Onde fica a linha da pobreza?

Hoje, uma CPI do Parlamento sueco divulgou seus dados de pobreza. Mas o que é ser pobre na Suécia?

Lá, como no Reino Unido, um domicílio pobre é aquele cuja renda corresponde a 60% da renda mediana dos domicílios do país. A mediana é aquele valor que fica exatamente no meio se você coloca todos os valores numa pilha. Metade das casas é mais pobre que a mediana, metade das casas é mais rica. Na Suécia, 60% da mediana da renda é 10.682 coroas suecas mensais, ou US$ 1.586.

Ou R$ 2.829,52, que equivalem a mais de cinco salários mínimos brasileiros. Doze por cento dos suecos vivem com essa renda ou menos.

O aluguel mensal de um apartamento de dois dormitórios num bairro não muito central de Malmö, uma charmosa cidade no sul do país, custa 5 mil coroas suecas por mês (R$ 1.324,43). Isso custa 46% da renda de uma família considerada pobre na Suécia. Não é um bairro considerado pobre, mas fica a 15 minutos de ônibus do centro.

A linha da pobreza depende do grau de desigualdade de onde você está.

No Brasil, para entrar no Bolsa Família, uma família precisa ter renda menor que R$ 140 por pessoa. Se a única renda for um salário mínimo (R$ 545) é preciso ter quatro pessoas morando na casa. Pai, mãe e dois filhos já serve. Vive-se bastante mal dessa maneira.

Outra forma de definir isso é pelos estratos de classe social. Uma família pobre é uma família que não tem renda suficiente para ser de classe média – cujo primeiro degrau é a hoje badalada classe C. A Fundação Getúlio Vargas, usando dados do IBGE, definiu que essa classe começa a partir de uma renda familiar de R$ 1.200 mensais. Ou seja: pouco mais de dois salários mínimos. Numa família de quatro pessoas, isso dá R$ 300 por pessoa. Para quem precisa pagar aluguel, ainda mais em São Paulo, é pouco também.

Um terço dos brasileiros vivem com menos de R$ 1.200 mensais.

Segundo o Secovi, em janeiro o aluguel de um imóvel apenas regular de dois dormitórios na “zona B” da zona leste de São Paulo custava no mínimo R$ 11,14 por metro quadrado. É bastante longe do centro, e quem for se locomover de ônibus leva muito tempo para chegar. Digamos que o apartamento tivesse 70 metros quadrados. É apertado, mas não é incomum. O aluguel desse apartamento, segundo o Secovi, custaria quase R$ 780 mensais – ou 65% da renda de uma família abaixo da classe C.

Para tentar entender como funcionam essas desigualdades, gosto de prestar atenção nos vídeos do professor de saúde pública sueco Hans Rosling. Veja se não dá o que pensar.

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Ser homem-antena deve ser melhor do que catar latinhas

Causou polêmica no Twitter uma iniciativa apresentada no festival South x Southwest, no Texas (EUA): mendigos foram transformados em hotspots ambulantes de wi-fi 4G para acesso rápido à internet. Eles usam camisetas informando seu código pessoal, e o usuário paga usando SMS. O blog Vi na Internet, do Charles Nisz, resume o caso.

Saneel Radia, da empresa de marketing que idealizou o projeto, se antecipou às críticas, segundo o Tecmundo:

“A preocupação é que essas pessoas sejam vistas apenas como hardware. Mas, francamente, eu não teria criado isso se não acreditasse no oposto”

Tem lá seu sentido. Mas mesmo o sujeito ser visto como hardware já é um grande avanço em relação a como ele é visto em outras ocupações disponíveis para mendigos.

Se você acha que carregar antena de wi-fi é indigno porque atende a um luxo de um playboy, pense no grau de dignidade de juntar do lixo a latinha da cerveja bebida pelo playboy. Essa é a ocupação mais frequente para  mais de seis em cada dez moradores de rua de São Paulo, segundo o Censo da População de Rua feito pela prefeitura em 2010 (baixe aqui).

Veja aqui como as opções se dividem:

Os catadores de latinhas seguem uma longa tradição de reciclagem no ambiente urbano. São profissionais úteis, por mais desagradável que seja revirar o lixo. Quem leu o livro “O Mapa Fantasma“, de Steven Johnson, sabe que a situação já foi muito pior nos primórdios do urbanismo. (Leia o primeiro capítulo aqui.)

No meio do século 19, quando uma epidemia de cólera atacou forte no centro de Londres, a profissão mais bem-paga no ramo da reciclagem era a dos sujeitos que recolhiam os dejetos orgânicos depositados nos porões das casas. Cada um tomava um terço de garrafa de conhaque pra encarar o tirão. Dois terços de século depois, quando minha avó era jovem, ainda existia a figura do “cabungueiro” no Brasil. Outra classe de recicladores recolhia cocô de cachorro para vender a quem curtia couro.

Essas profissões, indignas, acabaram quando se teve um sanitarismo mais eficiente. Hoje, foram substituídos pelos catadores de latinhas, que vivem numa situação melhor do que a dos cabungueiros. Os catadores devem existir até que a separação do lixo seja realmente eficaz. (Sim, eu sei que você acha que isso é quase impossível – mas os londrinos que morriam de cólera também tinham ideias definitivas sobre o destino do seu esgoto em 1854.) Aí, quem vivia dessa atividade vai ter que arrumar outra, que provavelmente será melhor mas não sei se tanto.

Convenhamos, carregar antenas para vender acesso rápido à internet é bem mais digno do que ser cabungueiro ou remexer no lixo.

Ainda quero chegar a viver num mundo onde a profissão mais indigna que alguém possa ter seja a de carregar antena pra acessar a internet. O ideal seria nem isso ser preciso – mas o ideal, por definição, não existe.

O campo de batalha da Web é o seu tempo

No Bubot, uma de nossas preocupações principais é como oferecer bons filtros para os usuários pouparem seu tempo na internet. Dois assuntos altamente comentados no Twitter ilustram um pouco onde queremos chegar com isso.

Ontem, durante o dia todo, vários amigos tuiteiros passaram fazendo piadinhas com o nome de uma garota que foi morar no exterior. A frase dita pelo pai da garota num comercial de empreiteira no Nordeste virou meme. Embora a maior parte das brincadeiras tenha sido em tom crítico, certamente os publicitários que fizeram a campanha estouraram champanhe ontem. Viralizou. Em menos de duas horas já tinha portal noticiando que a família anunciou a volta da garota ao Brasil. Aposto que vai ser um evento de repercussão nacional a chegada dela ao aeroporto.

Ao longo do domingo e segunda, o Twitter foi inundado de mensagens a respeito do que acontecia sob os edredons de um programa de alta audiência. Foi abuso sexual ou não? Deu polícia e tal. Houve portais que resolveram transformar isso em seu único assunto durante três dias. Resultado: 80% a mais de audiência para o programa criticado. Oitenta. Por. Cento. A. Mais. Sucesso, sem dúvida.

Existe um conceito que pouca gente entende na internet: o da economia da atenção (surgido neste livro interessantíssimo, há 11 anos). Há um bom artigo no Read/Write Web a respeito, mas vale a pena dar uma olhada no que significa em bom português.

O princípio fundamental da economia é que os desejos são infinitos mas os recursos são escassos. A economia é a ciência severa da escassez. Num mundo em que as formas de deixar o tempo passar são abundantes, o recurso mais escasso é o seu tempo. Você aloca seu tempo usando uma moeda chamada atenção.

Assim como na economia de reais você pode decidir se vai à balada ou se bota o dinheiro na poupança para usar depois, na economia da atenção você decide a todo instante o que fazer com seu tempo. Você pode assistir TV ou ler um livro ou curtir a família. Você pode prestar atenção no seu trabalho ou retuitar memes da internet.

“Tempo é dinheiro” é uma equação inversamente proporcional: se você tem pouco tempo, você gasta mais dinheiro (ir a um compromisso de táxi versus ir de ônibus); se você tem tempo sobrando, gasta menos dinheiro (espera para comprar passagens de avião quando há uma promoção). Geralmente somos mais ricos em tempo do que em dinheiro. Exatamente por isso tendemos a gastar mal essa moeda.

