A cauda longa das 500+ da Kiss

Todo ano, a rádio Kiss FM pede que os ouvintes votem nas 500 músicas que mais curtem na história do rock. Levantei os dados desde a primeira até a mais recente (2011), para ver quantas vezes as bandas aparecem em cada ano. Um dado curioso: em 2010, ano em que Paul McCartney veio ao Brasil, os Beatles tiveram seu recorde de indicações: 50.

O padrão é o da cauda longa: poucas bandas com muitas indicações, muitas bandas com pouquíssimas. Se a cabeça da distribuição é bem previsível, com Beatles e Queen e Led Zeppelin e Rolling Stones, lá pro final tem Ritchie Sambora e Ugly Kid Joe aparecendo uma só vez. Bandas que aparecem com 12 indicações ou menos dificilmente apareceram na lista em todos os anos.

Clique na imagem para ter acesso ao gráfico interativo.

Qual é o problema de ter um nome esquisito?

A Fundação Wecsley, do saudoso blog do Rui Goiaba, acaba de ganhar uma nova cliente: Kéthellyn Kevellyn, uma criança de pouco mais de um ano de idade moradora de Ibiá (MG). Sua mãe, Márcia Maria Costa da Silva, ficou frustrada quando o cartório não quis registrar a menina com esse nome criativo. Segundo o cartório, um nome estranho desses poderia causar situações vexatórias à menina no futuro.

Como a mãe insistiu no nome, ficou Kéthellyn Kevellyn mesmo. Pior, segundo a procuradoria, seria deixar a criança sem documentos por mais tempo. Ela se une aos irmãos Kéllita Kerolayne, 11, Kayck Kayron, 10, Kawãn Kayson, 7, e Kawane Kayla, 2. Segundo a mãe das crianças, complicado mesmo é ter nome comum e ver três atendendo quando se é chamado na rua. É um ponto de vista, eu diria.

Nomes criativos fazem parte da liberdade de expressão, e é difícil saber que tipo de problema um nome pode, ou não, acarretar. Já tentaram fazer estudos para verificar.

Um deles saiu em 2009. Uma pesquisa, noticiada pelo G1, indicaria que ter um nome incomum aumentaria a chance de delinquência de um jovem. Como é que é?

Sempre que eu vejo essas notícias muito taxativas e muito esdrúxulas, fico com o pé atrás. MUITO atrás. Porque eu sei que isso pode ter a ver com a nossa má compreensão da matemática e da metodologia de pesquisa.

Como a gente não entende muito de matemática, não entende muito bem a diferença entre correlação e causa. Correlação é o seguinte: 100% dos seres humanos bebem água, 100% dos humanos são mortais. Os dois fatores estão correlacionados, porque todo mundo que bebe água um dia morre. Mas, tirando afogamento, é difícil que beber água cause a morte. Há um fator externo que leva a beber água e a morrer. Por exemplo, todos os seres humanos bebem água e morrem porque têm um organismo que funciona de tal e tal jeito.

Existem métodos estatísticos para determinar se a correlação entre dois fatores é forte ou fraca. Isso pode dar dicas para compreendê-los. No Excel, existe uma função chamada “Correl”, em que você pode comparar duas colunas de dados. Por exemplo, as dimensões de educação e saúde do IDH. Você vai ver uma correlação alta (maior do que 0,7) entre os dois. Mas será que uma causa a outra?

A incerteza é sobre se é apenas uma correlação (o fator que garante educação e saúde está fora delas próprias, na administração) ou uma causação (mais educação, mais busca por saúde, menos doenças evitáveis). Essa é a diferença que dificilmente nós entendemos por sermos analfabetos numéricos. E é essa diferença que faz correlações cheias de condicionais virarem causações absolutas nas manchetes.

O economista Steve Levitt, co-autor do livro Freakonomics, é craque no assunto.

O capítulo 6 de seu livro (“A Roshanda by any other name”, no original) analisa a correlação entre nomes estrambóticos e o sucesso escolar. Ao ler o noticiário sobre os nomes que “causam” crimes, Levitt foi procurar o estudo original.

Logo de saída, no “abstract” , Levitt encontrou uma ressalva que derruba os títulos do G1 e do Washington Times: “Nomes incomuns possivelmente não são a causa do crime , mas podem estar correlacionados a fatores  que aumentam a tendência à delinqüência juvenil.”

