Com o aumento da frota, caem mortes e dispara a invalidez

A Folha de S.Paulo publica hoje uma reportagem interessante, mostrando que quintuplicaram os pagamentos de seguro por invalidez após acidentes de trânsito. Foram pagas 31 mil indenizações em 2005, e em 2010 o número saltou para 151,5 mil.

Em novembro, o jornal já havia publicado reportagem sobre o aumento no número de mortes no trânsito. Levando em conta o aumento da frota de carros no Brasil, porém, a proporção das mortes caiu. Se em 2005 morriam 83,5 pessoas para cada 100 mil veículos circulando no país, em 2010 morreram apenas 62,5 pessoas para cada 100 mil veículos. Isso é positivo. Mas e como se comparam os inválidos a esses mortos?

Como jornais não costumam calcular esse tipo de proporção, ou mesmo cruzar dados de estudos diferentes, a nova reportagem não compara os casos de invalidez nem com a frota e nem com as mortes no trânsito. Fui atrás.

Na proporção da frota, em 2005 mais gente morria do que ficava inválida no trânsito: eram 85,5 mortes versus 73,9 casos de invalidez a cada 100 mil veículos. Em 2010, foram 62,5 mortes versus 233,8 casos de invalidez a cada 100 mil veículos. O gráfico fica assustador:

Boa parte desse crescimento nos inválidos tem a ver com o aumento da quantidade de motocicletas. Sete em cada dez dos inválidos por acidentes são motoqueiros e jovens, diz a reportagem. O motoqueiro está muito mais exposto a ferimentos graves do que o motorista – que, bem ou mal, está protegido deles por uma armadura de lata.  Na moto, mesmo sem o piloto morrer, ainda pode acontecer muita coisa ruim a ele num acidente.

O aumento das motos tem tudo a ver com o aumento dos carros: quanto mais carros, mais lento o trânsito; quanto mais lento, mais as empresas recorrem a motoboys para fazer entregas cortando pelo trânsito.

Considerando o tamanho da indenização paga (os mesmos R$ 13.500 para morte ou para invalidez permanente), quer-me parecer que quem morre se ferra menos do que quem fica inválido. Sem falar que a invalidez é para sempre, enquanto a morte é uma só vez. Se for considerar que o aumento das motos tem a ver principalmente com  cidadãos mais pobres que buscam um bico, pode ter aí inclusive um corte social desigual. É uma medida da crueldade da lógica do trânsito brasileiro.

Estes são os dados que eu usei:

Frota Mortes Invalidez Mortes por 100 mil Invalidez por 100 mil
2005 42.071.961 35.994 31.121 85,55 73,97
2006 45.372.640 36.367 45.635 80,15 100,58
2007 49.644.025 37.407 80.333 75,35 161,82
2008 54.506.661 38.273 89.474 70,22 164,15
2009 59.361.642 37.594 118.021 63,33 198,82
2010 64.817.974 40.610 151.558 62,65 233,82

As fontes:

London burning

(Publicado primeiro no blog Novo em Folha.)

A imagem da primeira página da Folha, hoje, é chocante: um prédio em Londres, incendiado por manifestantes que protestavam contra a morte de um homem pela polícia. Foram presas 160 pessoas no final de semana.

Os protestos e saques começaram em Tottenham, um bairro pobre com grande população negra, e chegaram até o centro da cidade, em Oxford Street. E o prefeito, Boris Johnson, está em férias. Como sói acontecer nessas horas complicadas, o elemento mais difícil de obter é o porquê. Os manifestantes não são organizados a ponto de publicar uma declaração dos seus princípios. A rigor, praticamente entra no protesto quem quer. E é justamente nessas horas que vêm as interpretações apressada, as simplificações.

Há quem diga que a revolta tem a ver com os cortes nas verbas sociais do Orçamento. O Daily Telegraph diz que comprar essa versão deixa os culpados à solta. Ele culpa a “yob culture”, algo como “cultura de mano”. Para The Sun, não tem conversa: quem se revoltou é tudo bandido mesmo. Mas será que é? O Guardian lembra que Tottenham não é “um lugar mau cheio de gente má”. É um lugar com más condições de vida (mal comparando, é como se fosse uma favela), onde a maioria não é por natureza violenta.

Kevin Anderson, um jornalista freelance, olhou a situação e viu paralelos com um clássico do jornalismo de 1967.

Naquele ano, no bairro negro de Detroit, alguns soldados negros voltaram da guerra do Vietnã e foi feita uma festa para recebê-los. Em dado momento, a polícia bateu lá e botou todo mundo da festa em cana. Daí para estourar uma revolta incendiária foi um pulinho. Até porque já tinha acontecido em outros lugares antes. A reação imediata foi mais ou menos a mesma: especulação desenfreada.