Assim como na economia de reais, a atenção “non olet”. Para o lojista do shopping center, não importa como você ganhou seu dinheiro; o que importa é que ele entre no caixa. Na economia da atenção, não importa se a atenção é positiva ou negativa. O que importa é fazer barulho, o que se traduz em cliques, vendas e pontos de Ibope.

Rebecca Black descobriu isso do jeito mais doloroso possível para uma menina de 13 anos. Ela gravou um clipe bobinho, infantil (afinal, qual era a idade dela, mesmo?), feito com a grana dos pais. Caiu na má boca do povo – teve 55 milhões de acessos em menos de um mês, com 90% de avaliações negativas e pilhas de sátiras. Mesmo com tanta vibe ruim, rendia R$ 27 mil por semana com vendas no iTunes e anúncios no YouTube. Em 2011, ela lançou mais um clipe.

Que o diga Avnash Kaushik, um papa da análise de métricas da Web, ao discutir as dificuldades de medir o “engajamento” do público online no livro “Web Analytics 2.0“:

“Dados quantitativos são limitados no sentido em que eles podem medir o grau de engajamento, mas não o tipo de engajamento.”

Ele define grau como um contínuo que vai da apatia (não vi, não cliquei) até o envolvimento acima da média com o objeto (passar o dia inteiro bombando a hashtag). O tipo é que pode ser positivo ou negativo, mas as métricas de Web não verificam isso. O clipe de Rebecca Black teve um alto grau de engajamento, ainda que do tipo negativo. Todos os 55 milhões que o assistiram viram impressões de anúncios do YouTube. Mais de 27 mil pessoas por mês compraram a música.

Com o que você gasta seu tempo? Já prestou atenção?

Existem algumas ferramentas como o RescueTime, que ficam no seu browser medindo o tempo que você passa em cada tipo de site. Os relatórios dele chegam a ser assustadores.

O tempo é efetivamente jogado fora quando você o gasta com algo de que não gosta. Eu conheço o sabor do prazer mórbido de falar mal das coisas de que não gosto. Afinal, eu era fã de heavy metal em pleno auge do pagode mauricinho dos anos 90, antes mesmo do Tchan. Mas naquela época falar mal não se traduzia em cliques e trending topics. Que são medidas de sucesso, enfim.

Em bom português: não gosta? Ignore, em vez de ficar criticando. Isso não significa que “é feio criticar”. Significa que a energia que você gasta criticando se traduz em sucesso para os fenômenos que você critica.

Na internet, “sua inveja faz o meu sucesso” não é frase de pára-choque de caminhão. É modelo de negócios.

Afinal, a estrutura brasileira de aeroportos está bem ou mal?

Sei que pelo menos uma leitora deste blog conhece a fundo o assunto. Eu não entendo absolutamente nada de aeroportos, fora a experiência cada vez menos confortável como usuário deles, mas gosto de observar alguns movimentos na política.

Dia 14 de abril, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) divulgou um estudo sobre aeroportos no Brasil. Você pode baixar a íntegra do estudo aqui.

Os dois autores afirmam, com base nos dados disponíveis, que com base na situação atual dos aeroportos e com os investimentos atuais, dificilmente o Brasil conseguirá terminar até a Copa de 2014 dez dos 13 aeroportos em que há investimentos, se forem mantidos os prazos médios para cumprir as etapas de expansão.

Em português: na avaliação dos pesquisadores, só termina a tempo se correr com a obra. Correr com a obra acarreta problemas, como vimos nas obras da Linha Amarela do metrô de São Paulo e do Rodoanel. Ou acarreta outros tipos de problemas, tipo a necessidade de botar mais dinheiro pra finalizar a tempo. Mas tudo isso por ora está no terreno das possibilidades.

O Ministério Público Federal está pedindo agilidade nas obras  (e não só nas de aeroportos) para que não seja preciso pedir dispensa de licitação nas obras. Foi a dispensa de licitação, em grande parte, que fez os custos das obras dos Jogos Panamericanos terem um superfaturamento de até 600%.  Esse dinheiro sai do meu bolso, do seu bolso e do bolso da sua mãe.

Como não sou especialista em aeroportos, não entro no mérito de o estudo dos economistas do IPEA estar ou não correto. Apenas chamo atenção para um ponto: a reação política.

No que depender do secretário-geral da Presidência, Gilberto Carvalho, o estudo sequer foi feito pelo IPEA: “Não foi o Ipea que fez o estudo. Um pesquisador juntou recortes de jornais para fazer esse pronunciamento. Não representa a posição do Ipea nem do governo. Estamos preocupados em realizar tudo dentro do previsto. Não há desespero nem nenhuma dúvida de que daremos conta. O Brasil vai fazer uma copa bem organizada.”

Ponto a ponto.

1) “Não foi o IPEA que fez o estudo”

O Instituto convocou entrevista coletiva, oficialmente, para divulgar o estudo. Ela foi transmitida ao vivo, em vídeo, pelo site do IPEA. Foi noticiado no site do IPEA. O estudo foi publicado como Nota Técnica da Diretoria de Estudos Setoriais do instituto. É um estudo do IPEA ou não é um estudo do IPEA? Esse estudo especificamente não traz a observação, mas as Notas Técnicas do IPEA costumavam informar na folha de rosto:

As Notas Técnicas visam divulgar, de forma rápida e ampla, 
análises e resultados parciais de pesquisas realizadas no IPEA
ou em parceria com outras instituições, estimulando o debate
corrente em torno de questões específicas de natureza conjuntural
ou metodológica.

O potencial atraso nas obras dos aeroportos se encaixa no primeiro parágrafo.

Não estou em condições de saber se a retirada da observação implica alguma coisa. Mas, pra mim, essas condições não desqualificam de antemão o estudo.

O IPEA faz parte da estrutura do governo federal, dentro do Ministério do Planejamento, ora loteado para o PMDB via Moreira Franco. Em 2009, o IPEA produziu vários estudos que critiquei no “Dicas de um Fuçador”, pai do Numeralha, pela manipulação numérica do oba-oba. Então, ficamos assim: se o IPEA lança um estudo que enche a bola do governo, é do IPEA. Se o estudo não enche a bola do governo, não é do IPEA?

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2) “Um pesquisador”

Na verdade, ministro, foram dois: Carlos Alvares da Silva Campos Neto e Frederico Hartmann de Souza, pesquisadores do IPEA.

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3) “Juntou recortes de jornais para fazer esse pronunciamento”

De fato a bibliografia cita várias notícias publicadas em jornais. Mas boa parte das afirmações feitas no texto se baseia em consultas à execução orçamentária da União (com dados pesquisados nos bancos de dados do SIGA Brasil, DEST e Contas Abertas) e aos dados da Infraero – que mostram aeroportos como o de Vitória (ES) usando atualmente 472% de sua capacidade. Clique nos links para ter acesso direto aos dados.

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4) “Não representa a posição do Ipea nem do governo. ”

Por motivos óbvios o ministro quis chamar atenção para o segundo parágrafo que a observação costumava ter e nesse caso não tem:

As opiniões emitidas nesta publicação são de exclusiva e inteira
responsabilidade dos autores, não exprimindo, necessariamente, o
ponto de vista do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada ou do
Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão.

OK, embora feito por funcionários do instituto e divulgado oficialmente pelo órgão, de fato aquela Nota Técnica pode não ser a posição oficial do IPEA ou do governo. Mas precisa representar a opinião do IPEA ou do governo para ser uma observação importante de ser discutida? Eu acho que não.

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5) “Estamos preocupados em realizar tudo dentro do previsto.”

Os atrasos apontados sugerem o contrário, ainda que eu pressuponha a maior boa vontade do pessoal da Infraero dentro dos recursos de que dispõe. Adoraria que o governo fizesse valer a declaração do ministro. Mas notícias como a de que o governo executou apenas 1% do orçamento dos aeroportos da Copa me fazem crer que é blablablá. Em se tratando de governo, preocupação é execução.

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6) “Não há desespero nem nenhuma dúvida de que daremos conta. ”

Nenhuma dúvida da parte de quem?

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7) “O Brasil vai fazer uma copa bem organizada.”

