London burning

(Publicado primeiro no blog Novo em Folha.)

A imagem da primeira página da Folha, hoje, é chocante: um prédio em Londres, incendiado por manifestantes que protestavam contra a morte de um homem pela polícia. Foram presas 160 pessoas no final de semana.

Os protestos e saques começaram em Tottenham, um bairro pobre com grande população negra, e chegaram até o centro da cidade, em Oxford Street. E o prefeito, Boris Johnson, está em férias. Como sói acontecer nessas horas complicadas, o elemento mais difícil de obter é o porquê. Os manifestantes não são organizados a ponto de publicar uma declaração dos seus princípios. A rigor, praticamente entra no protesto quem quer. E é justamente nessas horas que vêm as interpretações apressada, as simplificações.

Há quem diga que a revolta tem a ver com os cortes nas verbas sociais do Orçamento. O Daily Telegraph diz que comprar essa versão deixa os culpados à solta. Ele culpa a “yob culture”, algo como “cultura de mano”. Para The Sun, não tem conversa: quem se revoltou é tudo bandido mesmo. Mas será que é? O Guardian lembra que Tottenham não é “um lugar mau cheio de gente má”. É um lugar com más condições de vida (mal comparando, é como se fosse uma favela), onde a maioria não é por natureza violenta.

Kevin Anderson, um jornalista freelance, olhou a situação e viu paralelos com um clássico do jornalismo de 1967.

Naquele ano, no bairro negro de Detroit, alguns soldados negros voltaram da guerra do Vietnã e foi feita uma festa para recebê-los. Em dado momento, a polícia bateu lá e botou todo mundo da festa em cana. Daí para estourar uma revolta incendiária foi um pulinho. Até porque já tinha acontecido em outros lugares antes. A reação imediata foi mais ou menos a mesma: especulação desenfreada.

Meu mestre Philip Meyer, que trabalhava para a rede de jornais que publicava o Detroit Free Press, resolveu fazer a cobertura tentando deixar o fígado de lado. Especializado em métodos de pesquisa das ciências sociais, ele preparou um questionário para testar o senso comum. Escolheu uma amostra estatisticamente correta dos moradores do bairro para tentar descobrir o perfil de quem se revoltou, e de suas razões. Chegou a conclusões bem diferentes desse senso comum. Uma delas era que os mais revoltados estavam entre os que mais estudaram, colado com os que largaram os estudos no ensino médio, e não entre os ignorantes.

Inspirado nesse post, o Guardian resolveu adaptar o velho questionário do mestre Philip Meyer e colocar na internet, esperando que viessem respostas interessantes. Além de perguntar se o respondente participou ou não das revoltas e qual seu perfil, são feitas perguntas sobre aprovação ou desaprovação ao governo e sobre como uma vigília tranquila virou uma rebelião incendiária. Algumas das respostas dos leitores parecem interessantes para dar uma perspectiva mais nuançada sobre o que houve.

O uso de enquetes eletrônicas para reportagem tem limitações sérias. Primeiro e antes de mais nada porque responde quem quer. Segundo porque responde quantas vezes quiser, do jeito que quiser. Em seu livro “Precision Journalism”, nunca publicado no Brasil, Meyer enfatiza bastante a necessidade de rigor e aleatoriedade na amostra de uma pesquisa séria.

Mandei um email para Meyer perguntando o que ele achou. Ele disse o seguinte:

“Interessante! O problema não é tanto que os dados são coletados online, mas que os entrevistados se auto-escolhem. E a decisão de participar da pesquisa pode estar correlacionada a algo interessante que devia ser medido. Por exemplo, se as pessoas com maiores reclamações tiverem mais probabilidade de participar da pesquisa, então o nível de reclamação medido será exagerado. Ainda vale a pena como pesquisa exploratória. Pode trazer dicas para os repórteres e para uma eventual pesquisa mais rigorosa. Até lá, será difícil resistir à tentação de generalizar a partir dos resultados online. Entrevistas pessoais com os presos também podem trazer dicas. O Guardian é um ótimo jornal, e desejo o melhor para eles.”

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Quem morre de overdose no Brasil?

Amy Winehouse

Por conta da morte de Amy Winehouse, sob suspeita de overdose, o Datablog do Guardian avaliou como são as mortes por drogas no Reino Unido. As estatísticas de lá vão até 2008. Elas vêm de um estudo específico do National Health Service (o “SUS” britânico) sobre abuso de drogas.

No Brasil, dados do gênero são coletados pelo Datasus, serviço de estatísticas do Ministério da Saúde. Seu buscador não é muito amigável: para encontrar estatísticas lá, é preciso ter alguma ideia de como organizar uma planilha e de como interpretar o vocabulário técnico. “Morbidade”, por exemplo, é incidência de doenças. Também é preciso “brigar” um pouco com a Classificação Internacional de Doenças (CID), para encontrar o que se deseja.

Filtrei os dados do Datasus para obter os óbitos, por Estado, nas categorias “Envenenamento por drogas e substâncias biológicas” e “Efeitos tóxicos de substâncias de origem principal não-medicinal”. Estou ciente de que isso inclui outras coisas que não drogas. Por exemplo, no primeiro, podem estar as mortes por excesso de medicamentos; no segundo, podem estar mortes por conta de substâncias usadas no trabalho, em algumas profissões. Outras mortes causadas por tóxicos podem estar com outras classificações, ou até mesmo em algo como “causa desconhecida”.

Em 2010 o Acre foi o Estado onde mais morreu gente, proporcionalmente, por essas causas. Foram 2,18 mortes para cada 100 mil habitantes. Em comparação, São Paulo teve 0,46 mortes por 100 mil. Veja os dados por Estado, desde 1998, nesta planilha.

PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DELA
Sobre Amy Winehouse em si, tenho pouco a dizer. Sua voz era boa, mas o personagem não me agradava. Nunca parei para prestar atenção em seu trabalho, portanto. Há alguns anos, no auge do seu pé na jaca, cheguei a incluir seu nome nos meus filtros de palavras bloqueadas nos meus feeds de RSS, junto com Big Brother e suas variações.