Meu mestre Philip Meyer, que trabalhava para a rede de jornais que publicava o Detroit Free Press, resolveu fazer a cobertura tentando deixar o fígado de lado. Especializado em métodos de pesquisa das ciências sociais, ele preparou um questionário para testar o senso comum. Escolheu uma amostra estatisticamente correta dos moradores do bairro para tentar descobrir o perfil de quem se revoltou, e de suas razões. Chegou a conclusões bem diferentes desse senso comum. Uma delas era que os mais revoltados estavam entre os que mais estudaram, colado com os que largaram os estudos no ensino médio, e não entre os ignorantes.

Inspirado nesse post, o Guardian resolveu adaptar o velho questionário do mestre Philip Meyer e colocar na internet, esperando que viessem respostas interessantes. Além de perguntar se o respondente participou ou não das revoltas e qual seu perfil, são feitas perguntas sobre aprovação ou desaprovação ao governo e sobre como uma vigília tranquila virou uma rebelião incendiária. Algumas das respostas dos leitores parecem interessantes para dar uma perspectiva mais nuançada sobre o que houve.

O uso de enquetes eletrônicas para reportagem tem limitações sérias. Primeiro e antes de mais nada porque responde quem quer. Segundo porque responde quantas vezes quiser, do jeito que quiser. Em seu livro “Precision Journalism”, nunca publicado no Brasil, Meyer enfatiza bastante a necessidade de rigor e aleatoriedade na amostra de uma pesquisa séria.

Mandei um email para Meyer perguntando o que ele achou. Ele disse o seguinte:

“Interessante! O problema não é tanto que os dados são coletados online, mas que os entrevistados se auto-escolhem. E a decisão de participar da pesquisa pode estar correlacionada a algo interessante que devia ser medido. Por exemplo, se as pessoas com maiores reclamações tiverem mais probabilidade de participar da pesquisa, então o nível de reclamação medido será exagerado. Ainda vale a pena como pesquisa exploratória. Pode trazer dicas para os repórteres e para uma eventual pesquisa mais rigorosa. Até lá, será difícil resistir à tentação de generalizar a partir dos resultados online. Entrevistas pessoais com os presos também podem trazer dicas. O Guardian é um ótimo jornal, e desejo o melhor para eles.”

Quem morre de overdose no Brasil?

Amy Winehouse

Por conta da morte de Amy Winehouse, sob suspeita de overdose, o Datablog do Guardian avaliou como são as mortes por drogas no Reino Unido. As estatísticas de lá vão até 2008. Elas vêm de um estudo específico do National Health Service (o “SUS” britânico) sobre abuso de drogas.

No Brasil, dados do gênero são coletados pelo Datasus, serviço de estatísticas do Ministério da Saúde. Seu buscador não é muito amigável: para encontrar estatísticas lá, é preciso ter alguma ideia de como organizar uma planilha e de como interpretar o vocabulário técnico. “Morbidade”, por exemplo, é incidência de doenças. Também é preciso “brigar” um pouco com a Classificação Internacional de Doenças (CID), para encontrar o que se deseja.

Filtrei os dados do Datasus para obter os óbitos, por Estado, nas categorias “Envenenamento por drogas e substâncias biológicas” e “Efeitos tóxicos de substâncias de origem principal não-medicinal”. Estou ciente de que isso inclui outras coisas que não drogas. Por exemplo, no primeiro, podem estar as mortes por excesso de medicamentos; no segundo, podem estar mortes por conta de substâncias usadas no trabalho, em algumas profissões. Outras mortes causadas por tóxicos podem estar com outras classificações, ou até mesmo em algo como “causa desconhecida”.

Em 2010 o Acre foi o Estado onde mais morreu gente, proporcionalmente, por essas causas. Foram 2,18 mortes para cada 100 mil habitantes. Em comparação, São Paulo teve 0,46 mortes por 100 mil. Veja os dados por Estado, desde 1998, nesta planilha.

PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DELA
Sobre Amy Winehouse em si, tenho pouco a dizer. Sua voz era boa, mas o personagem não me agradava. Nunca parei para prestar atenção em seu trabalho, portanto. Há alguns anos, no auge do seu pé na jaca, cheguei a incluir seu nome nos meus filtros de palavras bloqueadas nos meus feeds de RSS, junto com Big Brother e suas variações.

Recentemente, porém, assisti a um documentário que pode iluminar um pouco o que levou a cantora a perder todos os limites. Trata-se de Phoenix Rising, que conta a história da última formação do Deep Purple nos anos 70. Resenhei aqui. Dois membros da minha banda favorita de todos os tempos, ambos talentosíssimos, calçaram botas de jaca e arrastaram o grupo para um final trágico. Esse final incluiu chifre, drogas, roquenrôu de qualidade decadente, um funcionário possivelmente assassinado e, após o fim da banda, morte de um músico por overdose.