Trata-se mais de uma declaração de intenções do que de uma enunciação de fato. Só se saberá em 2014 se o Brasil fez uma Copa bem organizada. Por ora, sabe-se apenas que a preparação não parece bem organizada. E também se sabe que o Pan não foi bem organizado, tanto que custou 600% a mais no nosso bolso.

***

E você, o que pensa a respeito? Da minha parte, espero sempre mais transparência da parte dos governos nessas questões que mexem no nosso bolso. Fazer blablablá de avestruz não é transparência, ministro.

Eu sou um criminoso: quebrei a lei seca do Kassab

A discussão sobre três proibições me chamou a atenção nos últimos dias. A lógica de todas elas é a mesma, e é por essa mesma lógica que sou contra todas elas da maneira como estão propostas. O motivo está ilustrado pela quarta proibição.

1)      Após o ataque do assassino de Realengo, o Senado quer mostrar serviço e empurrar um novo referendo pra ver se DESTA VEZ a população aceita a proposta de proibir a venda legal de armas no país, sob a comoção da morte de 12 jovens.

2)      O ministro Ricardo Lewandowski, atual presidente do TSE, defendeu a proibição das doações eleitorais por parte de empresas, na tentativa de corrigir o desequilíbrio no financiamento de candidatos.

3)      O líder do PT na Câmara, Paulo Teixeira, publicou em seu site um vídeo defendendo a liberação do plantio de maconha por cooperativas de usuários. Num arroubo de grêmio estudantil, disse que comer no McDonald’s pode ser “talvez o maior crime”.

Não uso armas (nem pretendo), não fumo maconha (nem pretendo) e não faço doações eleitorais (nem pretendo). Mas gosto de beber cerveja com moderação. Exatamente por isso, me tornei neste final de semana um perigoso infrator da lei seca do prefeito Gilberto Kassab, em São Paulo.

A cidade promoveu a Virada Cultural – uma série de shows variados ao longo de 24 horas onde tem shows pra todos gostos, inclusive o meu. Por exemplo, o do incrível Brian Auger e sua família:

Neste ano, porém, Kassab resolveu proibir a venda de bebidas alcoólicas no evento. Em parte a atitude dele foi uma reação ao nojento “vinho químico” vendido baratinho por camelôs a deserdados da noção que não gostam das próprias entranhas. Em parte era talvez uma tentativa de gastar menos com a varrição da cidade depois.

Fazia calor. Os shows eram bons. O povo queria tomar cerveja gelada. E a cada cinco metros se achava alguém vendendo. No começo eram sujeitos encostados em portinholas, timidamente arrastando sacolas térmicas e oferecendo discretamente seu produto. Depois das 10 da noite, já se viam camelôs com isopor na cabeça. Perto da meia-noite, já se via jovens caídos ao lado de garrafas de vinho químico. E, fora dois casos isolados em meio a quatro milhões de pessoas curtindo, a Virada foi pacífica. O Kassab até fechou alguns bares, a prefeitura apreendeu algumas toneladas de bebida. Mas ninguém deixou de beber só porque o Kassab mandou.

É exatamente esse o problema das proibições. Você pode sufocar a oferta legal, proibindo. Ocorre, porém, que você não sufoca a demanda – seja por cerveja, seja por maconha, seja por financiar político. Quem quer, acha. Se não achar legalmente, vai achar no mercado ilegal. E o mercado ilegal é surpreendentemente mais eficiente do que qualquer mercado legal.

Que o diga Moisés Naím, autor do livro “Ilícito”. É uma leitura ao mesmo tempo esclarecedora e perplexa. Esclarecedora porque mostra a dinâmica do mercado negro. Perplexa porque simplesmente não existe saída simples para os problemas trazidos por ele – e as proibições, por mais simples que sejam de entender, simplesmente acabam por fomentar o mercado negro. No capítulo “Por que estamos perdendo”, ele diz:

“A guerra contra os traficantes coloca a força dos governos contra a força do mercado. A história e o senso comum dizem que, no longo prazo, as forças do mercado tendem a prevalecer sobre as dos governos. Nesse sentido, o tráfico moderno tem muito em comum com o antigo contrabando que apareceu assim que os governos começaram a impor barreiras comerciais. As commodities valiosas e os métodos de comércio podem ter mudado. Mas os incentivos econômicos são antigos.”

Como discorri no post anterior, os incentivos econômicos são o que importa observar.

O atirador do Realengo não comprou suas armas em loja. Comprou por baixo dos panos, até porque hoje para comprar uma arma legalmente é preciso apresentar muita documentação. O estatuto do desarmamento atual já torna bastante difícil a vida de quem quer comprar arma legalmente, e isso é bom. Em dez anos, o estatuto reduziu em 90% a quantidade de armas vendidas legalmente. A lei poderia se tornar mais exigente e dificultar ainda mais. Por exemplo, sei lá, exigir que quem quer ter porte se apresente todo dia às 18h à Polícia Federal pra contar seu dia ao delegado. Ou responsabilizar ex-donos de armas roubadas usadas em crimes. Só que nada disso vai reduzir os crimes se não se agir decentemente sobre o mercado ilegal de armas.

Os usuários de maconha de que o deputado Paulo Teixeira fala, plantando em casa, não precisariam recorrer a traficantes. Porque os que querem fumar maconha sempre sabem bem onde achar, e não é em loja. Comprando de traficantes, financiam o crime. Esqueça o arroubo de grêmio estudantil sobre o McDonald’s e o argumento do deputado não parece irrazoável.

No caso das doações eleitorais, não consigo entender como raios alguém imagina que proibir o caixa-um pode eliminar o caixa-dois. OK, as doações de empresas são desequilibradamente maiores que as de pessoas físicas. Mas elas ao menos são mais ou menos transparentes, fora aquela malandragem de doar para o diretório do partido e no dia seguinte o partido doar para o candidato de escolha das empresas.

Se as empresas não puderem doar com seu próprio nome, vão doar por meio das pessoas físicas de seus diretores. E qualquer um que já tenha tentado decifrar a composição societária de uma empresa grande sabe o quanto isso é difícil. Quanto maior a empresa, mais complicado. Fora a chance de doar via laranjas.

Ora, as doações deviam ser MAIS transparentes, de preferência em tempo real. Doou hoje? Publica obrigatoriamente no sábado, pra todo mundo saber quem doou pra quem. Pra todo mundo saber quem está tentando influenciar quem. Porque aí é possível ver que políticos estão incorrendo no conflito de interesses de beneficiar seus doadores indevidamente por meio de sua atividade parlamentar.

Se isso for proibido, será impossível ter sequer indícios. Mas, assim como a minha cerveja de sábado, não vai ter proibição que impeça de rolar.

O economês, o câmbio, seu bolso e a importância da economia

Hoje tive uma conversa interessante com a leitora @RenataPetry. Ela perguntou no Twitter o que é alíquota. É uma palavra que sempre aparece no noticiário, muitas vezes em questões divisivas, mas para muita gente não fica claro de que se trata. É uma das coisas clássicas do tal “economês”, o jargão de iniciados que é dado de barato para os não iniciados.

Não existem definições que expliquem direito que raio é isso. No Aulete, consta:

Parcela (calculada ou definida percentualmente) do valor de algo, e que deve ser paga como imposto. Divisor exato de uma quantidade; parcela que está contida num todo um número exato de vezes.

Confuso, parece. Vamos à Wikipedia, fonte de tantos trabalhos escolares:

Em Direito tributárioalíquota é o percentual ou valor fixo que será aplicado sobre a base de cálculo para o cálculo do valor de um tributo. A alíquota será um percentual quando a base de cálculo for um valor econômico, e será um valor quando a base de cálculo for uma unidade não monetária. As alíquotas em percentual são mais comuns em impostos e as alíquotas em valor ocorrem mais em tributos como empréstimo compulsóriotaxascontribuição de melhoria.

Acuma?

Alíquota é uma coisa que eu sei o que é mas nunca me importei em definir. Para ajudar a estudante, tentei explicar da seguinte maneira. Imagine que juro, ou imposto, é uma moeda. Alíquota é o preço, expresso em percentual. Ou seja, ele incide proporcionalmente sobre outro valor de acordo com um percentual.

Conhecer isso é crucial para controlar o bolso. Pense nos juros de um empréstimo bancário, por exemplo.