Recentemente, porém, assisti a um documentário que pode iluminar um pouco o que levou a cantora a perder todos os limites. Trata-se de Phoenix Rising, que conta a história da última formação do Deep Purple nos anos 70. Resenhei aqui. Dois membros da minha banda favorita de todos os tempos, ambos talentosíssimos, calçaram botas de jaca e arrastaram o grupo para um final trágico. Esse final incluiu chifre, drogas, roquenrôu de qualidade decadente, um funcionário possivelmente assassinado e, após o fim da banda, morte de um músico por overdose.

Um desses dois membros, o guitarrista Tommy Bolin, morreu de overdose em 1976. O outro, o baixista e vocalista Glenn Hughes, sobreviveu de maneira precária, amargando a irrelevância durante décadas. Só parece estar se reerguendo agora, depois dos 60 anos, após ralar muito. E ainda assim tem umas manias meio chatas, tipo contar no Twitter quando faz colonoscopia. É pungente e muito sincero o depoimento dele no documentário. Hughes, que lutou muito contra o vício, postou isto no Twitter ao saber da morte:

So sad to hear the news of Soul Sister Amy Winehouse…my heart goes out to her family…Addiction is cunning, baffling ansd Powerful…GH

Ainda que você não tenha o menor interesse pelo Deep Purple, recomendo esse documentário. Ele diz muito sobre a história da música, a lógica da celebridade e a natureza humana.

Amy Winehouse podia ter o destino do Glenn Hughes ou o do Tommy Bolin (Keith Richards só tem um). Com a moeda tendo caído do lado Bolin, é mais fácil que se torne uma lenda entre os fãs. Não precisará, depois de já coroa, girar o mundo cantando seus sucessos da juventude em bares pequenos. Lucro garantido – embora não para ela.

Atraso e politicagem: Senado tergiversa direito de acesso de novo

Por conta da crise política, o governo retirou o pedido de urgência para a votação no Senado do projeto de lei que garante a todos o acesso a informações públicas. Tudo porque os senadores e ex-presidentes José Sarney e Fernando Collor de Mello acham que não é legal tirar o sigilo eterno de alguns documentos históricos.

Para Sarney, divulgar os documentos poderia “reabrir feridas“. E ele diz que “não se pode fazer Wikileaks com a história do Brasil“. Sendo um homem culto, Sarney dificilmente ignora a diferença entre os documentos da guerra do Paraguai (encerrada em 1870), sigilosos por abuso, e os documentos da guerra do Iraque (ainda em curso), vazados ainda dentro do prazo de sigilo. Confunde as coisas por malandragem mesmo.

O direito de acesso a informações públicas é o mais desconhecido direito fundamental dos cidadãos. Ele já nos era negado por atraso brasileiro. Para obter informações que deviam ser públicas, o jornalista precisa cortejar o burocrata de plantão – imagine a dificuldade de quem não usa crachá.

No tocante a esse direito, o Brasil está atrasado 245 anos em relação à Suécia. Sua lei que garante acesso a informações públicas é de 1766.

Desde 2004, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo e outras entidades da sociedade civil vêm pressionando primeiro o governo a apresentar, depois o Congresso a votar, o projeto de lei sobre o assunto. Depois de muita enrolação, finalmente parecia que ia sair.

Agora, porém, ao atraso se somou a conveniência da politicagem. Mais uma vez.

Afinal, a estrutura brasileira de aeroportos está bem ou mal?

Sei que pelo menos uma leitora deste blog conhece a fundo o assunto. Eu não entendo absolutamente nada de aeroportos, fora a experiência cada vez menos confortável como usuário deles, mas gosto de observar alguns movimentos na política.

Dia 14 de abril, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) divulgou um estudo sobre aeroportos no Brasil. Você pode baixar a íntegra do estudo aqui.

Os dois autores afirmam, com base nos dados disponíveis, que com base na situação atual dos aeroportos e com os investimentos atuais, dificilmente o Brasil conseguirá terminar até a Copa de 2014 dez dos 13 aeroportos em que há investimentos, se forem mantidos os prazos médios para cumprir as etapas de expansão.

Em português: na avaliação dos pesquisadores, só termina a tempo se correr com a obra. Correr com a obra acarreta problemas, como vimos nas obras da Linha Amarela do metrô de São Paulo e do Rodoanel. Ou acarreta outros tipos de problemas, tipo a necessidade de botar mais dinheiro pra finalizar a tempo. Mas tudo isso por ora está no terreno das possibilidades.

O Ministério Público Federal está pedindo agilidade nas obras  (e não só nas de aeroportos) para que não seja preciso pedir dispensa de licitação nas obras. Foi a dispensa de licitação, em grande parte, que fez os custos das obras dos Jogos Panamericanos terem um superfaturamento de até 600%.  Esse dinheiro sai do meu bolso, do seu bolso e do bolso da sua mãe.

Como não sou especialista em aeroportos, não entro no mérito de o estudo dos economistas do IPEA estar ou não correto. Apenas chamo atenção para um ponto: a reação política.

No que depender do secretário-geral da Presidência, Gilberto Carvalho, o estudo sequer foi feito pelo IPEA: “Não foi o Ipea que fez o estudo. Um pesquisador juntou recortes de jornais para fazer esse pronunciamento. Não representa a posição do Ipea nem do governo. Estamos preocupados em realizar tudo dentro do previsto. Não há desespero nem nenhuma dúvida de que daremos conta. O Brasil vai fazer uma copa bem organizada.”

Ponto a ponto.

1) “Não foi o IPEA que fez o estudo”

O Instituto convocou entrevista coletiva, oficialmente, para divulgar o estudo. Ela foi transmitida ao vivo, em vídeo, pelo site do IPEA. Foi noticiado no site do IPEA. O estudo foi publicado como Nota Técnica da Diretoria de Estudos Setoriais do instituto. É um estudo do IPEA ou não é um estudo do IPEA? Esse estudo especificamente não traz a observação, mas as Notas Técnicas do IPEA costumavam informar na folha de rosto:

As Notas Técnicas visam divulgar, de forma rápida e ampla, 
análises e resultados parciais de pesquisas realizadas no IPEA
ou em parceria com outras instituições, estimulando o debate
corrente em torno de questões específicas de natureza conjuntural
ou metodológica.

O potencial atraso nas obras dos aeroportos se encaixa no primeiro parágrafo.