Um desses dois membros, o guitarrista Tommy Bolin, morreu de overdose em 1976. O outro, o baixista e vocalista Glenn Hughes, sobreviveu de maneira precária, amargando a irrelevância durante décadas. Só parece estar se reerguendo agora, depois dos 60 anos, após ralar muito. E ainda assim tem umas manias meio chatas, tipo contar no Twitter quando faz colonoscopia. É pungente e muito sincero o depoimento dele no documentário. Hughes, que lutou muito contra o vício, postou isto no Twitter ao saber da morte:

So sad to hear the news of Soul Sister Amy Winehouse…my heart goes out to her family…Addiction is cunning, baffling ansd Powerful…GH

Ainda que você não tenha o menor interesse pelo Deep Purple, recomendo esse documentário. Ele diz muito sobre a história da música, a lógica da celebridade e a natureza humana.

Amy Winehouse podia ter o destino do Glenn Hughes ou o do Tommy Bolin (Keith Richards só tem um). Com a moeda tendo caído do lado Bolin, é mais fácil que se torne uma lenda entre os fãs. Não precisará, depois de já coroa, girar o mundo cantando seus sucessos da juventude em bares pequenos. Lucro garantido – embora não para ela.

Afinal, a estrutura brasileira de aeroportos está bem ou mal?

Sei que pelo menos uma leitora deste blog conhece a fundo o assunto. Eu não entendo absolutamente nada de aeroportos, fora a experiência cada vez menos confortável como usuário deles, mas gosto de observar alguns movimentos na política.

Dia 14 de abril, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) divulgou um estudo sobre aeroportos no Brasil. Você pode baixar a íntegra do estudo aqui.

Os dois autores afirmam, com base nos dados disponíveis, que com base na situação atual dos aeroportos e com os investimentos atuais, dificilmente o Brasil conseguirá terminar até a Copa de 2014 dez dos 13 aeroportos em que há investimentos, se forem mantidos os prazos médios para cumprir as etapas de expansão.

Em português: na avaliação dos pesquisadores, só termina a tempo se correr com a obra. Correr com a obra acarreta problemas, como vimos nas obras da Linha Amarela do metrô de São Paulo e do Rodoanel. Ou acarreta outros tipos de problemas, tipo a necessidade de botar mais dinheiro pra finalizar a tempo. Mas tudo isso por ora está no terreno das possibilidades.

O Ministério Público Federal está pedindo agilidade nas obras  (e não só nas de aeroportos) para que não seja preciso pedir dispensa de licitação nas obras. Foi a dispensa de licitação, em grande parte, que fez os custos das obras dos Jogos Panamericanos terem um superfaturamento de até 600%.  Esse dinheiro sai do meu bolso, do seu bolso e do bolso da sua mãe.

Como não sou especialista em aeroportos, não entro no mérito de o estudo dos economistas do IPEA estar ou não correto. Apenas chamo atenção para um ponto: a reação política.

No que depender do secretário-geral da Presidência, Gilberto Carvalho, o estudo sequer foi feito pelo IPEA: “Não foi o Ipea que fez o estudo. Um pesquisador juntou recortes de jornais para fazer esse pronunciamento. Não representa a posição do Ipea nem do governo. Estamos preocupados em realizar tudo dentro do previsto. Não há desespero nem nenhuma dúvida de que daremos conta. O Brasil vai fazer uma copa bem organizada.”

Ponto a ponto.

1) “Não foi o IPEA que fez o estudo”

O Instituto convocou entrevista coletiva, oficialmente, para divulgar o estudo. Ela foi transmitida ao vivo, em vídeo, pelo site do IPEA. Foi noticiado no site do IPEA. O estudo foi publicado como Nota Técnica da Diretoria de Estudos Setoriais do instituto. É um estudo do IPEA ou não é um estudo do IPEA? Esse estudo especificamente não traz a observação, mas as Notas Técnicas do IPEA costumavam informar na folha de rosto:

As Notas Técnicas visam divulgar, de forma rápida e ampla, 
análises e resultados parciais de pesquisas realizadas no IPEA
ou em parceria com outras instituições, estimulando o debate
corrente em torno de questões específicas de natureza conjuntural
ou metodológica.

O potencial atraso nas obras dos aeroportos se encaixa no primeiro parágrafo.

Não estou em condições de saber se a retirada da observação implica alguma coisa. Mas, pra mim, essas condições não desqualificam de antemão o estudo.

O IPEA faz parte da estrutura do governo federal, dentro do Ministério do Planejamento, ora loteado para o PMDB via Moreira Franco. Em 2009, o IPEA produziu vários estudos que critiquei no “Dicas de um Fuçador”, pai do Numeralha, pela manipulação numérica do oba-oba. Então, ficamos assim: se o IPEA lança um estudo que enche a bola do governo, é do IPEA. Se o estudo não enche a bola do governo, não é do IPEA?

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2) “Um pesquisador”

Na verdade, ministro, foram dois: Carlos Alvares da Silva Campos Neto e Frederico Hartmann de Souza, pesquisadores do IPEA.

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3) “Juntou recortes de jornais para fazer esse pronunciamento”

De fato a bibliografia cita várias notícias publicadas em jornais. Mas boa parte das afirmações feitas no texto se baseia em consultas à execução orçamentária da União (com dados pesquisados nos bancos de dados do SIGA Brasil, DEST e Contas Abertas) e aos dados da Infraero – que mostram aeroportos como o de Vitória (ES) usando atualmente 472% de sua capacidade. Clique nos links para ter acesso direto aos dados.