Se você tomou um empréstimo de R$ 100 a 6% de juros ao mês, pra pagar daqui a seis meses, isso significa que o cálculo é feito aumentando em 6% sua dívida acumulada a cada mês. Só então são divididas as parcelas. No primeiro mês, sua dívida aumenta R$ 6. No segundo, aumenta mais R$ 6,36. No sexto, além dos R$ 100 que já tomou e gastou, você deve mais R$ 41,85 de juros. Dividido em seis parcelas, dá R$ 23,64 por mês. Parece pouco, mas só de juros você pagou quase a metade do que tomou.

Se alongasse a dívida por mais um mês, em mais uma parcela, você pagaria só de juros praticamente a metade do que pegou emprestado. E, quando R$ 100 importam tanto a ponto de você tomar empréstimo nesse valor, pagar R$ 50 a mais sai caro. E, como a alíquota é uma coisa proporcional, se o empréstimo fosse de R$ 1.000, os juros seriam de R$ 503,63 em sete meses.

O pai da Renata, que lhe propôs o desafio, chamou sua atenção a respeito do aumento da alíquota do Imposto sobre Operações Financeiras para comprar em dólar no cartão de crédito, para 6,38%. A intenção declarada pelo governo é frear a desvalorização do dólar. Acontece, porém, que até agora não está adiantando – o pessoal continua comprando em dólar e o dólar continua caindo. Só o que cresce é a arrecadação do governo.

Pense assim.

Como o dólar está barato para gastar (exatamente agora está a R$ 1,585), você pode ir a Nova York, ida e volta com uma escala, por US$ 805. Isso dá R$ 1.275, o que torna uma visita a Nova York potencialmente mais barata que uma visita a vários lugares no Brasil.

Se você vai aos EUA e compra lá um iPad 2 16GB no cartão de crédito, você vai pagar US$ 615 à vista (R$ 972,80 ao câmbio de hoje). Em cima disso, vai incidir um IOF de 6,38%, que acresce R$ 62,06 à sua conta do cartão de crédito. Somando tudo, seu iPad 2 novinho em folha saiu por R$ 1.034,86.

Nas lojas aqui no Brasil, um iPad 1, também de 16 GB, sai por R$ 1.257,32 à vista. Pode parcelar, também, mas a loja bota juros à alíquota de 1,99% ao mês, o que eleva o preço pra R$ 1.399,00.

Os R$ 62 acrescidos ao preço mais baixo do produto de lá acabam não fazendo nem cócegas pro consumidor. Mas entram no caixa do governo que é uma beleza. Assim o governo pode de um lado contabilizar os ganhos e de outro lado dizer que está fazendo alguma coisa pra tentar parar a supervalorização do real, mas os consumidores é que não ajudam.

Mais ainda: existe sempre a possibilidade de o dólar estar AINDA MAIS BAIXO quando vier a fatura do cartão.

Maluco isso, né?

Parece bom para o consumidor, que paga menos. Mas pense por exemplo nas empresas brasileiras que querem exportar produtos pra fora. Todos os custos dela estão em reais, mas a exportação é em dólares. Geralmente quem importa produtos brasileiros em escala comercial paga uns 30 dias depois, no mínimo. Isso significa que ou o exportador brasileiro aumenta o preço dos seus produtos em dólar, ou ele corre o risco de vender em dólar esperando ganhar um valor determinado em reais e, na hora de receber, ganhar menos.

Temendo vender menos, ele precisa cortar custos. Geralmente, porém, os custos que as empresas cortam têm braços, pernas e famílias para alimentar. Complicado, né?

***

Em 1996, quando eu era estudante de jornalismo, tive uma experiência que me abriu os olhos. Fui participar do Encontro Nacional de Estudantes de Comunicação, na UFSC. Verde de baladas e farras, me inscrevi numa oficina de jornalismo econômico com o professor Hélio Schuch. Pior: assisti todas as aulas. Mais ainda: isso me mudou a cabeça.

O Hélio é um cara que faz conexões várias (ainda ontem saiu um artigo dele). É um cara de bom papo e senso de humor peculiar (vide sua foto no Lattes). Viramos amigos, tamanha a gratidão que levei pra casa.

Mestre Hélio me apontou o que é Teoria dos Jogos, uma técnica usada para avaliar custo-benefício em situações várias. Uso esse tipo de raciocínio até para decidir que hora sair de casa em São Paulo se tenho um compromisso às 8 da noite. Mas, antes de mais nada, mestre Hélio me abriu os olhos para a ideia de que a economia é a “verdadeira” psicologia.

Usamos o raciocínio econômico, pesando custos e benefícios, pra todo tipo de decisão. Ainda que inconscientemente. Se eu não consigo perder peso por muito tempo é porque com frequência recebo um parente em casa, quero agradar, aí sempre acabamos comendo ou bebendo bem demais. Isso tem um custo em termos de peso, por exemplo.

Para um jornalista, especialmente se jovem, conhecer um pouco de como funciona o raciocínio econômico é fundamental para tudo. A Renata é fascinada por moda, pelo que vi. Conhecer como funciona o raciocínio econômico pode apontar os porquês de várias coisas em sua área (que pra mim é uma ilustre desconhecida). Aponta os porquês de preços, aponta os porquês de materiais e até de ocasiões.

Depois que o mestre Hélio me apontou a importância da economia, resolvi que queria aprender o suficiente pra entender o que acontece. Na época, fui atrás de “Introdução à Análise Econômica”, um clássico do Paul Samuelson. Comprei na segunda edição, de 1968, por R$ 16 num sebo. Ainda se acha baratinho em sebos.

Apesar de didático, é uma leitura acadêmica demais – eu com 20 anos adorava esse tipo de leitura, mas compreendo quem não goste.

Hoje em dia, existem opções interessantes. Dou duas dicas:

Freakonomics, de Steven Levitt e Steve Dubner

De longe o livro mais famoso dessa leva de economistas didáticos. Eles levantam pesquisas de economistas e mostram o lado divertido da disciplina antigamente conhecida como “a ciência lúgubre”. Leia a introdução aqui. O sucesso do livro fez com que os autores lançassem uma sequência, o Superfreakonomics.

O Economista Clandestino, de Tim Harford

De longe o meu favorito. Harford é britânico, jovem, curte games e apresenta um programa na BBC chamado “More or Less”. Nele, ele discute os números do dia-a-dia. O More or Less é a grande inspiração do Numeralha. Este livro também é mais amplo, procurando explicar como os conceitos básicos da economia se aplicam ao dia-a-dia. Leia uma entrevista com Harford.

***

Você pode se perguntar: curtindo tanto economia, por que não virou jornalista econômico?

Simples: oferta e demanda.

Em 2000, cheguei a participar do Programa de Treinamento em Jornalismo Econômico, da Folha de S,Paulo. Mas, ao final do curso, a vaga que estava aberta era em política. Eu não curtia política, nunca simpatizei com partido nenhum, mas topei a vaga.

O fato de eu não curtir o críquete dos engravatados, o “disse Fulano” do dia-a-dia, somado ao fato de eu ser redator (ou seja, não tinha obrigação de ter matéria própria todo dia) e fascinado por dados, me levou a procurar pautas que aplicassem esse raciocínio à análise da política.

Fiquei fascinado. Porque a lógica econômica subjacente explica muita coisa.

Foi daí que eu peguei gosto por olhar quanto nossos caríssimos políticos gastam. Ou como gastam. Ou a que incentivos eles respondem na hora de gastar dinheiro público a rodo. Ou por que raios quando tem um escândalo eles preferem defenestrar o rato a fechar o ralo.

Foi daí que eu incentivei minha mulher, fanática por cinema desde criança, a procurar olhar como funciona a produção de filmes. E ela ficou craque nisso, por conta própria.

Enfim, recomendo a todo mundo. Seja jornalista, seja mero curioso. Ou ambos, o que é sempre ótimo.

O plano de saúde do José Alencar

Morreu hoje o ex-vice-presidente José Alencar, aos 79 anos. Meus respeitos. Parecia um homem sério, salvo um ou outro escorregão feio. Em 2002, ele era considerado conservador, o que em si não é problema; ao longo do governo Lula, especialmente quanto mais frequentava hospitais, o ex-vice foi ganhando outra imagem pública.

