Com o aumento da frota, caem mortes e dispara a invalidez

A Folha de S.Paulo publica hoje uma reportagem interessante, mostrando que quintuplicaram os pagamentos de seguro por invalidez após acidentes de trânsito. Foram pagas 31 mil indenizações em 2005, e em 2010 o número saltou para 151,5 mil.

Em novembro, o jornal já havia publicado reportagem sobre o aumento no número de mortes no trânsito. Levando em conta o aumento da frota de carros no Brasil, porém, a proporção das mortes caiu. Se em 2005 morriam 83,5 pessoas para cada 100 mil veículos circulando no país, em 2010 morreram apenas 62,5 pessoas para cada 100 mil veículos. Isso é positivo. Mas e como se comparam os inválidos a esses mortos?

Como jornais não costumam calcular esse tipo de proporção, ou mesmo cruzar dados de estudos diferentes, a nova reportagem não compara os casos de invalidez nem com a frota e nem com as mortes no trânsito. Fui atrás.

Na proporção da frota, em 2005 mais gente morria do que ficava inválida no trânsito: eram 85,5 mortes versus 73,9 casos de invalidez a cada 100 mil veículos. Em 2010, foram 62,5 mortes versus 233,8 casos de invalidez a cada 100 mil veículos. O gráfico fica assustador:

Boa parte desse crescimento nos inválidos tem a ver com o aumento da quantidade de motocicletas. Sete em cada dez dos inválidos por acidentes são motoqueiros e jovens, diz a reportagem. O motoqueiro está muito mais exposto a ferimentos graves do que o motorista – que, bem ou mal, está protegido deles por uma armadura de lata.  Na moto, mesmo sem o piloto morrer, ainda pode acontecer muita coisa ruim a ele num acidente.

O aumento das motos tem tudo a ver com o aumento dos carros: quanto mais carros, mais lento o trânsito; quanto mais lento, mais as empresas recorrem a motoboys para fazer entregas cortando pelo trânsito.

Considerando o tamanho da indenização paga (os mesmos R$ 13.500 para morte ou para invalidez permanente), quer-me parecer que quem morre se ferra menos do que quem fica inválido. Sem falar que a invalidez é para sempre, enquanto a morte é uma só vez. Se for considerar que o aumento das motos tem a ver principalmente com  cidadãos mais pobres que buscam um bico, pode ter aí inclusive um corte social desigual. É uma medida da crueldade da lógica do trânsito brasileiro.

Estes são os dados que eu usei:

Frota Mortes Invalidez Mortes por 100 mil Invalidez por 100 mil
2005 42.071.961 35.994 31.121 85,55 73,97
2006 45.372.640 36.367 45.635 80,15 100,58
2007 49.644.025 37.407 80.333 75,35 161,82
2008 54.506.661 38.273 89.474 70,22 164,15
2009 59.361.642 37.594 118.021 63,33 198,82
2010 64.817.974 40.610 151.558 62,65 233,82

As fontes:

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Quem morre de overdose no Brasil?

Amy Winehouse

Por conta da morte de Amy Winehouse, sob suspeita de overdose, o Datablog do Guardian avaliou como são as mortes por drogas no Reino Unido. As estatísticas de lá vão até 2008. Elas vêm de um estudo específico do National Health Service (o “SUS” britânico) sobre abuso de drogas.

No Brasil, dados do gênero são coletados pelo Datasus, serviço de estatísticas do Ministério da Saúde. Seu buscador não é muito amigável: para encontrar estatísticas lá, é preciso ter alguma ideia de como organizar uma planilha e de como interpretar o vocabulário técnico. “Morbidade”, por exemplo, é incidência de doenças. Também é preciso “brigar” um pouco com a Classificação Internacional de Doenças (CID), para encontrar o que se deseja.

Filtrei os dados do Datasus para obter os óbitos, por Estado, nas categorias “Envenenamento por drogas e substâncias biológicas” e “Efeitos tóxicos de substâncias de origem principal não-medicinal”. Estou ciente de que isso inclui outras coisas que não drogas. Por exemplo, no primeiro, podem estar as mortes por excesso de medicamentos; no segundo, podem estar mortes por conta de substâncias usadas no trabalho, em algumas profissões. Outras mortes causadas por tóxicos podem estar com outras classificações, ou até mesmo em algo como “causa desconhecida”.

Em 2010 o Acre foi o Estado onde mais morreu gente, proporcionalmente, por essas causas. Foram 2,18 mortes para cada 100 mil habitantes. Em comparação, São Paulo teve 0,46 mortes por 100 mil. Veja os dados por Estado, desde 1998, nesta planilha.

PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DELA
Sobre Amy Winehouse em si, tenho pouco a dizer. Sua voz era boa, mas o personagem não me agradava. Nunca parei para prestar atenção em seu trabalho, portanto. Há alguns anos, no auge do seu pé na jaca, cheguei a incluir seu nome nos meus filtros de palavras bloqueadas nos meus feeds de RSS, junto com Big Brother e suas variações.

Recentemente, porém, assisti a um documentário que pode iluminar um pouco o que levou a cantora a perder todos os limites. Trata-se de Phoenix Rising, que conta a história da última formação do Deep Purple nos anos 70. Resenhei aqui. Dois membros da minha banda favorita de todos os tempos, ambos talentosíssimos, calçaram botas de jaca e arrastaram o grupo para um final trágico. Esse final incluiu chifre, drogas, roquenrôu de qualidade decadente, um funcionário possivelmente assassinado e, após o fim da banda, morte de um músico por overdose.

Um desses dois membros, o guitarrista Tommy Bolin, morreu de overdose em 1976. O outro, o baixista e vocalista Glenn Hughes, sobreviveu de maneira precária, amargando a irrelevância durante décadas. Só parece estar se reerguendo agora, depois dos 60 anos, após ralar muito. E ainda assim tem umas manias meio chatas, tipo contar no Twitter quando faz colonoscopia. É pungente e muito sincero o depoimento dele no documentário. Hughes, que lutou muito contra o vício, postou isto no Twitter ao saber da morte:

So sad to hear the news of Soul Sister Amy Winehouse…my heart goes out to her family…Addiction is cunning, baffling ansd Powerful…GH

Ainda que você não tenha o menor interesse pelo Deep Purple, recomendo esse documentário. Ele diz muito sobre a história da música, a lógica da celebridade e a natureza humana.

Amy Winehouse podia ter o destino do Glenn Hughes ou o do Tommy Bolin (Keith Richards só tem um). Com a moeda tendo caído do lado Bolin, é mais fácil que se torne uma lenda entre os fãs. Não precisará, depois de já coroa, girar o mundo cantando seus sucessos da juventude em bares pequenos. Lucro garantido – embora não para ela.

Eu sou um criminoso: quebrei a lei seca do Kassab

A discussão sobre três proibições me chamou a atenção nos últimos dias. A lógica de todas elas é a mesma, e é por essa mesma lógica que sou contra todas elas da maneira como estão propostas. O motivo está ilustrado pela quarta proibição.

1)      Após o ataque do assassino de Realengo, o Senado quer mostrar serviço e empurrar um novo referendo pra ver se DESTA VEZ a população aceita a proposta de proibir a venda legal de armas no país, sob a comoção da morte de 12 jovens.

2)      O ministro Ricardo Lewandowski, atual presidente do TSE, defendeu a proibição das doações eleitorais por parte de empresas, na tentativa de corrigir o desequilíbrio no financiamento de candidatos.

3)      O líder do PT na Câmara, Paulo Teixeira, publicou em seu site um vídeo defendendo a liberação do plantio de maconha por cooperativas de usuários. Num arroubo de grêmio estudantil, disse que comer no McDonald’s pode ser “talvez o maior crime”.

Não uso armas (nem pretendo), não fumo maconha (nem pretendo) e não faço doações eleitorais (nem pretendo). Mas gosto de beber cerveja com moderação. Exatamente por isso, me tornei neste final de semana um perigoso infrator da lei seca do prefeito Gilberto Kassab, em São Paulo.

A cidade promoveu a Virada Cultural – uma série de shows variados ao longo de 24 horas onde tem shows pra todos gostos, inclusive o meu. Por exemplo, o do incrível Brian Auger e sua família:

Neste ano, porém, Kassab resolveu proibir a venda de bebidas alcoólicas no evento. Em parte a atitude dele foi uma reação ao nojento “vinho químico” vendido baratinho por camelôs a deserdados da noção que não gostam das próprias entranhas. Em parte era talvez uma tentativa de gastar menos com a varrição da cidade depois.

Fazia calor. Os shows eram bons. O povo queria tomar cerveja gelada. E a cada cinco metros se achava alguém vendendo. No começo eram sujeitos encostados em portinholas, timidamente arrastando sacolas térmicas e oferecendo discretamente seu produto. Depois das 10 da noite, já se viam camelôs com isopor na cabeça. Perto da meia-noite, já se via jovens caídos ao lado de garrafas de vinho químico. E, fora dois casos isolados em meio a quatro milhões de pessoas curtindo, a Virada foi pacífica. O Kassab até fechou alguns bares, a prefeitura apreendeu algumas toneladas de bebida. Mas ninguém deixou de beber só porque o Kassab mandou.