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4) “Não representa a posição do Ipea nem do governo. ”

Por motivos óbvios o ministro quis chamar atenção para o segundo parágrafo que a observação costumava ter e nesse caso não tem:

As opiniões emitidas nesta publicação são de exclusiva e inteira
responsabilidade dos autores, não exprimindo, necessariamente, o
ponto de vista do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada ou do
Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão.

OK, embora feito por funcionários do instituto e divulgado oficialmente pelo órgão, de fato aquela Nota Técnica pode não ser a posição oficial do IPEA ou do governo. Mas precisa representar a opinião do IPEA ou do governo para ser uma observação importante de ser discutida? Eu acho que não.

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5) “Estamos preocupados em realizar tudo dentro do previsto.”

Os atrasos apontados sugerem o contrário, ainda que eu pressuponha a maior boa vontade do pessoal da Infraero dentro dos recursos de que dispõe. Adoraria que o governo fizesse valer a declaração do ministro. Mas notícias como a de que o governo executou apenas 1% do orçamento dos aeroportos da Copa me fazem crer que é blablablá. Em se tratando de governo, preocupação é execução.

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6) “Não há desespero nem nenhuma dúvida de que daremos conta. ”

Nenhuma dúvida da parte de quem?

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7) “O Brasil vai fazer uma copa bem organizada.”

Trata-se mais de uma declaração de intenções do que de uma enunciação de fato. Só se saberá em 2014 se o Brasil fez uma Copa bem organizada. Por ora, sabe-se apenas que a preparação não parece bem organizada. E também se sabe que o Pan não foi bem organizado, tanto que custou 600% a mais no nosso bolso.

***

E você, o que pensa a respeito? Da minha parte, espero sempre mais transparência da parte dos governos nessas questões que mexem no nosso bolso. Fazer blablablá de avestruz não é transparência, ministro.

Eu sou um criminoso: quebrei a lei seca do Kassab

A discussão sobre três proibições me chamou a atenção nos últimos dias. A lógica de todas elas é a mesma, e é por essa mesma lógica que sou contra todas elas da maneira como estão propostas. O motivo está ilustrado pela quarta proibição.

1)      Após o ataque do assassino de Realengo, o Senado quer mostrar serviço e empurrar um novo referendo pra ver se DESTA VEZ a população aceita a proposta de proibir a venda legal de armas no país, sob a comoção da morte de 12 jovens.

2)      O ministro Ricardo Lewandowski, atual presidente do TSE, defendeu a proibição das doações eleitorais por parte de empresas, na tentativa de corrigir o desequilíbrio no financiamento de candidatos.

3)      O líder do PT na Câmara, Paulo Teixeira, publicou em seu site um vídeo defendendo a liberação do plantio de maconha por cooperativas de usuários. Num arroubo de grêmio estudantil, disse que comer no McDonald’s pode ser “talvez o maior crime”.

Não uso armas (nem pretendo), não fumo maconha (nem pretendo) e não faço doações eleitorais (nem pretendo). Mas gosto de beber cerveja com moderação. Exatamente por isso, me tornei neste final de semana um perigoso infrator da lei seca do prefeito Gilberto Kassab, em São Paulo.

A cidade promoveu a Virada Cultural – uma série de shows variados ao longo de 24 horas onde tem shows pra todos gostos, inclusive o meu. Por exemplo, o do incrível Brian Auger e sua família:

Neste ano, porém, Kassab resolveu proibir a venda de bebidas alcoólicas no evento. Em parte a atitude dele foi uma reação ao nojento “vinho químico” vendido baratinho por camelôs a deserdados da noção que não gostam das próprias entranhas. Em parte era talvez uma tentativa de gastar menos com a varrição da cidade depois.

Fazia calor. Os shows eram bons. O povo queria tomar cerveja gelada. E a cada cinco metros se achava alguém vendendo. No começo eram sujeitos encostados em portinholas, timidamente arrastando sacolas térmicas e oferecendo discretamente seu produto. Depois das 10 da noite, já se viam camelôs com isopor na cabeça. Perto da meia-noite, já se via jovens caídos ao lado de garrafas de vinho químico. E, fora dois casos isolados em meio a quatro milhões de pessoas curtindo, a Virada foi pacífica. O Kassab até fechou alguns bares, a prefeitura apreendeu algumas toneladas de bebida. Mas ninguém deixou de beber só porque o Kassab mandou.

É exatamente esse o problema das proibições. Você pode sufocar a oferta legal, proibindo. Ocorre, porém, que você não sufoca a demanda – seja por cerveja, seja por maconha, seja por financiar político. Quem quer, acha. Se não achar legalmente, vai achar no mercado ilegal. E o mercado ilegal é surpreendentemente mais eficiente do que qualquer mercado legal.