(Para saber mais sobre o ex-vice, leia a biografia “José Alencar: Amor à Vida”, escrita pela Eliane Cantanhêde.)

Assistindo aos telejornais de hoje e lendo o noticiário na Web e em outros lugares, você vai ler uma litania de elogios à sua vontade de viver. À sua força na luta contra o câncer. Até em heroísmo vão falar. Realmente é fofo ver um velhinho saindo do hospital e dizendo querer assistir à formatura do bisneto que ainda não tinha nascido.

Mas devagar com o andor nas homenagens. Se Alencar deixou um exemplo, é um exemplo muito difícil de seguir.

Caso dependesse do Sistema Único de Saúde, como lembrou a Leandra Lima, ele já estaria morto há muito tempo. Marcar uma consulta simples no SUS demora muito. O sistema é relativamente eficiente no básico, mas conforme a situação vai complicando fica mais difícil ter tratamento. E a situação do ex-vice era extremamente complicada (veja no gráfico do IG).

Se ele fosse fazer todas essas cirurgias pagando como particular, não haveria dinheiro que chegasse. Ele devia ter um plano de saúde muito bom – quem não tem plano de saúde morre três vezes mais do que quem tem, segundo estudo de 2006. Mas um plano tão bom quanto o que ele usava também não é pra qualquer um.

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QUANTO CUSTARIA

Consultei o corretor Paulo Sérgio Dias dos Santos, com quem comprei o meu plano de saúde há algum tempo. Perguntei a ele quanto custaria um plano de saúde que cobrisse internações no Einstein e no Sírio-Libanês para procedimentos tão complexos quanto esses pelos quais o ex-vice precisou passar nos últimos anos.

Resposta: na idade dele (79 anos), para essa cobertura, custaria nada menos do que R$ 2.200 por mês, nas principais empresas do ramo no Brasil. Mas elas não costumam aceitar clientes novos depois de certa idade. Geralmente os pacientes que pagam tudo isso já tinham o plano há tempos.

Lembre que planos de saúde são feitos para serem pouco usados. Quando o são, o cliente sadio paga pelo cliente doente, e é daí que vem o lucro. Aos 34 anos, por exemplo, eu pago mais de R$ 200, mas dificilmente faço consultas mais de uma vez ao mês. Geralmente são consultas “light”: otorrino, nutricionista, um eventual check-up. Na teoria, acaba sendo uma espécie de poupança: hoje você paga mais do que usa para depois usar mais do que paga, caso precise.

Mesmo quando precisa, enfrenta problemas. Alguns hospitais pararam de atender pacientes de planos de saúde em suas emergências, alegando que os planos pagam pouco.

No ano passado, no Notícias MTV, mostramos algumas vezes o caso do Marcelo Yuka, ex-baterista do Rappa. Ele foi baleado e perdeu a capacidade de caminhar. Seu plano de saúde brigou na Justiça para cortar alguns dos tratamentos.

Em 2010, pelo 11º ano consecutivo, os planos de saúde foram líderes de reclamações ao Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor.

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GERALMENTE É VOCÊ QUEM PAGA

Por ter sido senador entre 1999 e 2002, Alencar tinha direito a um plano de saúde vitalício. Consta que teria recusado. Mas mais de 400 senadores e ex-senadores – inclusive os que serviram por apenas meses – têm direito a esse benefício, continuado em março deste ano. Ex-senadores não precisam pagar um centavo sequer por isso. Ex-deputados, por um plano semelhante, pagam R$ 280 mensais. Pouco mais do que eu pago pelo meu.

Quando ficam velhinhos, muitas vezes eles precisam usar esse tipo de plano para coisas caras: no ano passado, o senador Romeu Tuma recebeu um coração artificial de R$ 300 mil no dia 7 de outubro para morrer 19 dias depois. Duvido que tenham lavado o aparelho para implantá-lo em outro paciente com mais chance de viver.

Saíam dos cofres públicos para a cobertura de nossas ex-autoridades, em 2009, o equivalente a R$ 32 mil por senador, todo ano. Isso dá R$ 2.666 por mês, pago por mim, por você e por nossos pais. Fecha mais ou menos com o valor que o corretor me informou.

Não acho injusto que nossos representantes tenham um bom plano de saúde. Acho complicado apenas que eles, que ganham bem e por vezes são empresários, não precisem pôr a mão no bolso sequer para pagar um pedaço do plano.

De qualquer forma, quem tem a atribuição de alocar recursos para o sistema público de saúde passa MUITO longe dele. Quem tem a atribuição de criar regras mais justas para planos de saúde não precisa pagar pelo melhor do mercado. E isso é sempre chato.

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Meus respeitos à família do José Alencar. Meus respeitos aos seus fãs. Mas façam-me o favor de não exaltar exemplos que não possam ser seguidos por qualquer um que não seja poderoso. OK, é fundamental um velhinho ter vontade de viver. Mas se não tiver como bancar, só a vontade não adianta.

Quer ajudar o planeta? Esqueça iniciativas marqueteiras

Mais uma vez, somos chamados a contribuir com uma iniciativa simbólica cheia de boas intenções e com praticamente zero de resultado. É a “Hora do Planeta“, que ocorre todo ano por iniciativa do WWF no último sábado de março. A intenção declarada é conscientizar sobre a necessidade de agir para contribuir menos para o aquecimento global.

OK, sem que cada um faça alguma parte a coisa não muda mesmo. Nada muda. Mas iniciativas como essa e a infame do xixi no banho, do SOS Mata Atlântica, são um troço mais útil para promover as ONGs do que para reduzir as emissões de carbono.

Não me entendam mal: considero sérias as duas ONGs e justas as suas causas. Sei da necessidade de visibilidade para garantir a arrecadação de fundos, e coisas assim chamam a atenção da imprensa, das redes sociais e etc. “Dá mídia”, como se diz.

Ocorre, porém, que a necessidade de elas aparecerem, a pretexto de botar o tema em discussão, deixa de lado seus aspectos mais importantes, os que realmente fazem a diferença todo dia.

Antigamente as ONGs se batiam nisso, mas era uma coisa que não chamava muito a atenção. “Ah, lá vêm aqueles chatos mandando eu deixar de fazer o de sempre”, é a reação comum. E compreensível. Aí elas apelam a marquetagens que pelo menos garantem uma visibilidadezinha temporária. Não chega a conscientizar muita gente, mas faz uma marola. Não acho que a qualidade disso seja grande, mas não sou eu que tenho que julgar.

De qualquer maneira, a numeralha nos ajuda a ver melhor a questão dos hábitos.

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NA PONTA DO LÁPIS

Você já calculou quanto gasta de luz? Pegue lá sua conta pra ver. A minha, que vence nesta semana, deu 260 kWh. É um consumo meio alto, porque dois computadores ficam ligados a maior parte do dia para trabalharmos. É considerado baixo em São Paulo o consumo de menos de 220 kWh por mês. A tarifa é inclusive menor.

Em média, se considerarmos 24 horas por dia e 28 dias no mês de fevereiro a março, gastei 0,38 kW a cada hora (divida o total pela quantidade de horas e quantidade de dias). Mas é claro que a média coloca o pé no forno e a cabeça no freezer.

Isso leva em conta as horas em que todos os aparelhos exceto a geladeira, o rádio-relógio e o carregador de celular estão desligados. Consumo muito baixo, portanto. Isso também leva em conta as horas em que já escureceu, acendemos algumas luzes, ainda tem alguém no computador e já tem alguém tomando banho. Consumo muito alto, portanto.

Vamos dar uma mandrakeada nesse dado e dividir esses 260 kW por apenas umas 10 horas do dia, depois dividir pelos 28 dias mesmo. Ou seja: dando de barato que todo o consumo se concentra em algumas horas. Vai dar 0,9 kW gastos a cada hora. É mais que o dobro da média das 24 horas, portanto.

Então digamos que apagando a luz durante uma hora para colaborar com a campanha de marketing do WWF isso é o que eu economizaria para o planeta: 0,9 kW.

Você pode muito bem dizer que 0,9 kW não é nada, mas os meus 0,9 somados aos 0,8 de outro e aos 1,0 do vizinho acabam virando bastante coisa. E é verdade. Mas eu prefiro olhar por outro aspecto: o dos hábitos.