Levitt traduz essa declaração para termos mais compreensíveis:

    É mais ou menos como dizer: sabemos que as pessoas que regularmente usam macacão laranja são mais possivelmente criminosas, porque macacão laranja vem a ser o uniforme da prisão estadual. Usar macacão laranja não é a causa da atividade criminosa, mas é altamente correlacionado ao envolvimento com crimes no passado.

Levitt também vê outros problemas na metodologia do estudo.

Os autores calculam a probabilidade criminosa de um nome ao contar quantos criminosos há com um nome estrambótico X e dividi-la pela quantidade total de cidadãos que portam aquele nome. Como a quantidade de criminosos dentro do total da sociedade é relativamente pequena, isso ao mesmo tempo infla a percentagem de Wecsleys criminosos, desinfla a quantidade de Joões bandidos (a quantidade de Joões com folha corrida deve ser relativamente pequena em comparação com o total dos Joões) e deixa completamente de lado os outros nomes estrambóticos que não têm passagem policial.

Enfim: que problemas pode trazer um nome desses?

Dá pra dizer que Kéthellyn certamente vai perder mais tempo na vida soletrando seu nome. Podia aproveitar esses preciosos segundos para alguma coisa mais útil, mas enfim.

Caso o Orkut ainda exista quando ela estiver mais velha, certamente vai participar da comunidade “Ninguém escreve meu nome direito”.

Talvez receba um ou outro apelido.

Talvez pegue raiva da mãe pela sua criatividade.

Talvez faça como uma das filhas da Baby Consuelo, que se chamava Riroca e trocou de nome para Sarah Sheevah, e mude seu nome.

Não dá pra saber.

No Google Buzz, discutindo a notícia, o leitor José Agripino disse que talvez o ideal mesmo fosse facilitar a troca de nome para quem quiser. Hoje não é fácil, ele diz.

E você, o que acha?

O economês, o câmbio, seu bolso e a importância da economia

Hoje tive uma conversa interessante com a leitora @RenataPetry. Ela perguntou no Twitter o que é alíquota. É uma palavra que sempre aparece no noticiário, muitas vezes em questões divisivas, mas para muita gente não fica claro de que se trata. É uma das coisas clássicas do tal “economês”, o jargão de iniciados que é dado de barato para os não iniciados.

Não existem definições que expliquem direito que raio é isso. No Aulete, consta:

Parcela (calculada ou definida percentualmente) do valor de algo, e que deve ser paga como imposto. Divisor exato de uma quantidade; parcela que está contida num todo um número exato de vezes.

Confuso, parece. Vamos à Wikipedia, fonte de tantos trabalhos escolares:

Em Direito tributárioalíquota é o percentual ou valor fixo que será aplicado sobre a base de cálculo para o cálculo do valor de um tributo. A alíquota será um percentual quando a base de cálculo for um valor econômico, e será um valor quando a base de cálculo for uma unidade não monetária. As alíquotas em percentual são mais comuns em impostos e as alíquotas em valor ocorrem mais em tributos como empréstimo compulsóriotaxascontribuição de melhoria.

Acuma?

Alíquota é uma coisa que eu sei o que é mas nunca me importei em definir. Para ajudar a estudante, tentei explicar da seguinte maneira. Imagine que juro, ou imposto, é uma moeda. Alíquota é o preço, expresso em percentual. Ou seja, ele incide proporcionalmente sobre outro valor de acordo com um percentual.

Conhecer isso é crucial para controlar o bolso. Pense nos juros de um empréstimo bancário, por exemplo.

Se você tomou um empréstimo de R$ 100 a 6% de juros ao mês, pra pagar daqui a seis meses, isso significa que o cálculo é feito aumentando em 6% sua dívida acumulada a cada mês. Só então são divididas as parcelas. No primeiro mês, sua dívida aumenta R$ 6. No segundo, aumenta mais R$ 6,36. No sexto, além dos R$ 100 que já tomou e gastou, você deve mais R$ 41,85 de juros. Dividido em seis parcelas, dá R$ 23,64 por mês. Parece pouco, mas só de juros você pagou quase a metade do que tomou.

Se alongasse a dívida por mais um mês, em mais uma parcela, você pagaria só de juros praticamente a metade do que pegou emprestado. E, quando R$ 100 importam tanto a ponto de você tomar empréstimo nesse valor, pagar R$ 50 a mais sai caro. E, como a alíquota é uma coisa proporcional, se o empréstimo fosse de R$ 1.000, os juros seriam de R$ 503,63 em sete meses.