Que o diga Moisés Naím, autor do livro “Ilícito”. É uma leitura ao mesmo tempo esclarecedora e perplexa. Esclarecedora porque mostra a dinâmica do mercado negro. Perplexa porque simplesmente não existe saída simples para os problemas trazidos por ele – e as proibições, por mais simples que sejam de entender, simplesmente acabam por fomentar o mercado negro. No capítulo “Por que estamos perdendo”, ele diz:

“A guerra contra os traficantes coloca a força dos governos contra a força do mercado. A história e o senso comum dizem que, no longo prazo, as forças do mercado tendem a prevalecer sobre as dos governos. Nesse sentido, o tráfico moderno tem muito em comum com o antigo contrabando que apareceu assim que os governos começaram a impor barreiras comerciais. As commodities valiosas e os métodos de comércio podem ter mudado. Mas os incentivos econômicos são antigos.”

Como discorri no post anterior, os incentivos econômicos são o que importa observar.

O atirador do Realengo não comprou suas armas em loja. Comprou por baixo dos panos, até porque hoje para comprar uma arma legalmente é preciso apresentar muita documentação. O estatuto do desarmamento atual já torna bastante difícil a vida de quem quer comprar arma legalmente, e isso é bom. Em dez anos, o estatuto reduziu em 90% a quantidade de armas vendidas legalmente. A lei poderia se tornar mais exigente e dificultar ainda mais. Por exemplo, sei lá, exigir que quem quer ter porte se apresente todo dia às 18h à Polícia Federal pra contar seu dia ao delegado. Ou responsabilizar ex-donos de armas roubadas usadas em crimes. Só que nada disso vai reduzir os crimes se não se agir decentemente sobre o mercado ilegal de armas.

Os usuários de maconha de que o deputado Paulo Teixeira fala, plantando em casa, não precisariam recorrer a traficantes. Porque os que querem fumar maconha sempre sabem bem onde achar, e não é em loja. Comprando de traficantes, financiam o crime. Esqueça o arroubo de grêmio estudantil sobre o McDonald’s e o argumento do deputado não parece irrazoável.

No caso das doações eleitorais, não consigo entender como raios alguém imagina que proibir o caixa-um pode eliminar o caixa-dois. OK, as doações de empresas são desequilibradamente maiores que as de pessoas físicas. Mas elas ao menos são mais ou menos transparentes, fora aquela malandragem de doar para o diretório do partido e no dia seguinte o partido doar para o candidato de escolha das empresas.

Se as empresas não puderem doar com seu próprio nome, vão doar por meio das pessoas físicas de seus diretores. E qualquer um que já tenha tentado decifrar a composição societária de uma empresa grande sabe o quanto isso é difícil. Quanto maior a empresa, mais complicado. Fora a chance de doar via laranjas.

Ora, as doações deviam ser MAIS transparentes, de preferência em tempo real. Doou hoje? Publica obrigatoriamente no sábado, pra todo mundo saber quem doou pra quem. Pra todo mundo saber quem está tentando influenciar quem. Porque aí é possível ver que políticos estão incorrendo no conflito de interesses de beneficiar seus doadores indevidamente por meio de sua atividade parlamentar.

Se isso for proibido, será impossível ter sequer indícios. Mas, assim como a minha cerveja de sábado, não vai ter proibição que impeça de rolar.

Noção de risco, essa arte pouco apreciada

“Isso aí é um Fokker 100? Ah, essa não. Foi esse mesmo avião que estava no acidente da TAM. Nunca mais compro passagem desta empresa aérea.”

Ouvi a frase hoje pela manhã, quando embarcava em Brasília voltando para São Paulo. O acidente com o Fokker da TAM ocorreu em 1996. Ao todo, houve apenas 9 acidentes nesse modelo de aeronave (dos quais só três com mortes). O de 1996, com 99 vítimas, foi o pior de todos – elas são mais da metade das 178 mortes nesses acidentes com Fokker. É irracional o medo dela, não? Quase perguntei que modelo de carro ela tem, pra levantar casos de acidentes com ele.

(Veja aqui uma tabela com 450 acidentes de avião ocorridos no Brasil desde 1942.)

Isso me lembrou várias manifestações que ouvi nos últimos dias, que demonstram como o pessoal não tem um feeling muito apurado pra avaliar riscos. Pegue por exemplo a frase do tio de um dos alunos mortos na escola Tasso da Silveira, publicada no sábado na Folha:

“Eu também tenho um filho. Como posso mandá-lo para a escola na segunda-feira? Como posso ficar tranquilo?”

Compreendo que o filho do entrevistado possa ter péssimas lembranças ao voltar à escola onde o primo foi morto. Ninguém gosta de expor um filho a esse tipo de lembrança – e o trauma das crianças é perfeitamente compreensível. Poxa, podiam ser elas, né?

O “como posso ficar tranquilo” é que me intriga.

Ora, se a preocupação que lhe tira a tranquilidade é a possibilidade de outro atirador aparecer na escola, as chances são absurdamente baixas. O ataque aparentemente não era uma ação organizada contra a escola, e sim uma coisa pessoal lá do atirador. Como ele se matou, não existe muita chance de ele voltar lá. Houve tiroteio lá perto hoje, mas foi um assalto a banco. Pode acontecer em qualquer lugar, infelizmente.

