercado? Não sou especialista no assunto, longe disso, mas observo com o interesse de quem paga aluguel. E observo o que os especialistas estão fazendo.

Sam Zell, por exemplo, é um especialista. Dono de uma empresa que investe forte em imóveis, ele aportou no Brasil no auge da crise causada pela explosão da bolsa imobiliária dos EUA. Nos últimos 5 anos, segundo o Estadão, ele colocou meio bilhão de dólares nas empresas imobiliárias Gafisa, Bracor, BR Malls, AGV Logística e Brazilian Finance & Real Estate. Veio mais forte a partir de 2007, quando estourou em sua terra natal a bolha dos imóveis. Desde outubro, porém, está vendendo suas participações por aqui.

Caras como ele não costumam perder dinheiro – ele comprou o jornal Los Angeles Times, para o qual presto serviços desde 2006, e passou os últimos anos cortando custos adoidado. Senti isso no bolso: o primeiro correspondente com quem trabalhei foi chamado de volta à sede. O segundo virou frila fixo. Os dois tinham sido correspondentes no Iraque. A cobertura do Brasil foi reduzida drasticamente.

Zell não entende nada de jornal, mas de ganhar dinheiro com imóveis certamente entende. Antes de estourar a bolha imobiliária dos EUA, ele vendeu sua empresa do ramo para um fundo por lá. Em entrevista ao Estadão, nessa mesma matéria, o pesquisador da universidade Columbia John F.Tsui disse que a saída dele do Brasil “pode ser uma saída de uma bolha de propriedade”.

A absurda valorização dos imóveis em São Paulo em um ano – da qual o rolo do Belas Artes é um caso emblemático – também parece indicar uma bolha.

Qual é o problema de uma bolha?

Os imóveis se valorizam. Muita gente bota dinheiro neles, inclusive de fora. Os imóveis se valorizam mais por isso. Os preços sobem, até chegar a um nível insustentável. Chega uma hora em que o pessoal acumula dívidas e não tem grana pra pagar. Começa a dar calote. Ainda ontem estavam discutindo no Senado uma lei pra expulsar mais rápido “inquilino indesejado”. Aí é dança das cadeiras: quem tem grana na jogada e ganhou com a valorização pula fora correndo pra não ficar com o mico na mão. Só que a grana investida nos imóveis também já virou investimento de fundos de pensão, já virou investimento em outras empresas. Aí todo mundo começa a quebrar junto e aumenta desemprego. Foi isso que rolou nos Estados Unidos. Com o desemprego o pessoal começa a não conseguir pagar aluguel. Começa a não conseguir pagar até as dívidas de financiamento de imóveis.

Todo mundo se ferra. Menos quem ganhou com a bolha e saiu correndo antes de micar.

Localizei três blogs que vêm observando isso mais atentamente: o Bolha Imobiliária (que chama o “Minha Casa, Minha Vida” de “Minha Bolha, Minha Vida”), o Bolha Imobiliária em Brasília e no Brasil e o Blog do Imóvel, do Salomão Mendes. na dúvida, vou assinar seus feeds de RSS.

Como eu disse antes, não sou especialista no mercado imobiliário. Mas farejo uma história muito maior aí por trás do contencioso do Belas Artes. Por sorte, se é que dá pra falar em sorte nessas horas, meu contrato de aluguel ainda tem mais um ano e meio. Sorte será se a bolha estourar antes de encerrar o contrato e a gente chegar lá ainda conseguindo pagar o aluguel ou o financiamento.

Tombamento do Belas Artes, desabamentos do Rio

Na sexta-feira passada, enquanto o Brasil assistia ao resgate do que até agora são mais de 700 corpos na tragédia da região serrana do Rio de Janeiro, fui ao cinema Belas Artes, em São Paulo, pra encarar uma maratona de filmes ao longo da madrugada e uma homenagem.

O cinema, pra mim um dos melhores do Brasil, passa por bocados complicados. Vai abrir metrô do lado, talvez neste ano, talvez depois (por ora só atende UMA estação durante poucas horas), e o dono do prédio quis cobrar um aluguel muito maior que o então vigente. A ideia do dono do prédio, herdeiro do dono original, é alugar o imóvel para alguma empresa de que possa cobrar mais, tipo uma loja de departamentos. Na boca do metrô, seria um filé de vendas. Mas aí fecharia o cinema. Ou ele teria que procurar outro lugar. É a especulação imobiliária, enfim. Isso é ruim pra qualquer um que não seja o proprietário – que o diga quem procura apartamento levando em conta a localização e os serviços disponíveis.

Há uma choradeira na cidade sobre isso, especialmente entre o pessoal cinéfilo. Eu mesmo gosto do lugar, que tem várias vantagens: fica na esquina da Paulista, pára ônibus na frente dia e noite e tudo mais. Mas aí, como estamos no Brasil, já começou a gritaria pra pedir a ajuda do paizão Estado pra proteger o cinema da especulação imobiliária. É preciso proteger a arte, dizem.

Num intervalo do Noitão, escrevi no Twitter mais ou menos o seguinte: pra mim tanto faz cinema de rua ou cinema de shopping. A diferença é a mesma entre vinho de rolha e vinho de tampa rosca – o que realmente faz diferença é o que tem dentro. Nada impede cinema de shopping de passar filme bom. Aliás, tem vários que o fazem. A única coisa que eu realmente lamento, se fechar o cinema, é o espaço pra ficar de bobeira sem ninguém tentar te vender ou pedir alguma coisa.

Eu adorava sentar naquele janelão pra ler enquanto esperava minha mulher sair de algum filme iraniano que eu não teria saco de assistir. Ali eu tinha certeza que não viria um garçom perguntando se eu quero fazer algum pedido, nem um mendigo pedindo uns trocados pra comprar pão, nem um moleque querendo engraxar meus tênis, nem nada assim. Nem mesmo a balbúrdia de gente te olhando de cara feia por estar ocupando uma mesa de shopping quando eles estão com uma bandeja querendo sentar.

Claro que posso ficar de bobeira em casa. Mas em casa não corro o menor risco de ser encontrado por acaso por algum amigo ou conhecido pra botarmos o café em dia. Espaços assim são preciosos e cada vez mais raros.

Só que mesmo assim eu não acho que seja papel do Estado preservar esses lugares. Ele já renuncia a impostos por meio das leis de incentivo à cultura para o patrocínio do cinema, sem falar na produção e distribuição dos filmes nacionais. Agora também tem que ter o papel de proteger essa empresa da especulação imobiliária? Não adianta dizer “ah, mas então você acha que o Estado não tem que dar cultura pro cidadão”. Não se trata disso, até porque não “dá”: o ingresso lá não é nada barato.

O Brasil montou um sistema em que se espera que o paizão Estado resolva tudo. Que alfabetize as crianças no ensino básico, qualifique a elite no ensino superior, mantenha a qualidade de vida de todos num sistema universal de saúde, dê de graça até os remédios mais exóticos de que até os brasileiros que podem pagar precisem, salve bancos falidos, ajude empresas grandes a comprar empresas no exterior, garanta que as montadoras continuem tendo lucros a cada ano mais fabulosos mesmo no meio da crise e até mesmo proteja cinema da especulação imobiliária.

Aí nem quando a natureza interfere e 700 morrem sem precisar o pessoal se liga na verdade universal de que quem tenta fazer tudo não consegue fazer nada direito.

Sou completamente a favor de tentar convencer o proprietário a especular menos. Sou completamente a favor de manter o cinema aberto. Mas acho que botar o Estado no meio é querer matar rato com bazuca.