Não estou em condições de saber se a retirada da observação implica alguma coisa. Mas, pra mim, essas condições não desqualificam de antemão o estudo.

O IPEA faz parte da estrutura do governo federal, dentro do Ministério do Planejamento, ora loteado para o PMDB via Moreira Franco. Em 2009, o IPEA produziu vários estudos que critiquei no “Dicas de um Fuçador”, pai do Numeralha, pela manipulação numérica do oba-oba. Então, ficamos assim: se o IPEA lança um estudo que enche a bola do governo, é do IPEA. Se o estudo não enche a bola do governo, não é do IPEA?

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2) “Um pesquisador”

Na verdade, ministro, foram dois: Carlos Alvares da Silva Campos Neto e Frederico Hartmann de Souza, pesquisadores do IPEA.

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3) “Juntou recortes de jornais para fazer esse pronunciamento”

De fato a bibliografia cita várias notícias publicadas em jornais. Mas boa parte das afirmações feitas no texto se baseia em consultas à execução orçamentária da União (com dados pesquisados nos bancos de dados do SIGA Brasil, DEST e Contas Abertas) e aos dados da Infraero – que mostram aeroportos como o de Vitória (ES) usando atualmente 472% de sua capacidade. Clique nos links para ter acesso direto aos dados.

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4) “Não representa a posição do Ipea nem do governo. ”

Por motivos óbvios o ministro quis chamar atenção para o segundo parágrafo que a observação costumava ter e nesse caso não tem:

As opiniões emitidas nesta publicação são de exclusiva e inteira
responsabilidade dos autores, não exprimindo, necessariamente, o
ponto de vista do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada ou do
Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão.

OK, embora feito por funcionários do instituto e divulgado oficialmente pelo órgão, de fato aquela Nota Técnica pode não ser a posição oficial do IPEA ou do governo. Mas precisa representar a opinião do IPEA ou do governo para ser uma observação importante de ser discutida? Eu acho que não.

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5) “Estamos preocupados em realizar tudo dentro do previsto.”

Os atrasos apontados sugerem o contrário, ainda que eu pressuponha a maior boa vontade do pessoal da Infraero dentro dos recursos de que dispõe. Adoraria que o governo fizesse valer a declaração do ministro. Mas notícias como a de que o governo executou apenas 1% do orçamento dos aeroportos da Copa me fazem crer que é blablablá. Em se tratando de governo, preocupação é execução.

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6) “Não há desespero nem nenhuma dúvida de que daremos conta. ”

Nenhuma dúvida da parte de quem?

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7) “O Brasil vai fazer uma copa bem organizada.”

Trata-se mais de uma declaração de intenções do que de uma enunciação de fato. Só se saberá em 2014 se o Brasil fez uma Copa bem organizada. Por ora, sabe-se apenas que a preparação não parece bem organizada. E também se sabe que o Pan não foi bem organizado, tanto que custou 600% a mais no nosso bolso.

***

E você, o que pensa a respeito? Da minha parte, espero sempre mais transparência da parte dos governos nessas questões que mexem no nosso bolso. Fazer blablablá de avestruz não é transparência, ministro.

Como o Pato Donald revelou um segredo da CIA

Desde 1917, a CIA guardou a sete chaves um segredo estratégico: a receita de uma tinta invisível usada para comunicar segredos militares. Durante mais de 20 anos, pesquisadores brigaram na Justiça pra obter esses dados. Além de fazerem parte da história, hoje em dia há métodos mais seguros – tipo criptografia.

Ontem, o segredo caiu. A agência resolveu liberar os documentos secretos mais antigos de sua coleção. Leon Panetta, diretor da CIA, disse que esses documentos “ficaram em sigilo por quase um século até que recentes avanços tecnológicos tornaram possível liberá-los”. Arrã. Revelou porque foi obrigada, isso sim.

Os EUA têm uma lei de acesso a informações públicas desde 1966. Foi preciso brigar na Justiça pra obter os documentos, mas no final o governo foi obrigado a revelar. Mais de 80 países do mundo já têm leis de acesso.

No Brasil ainda não temos uma lei assim, mas as comissões pertinentes do Senado aprovaram ontem o projeto de lei que acaba com o sigilo eterno de documentos. Atualmente, até documentos sobre a GUERRA DO PARAGUAI são eternamente sigilosos. O projeto de lei deve ir a votação no Senado dia 3 de maio.

E a tinta?

São várias receitas, na verdade. Algumas são mais difíceis. Mas uma delas (a quinta deste documento)  fala em escrever com suco de limão e revelar com ferrocianeto de potássio.

Eu, porém, conhecia essa receita ultrassecreta desde a infância. Duvida? Pois leia este trecho do Manual do Escoteiro-Mirim, então (valeu @odildavid e @aliceviralata por me refrescarem a memória):

Pois vejam só. O Pato Donald agiu como um Julian Assange versão 1.0, furando um segredo militar de décadas. E sem precisar nem de ferrocianeto. (A lâmpada funciona. Já testei no século passado. O problema é queimar os dedos.) Isso me lembra da situação em que o Superman revelou segredos da Ku-Klux-Klan. Não conhece? Então leia aqui.

Esse tipo de segredo, quando revelado, só ilustra o que eu sempre digo sobre acesso a informações públicas: geralmente o sigilo não tem sentido. É desnecessário e só serve a fins burocráticos. Só serve a orgulhos políticos ou de outra sorte.

Por isso é que eu fico meio de cara quando leio títulos como este que o Estadão publicou ontem:

Câmara aprova projeto que dá prazo para divulgar documentos sigilosos

Isso significa que não adiantou toda a movimentação feita desde 2004 pela Abraji por uma lei de acesso a informações públicas. Nem os jornalistas, maiores interessados no assunto, sabem direito para que serve uma lei de acesso. Mesmo excelentes jornalistas, como é o caso da autora da reportagem aí linkada.

Mas qual é o problema com o título?

Simples. A lei não servirá para divulgar documentos sigilosos. Sim, eles também deverão ser divulgados. Mas ela serve para QUALQUER CIDADÃO ter acesso a TODOS os dados produzidos pela administração pública com o NOSSO dinheiro. O sigilo é a exceção. A lei define prazos para o sigilo, prazos após os quais os documentos devem se tornar de domínio público.