Desligar a luz por uma hora, ficando em paz com sua consciência planetária, e depois pegar seu carro ou ligar o ar condicionado é mais ou menos o mesmo que pensar que um Big Mac é um alimento balanceado porque tem alface, cebola e pepino. Ou mais ou menos o mesmo que aquela cena de “O Poderoso Chefão” em que os mafiosos vão à igreja pedir perdão por seus pecados pra depois sobrecarregarem o coveiro de trabalho.

Dois exemplos pra deixar isso mais claro.

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A. O AR CONDICIONADO

Nesse calor, um ar condicionado sempre vem bem, né? Digamos que você tenha um de 7500 BTU (1000 watts, ou 1 kW). Para calcular seu consumo em kWh, você multiplica a potência pelo tempo em horas. Se você não o ligou durante uma hora, economizou 1 kWh. Ou seja: economizou mais do que eu economizaria desligando tudo em casa por uma hora.

Um ventilador de teto consome 120 watts, ou 0,12 kW. Se você trocou o ar condicionado pelo ventilador durante uma hora, você economizou 0,88 kWh. Quase toda a economia que eu teria desligando tudo na minha casa por uma hora.

Mudar hábitos é sempre mais eficaz do que fazer uma “boa ação” esporádica. E não põe azeitona na empada de marqueteiros.

Se você trocou o ar condicionado pelo ventilador durante todo seu sono de 8h, economizou 7,04 kWh. Se você fez isso durante o mês inteiro que veio de fevereiro a março, economizou 197,12 kWh – ou 75% da minha conta de luz.

Sim, eu não tenho ar condicionado em casa. Tem a ver com a renite, mas também tem a ver com ter feito as contas. Não necessariamente as contas do que economiza em kWh, mas do que economiza na conta de luz. Cada kWh em São Paulo, na minha faixa de consumo, custa R$ 0,29651000. Gastar 197,12 kWh a mais me tiraria do bolso R$ 58,44 a mais todo mês.

Veja aqui o consumo médio de outros aparelhos.

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B. O CARRO

Outra comodidade de que eu não faço questão é o carro particular. Pra mim, é uma máquina de endoidar gente, ainda mais em São Paulo. Claro que preciso me deslocar como qualquer um, mas pra isso existe transporte público. Que tem todos os defeitos do mundo, ainda mais em São Paulo, mas pelo menos não sou eu que dirijo. Meu stress e os postes da cidade agradecem. Queisso, não há de quê.

Certa vez fiz as contas de quanto gastaria tendo um carro – prestação, combustível, seguro, estacionamento, manutenção, flanelinha, eventuais multas -, observei minhas necessidades de deslocamento e cheguei à conclusão de que ter carro sairia mais caro do que andar só de táxi. Obviamente, eu não ando só de táxi, então economizo bastante com isso.

Mas o carro também gasta energia, embora não elétrica. Gasta energia na forma de combustível. E emite mais carbono, e mais diretamente, do que a energia elétrica que se usa no Brasil. Nos EUA e na Europa a maior parte da geração vem de termelétricas, aqui a maior parte da energia vem de hidroelétricas.

É possível comparar os gastos de energia do combustível com os gastos de energia da luz, convertendo ambos para outra unidade, que é o joule.

Calcular isso na mão é complicado. Por isso eu uso um conversor como este. Um kWh, segundo ele, são 3600 kilojoules. Ou 3,6 milhões de joules.

Segundo o HowStuffWorks, um galão de gasolina (3,75l) tem 132 mil kilojoules. Portanto, um litro de gasolina tem 35,2 kilojoules. Ou quase o equivalente em joules a 10 kWh.

Segundo a Quatro Rodas, o Astra, um carro bastante popular no Brasil, roda 10 quilômetros por litro de gasolina.

Portanto, se você trabalha a 5km de casa e vai e volta de carro, sendo seu carro esse, você gasta um litro de gasolina por dia só nesse deslocamento. Em joules, isso seria o equivalente ao que eu gastaria em 11 horas de energia elétrica.

Ou seja: se você consome o mesmo que eu em energia elétrica, deixando o carro em casa um dia só você poupa ao planeta o equivalente a dez anos de sua participação nessas iniciativas marqueteiras.

Você pode argumentar que o dia mundial sem carro é só em 22 de setembro. Mas é outra iniciativa marqueteira. O que realmente faz a diferença são os hábitos. Fazer pequenas mudanças neles é muito mais eficaz e não tem dia marcado.

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Faça as contas. A numeralha é sua amiga. As iniciativas marqueteiras é que são uma furada.

Especulação imobiliária sideral: planeta Terra valeria US$ 5 quatrilhões

Você, que está sendo vítima da especulação imobiliária no Brasil, precisa saber o valor do planeta em que vive: US$ 5 quatrilhões, ou cerca de 100 vezes o PIB de todos os países.

O cálculo foi feito pelo astrofísico Greg Laughlin, que levou em conta para isso as condições de habitabilidade de planetas para onde, quem sabe um dia, a humanidade possa se mudar. Os fatores vêm dos dados descobertos pela sonda Kepler sobre outros planetas.

Pelas minhas contas, a considerar só a superfície, se a Terra (511 milhões de km² , incluindo oceanos) vale tudo isso, o Brasil (8,5 milhões de km² de superfície) valeria US$ 83,2 trilhões.

Lembre que o PIB mundial, segundo o FMI, é de US$ 61,9 trilhões. O do Brasil é cerca de 3 trilhões. Demoraria anos pra poder pagar o próprio imóvel, enfim.

Mal comparando, se a sua renda familiar é de R$ 30 mil anuais (R$ 2.307 por mês), o Brasil é um imóvel que custaria R$ 832 mil. Fui ao simulador de financiamento imobiliário da Caixa Econômica Federal pra ver se dava pra comprar. Disse que era um imóvel residencial, usado. Botei que tenho 3 anos de FGTS, pra facilitar o financiamento.

Daria pra comprar via carta de crédito, mas eles só financiam R$ 49 mil do valor do imóvel em 360 meses. A entrada teria de ser de R$ 782.313 – ou, convertido para os trilhões, de US$ 78.2 trilhões. Mais do que o PIB mundial, só de entrada. Ou seja: se o Brasil fosse um imóvel, seria impossível de se comprar com o PIB atual, nem com financiamento.

Comprar, nem pensar. Mas quem curte Raul Seixas e acha que a solução é alugar o Brasil pode calcular o preço usando um critério mais ou menos comum: o preço mensal do aluguel costuma ser de até 1% do valor de venda do imóvel. Digamos, então, que o aluguel do Brasil custaria US$ 832 bilhões (R$ 1,4 trilhões) por mês, ou mais que o PIB anual de São Paulo (cerca de R$ 1 trilhão em 2008). No ano, isso dá pouco mais da metade do PIB anual dos EUA (US$ 14,6 trilhões).

Vai ser difícil alugar, parece.

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Mas, enfim, voltemos à especulação imobiliária cósmica.

Eu tendo a achar fascinantes assuntos que tenham um pé no nerdismo. Mas também tendo a desconfiar de muitas extrapolações numéricas.

Antes de ler a entrevista do Laughlin ao Boing Boing, achei que era maluquice ou pelo menos uma tentativa desesperada de aparecer. Mas aí li detalhadamente a entrevista, olhei o que ele levou em conta, e achei a equação simplesmente fascinante:

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Esse monte de números assusta, mas Laughlin explicou tintim por tintim.

Primeiro, pega o custo da missão Kepler (US$ 600 milhões) e divide pela quantidade de planetas que podem ser encontrados (100). Ou seja: é o custo-benefício do que se gastou pra descobrir. É isso que vai permitir calcular o valor em dólares.

Aquela coisa que parece um T, dividido por meio bilhão de anos, é a idade da estrela em torno da qual o planeta gravita. Quanto mais velha, melhor, segundo Laughlin: “provavelmente  você deve se interessar mais por estrelas tão velhas quanto ou mais velhas do que o Sol, que oferecem mais tempo para os planetas desenvolverem vida”.