O pai da Renata, que lhe propôs o desafio, chamou sua atenção a respeito do aumento da alíquota do Imposto sobre Operações Financeiras para comprar em dólar no cartão de crédito, para 6,38%. A intenção declarada pelo governo é frear a desvalorização do dólar. Acontece, porém, que até agora não está adiantando – o pessoal continua comprando em dólar e o dólar continua caindo. Só o que cresce é a arrecadação do governo.

Pense assim.

Como o dólar está barato para gastar (exatamente agora está a R$ 1,585), você pode ir a Nova York, ida e volta com uma escala, por US$ 805. Isso dá R$ 1.275, o que torna uma visita a Nova York potencialmente mais barata que uma visita a vários lugares no Brasil.

Se você vai aos EUA e compra lá um iPad 2 16GB no cartão de crédito, você vai pagar US$ 615 à vista (R$ 972,80 ao câmbio de hoje). Em cima disso, vai incidir um IOF de 6,38%, que acresce R$ 62,06 à sua conta do cartão de crédito. Somando tudo, seu iPad 2 novinho em folha saiu por R$ 1.034,86.

Nas lojas aqui no Brasil, um iPad 1, também de 16 GB, sai por R$ 1.257,32 à vista. Pode parcelar, também, mas a loja bota juros à alíquota de 1,99% ao mês, o que eleva o preço pra R$ 1.399,00.

Os R$ 62 acrescidos ao preço mais baixo do produto de lá acabam não fazendo nem cócegas pro consumidor. Mas entram no caixa do governo que é uma beleza. Assim o governo pode de um lado contabilizar os ganhos e de outro lado dizer que está fazendo alguma coisa pra tentar parar a supervalorização do real, mas os consumidores é que não ajudam.

Mais ainda: existe sempre a possibilidade de o dólar estar AINDA MAIS BAIXO quando vier a fatura do cartão.

Maluco isso, né?

Parece bom para o consumidor, que paga menos. Mas pense por exemplo nas empresas brasileiras que querem exportar produtos pra fora. Todos os custos dela estão em reais, mas a exportação é em dólares. Geralmente quem importa produtos brasileiros em escala comercial paga uns 30 dias depois, no mínimo. Isso significa que ou o exportador brasileiro aumenta o preço dos seus produtos em dólar, ou ele corre o risco de vender em dólar esperando ganhar um valor determinado em reais e, na hora de receber, ganhar menos.

Temendo vender menos, ele precisa cortar custos. Geralmente, porém, os custos que as empresas cortam têm braços, pernas e famílias para alimentar. Complicado, né?

***

Em 1996, quando eu era estudante de jornalismo, tive uma experiência que me abriu os olhos. Fui participar do Encontro Nacional de Estudantes de Comunicação, na UFSC. Verde de baladas e farras, me inscrevi numa oficina de jornalismo econômico com o professor Hélio Schuch. Pior: assisti todas as aulas. Mais ainda: isso me mudou a cabeça.

O Hélio é um cara que faz conexões várias (ainda ontem saiu um artigo dele). É um cara de bom papo e senso de humor peculiar (vide sua foto no Lattes). Viramos amigos, tamanha a gratidão que levei pra casa.

Mestre Hélio me apontou o que é Teoria dos Jogos, uma técnica usada para avaliar custo-benefício em situações várias. Uso esse tipo de raciocínio até para decidir que hora sair de casa em São Paulo se tenho um compromisso às 8 da noite. Mas, antes de mais nada, mestre Hélio me abriu os olhos para a ideia de que a economia é a “verdadeira” psicologia.

Usamos o raciocínio econômico, pesando custos e benefícios, pra todo tipo de decisão. Ainda que inconscientemente. Se eu não consigo perder peso por muito tempo é porque com frequência recebo um parente em casa, quero agradar, aí sempre acabamos comendo ou bebendo bem demais. Isso tem um custo em termos de peso, por exemplo.

Para um jornalista, especialmente se jovem, conhecer um pouco de como funciona o raciocínio econômico é fundamental para tudo. A Renata é fascinada por moda, pelo que vi. Conhecer como funciona o raciocínio econômico pode apontar os porquês de várias coisas em sua área (que pra mim é uma ilustre desconhecida). Aponta os porquês de preços, aponta os porquês de materiais e até de ocasiões.

Depois que o mestre Hélio me apontou a importância da economia, resolvi que queria aprender o suficiente pra entender o que acontece. Na época, fui atrás de “Introdução à Análise Econômica”, um clássico do Paul Samuelson. Comprei na segunda edição, de 1968, por R$ 16 num sebo. Ainda se acha baratinho em sebos.