Hoje, na falta de regulamentação, até documentos naturalmente públicos são tratados como sigilosos, dependendo da boa vontade e conveniência política do barnabé da vez.

É complexo. Mas é uma briga que vale a pena. Vai saber quantos sucos de limão não tem nos documentos sobre a guerra do Paraguai, atualmente sob sigilo eterno.

Qual é o problema de ter um nome esquisito?

A Fundação Wecsley, do saudoso blog do Rui Goiaba, acaba de ganhar uma nova cliente: Kéthellyn Kevellyn, uma criança de pouco mais de um ano de idade moradora de Ibiá (MG). Sua mãe, Márcia Maria Costa da Silva, ficou frustrada quando o cartório não quis registrar a menina com esse nome criativo. Segundo o cartório, um nome estranho desses poderia causar situações vexatórias à menina no futuro.

Como a mãe insistiu no nome, ficou Kéthellyn Kevellyn mesmo. Pior, segundo a procuradoria, seria deixar a criança sem documentos por mais tempo. Ela se une aos irmãos Kéllita Kerolayne, 11, Kayck Kayron, 10, Kawãn Kayson, 7, e Kawane Kayla, 2. Segundo a mãe das crianças, complicado mesmo é ter nome comum e ver três atendendo quando se é chamado na rua. É um ponto de vista, eu diria.

Nomes criativos fazem parte da liberdade de expressão, e é difícil saber que tipo de problema um nome pode, ou não, acarretar. Já tentaram fazer estudos para verificar.

Um deles saiu em 2009. Uma pesquisa, noticiada pelo G1, indicaria que ter um nome incomum aumentaria a chance de delinquência de um jovem. Como é que é?

Sempre que eu vejo essas notícias muito taxativas e muito esdrúxulas, fico com o pé atrás. MUITO atrás. Porque eu sei que isso pode ter a ver com a nossa má compreensão da matemática e da metodologia de pesquisa.

Como a gente não entende muito de matemática, não entende muito bem a diferença entre correlação e causa. Correlação é o seguinte: 100% dos seres humanos bebem água, 100% dos humanos são mortais. Os dois fatores estão correlacionados, porque todo mundo que bebe água um dia morre. Mas, tirando afogamento, é difícil que beber água cause a morte. Há um fator externo que leva a beber água e a morrer. Por exemplo, todos os seres humanos bebem água e morrem porque têm um organismo que funciona de tal e tal jeito.

Existem métodos estatísticos para determinar se a correlação entre dois fatores é forte ou fraca. Isso pode dar dicas para compreendê-los. No Excel, existe uma função chamada “Correl”, em que você pode comparar duas colunas de dados. Por exemplo, as dimensões de educação e saúde do IDH. Você vai ver uma correlação alta (maior do que 0,7) entre os dois. Mas será que uma causa a outra?

A incerteza é sobre se é apenas uma correlação (o fator que garante educação e saúde está fora delas próprias, na administração) ou uma causação (mais educação, mais busca por saúde, menos doenças evitáveis). Essa é a diferença que dificilmente nós entendemos por sermos analfabetos numéricos. E é essa diferença que faz correlações cheias de condicionais virarem causações absolutas nas manchetes.

O economista Steve Levitt, co-autor do livro Freakonomics, é craque no assunto.

O capítulo 6 de seu livro (“A Roshanda by any other name”, no original) analisa a correlação entre nomes estrambóticos e o sucesso escolar. Ao ler o noticiário sobre os nomes que “causam” crimes, Levitt foi procurar o estudo original.

Logo de saída, no “abstract” , Levitt encontrou uma ressalva que derruba os títulos do G1 e do Washington Times: “Nomes incomuns possivelmente não são a causa do crime , mas podem estar correlacionados a fatores  que aumentam a tendência à delinqüência juvenil.”

Levitt traduz essa declaração para termos mais compreensíveis:

    É mais ou menos como dizer: sabemos que as pessoas que regularmente usam macacão laranja são mais possivelmente criminosas, porque macacão laranja vem a ser o uniforme da prisão estadual. Usar macacão laranja não é a causa da atividade criminosa, mas é altamente correlacionado ao envolvimento com crimes no passado.

Levitt também vê outros problemas na metodologia do estudo.

Os autores calculam a probabilidade criminosa de um nome ao contar quantos criminosos há com um nome estrambótico X e dividi-la pela quantidade total de cidadãos que portam aquele nome. Como a quantidade de criminosos dentro do total da sociedade é relativamente pequena, isso ao mesmo tempo infla a percentagem de Wecsleys criminosos, desinfla a quantidade de Joões bandidos (a quantidade de Joões com folha corrida deve ser relativamente pequena em comparação com o total dos Joões) e deixa completamente de lado os outros nomes estrambóticos que não têm passagem policial.

Enfim: que problemas pode trazer um nome desses?

Dá pra dizer que Kéthellyn certamente vai perder mais tempo na vida soletrando seu nome. Podia aproveitar esses preciosos segundos para alguma coisa mais útil, mas enfim.

Caso o Orkut ainda exista quando ela estiver mais velha, certamente vai participar da comunidade “Ninguém escreve meu nome direito”.

Talvez receba um ou outro apelido.

Talvez pegue raiva da mãe pela sua criatividade.

Talvez faça como uma das filhas da Baby Consuelo, que se chamava Riroca e trocou de nome para Sarah Sheevah, e mude seu nome.

Não dá pra saber.

No Google Buzz, discutindo a notícia, o leitor José Agripino disse que talvez o ideal mesmo fosse facilitar a troca de nome para quem quiser. Hoje não é fácil, ele diz.

E você, o que acha?

Eu sou um criminoso: quebrei a lei seca do Kassab

A discussão sobre três proibições me chamou a atenção nos últimos dias. A lógica de todas elas é a mesma, e é por essa mesma lógica que sou contra todas elas da maneira como estão propostas. O motivo está ilustrado pela quarta proibição.

1)      Após o ataque do assassino de Realengo, o Senado quer mostrar serviço e empurrar um novo referendo pra ver se DESTA VEZ a população aceita a proposta de proibir a venda legal de armas no país, sob a comoção da morte de 12 jovens.