Multiplica isso pela relação entre a massa da estrela e a massa do planeta, elevada a um terço. Ou seja: quanto menor, melhor. “Quanto mais massiva é uma estrela, mais curta é sua existência, e menos oportunidade  ela dá ao surgimento da vida”, diz Laughlin. Outra vantagem é que estrelas menores são mais fáceis de estudar.

Aí vêm três expoentes elevados a quantidades negativas.

O primeiro (do logaritmo) busca calcular uma distribuição normal em torno da massa da Terra. Ou seja: se a Terra pode ser considerada como tendo as condições ideais para o surgimento da vida, como se distribuem as probabilidades de que valores de outros planetas permitam a vida? Quanto mais próximo do da Terra, melhor. Quanto mais afastado, mais difícil.

“Para a habitabilidade, eu acho que precisamos ser fortemente inclinados para planetas com a massa da Terra, porque realmente não sabemos muito sobre planetas cuja massa está entre a da Terra e a de Urano. Não existe nenhum no nosso sistema solar”, diz Laughlin.

O segundo expoente (o do Teff) leva em conta a quantidade de luz e calor que o planeta pode receber de sua estrela, e também gera uma curva normal em torno dos valores da Terra. Faz sentido: se for quente ou frio demais, prejudica. Se tiver luz demais ou de menos, atrapalha.

“Temos apenas um exemplo de planeta habitável, que é a Terra. Então, isto favorece planetas que são semelhantes em quantidade de energia que recebem de sua estrela. Se um planeta possivelmente ganha consideravelmente menos – como Marte – ou consideravelmente mais – como Vênus -, a equação não o trata bem”.

O terceiro expoente (o do 2009) leva em conta o tempo que levou, a partir de seu lançamento em 2009, para a Kepler descobrir o planeta. Quanto mais tempo demorar, significa que mais longe está o planeta, e portanto fica mais difícil de chegar. Mais ainda: quanto mais demora, menos novidade é. “Descobrir um planeta na zona habitável de uma estrela semelhante ao Sol no ano 2060 não tem chance de ser grande coisa”, pondera Laughlin.

O último termo, o do 2.5, verifica o quanto a estrela parece próxima da Terra, por seu brilho. E é isso que permite calcular o valor da Terra, segundo Laughlin. É ele que dá o valor da Terra para quem está aqui.

“Pense assim: se estamos sentados aqui na Terra, o nosso Sol é extraordinariamente brilhante no céu. O brilho do Sol torna esse termo enorme, se calcularmos essa equação para a Terra. Se fizermos para a Terra, temos uma resposta de cerca de 5 quatrilhões de dólares. E esse é basicamente o valor de toda a nossa infra-estrutura, acumulado ao longo da história. Essa não é uma declaração tipo ‘o homem que vendeu a Terra’, é colocar as coisas em perspectiva do outro lado. O de estar lá. Quanto vale um planeta habitável pra quem está lá? Bom, isto mostra que vale bastante.”

Pelas contas de Laughlin, Marte valeria US$ 14 mil. “É realista, no sentido que você duraria 5 segundos se pintasse lá”. O exoplaneta Gliese 581 g, descoberto em janeiro, teria um valor estimado de US$ 160. É pouco. Mas pode ser que haja planetas valendo bem mais, algo na casa dos bilhões. E talvez descobri-los faça valer a pena gastar milhões de dólares numa missão exploratória.

Um planeta que fosse descoberto na zona habitável de Alpha Centauri B, a mais próxima do sistema solar, poderia valer US$ 6 bilhões, segundo Laughlin. E ele acha que isso talvez fizesse valer a pena gastar essa grana pra ir até lá pra ver se é habitável. Quanto mais se aproxima do planeta, o valor também aumenta – vide o valor do planeta em que estamos.

Mas a mesma conta também sugere que ir a Marte – como os EUA já fizeram, com a missão Mars Rover – é um desperdício de dinheiro. Foram gastos US$ 820 milhões só na missão de 2007, por exemplo. Pra um planeta que teoricamente vale US$ 14 mil.

Apagões, pedras, vidraças e o trouxa do cidadão

Na madrugada de sexta (4), oito estados do Nordeste ficaram às escuras. Nossa caríssima classe política adora essas horas. Toda ela, tanto oposição quanto governo.

Os oposicionistas aproveitam o ensejo para tachar o governo de incompetente. Os governistas aproveitam o ensejo pra fazer a dança das cadeiras. O trouxa do cidadão, que banca a brincadeira, é que tem que aguentar não apenas os apagões, entra governo e sai governo, como também o blablablá da classe política.

Vale a pena olhar a semântica, que faz tanto barulho, e os dados, que a gente olha tão pouco.
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A SEMÂNTICA

O ministro Edison Lobão, por exemplo, repeliu o uso da palavra “apagão” pra descrever o ocorrido. Para ele, na lógica do seis por meia dúzia, o que houve foi uma “interrupção”. (Assim como o caixa-dois para o Delúbio eram “recursos não-contabilizados”.)

“Apagão” é uma tradução bastante decente de “blackout”. Melhor que “blecaute”, que abrasileira sem traduzir. Se faltou luz e oito estados ficaram no escuro, foi apagão.

Discutindo sobre o assunto na internet, disseram que o problema é com o uso indiscriminado da palavra “apagão” – “apagão aéreo”, “apagão dos portos”, “apagão (fill the blanks)”. Dizem que é coisa da oposição pra desgastar o governo injustamente. Vale dar uma olhada.

OK, eu também não curto essa coisa de ampliar o âmbito da palavra. O dicionário Aulete, porém, considera que a palavra também abrange colapsos estruturais em outras áreas que não a de luz. Pessoalmente? Prefiro usar “apagão” quando cidadãos ficam às escuras. Foi o caso, e não tem tergiversação que resolva.

Pior ainda: os primeiros a adaptarem a palavra “apagão” para outros âmbitos foram membros do PT, que hoje reclama do uso da palavra. Em entrevista à Folha em dezembro de 2002, o hoje novamente ministro Antônio Palocci dizia:

“A capacidade de planejamento estratégico do Brasil teve um apagão maior do que na energia. E ninguém fala nada.” (FSP, 22.dez.2002, para assinantes)

Outro argumento do mesmo amigo que reclamou do uso indiscriminado da palavra “apagão” foi o de que o que houve no Nordeste não se compara à falta de energia que levou a um espartano racionamento no governo Fernando Henrique. Verdade, não se compara. Mas, mesmo na época do racionamento, blecautes semelhantes ou até menores do que o havido ontem no Nordeste também eram chamados de apagões. Inclusive durante a campanha eleitoral:

Pane, que durou aproximadamente uma hora, afetou o fornecimento em 30% da região; causa ainda é desconhecida

Curto-circuito provoca apagão no Nordeste

FÁBIO GUIBU
DA AGÊNCIA FOLHA, EM RECIFE

Um curto-circuito em uma linha de transmissão de energia elétrica da Chesf (Companhia Hidrelétrica do São Francisco) provocou na manhã de ontem um blecaute de até uma hora em cerca de 30% da região Nordeste.
O problema, de causa ainda desconhecida, aconteceu às 10h35, a 70 km de Angelim, município do agreste pernambucano. A linha afetada, de 500 mil volts, abastece a subestação Recife 2, a maior do Estado, localizada em Jaboatão dos Guararapes, na região metropolitana. (FSP, 11.out.2002, para assinantes)

O que mudou de 2002 para cá?

Já vimos que, entra governo e sai governo, o cidadão continuou ficando às escuras por falhas do governo de plantão. Falhas diferentes, mas ainda falhas. Que precisam ser solucionadas, até pra fazer jus ao tanto que a gente paga por um serviço tão precário.

Já vimos que a palavra usada pelos jornalistas para descrever esses incidentes era exatamente a mesma. Não é pra atender ao capricho dos simpatizantes de um governo ou de outro que se vai ter motivo pra mudar.

Já vimos que a ampliação do significado da palavra por parte da oposição ao governo de plantão também já ocorria. Eu pessoalmente não gosto dessa ampliação, mas até o dicionário aceita. Sem falar que os simpatizantes do governo de agora usavam essa mesma ferramenta retórica pra criticar o governo ao qual se opunham.