Pior. A escola Tasso da Silveira estará vigiada pela polícia e pela imprensa nos próximos dias. Outras, nem tanto. Isso torna a Tasso da Silveira mais segura do que a maioria das outras. Nas outras, sempre pode um deserdado da noção resolver ir de arma, sabe-se lá por que motivo, mas possivelmente impressionado com a atenção dispensada nacionalmente ao assassino carioca. Aconteceu hoje em Florianópolis. Pode acontecer em outros lugares.

Isso pode ser a desculpa ideal para uma criança preguiçosa que não quer acordar para ir estudar. “Tá louca, mãe? Vai que um ex-aluno aparece lá de arma na mão…” (Pior: por observação, sei que muitas considerariam isso sensato.)

Em termos de debate público, porém, é completamente contraproducente.

***

O canadense Dan Gardner escreveu um livro precioso, cuja leitura é importante em semanas como esta, cheias de especialistas palpitando sobre tudo. Seu título é “Risco – a ciência e a política do medo“. Logo no prólogo, Gardner conta uma das reações ao 11 de Setembro. Com medo de voar, muita gente passou a pegar seu carro e ir para a estrada.

“Só que ninguém falou a respeito do aumento explosivo das viagens de automóvel. Por que falariam? Era secundário. Havia ameaças mortais com que se preocupar. Uma coisa que nenhum político mencionou foi que as viagens aéreas são mais seguras do que as viagens terrestres. Sensivelmente mais seguras – tanto que a parte mais perigosa de um típico voo comercial é o percurso até o aeroporto. Na verdade, a diferença em termos de segurança é tão grande que os aviões continuariam sendo mais seguros que os carros mesmo que a ameaça de terrorismo fosse inimaginavelmente pior do que ela realmente é: um professor americano calculou que, mesmo que os terroristas estivessem sequestrando e derrubando um jato de passageiros por semana nos Estados Unidos, uma pessoa que voasse uma vez por mês durante um ano teria apenas uma chance em 135 mil de morrer em um sequestro – um risco pequeno se comparado à chance anual de uma em 6 mil de morrer em um acidente de automóvel.”

Isso me lembra em boa parte argumentos que ouço sempre que defendo que faz bem não ter carro. Eu não tenho por opção, por pesar vários bons motivos: um carro a mais na rua é um carro a mais engarrafando a rua; transporte público (ônibus, metrô e até táxi) tá na rua pra isso mesmo; não dirigindo, posso aproveitar o tempo dos deslocamentos pra atualizar as leituras.

“Ah, mas eu prefiro gastar mais pra ter o meu carrinho a ficar pegando ônibus e ser assaltado”, já ouvi. Ora, eu ando de ônibus desde criança. Nunca fui assaltado em ônibus. Talvez um dia seja, embora prefira não – há gente que é, sim, mas não é todo mundo e nem é todo dia.

Eu não conheço ninguém que tenha sido assaltado no ônibus, mas conheço quem tenha sido assaltado no carro. Conheço quem tenha tido o carro roubado – o que é um prejuízo maior do que ter a carteira roubada no ônibus. E conheço mais gente que sofreu acidente de carro do que de ônibus. Aliás, um levantamento recente mostrou que armas de quatro rodas matam muito mais do que armas de fogo em alguns estados.

No limite, precisamos conviver com a noção de que só não corre risco quem não vive. Dá pra avaliar riscos racionalmente, com algum bom senso e um pouco de pesquisa. Riscos avaliados podem ser reduzidos. O lado triste disso é que meus colegas de profissão não ajudam muito a dar a medida das coisas. Especialmente com o tipo de cobertura que fazem de casos como o do tiroteio da escola Tasso da Silveira.

O que não dá é pra deixar o medo mandar em nós.

No filme “Elsa & Fred“, há uma frase que resume bem isso. Elsa, uma viúva divertida e trapalhona, conhece Fred, um viúvo quietão e hipocondríaco. Acho que a frase vem numa cena em que Fred diz que não pode comer uma sobremesa por causa do colesterol. Elsa diz:

— No tienes miedo de morirte; vos tenés miedo de vivir.

Quem tem medo de tudo não vive.

***

EDITADO: Para você não pensar que eu quero dizer que sou bonzão e sei evitar todos os riscos, vale eu contar uma história de 2006. Fui ao Rio de ônibus e, pra não acordar muito cedo meus amigos, resolvi caminhar pela beira da praia com minha mulher. No aterro do Flamengo, entrando pelo finalzinho da Rio Branco. Em certo trecho, um sujeito veio nos assaltar com uma faca. Eu reagi. O cara me esfaqueou o braço. Podia ser pior.