2)      O ministro Ricardo Lewandowski, atual presidente do TSE, defendeu a proibição das doações eleitorais por parte de empresas, na tentativa de corrigir o desequilíbrio no financiamento de candidatos.

3)      O líder do PT na Câmara, Paulo Teixeira, publicou em seu site um vídeo defendendo a liberação do plantio de maconha por cooperativas de usuários. Num arroubo de grêmio estudantil, disse que comer no McDonald’s pode ser “talvez o maior crime”.

Não uso armas (nem pretendo), não fumo maconha (nem pretendo) e não faço doações eleitorais (nem pretendo). Mas gosto de beber cerveja com moderação. Exatamente por isso, me tornei neste final de semana um perigoso infrator da lei seca do prefeito Gilberto Kassab, em São Paulo.

A cidade promoveu a Virada Cultural – uma série de shows variados ao longo de 24 horas onde tem shows pra todos gostos, inclusive o meu. Por exemplo, o do incrível Brian Auger e sua família:

Neste ano, porém, Kassab resolveu proibir a venda de bebidas alcoólicas no evento. Em parte a atitude dele foi uma reação ao nojento “vinho químico” vendido baratinho por camelôs a deserdados da noção que não gostam das próprias entranhas. Em parte era talvez uma tentativa de gastar menos com a varrição da cidade depois.

Fazia calor. Os shows eram bons. O povo queria tomar cerveja gelada. E a cada cinco metros se achava alguém vendendo. No começo eram sujeitos encostados em portinholas, timidamente arrastando sacolas térmicas e oferecendo discretamente seu produto. Depois das 10 da noite, já se viam camelôs com isopor na cabeça. Perto da meia-noite, já se via jovens caídos ao lado de garrafas de vinho químico. E, fora dois casos isolados em meio a quatro milhões de pessoas curtindo, a Virada foi pacífica. O Kassab até fechou alguns bares, a prefeitura apreendeu algumas toneladas de bebida. Mas ninguém deixou de beber só porque o Kassab mandou.

É exatamente esse o problema das proibições. Você pode sufocar a oferta legal, proibindo. Ocorre, porém, que você não sufoca a demanda – seja por cerveja, seja por maconha, seja por financiar político. Quem quer, acha. Se não achar legalmente, vai achar no mercado ilegal. E o mercado ilegal é surpreendentemente mais eficiente do que qualquer mercado legal.

Que o diga Moisés Naím, autor do livro “Ilícito”. É uma leitura ao mesmo tempo esclarecedora e perplexa. Esclarecedora porque mostra a dinâmica do mercado negro. Perplexa porque simplesmente não existe saída simples para os problemas trazidos por ele – e as proibições, por mais simples que sejam de entender, simplesmente acabam por fomentar o mercado negro. No capítulo “Por que estamos perdendo”, ele diz:

“A guerra contra os traficantes coloca a força dos governos contra a força do mercado. A história e o senso comum dizem que, no longo prazo, as forças do mercado tendem a prevalecer sobre as dos governos. Nesse sentido, o tráfico moderno tem muito em comum com o antigo contrabando que apareceu assim que os governos começaram a impor barreiras comerciais. As commodities valiosas e os métodos de comércio podem ter mudado. Mas os incentivos econômicos são antigos.”

Como discorri no post anterior, os incentivos econômicos são o que importa observar.

O atirador do Realengo não comprou suas armas em loja. Comprou por baixo dos panos, até porque hoje para comprar uma arma legalmente é preciso apresentar muita documentação. O estatuto do desarmamento atual já torna bastante difícil a vida de quem quer comprar arma legalmente, e isso é bom. Em dez anos, o estatuto reduziu em 90% a quantidade de armas vendidas legalmente. A lei poderia se tornar mais exigente e dificultar ainda mais. Por exemplo, sei lá, exigir que quem quer ter porte se apresente todo dia às 18h à Polícia Federal pra contar seu dia ao delegado. Ou responsabilizar ex-donos de armas roubadas usadas em crimes. Só que nada disso vai reduzir os crimes se não se agir decentemente sobre o mercado ilegal de armas.

Os usuários de maconha de que o deputado Paulo Teixeira fala, plantando em casa, não precisariam recorrer a traficantes. Porque os que querem fumar maconha sempre sabem bem onde achar, e não é em loja. Comprando de traficantes, financiam o crime. Esqueça o arroubo de grêmio estudantil sobre o McDonald’s e o argumento do deputado não parece irrazoável.

No caso das doações eleitorais, não consigo entender como raios alguém imagina que proibir o caixa-um pode eliminar o caixa-dois. OK, as doações de empresas são desequilibradamente maiores que as de pessoas físicas. Mas elas ao menos são mais ou menos transparentes, fora aquela malandragem de doar para o diretório do partido e no dia seguinte o partido doar para o candidato de escolha das empresas.

Se as empresas não puderem doar com seu próprio nome, vão doar por meio das pessoas físicas de seus diretores. E qualquer um que já tenha tentado decifrar a composição societária de uma empresa grande sabe o quanto isso é difícil. Quanto maior a empresa, mais complicado. Fora a chance de doar via laranjas.

Ora, as doações deviam ser MAIS transparentes, de preferência em tempo real. Doou hoje? Publica obrigatoriamente no sábado, pra todo mundo saber quem doou pra quem. Pra todo mundo saber quem está tentando influenciar quem. Porque aí é possível ver que políticos estão incorrendo no conflito de interesses de beneficiar seus doadores indevidamente por meio de sua atividade parlamentar.

Se isso for proibido, será impossível ter sequer indícios. Mas, assim como a minha cerveja de sábado, não vai ter proibição que impeça de rolar.

O economês, o câmbio, seu bolso e a importância da economia

Hoje tive uma conversa interessante com a leitora @RenataPetry. Ela perguntou no Twitter o que é alíquota. É uma palavra que sempre aparece no noticiário, muitas vezes em questões divisivas, mas para muita gente não fica claro de que se trata. É uma das coisas clássicas do tal “economês”, o jargão de iniciados que é dado de barato para os não iniciados.