Então, a única coisa que mudou foi o seguinte: quem era vidraça passou a ter a pedra na mão; quem tinha a pedra na mão passou a ser a vidraça. Quem com semântica fere, com semântica será ferido – esse é o jogo da classe política.

Enquanto isso, o trouxa do cidadão é quem fica no escuro, tomando pedrada de raspão na cabeça e tendo que pisar em cacos de vidro. Um pouco de memória, que a internet ajuda, e um tanto de honestidade intelectual, que é disciplina e hábito, ajuda a não entrar nas torcidas organizadas de um lado ou de outro nesse pacto de canalhas entre governo e oposição.
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OS DADOS

Outro argumento que ouvi foi que o apagão de ontem foi exceção. O Estadão diz, sem informar nem dados e nem fonte, que “Apagões no Brasil aumentaram nos últimos três anos“. Acho possível que tenham aumentado, mas eu queria ter acesso aos dados inteiros pra tirar conclusões mais detalhadas.

Na falta deles, é possível checar de uma maneira mais trabalhosa.

O site do Operador Nacional do Sistema, uma espécie de guarda de trânsito da energia elétrica do Brasil, publica um boletim diário do estado do sistema. Abra em nova janela ou aba o link “Principais eventos e ocorrências”. Você pode trocar a data no link e ver, dia a dia, voltando no tempo, o que houve. Na maior parte dos dias, você pode ver coisas assim:

No dia 03/02/2011, não foram verificadas ocorrências significativas com origem na Rede de Operação do Sistema Interligado Nacional – SIN.

No dia 4, o boletim disse isto:

No dia 04/02/2011, à 00h21, ocorreu a interrupção de cerca de 5.754 MW de cargas na região Nordeste, atingindo os Estados da Bahia, Sergipe, Alagoas, Penambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará, devido ao desligamento de diversas linhas de transmissão em 500/230 kV e de usinas geradoras nessa região. Posteriormente, à 00h29, devido as condições de degradação das tensões e frequência, houve o desligamento de outras linhas de transmissão e usinas geradoras remanescentes, causando uma interrupção adicional de cerca de 2.246 MW, atingindo os Estados citados anteriormente.
Na Celpe (Estado de Pernambuco) permaneceu o suprimento de cerca de 70 MW e na Coelba (Estado da Bahia), cerca de 340 MW.
O processo de recomposição das cargas foi iniciado à 01h10 e concluído às 05h.
A causa está sendo pesquisada pela Eletrobras Chesf e ONS.

E não foi a primeira vez no ano. Olha só:

No dia 26/01/2011, às 22h15, ocorreu o desligamento automático de todas as unidades geradoras da UHE Funil (Furnas), com geração de 200 MW, e das LT 138 kV Funil/Saudade C1 e C2 e Saudade/Volta Redonda C1. Em seguida, entre 22h23 e 22h25, ocorreram os desligamentos automáticos das LT 138 kV Cachoeira Paulista/Volta Redonda C1 e C2, Nilo Peçanha/Volta Redonda C1 e C4 e Saudade/Volta Redonda C2.
Houve interrupção de 510 MW de cargas no interior do Estado do Rio de Janeiro, sendo 445 MW da LIght e 65 MW da Ampla.
Às 22h28 foi iniciada a recomposição das cargas da Light, sendo concluída à 01h57 do dia 27/01/2011.
À 00h48 foram normalizadas as cargas da Ampla.
A causa está sendo pesquisada pelos agentes Furnas e Light.

ou

No dia 20/01/2011, às 10h26, ocorreu o desligamento automático de toda a SE Figueira.
Em consequencia, houve interrupção de 126 MW de cargas da Copel, na região norte do Estado do Paraná.
A normalização das cargas foi iniciada às 11h00 e concluída às 11h04.
A causa foi cabo rompido na chave seccionadora de 230 kV da SE Figueira, que interligava as barras BP1 e BP2 da referida SE.

ou

No dia 15/01/2011, às 17h44, ocorreu o desligamento automático da LT 230 kV Porto Velho / Abunã, causando a desenergização da LT 230 kV Abunã / Rio Branco e de toda a transformação 230/138/69 kV da SE Rio Branco I, todos os equipamentos e linhas de transmissão da Eletrobras Eletronorte.
Em consequência houve a interrupção de 11 MW do agente de distribuição Ceron, atingindo a cidade de Guajará Mirim, no Estado de Rondônia e de 88 MW de cargas do agente de distribuição Eletroacre, atingindo a região das cidades de Rio Branco, Xapuri, Epitaciolândia e Sena Madureira, no Estado do Acre.
A recomposição das cargas foi iniciada às 18h06 e concluída às 18h16.
A causa está sendo pesquisada pela Eletrobras Eletronorte.

ou

No dia 11/01/2011, às 14h32 (Horário Brasileiro de Verão), ocorreu o desligamento automático dos transformadores TR2, TR3 e TR4 230/69 kV – 100 MVA da SE Cotegipe, da Eletrobras Chesf.
Em consequência houve a interrupção de 245 MW de cargas do agente de distribuição Coelba, atingindo a região metropolitana da cidade de Salvador, no Estado da Bahia.
A recomposição das cargas foi iniciada às 14h34 e concluída às 14h55.
A causa está sendo pesquisada pela Eletrobras Chesf.

ou

No dia 05/01/2011, às 14h27min houve o desligamento do C2 da LT 230 kV Gravatai 2/Porto Alegre 6 (CEEE-GT) e às 14h28min o desligamento do C3 da LT 230kV Gravatai 2/Porto Alegre 6 (CEEE-GT) e da LT 230 kV Porto Alegre 10/Porto Alegre 4 (CEEE-GT). A LT 230 kV Gravataí 2/Porto Alegre 6 C1 (CEEE-GT) já se encontrava desligada em urgência desde às 13h37min devido discordância de pólos no Disjuntor 230 kV 5201 na SE Porto Alegre 6 (CEEE-GT), no estado do Rio Grande do Sul.
Em consequência a partir das 14h28min houve interrupção de 470 MW de cargas da distribuidora CEEE, na região metropolitana de Porto Alegre.
A recomposição das cargas, iniciou às 14h34min, com o religamento da LT 230 kV Porto Alegre 4/Porto Alegre 10, sendo totalmente recompostas às 15h53min.
A causa está sendo pesquisada pela CEEE.

ou

No dia 04/01/2011, às 15h17, ocorreu o desligamento automático da LT 230 kV Cícero Dantas / Catu C1, dos transformadores TR1 230/13,8 kV – 40 MVA da SE Olindina e TR3 230/69 kV – 50 MVA da SE Cícero Dantas, da Eletrobras Chesf.
Em consequência houve a interrupção de 30 MW de cargas do agente de distribuição Coelba, atingindo a região metropolitana da cidade de Salvador, no Estado da Bahia.
A recomposição das cargas foi iniciada às 15h38 e concluída às 16h18.
A causa está sendo pesquisada pela Eletrobras Chesf.

ou

No dia 1º/01/2011, à 00h15, ocorreu o desligamento automático dos transformadores TR1 e TR3 345/88 kV – 400 MVA, da SE Milton Fornasaro, da CTEEP.
Em consequência houve a interrupção de 294 MW de cargas do agente de distribuição Eletropaulo, atingindo a região metropolitana da cidade de São Paulo, no Estado de São Paulo.
A recomposição das cargas, em torno de 280 MW, foi concluída à 00h24. Demais cargas interrompidas, em torno de 14 MW foi concluída à 01h03.
A causa está sendo pesquisada pela CTEEP.

Praticamente um apagão a cada cinco dias, mais ou menos. Isso significa que aumentaram os apagões? Ou significa que reduziram? Ou significa um fluxo normal?

Só tem um jeito de saber: recolhendo os dados de todos os apagões dos últimos vários anos e analisando. É possível transformar esses dados numa planilha. Aí se compara, pode-se até mapear pra ver se eles são mais frequentes em algum ponto mais específico.

Só que cada incidente tem sua característica. Vai ter atingido um número X de consumidores, vai ter atingido um número Y de cidades, vai ter durado Z horas.

Eu suponho que uma medida relevante para comparar incidentes díspares ponderaria as horas de interrupção versus a quantidade de pessoas atingidas.

Não sei qual a melhor maneira de fazer isso. Algum economista na área?