Apesar de didático, é uma leitura acadêmica demais – eu com 20 anos adorava esse tipo de leitura, mas compreendo quem não goste.

Hoje em dia, existem opções interessantes. Dou duas dicas:

Freakonomics, de Steven Levitt e Steve Dubner

De longe o livro mais famoso dessa leva de economistas didáticos. Eles levantam pesquisas de economistas e mostram o lado divertido da disciplina antigamente conhecida como “a ciência lúgubre”. Leia a introdução aqui. O sucesso do livro fez com que os autores lançassem uma sequência, o Superfreakonomics.

O Economista Clandestino, de Tim Harford

De longe o meu favorito. Harford é britânico, jovem, curte games e apresenta um programa na BBC chamado “More or Less”. Nele, ele discute os números do dia-a-dia. O More or Less é a grande inspiração do Numeralha. Este livro também é mais amplo, procurando explicar como os conceitos básicos da economia se aplicam ao dia-a-dia. Leia uma entrevista com Harford.

***

Você pode se perguntar: curtindo tanto economia, por que não virou jornalista econômico?

Simples: oferta e demanda.

Em 2000, cheguei a participar do Programa de Treinamento em Jornalismo Econômico, da Folha de S,Paulo. Mas, ao final do curso, a vaga que estava aberta era em política. Eu não curtia política, nunca simpatizei com partido nenhum, mas topei a vaga.

O fato de eu não curtir o críquete dos engravatados, o “disse Fulano” do dia-a-dia, somado ao fato de eu ser redator (ou seja, não tinha obrigação de ter matéria própria todo dia) e fascinado por dados, me levou a procurar pautas que aplicassem esse raciocínio à análise da política.

Fiquei fascinado. Porque a lógica econômica subjacente explica muita coisa.

Foi daí que eu peguei gosto por olhar quanto nossos caríssimos políticos gastam. Ou como gastam. Ou a que incentivos eles respondem na hora de gastar dinheiro público a rodo. Ou por que raios quando tem um escândalo eles preferem defenestrar o rato a fechar o ralo.

Foi daí que eu incentivei minha mulher, fanática por cinema desde criança, a procurar olhar como funciona a produção de filmes. E ela ficou craque nisso, por conta própria.

Enfim, recomendo a todo mundo. Seja jornalista, seja mero curioso. Ou ambos, o que é sempre ótimo.

Noção de risco, essa arte pouco apreciada

“Isso aí é um Fokker 100? Ah, essa não. Foi esse mesmo avião que estava no acidente da TAM. Nunca mais compro passagem desta empresa aérea.”

Ouvi a frase hoje pela manhã, quando embarcava em Brasília voltando para São Paulo. O acidente com o Fokker da TAM ocorreu em 1996. Ao todo, houve apenas 9 acidentes nesse modelo de aeronave (dos quais só três com mortes). O de 1996, com 99 vítimas, foi o pior de todos – elas são mais da metade das 178 mortes nesses acidentes com Fokker. É irracional o medo dela, não? Quase perguntei que modelo de carro ela tem, pra levantar casos de acidentes com ele.

(Veja aqui uma tabela com 450 acidentes de avião ocorridos no Brasil desde 1942.)

Isso me lembrou várias manifestações que ouvi nos últimos dias, que demonstram como o pessoal não tem um feeling muito apurado pra avaliar riscos. Pegue por exemplo a frase do tio de um dos alunos mortos na escola Tasso da Silveira, publicada no sábado na Folha:

“Eu também tenho um filho. Como posso mandá-lo para a escola na segunda-feira? Como posso ficar tranquilo?”

Compreendo que o filho do entrevistado possa ter péssimas lembranças ao voltar à escola onde o primo foi morto. Ninguém gosta de expor um filho a esse tipo de lembrança – e o trauma das crianças é perfeitamente compreensível. Poxa, podiam ser elas, né?

O “como posso ficar tranquilo” é que me intriga.

Ora, se a preocupação que lhe tira a tranquilidade é a possibilidade de outro atirador aparecer na escola, as chances são absurdamente baixas. O ataque aparentemente não era uma ação organizada contra a escola, e sim uma coisa pessoal lá do atirador. Como ele se matou, não existe muita chance de ele voltar lá. Houve tiroteio lá perto hoje, mas foi um assalto a banco. Pode acontecer em qualquer lugar, infelizmente.