Não existem definições que expliquem direito que raio é isso. No Aulete, consta:

Parcela (calculada ou definida percentualmente) do valor de algo, e que deve ser paga como imposto. Divisor exato de uma quantidade; parcela que está contida num todo um número exato de vezes.

Confuso, parece. Vamos à Wikipedia, fonte de tantos trabalhos escolares:

Em Direito tributárioalíquota é o percentual ou valor fixo que será aplicado sobre a base de cálculo para o cálculo do valor de um tributo. A alíquota será um percentual quando a base de cálculo for um valor econômico, e será um valor quando a base de cálculo for uma unidade não monetária. As alíquotas em percentual são mais comuns em impostos e as alíquotas em valor ocorrem mais em tributos como empréstimo compulsóriotaxascontribuição de melhoria.

Acuma?

Alíquota é uma coisa que eu sei o que é mas nunca me importei em definir. Para ajudar a estudante, tentei explicar da seguinte maneira. Imagine que juro, ou imposto, é uma moeda. Alíquota é o preço, expresso em percentual. Ou seja, ele incide proporcionalmente sobre outro valor de acordo com um percentual.

Conhecer isso é crucial para controlar o bolso. Pense nos juros de um empréstimo bancário, por exemplo.

Se você tomou um empréstimo de R$ 100 a 6% de juros ao mês, pra pagar daqui a seis meses, isso significa que o cálculo é feito aumentando em 6% sua dívida acumulada a cada mês. Só então são divididas as parcelas. No primeiro mês, sua dívida aumenta R$ 6. No segundo, aumenta mais R$ 6,36. No sexto, além dos R$ 100 que já tomou e gastou, você deve mais R$ 41,85 de juros. Dividido em seis parcelas, dá R$ 23,64 por mês. Parece pouco, mas só de juros você pagou quase a metade do que tomou.

Se alongasse a dívida por mais um mês, em mais uma parcela, você pagaria só de juros praticamente a metade do que pegou emprestado. E, quando R$ 100 importam tanto a ponto de você tomar empréstimo nesse valor, pagar R$ 50 a mais sai caro. E, como a alíquota é uma coisa proporcional, se o empréstimo fosse de R$ 1.000, os juros seriam de R$ 503,63 em sete meses.

O pai da Renata, que lhe propôs o desafio, chamou sua atenção a respeito do aumento da alíquota do Imposto sobre Operações Financeiras para comprar em dólar no cartão de crédito, para 6,38%. A intenção declarada pelo governo é frear a desvalorização do dólar. Acontece, porém, que até agora não está adiantando – o pessoal continua comprando em dólar e o dólar continua caindo. Só o que cresce é a arrecadação do governo.

Pense assim.

Como o dólar está barato para gastar (exatamente agora está a R$ 1,585), você pode ir a Nova York, ida e volta com uma escala, por US$ 805. Isso dá R$ 1.275, o que torna uma visita a Nova York potencialmente mais barata que uma visita a vários lugares no Brasil.

Se você vai aos EUA e compra lá um iPad 2 16GB no cartão de crédito, você vai pagar US$ 615 à vista (R$ 972,80 ao câmbio de hoje). Em cima disso, vai incidir um IOF de 6,38%, que acresce R$ 62,06 à sua conta do cartão de crédito. Somando tudo, seu iPad 2 novinho em folha saiu por R$ 1.034,86.

Nas lojas aqui no Brasil, um iPad 1, também de 16 GB, sai por R$ 1.257,32 à vista. Pode parcelar, também, mas a loja bota juros à alíquota de 1,99% ao mês, o que eleva o preço pra R$ 1.399,00.

Os R$ 62 acrescidos ao preço mais baixo do produto de lá acabam não fazendo nem cócegas pro consumidor. Mas entram no caixa do governo que é uma beleza. Assim o governo pode de um lado contabilizar os ganhos e de outro lado dizer que está fazendo alguma coisa pra tentar parar a supervalorização do real, mas os consumidores é que não ajudam.

Mais ainda: existe sempre a possibilidade de o dólar estar AINDA MAIS BAIXO quando vier a fatura do cartão.

Maluco isso, né?

Parece bom para o consumidor, que paga menos. Mas pense por exemplo nas empresas brasileiras que querem exportar produtos pra fora. Todos os custos dela estão em reais, mas a exportação é em dólares. Geralmente quem importa produtos brasileiros em escala comercial paga uns 30 dias depois, no mínimo. Isso significa que ou o exportador brasileiro aumenta o preço dos seus produtos em dólar, ou ele corre o risco de vender em dólar esperando ganhar um valor determinado em reais e, na hora de receber, ganhar menos.

Temendo vender menos, ele precisa cortar custos. Geralmente, porém, os custos que as empresas cortam têm braços, pernas e famílias para alimentar. Complicado, né?

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Em 1996, quando eu era estudante de jornalismo, tive uma experiência que me abriu os olhos. Fui participar do Encontro Nacional de Estudantes de Comunicação, na UFSC. Verde de baladas e farras, me inscrevi numa oficina de jornalismo econômico com o professor Hélio Schuch. Pior: assisti todas as aulas. Mais ainda: isso me mudou a cabeça.

O Hélio é um cara que faz conexões várias (ainda ontem saiu um artigo dele). É um cara de bom papo e senso de humor peculiar (vide sua foto no Lattes). Viramos amigos, tamanha a gratidão que levei pra casa.

Mestre Hélio me apontou o que é Teoria dos Jogos, uma técnica usada para avaliar custo-benefício em situações várias. Uso esse tipo de raciocínio até para decidir que hora sair de casa em São Paulo se tenho um compromisso às 8 da noite. Mas, antes de mais nada, mestre Hélio me abriu os olhos para a ideia de que a economia é a “verdadeira” psicologia.

Usamos o raciocínio econômico, pesando custos e benefícios, pra todo tipo de decisão. Ainda que inconscientemente. Se eu não consigo perder peso por muito tempo é porque com frequência recebo um parente em casa, quero agradar, aí sempre acabamos comendo ou bebendo bem demais. Isso tem um custo em termos de peso, por exemplo.