Pessoas passavam ao redor e não fizeram nada. Mais tarde, pensando no que houve, caiu a ficha de qual era meu fator de risco. Nós éramos os únicos trouxas que não estavam de roupa de banho e além de tudo usavam mochila. Tudo em nós gritava “ATENÇÃO, DOIS TROUXAS DE FORA DA CIDADE”. Estando vestidos, éramos os únicos que corriam o risco de estar com uma carteira – ou máquina fotográfica, que foi o que o sujeito levou.

Passei um tempo com medo de qualquer mendigo que me encarasse na rua. Aí comecei a avaliar o que eu podia ter feito pra não acontecer mais aquilo. Onde? Quando? Vestido como? Andando como? E é aí que está o que realmente dá pra tirar de lições de uma coisa dessas.

Por onde entram as armas dos bandidos

Na quinta-feira, um desequilibrado entrou numa escola em Realengo e matou 12 alunos. Isso você passou o dia inteiro vendo, ontem e hoje.

Você também deve ter visto gente dizendo que se o Brasil tivesse proibido as vendas de armas no referendo de 2005 isso não aconteceria. Mas é mentira, infelizmente. Principalmente porque bandido não compra arma em loja, até pela burocracia enorme. Não apenas o assassino não comprou suas armas em loja como também ao menos uma delas circulava no mercado negro desde antes de 2005.

O assassino usou duas armas. Uma calibre 32, roubada há 15 anos, e uma calibre 38, com a numeração raspada. A 32, pelo menos, já circulava no mercado negro desde antes de 2005. Armas legalmente compradas vão parar no mercado negro quando roubadas, mas o principal problema é que o mercado negro é muito maior.

O melhor seria um cidadão não ter armas em casa? Eu acho que seria.

O melhor jeito pra isso é proibir a venda? Duvido. Sufocar a oferta não sufoca a demanda. Se um bandido quer comprar arma, sabe onde achar sem ter que apresentar documento nenhum.

Fazer o quê, então? Eu acho que o melhor jeito é desestimular a demanda. Permitir a compra legalizada, mas torná-la extremamente difícil, pode fazer o cidadão desistir de comprar.

Com bandido, porém, o papo é outro.

Há anos já se detectou que bandidos estabelecidos no Paraguai importam para lá, legalmente, armas brasileiras. Que, magicamente, são contrabandeadas de volta para o Brasil e vão parar na mão de bandidos. Mas isso é pra ralé. Bandido profissa, nível PCC, usa armas que não se vende legalmente em lugar nenhum.

Elas passam pra cá pelas fronteiras extremamente porosas do Brasil. Em 2008, a Polícia Federal divulgou os pontos de entrada e eu os coloquei num mapa. Conheça-os aí embaixo.
http://www.google.com/maps/ms?ie=UTF8&hl=pt-BR&msa=0&msid=209823814132262226990.00045fd2dd5a72a3912c3&ll=-17.571548,-56.88679&spn=26.636403,26.103476&output=embed
Visualizar Rota das armas em um mapa maior

Indústria de multas? Mas multa-se tão pouco…

Outro dia o Fantástico passou uma reportagem do Giovani Grizotti sobre trampolinagens na compra de “pardais”, as câmeras que flagram e multam motoristas barbeiros. Imediatamente surgiu uma gritaria contra a “indústria da multa”. Sempre vem alguém dizer que isso demonstra que a preocupação das prefeituras não é “educativa”, mas “arrecadatória”.

Esse último ponto, aliás, é o que eu acho mais risível. Não existe nada mais educativo do que a certeza da punição. O motorista que comete barbeiragem só o faz quando julga que vai escapar sem problemas. Quando julga que ninguém está vendo. Ora, se o sujeito fez barbeiragem, colocou a segurança alheia em risco de alguma maneira e merece no mínimo uma multinha. Ele tinha opção. Onde o motorista supõe que corre mais risco de ser multado se abusar da boa vontade alheia, ele costuma ser mais prudente.

Multa-se pouco no Brasil. Toda. Hora. Sai. Alguma. Matéria. Mostrando. Isso. E isso não acontece necessariamente porque a lei é severa demais a ponto de ser incumprível (embora possa ser). Ocorre em boa parte porque ela não é fiscalizada. Isso beneficia os maus motoristas e prejudica todos os outros – especialmente os pedestres, como este escriba.

Pessoalmente, sou a favor de colocarem pardais sobre cada faixa de pedestres, multando automaticamente cada carro que parar nela quando ela deve estar liberada ou passando por ela depois de o sinal fechar. A gente já tem pouco tempo pra atravessar, e esse pouco costuma ser invadido pelos carros. Não adianta reclamar com a CET: mesmo quando tem fiscal no cruzamento, eles dizem que se forem ficar de olho só nisso não fazem mais nada.

Certa vez contei num cruzamento de São Paulo: dava 120 segundos abertos para os carros e 7 segundos abertos para os pedestres. Se você descontar os dois segundos e meio que alguns barbeiros roubaram cruzando o sinal vermelho, você tem quatro segundos e meio pra chegar ao outro lado da rua antes de os carros voltarem a rugir. Eu dou uma corridinha. Daqui a 30 ou 40 anos, já vai ser mais difícil.