É exatamente esse o problema das proibições. Você pode sufocar a oferta legal, proibindo. Ocorre, porém, que você não sufoca a demanda – seja por cerveja, seja por maconha, seja por financiar político. Quem quer, acha. Se não achar legalmente, vai achar no mercado ilegal. E o mercado ilegal é surpreendentemente mais eficiente do que qualquer mercado legal.

Que o diga Moisés Naím, autor do livro “Ilícito”. É uma leitura ao mesmo tempo esclarecedora e perplexa. Esclarecedora porque mostra a dinâmica do mercado negro. Perplexa porque simplesmente não existe saída simples para os problemas trazidos por ele – e as proibições, por mais simples que sejam de entender, simplesmente acabam por fomentar o mercado negro. No capítulo “Por que estamos perdendo”, ele diz:

“A guerra contra os traficantes coloca a força dos governos contra a força do mercado. A história e o senso comum dizem que, no longo prazo, as forças do mercado tendem a prevalecer sobre as dos governos. Nesse sentido, o tráfico moderno tem muito em comum com o antigo contrabando que apareceu assim que os governos começaram a impor barreiras comerciais. As commodities valiosas e os métodos de comércio podem ter mudado. Mas os incentivos econômicos são antigos.”

Como discorri no post anterior, os incentivos econômicos são o que importa observar.

O atirador do Realengo não comprou suas armas em loja. Comprou por baixo dos panos, até porque hoje para comprar uma arma legalmente é preciso apresentar muita documentação. O estatuto do desarmamento atual já torna bastante difícil a vida de quem quer comprar arma legalmente, e isso é bom. Em dez anos, o estatuto reduziu em 90% a quantidade de armas vendidas legalmente. A lei poderia se tornar mais exigente e dificultar ainda mais. Por exemplo, sei lá, exigir que quem quer ter porte se apresente todo dia às 18h à Polícia Federal pra contar seu dia ao delegado. Ou responsabilizar ex-donos de armas roubadas usadas em crimes. Só que nada disso vai reduzir os crimes se não se agir decentemente sobre o mercado ilegal de armas.

Os usuários de maconha de que o deputado Paulo Teixeira fala, plantando em casa, não precisariam recorrer a traficantes. Porque os que querem fumar maconha sempre sabem bem onde achar, e não é em loja. Comprando de traficantes, financiam o crime. Esqueça o arroubo de grêmio estudantil sobre o McDonald’s e o argumento do deputado não parece irrazoável.

No caso das doações eleitorais, não consigo entender como raios alguém imagina que proibir o caixa-um pode eliminar o caixa-dois. OK, as doações de empresas são desequilibradamente maiores que as de pessoas físicas. Mas elas ao menos são mais ou menos transparentes, fora aquela malandragem de doar para o diretório do partido e no dia seguinte o partido doar para o candidato de escolha das empresas.

Se as empresas não puderem doar com seu próprio nome, vão doar por meio das pessoas físicas de seus diretores. E qualquer um que já tenha tentado decifrar a composição societária de uma empresa grande sabe o quanto isso é difícil. Quanto maior a empresa, mais complicado. Fora a chance de doar via laranjas.

Ora, as doações deviam ser MAIS transparentes, de preferência em tempo real. Doou hoje? Publica obrigatoriamente no sábado, pra todo mundo saber quem doou pra quem. Pra todo mundo saber quem está tentando influenciar quem. Porque aí é possível ver que políticos estão incorrendo no conflito de interesses de beneficiar seus doadores indevidamente por meio de sua atividade parlamentar.

Se isso for proibido, será impossível ter sequer indícios. Mas, assim como a minha cerveja de sábado, não vai ter proibição que impeça de rolar.

O plano de saúde do José Alencar

Morreu hoje o ex-vice-presidente José Alencar, aos 79 anos. Meus respeitos. Parecia um homem sério, salvo um ou outro escorregão feio. Em 2002, ele era considerado conservador, o que em si não é problema; ao longo do governo Lula, especialmente quanto mais frequentava hospitais, o ex-vice foi ganhando outra imagem pública.

(Para saber mais sobre o ex-vice, leia a biografia “José Alencar: Amor à Vida”, escrita pela Eliane Cantanhêde.)

Assistindo aos telejornais de hoje e lendo o noticiário na Web e em outros lugares, você vai ler uma litania de elogios à sua vontade de viver. À sua força na luta contra o câncer. Até em heroísmo vão falar. Realmente é fofo ver um velhinho saindo do hospital e dizendo querer assistir à formatura do bisneto que ainda não tinha nascido.