Para um jornalista, especialmente se jovem, conhecer um pouco de como funciona o raciocínio econômico é fundamental para tudo. A Renata é fascinada por moda, pelo que vi. Conhecer como funciona o raciocínio econômico pode apontar os porquês de várias coisas em sua área (que pra mim é uma ilustre desconhecida). Aponta os porquês de preços, aponta os porquês de materiais e até de ocasiões.

Depois que o mestre Hélio me apontou a importância da economia, resolvi que queria aprender o suficiente pra entender o que acontece. Na época, fui atrás de “Introdução à Análise Econômica”, um clássico do Paul Samuelson. Comprei na segunda edição, de 1968, por R$ 16 num sebo. Ainda se acha baratinho em sebos.

Apesar de didático, é uma leitura acadêmica demais – eu com 20 anos adorava esse tipo de leitura, mas compreendo quem não goste.

Hoje em dia, existem opções interessantes. Dou duas dicas:

Freakonomics, de Steven Levitt e Steve Dubner

De longe o livro mais famoso dessa leva de economistas didáticos. Eles levantam pesquisas de economistas e mostram o lado divertido da disciplina antigamente conhecida como “a ciência lúgubre”. Leia a introdução aqui. O sucesso do livro fez com que os autores lançassem uma sequência, o Superfreakonomics.

O Economista Clandestino, de Tim Harford

De longe o meu favorito. Harford é britânico, jovem, curte games e apresenta um programa na BBC chamado “More or Less”. Nele, ele discute os números do dia-a-dia. O More or Less é a grande inspiração do Numeralha. Este livro também é mais amplo, procurando explicar como os conceitos básicos da economia se aplicam ao dia-a-dia. Leia uma entrevista com Harford.

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Você pode se perguntar: curtindo tanto economia, por que não virou jornalista econômico?

Simples: oferta e demanda.

Em 2000, cheguei a participar do Programa de Treinamento em Jornalismo Econômico, da Folha de S,Paulo. Mas, ao final do curso, a vaga que estava aberta era em política. Eu não curtia política, nunca simpatizei com partido nenhum, mas topei a vaga.

O fato de eu não curtir o críquete dos engravatados, o “disse Fulano” do dia-a-dia, somado ao fato de eu ser redator (ou seja, não tinha obrigação de ter matéria própria todo dia) e fascinado por dados, me levou a procurar pautas que aplicassem esse raciocínio à análise da política.

Fiquei fascinado. Porque a lógica econômica subjacente explica muita coisa.

Foi daí que eu peguei gosto por olhar quanto nossos caríssimos políticos gastam. Ou como gastam. Ou a que incentivos eles respondem na hora de gastar dinheiro público a rodo. Ou por que raios quando tem um escândalo eles preferem defenestrar o rato a fechar o ralo.

Foi daí que eu incentivei minha mulher, fanática por cinema desde criança, a procurar olhar como funciona a produção de filmes. E ela ficou craque nisso, por conta própria.

Enfim, recomendo a todo mundo. Seja jornalista, seja mero curioso. Ou ambos, o que é sempre ótimo.

Noção de risco, essa arte pouco apreciada

“Isso aí é um Fokker 100? Ah, essa não. Foi esse mesmo avião que estava no acidente da TAM. Nunca mais compro passagem desta empresa aérea.”

Ouvi a frase hoje pela manhã, quando embarcava em Brasília voltando para São Paulo. O acidente com o Fokker da TAM ocorreu em 1996. Ao todo, houve apenas 9 acidentes nesse modelo de aeronave (dos quais só três com mortes). O de 1996, com 99 vítimas, foi o pior de todos – elas são mais da metade das 178 mortes nesses acidentes com Fokker. É irracional o medo dela, não? Quase perguntei que modelo de carro ela tem, pra levantar casos de acidentes com ele.

(Veja aqui uma tabela com 450 acidentes de avião ocorridos no Brasil desde 1942.)

Isso me lembrou várias manifestações que ouvi nos últimos dias, que demonstram como o pessoal não tem um feeling muito apurado pra avaliar riscos. Pegue por exemplo a frase do tio de um dos alunos mortos na escola Tasso da Silveira, publicada no sábado na Folha:

“Eu também tenho um filho. Como posso mandá-lo para a escola na segunda-feira? Como posso ficar tranquilo?”

Compreendo que o filho do entrevistado possa ter péssimas lembranças ao voltar à escola onde o primo foi morto. Ninguém gosta de expor um filho a esse tipo de lembrança – e o trauma das crianças é perfeitamente compreensível. Poxa, podiam ser elas, né?

O “como posso ficar tranquilo” é que me intriga.

Ora, se a preocupação que lhe tira a tranquilidade é a possibilidade de outro atirador aparecer na escola, as chances são absurdamente baixas. O ataque aparentemente não era uma ação organizada contra a escola, e sim uma coisa pessoal lá do atirador. Como ele se matou, não existe muita chance de ele voltar lá. Houve tiroteio lá perto hoje, mas foi um assalto a banco. Pode acontecer em qualquer lugar, infelizmente.

Pior. A escola Tasso da Silveira estará vigiada pela polícia e pela imprensa nos próximos dias. Outras, nem tanto. Isso torna a Tasso da Silveira mais segura do que a maioria das outras. Nas outras, sempre pode um deserdado da noção resolver ir de arma, sabe-se lá por que motivo, mas possivelmente impressionado com a atenção dispensada nacionalmente ao assassino carioca. Aconteceu hoje em Florianópolis. Pode acontecer em outros lugares.

Isso pode ser a desculpa ideal para uma criança preguiçosa que não quer acordar para ir estudar. “Tá louca, mãe? Vai que um ex-aluno aparece lá de arma na mão…” (Pior: por observação, sei que muitas considerariam isso sensato.)

Em termos de debate público, porém, é completamente contraproducente.

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O canadense Dan Gardner escreveu um livro precioso, cuja leitura é importante em semanas como esta, cheias de especialistas palpitando sobre tudo. Seu título é “Risco – a ciência e a política do medo“. Logo no prólogo, Gardner conta uma das reações ao 11 de Setembro. Com medo de voar, muita gente passou a pegar seu carro e ir para a estrada.