(Claro que isso não é prioridade pras prefeituras, e nem vai ser enquanto continuarem representando a indústria da barbeiragem.)

Acho justo as prefeituras cobrirem as ruas de câmeras, ainda que com intenção arrecadatória. Punição aos abusos, ou ao menos a perspectiva de punição, educa. Mas ainda assim acho importante a reportagem do Grizotti. Ela revelou que:

1) Empresas que vendem os equipamentos permitem desmultar quem devia ser multado, a pedido de pessoas influentes. Isso é sacanagem da grossa e dá margem à corrupção.

2) Contratos eram obtidos na base da propinagem. Isso é corrupção.

Acho que tem que multar, mas tem que ser transparente e dentro da lei. É sacanagem baixar ridiculamente o limite de velocidade num ponto da rua, por exemplo, e instalar uma câmera pra multar quem em qualquer outro ponto da cidade estaria numa velocidade razoável.

Ex-estatístico da Segurança paulista comprova: esconder dados públicos é brecha pra corrupção

O direito fundamental mais desconhecido no Brasil é o direito de acesso a informações públicas. Na falta de uma regulamentação clara, o cidadão fica no escuro e o jornalista leva porta na cara, mas abrem-se mercados lucrativos para privatizar essa informação por cuja criação todos pagamos.

A Folha publica hoje uma reportagem mostrando que o até antes de acordar chefe das estatísticas de segurança do Estado de São Paulo, Túlio Kahn, vendia por meio de sua consultoria informações a que tinha acesso por virtude de seu cargo. São informações que deviam ser públicas, mas que ele tratava com grande sigilo.

Como sócio da Angra Consultoria, Kahn repassa a clientes informações cuja divulgação é vetada, “para não alarmar o público”.

Entre elas, estão que tipo de bens são levados com maior frequência em assaltos a condomínios de São Paulo e quais os furtos mais comuns na região de Campinas. Os contratos da Angra chegam a até R$ 250 mil.

Parte das informações criminais é publicada trimestralmente, de acordo com a resolução 160, que criou em 2001 as regras para divulgação de estatísticas.

A divulgação, porém, não inclui dados estratégicos, como o local do crime. Com isso, não dá para se saber a rua onde se mata mais na cidade de São Paulo ou as faculdades que concentram o furto de veículos. Não há esse veto para a clientela da Angra.

O “para não alarmar o público” vem da desculpa esfarrapada apresentada em 2008 por Kahn ao mesmo jornal. A Folha havia publicado um mapa mostrando que tipos de crimes são mais comuns em que bairros. Em resposta, Kahn furtou-se a confirmar. Para não fornecer os dados, alegou questões metodológicas: divulgar daria margem a “uma leitura simplista” que não levasse em conta dados demográficos. (Que, diga-se, não são difíceis de obter para cruzar.)

Quando pesquisador da USP, ele fazia estudos bem interessantes sobre vitimização. Questionado a respeito, respondeu: “Na época, eu não tinha noção do impacto que causavam na auto-estima das pessoas que moram nesses lugares, no valor de seguros de automóveis, no valor dos imóveis da área.” A parte da auto-estima é balela, mas o que vem logo depois explica o que ele fazia.

Essas informações valem dinheiro – o seguro de carros que ficam estacionados em áreas mais propensas a roubos pode aumentar até 20%. Com a bolha imobiliária de São Paulo, esse tipo de informação também pode fazer terrenos se valorizarem ou desvalorizarem. Por enquanto, porém, só os clientes do Túlio Kahn, que investem no setor, podem sabê-los. Se essas informações fossem públicas, você poderia pensar melhor onde estacionar seu carro à noite, talvez pudesse até pagar menos de seguro, mas Túlio Kahn teria finanças um pouco menos confortáveis.

Como se vê pela reportagem de hoje, quando passou a ter acesso exclusivo a elas ele descobriu – e muito – o valor que têm e$$as informaçõe$. Segundo ele, aliás, teria sido o próprio Estado que o incentivou a abrir uma consultoria pelo fato de seu salário ser baixo.

Kahn foi afastado pelo governador Geraldo Alckmin antes que a manhã terminasse. O problema: nada foi dito a respeito das informações, que deviam ser públicas.

Resta pressionar o governo Alckmin para que o sucessor não fique rico privatizando informações públicas. E possivelmente o salário do sucessor de Kahn será o mesmo – ou seja, a tentação de privatizar informações públicas pode continuar lá.

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Existe um projeto de lei que garante o direito de acesso a informações públicas no Brasil. Ele já passou na Câmara, mas está estacionado no Senado. Saiba mais a respeito no site do movimento Brasil Aberto e no Fórum do Direito de Acesso a Informações Públicas.

Estamos mais do que atrasados: a Suécia tem uma lei assim desde 1766. Lá, desde 1998 os e-mails das autoridades são documentos públicos. Eu, pessoalmente, adoraria ler os e-mails trocados entre Kahn e seus clientes.