Mas devagar com o andor nas homenagens. Se Alencar deixou um exemplo, é um exemplo muito difícil de seguir.

Caso dependesse do Sistema Único de Saúde, como lembrou a Leandra Lima, ele já estaria morto há muito tempo. Marcar uma consulta simples no SUS demora muito. O sistema é relativamente eficiente no básico, mas conforme a situação vai complicando fica mais difícil ter tratamento. E a situação do ex-vice era extremamente complicada (veja no gráfico do IG).

Se ele fosse fazer todas essas cirurgias pagando como particular, não haveria dinheiro que chegasse. Ele devia ter um plano de saúde muito bom – quem não tem plano de saúde morre três vezes mais do que quem tem, segundo estudo de 2006. Mas um plano tão bom quanto o que ele usava também não é pra qualquer um.

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QUANTO CUSTARIA

Consultei o corretor Paulo Sérgio Dias dos Santos, com quem comprei o meu plano de saúde há algum tempo. Perguntei a ele quanto custaria um plano de saúde que cobrisse internações no Einstein e no Sírio-Libanês para procedimentos tão complexos quanto esses pelos quais o ex-vice precisou passar nos últimos anos.

Resposta: na idade dele (79 anos), para essa cobertura, custaria nada menos do que R$ 2.200 por mês, nas principais empresas do ramo no Brasil. Mas elas não costumam aceitar clientes novos depois de certa idade. Geralmente os pacientes que pagam tudo isso já tinham o plano há tempos.

Lembre que planos de saúde são feitos para serem pouco usados. Quando o são, o cliente sadio paga pelo cliente doente, e é daí que vem o lucro. Aos 34 anos, por exemplo, eu pago mais de R$ 200, mas dificilmente faço consultas mais de uma vez ao mês. Geralmente são consultas “light”: otorrino, nutricionista, um eventual check-up. Na teoria, acaba sendo uma espécie de poupança: hoje você paga mais do que usa para depois usar mais do que paga, caso precise.

Mesmo quando precisa, enfrenta problemas. Alguns hospitais pararam de atender pacientes de planos de saúde em suas emergências, alegando que os planos pagam pouco.

No ano passado, no Notícias MTV, mostramos algumas vezes o caso do Marcelo Yuka, ex-baterista do Rappa. Ele foi baleado e perdeu a capacidade de caminhar. Seu plano de saúde brigou na Justiça para cortar alguns dos tratamentos.

Em 2010, pelo 11º ano consecutivo, os planos de saúde foram líderes de reclamações ao Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor.

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GERALMENTE É VOCÊ QUEM PAGA

Por ter sido senador entre 1999 e 2002, Alencar tinha direito a um plano de saúde vitalício. Consta que teria recusado. Mas mais de 400 senadores e ex-senadores – inclusive os que serviram por apenas meses – têm direito a esse benefício, continuado em março deste ano. Ex-senadores não precisam pagar um centavo sequer por isso. Ex-deputados, por um plano semelhante, pagam R$ 280 mensais. Pouco mais do que eu pago pelo meu.

Quando ficam velhinhos, muitas vezes eles precisam usar esse tipo de plano para coisas caras: no ano passado, o senador Romeu Tuma recebeu um coração artificial de R$ 300 mil no dia 7 de outubro para morrer 19 dias depois. Duvido que tenham lavado o aparelho para implantá-lo em outro paciente com mais chance de viver.

Saíam dos cofres públicos para a cobertura de nossas ex-autoridades, em 2009, o equivalente a R$ 32 mil por senador, todo ano. Isso dá R$ 2.666 por mês, pago por mim, por você e por nossos pais. Fecha mais ou menos com o valor que o corretor me informou.

Não acho injusto que nossos representantes tenham um bom plano de saúde. Acho complicado apenas que eles, que ganham bem e por vezes são empresários, não precisem pôr a mão no bolso sequer para pagar um pedaço do plano.

De qualquer forma, quem tem a atribuição de alocar recursos para o sistema público de saúde passa MUITO longe dele. Quem tem a atribuição de criar regras mais justas para planos de saúde não precisa pagar pelo melhor do mercado. E isso é sempre chato.

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Meus respeitos à família do José Alencar. Meus respeitos aos seus fãs. Mas façam-me o favor de não exaltar exemplos que não possam ser seguidos por qualquer um que não seja poderoso. OK, é fundamental um velhinho ter vontade de viver. Mas se não tiver como bancar, só a vontade não adianta.