“Só que ninguém falou a respeito do aumento explosivo das viagens de automóvel. Por que falariam? Era secundário. Havia ameaças mortais com que se preocupar. Uma coisa que nenhum político mencionou foi que as viagens aéreas são mais seguras do que as viagens terrestres. Sensivelmente mais seguras – tanto que a parte mais perigosa de um típico voo comercial é o percurso até o aeroporto. Na verdade, a diferença em termos de segurança é tão grande que os aviões continuariam sendo mais seguros que os carros mesmo que a ameaça de terrorismo fosse inimaginavelmente pior do que ela realmente é: um professor americano calculou que, mesmo que os terroristas estivessem sequestrando e derrubando um jato de passageiros por semana nos Estados Unidos, uma pessoa que voasse uma vez por mês durante um ano teria apenas uma chance em 135 mil de morrer em um sequestro – um risco pequeno se comparado à chance anual de uma em 6 mil de morrer em um acidente de automóvel.”

Isso me lembra em boa parte argumentos que ouço sempre que defendo que faz bem não ter carro. Eu não tenho por opção, por pesar vários bons motivos: um carro a mais na rua é um carro a mais engarrafando a rua; transporte público (ônibus, metrô e até táxi) tá na rua pra isso mesmo; não dirigindo, posso aproveitar o tempo dos deslocamentos pra atualizar as leituras.

“Ah, mas eu prefiro gastar mais pra ter o meu carrinho a ficar pegando ônibus e ser assaltado”, já ouvi. Ora, eu ando de ônibus desde criança. Nunca fui assaltado em ônibus. Talvez um dia seja, embora prefira não – há gente que é, sim, mas não é todo mundo e nem é todo dia.

Eu não conheço ninguém que tenha sido assaltado no ônibus, mas conheço quem tenha sido assaltado no carro. Conheço quem tenha tido o carro roubado – o que é um prejuízo maior do que ter a carteira roubada no ônibus. E conheço mais gente que sofreu acidente de carro do que de ônibus. Aliás, um levantamento recente mostrou que armas de quatro rodas matam muito mais do que armas de fogo em alguns estados.

No limite, precisamos conviver com a noção de que só não corre risco quem não vive. Dá pra avaliar riscos racionalmente, com algum bom senso e um pouco de pesquisa. Riscos avaliados podem ser reduzidos. O lado triste disso é que meus colegas de profissão não ajudam muito a dar a medida das coisas. Especialmente com o tipo de cobertura que fazem de casos como o do tiroteio da escola Tasso da Silveira.

O que não dá é pra deixar o medo mandar em nós.

No filme “Elsa & Fred“, há uma frase que resume bem isso. Elsa, uma viúva divertida e trapalhona, conhece Fred, um viúvo quietão e hipocondríaco. Acho que a frase vem numa cena em que Fred diz que não pode comer uma sobremesa por causa do colesterol. Elsa diz:

— No tienes miedo de morirte; vos tenés miedo de vivir.

Quem tem medo de tudo não vive.

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EDITADO: Para você não pensar que eu quero dizer que sou bonzão e sei evitar todos os riscos, vale eu contar uma história de 2006. Fui ao Rio de ônibus e, pra não acordar muito cedo meus amigos, resolvi caminhar pela beira da praia com minha mulher. No aterro do Flamengo, entrando pelo finalzinho da Rio Branco. Em certo trecho, um sujeito veio nos assaltar com uma faca. Eu reagi. O cara me esfaqueou o braço. Podia ser pior.

Pessoas passavam ao redor e não fizeram nada. Mais tarde, pensando no que houve, caiu a ficha de qual era meu fator de risco. Nós éramos os únicos trouxas que não estavam de roupa de banho e além de tudo usavam mochila. Tudo em nós gritava “ATENÇÃO, DOIS TROUXAS DE FORA DA CIDADE”. Estando vestidos, éramos os únicos que corriam o risco de estar com uma carteira – ou máquina fotográfica, que foi o que o sujeito levou.

Passei um tempo com medo de qualquer mendigo que me encarasse na rua. Aí comecei a avaliar o que eu podia ter feito pra não acontecer mais aquilo. Onde? Quando? Vestido como? Andando como? E é aí que está o que realmente dá pra tirar de lições de uma coisa dessas.

Por onde entram as armas dos bandidos

Na quinta-feira, um desequilibrado entrou numa escola em Realengo e matou 12 alunos. Isso você passou o dia inteiro vendo, ontem e hoje.

Você também deve ter visto gente dizendo que se o Brasil tivesse proibido as vendas de armas no referendo de 2005 isso não aconteceria. Mas é mentira, infelizmente. Principalmente porque bandido não compra arma em loja, até pela burocracia enorme. Não apenas o assassino não comprou suas armas em loja como também ao menos uma delas circulava no mercado negro desde antes de 2005.

O assassino usou duas armas. Uma calibre 32, roubada há 15 anos, e uma calibre 38, com a numeração raspada. A 32, pelo menos, já circulava no mercado negro desde antes de 2005. Armas legalmente compradas vão parar no mercado negro quando roubadas, mas o principal problema é que o mercado negro é muito maior.

O melhor seria um cidadão não ter armas em casa? Eu acho que seria.

O melhor jeito pra isso é proibir a venda? Duvido. Sufocar a oferta não sufoca a demanda. Se um bandido quer comprar arma, sabe onde achar sem ter que apresentar documento nenhum.

Fazer o quê, então? Eu acho que o melhor jeito é desestimular a demanda. Permitir a compra legalizada, mas torná-la extremamente difícil, pode fazer o cidadão desistir de comprar.

Com bandido, porém, o papo é outro.

Há anos já se detectou que bandidos estabelecidos no Paraguai importam para lá, legalmente, armas brasileiras. Que, magicamente, são contrabandeadas de volta para o Brasil e vão parar na mão de bandidos. Mas isso é pra ralé. Bandido profissa, nível PCC, usa armas que não se vende legalmente em lugar nenhum.

Elas passam pra cá pelas fronteiras extremamente porosas do Brasil. Em 2008, a Polícia Federal divulgou os pontos de entrada e eu os coloquei num mapa. Conheça-os aí embaixo.
http://www.google.com/maps/ms?ie=UTF8&hl=pt-BR&msa=0&msid=209823814132262226990.00045fd2dd5a72a3912c3&ll=-17.571548,-56.88679&spn=26.636403,26.103476&output=embed
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