Pior. A escola Tasso da Silveira estará vigiada pela polícia e pela imprensa nos próximos dias. Outras, nem tanto. Isso torna a Tasso da Silveira mais segura do que a maioria das outras. Nas outras, sempre pode um deserdado da noção resolver ir de arma, sabe-se lá por que motivo, mas possivelmente impressionado com a atenção dispensada nacionalmente ao assassino carioca. Aconteceu hoje em Florianópolis. Pode acontecer em outros lugares.

Isso pode ser a desculpa ideal para uma criança preguiçosa que não quer acordar para ir estudar. “Tá louca, mãe? Vai que um ex-aluno aparece lá de arma na mão…” (Pior: por observação, sei que muitas considerariam isso sensato.)

Em termos de debate público, porém, é completamente contraproducente.

***

O canadense Dan Gardner escreveu um livro precioso, cuja leitura é importante em semanas como esta, cheias de especialistas palpitando sobre tudo. Seu título é “Risco – a ciência e a política do medo“. Logo no prólogo, Gardner conta uma das reações ao 11 de Setembro. Com medo de voar, muita gente passou a pegar seu carro e ir para a estrada.

“Só que ninguém falou a respeito do aumento explosivo das viagens de automóvel. Por que falariam? Era secundário. Havia ameaças mortais com que se preocupar. Uma coisa que nenhum político mencionou foi que as viagens aéreas são mais seguras do que as viagens terrestres. Sensivelmente mais seguras – tanto que a parte mais perigosa de um típico voo comercial é o percurso até o aeroporto. Na verdade, a diferença em termos de segurança é tão grande que os aviões continuariam sendo mais seguros que os carros mesmo que a ameaça de terrorismo fosse inimaginavelmente pior do que ela realmente é: um professor americano calculou que, mesmo que os terroristas estivessem sequestrando e derrubando um jato de passageiros por semana nos Estados Unidos, uma pessoa que voasse uma vez por mês durante um ano teria apenas uma chance em 135 mil de morrer em um sequestro – um risco pequeno se comparado à chance anual de uma em 6 mil de morrer em um acidente de automóvel.”

Isso me lembra em boa parte argumentos que ouço sempre que defendo que faz bem não ter carro. Eu não tenho por opção, por pesar vários bons motivos: um carro a mais na rua é um carro a mais engarrafando a rua; transporte público (ônibus, metrô e até táxi) tá na rua pra isso mesmo; não dirigindo, posso aproveitar o tempo dos deslocamentos pra atualizar as leituras.

“Ah, mas eu prefiro gastar mais pra ter o meu carrinho a ficar pegando ônibus e ser assaltado”, já ouvi. Ora, eu ando de ônibus desde criança. Nunca fui assaltado em ônibus. Talvez um dia seja, embora prefira não – há gente que é, sim, mas não é todo mundo e nem é todo dia.

Eu não conheço ninguém que tenha sido assaltado no ônibus, mas conheço quem tenha sido assaltado no carro. Conheço quem tenha tido o carro roubado – o que é um prejuízo maior do que ter a carteira roubada no ônibus. E conheço mais gente que sofreu acidente de carro do que de ônibus. Aliás, um levantamento recente mostrou que armas de quatro rodas matam muito mais do que armas de fogo em alguns estados.

No limite, precisamos conviver com a noção de que só não corre risco quem não vive. Dá pra avaliar riscos racionalmente, com algum bom senso e um pouco de pesquisa. Riscos avaliados podem ser reduzidos. O lado triste disso é que meus colegas de profissão não ajudam muito a dar a medida das coisas. Especialmente com o tipo de cobertura que fazem de casos como o do tiroteio da escola Tasso da Silveira.

O que não dá é pra deixar o medo mandar em nós.

No filme “Elsa & Fred“, há uma frase que resume bem isso. Elsa, uma viúva divertida e trapalhona, conhece Fred, um viúvo quietão e hipocondríaco. Acho que a frase vem numa cena em que Fred diz que não pode comer uma sobremesa por causa do colesterol. Elsa diz:

— No tienes miedo de morirte; vos tenés miedo de vivir.

Quem tem medo de tudo não vive.

***

EDITADO: Para você não pensar que eu quero dizer que sou bonzão e sei evitar todos os riscos, vale eu contar uma história de 2006. Fui ao Rio de ônibus e, pra não acordar muito cedo meus amigos, resolvi caminhar pela beira da praia com minha mulher. No aterro do Flamengo, entrando pelo finalzinho da Rio Branco. Em certo trecho, um sujeito veio nos assaltar com uma faca. Eu reagi. O cara me esfaqueou o braço. Podia ser pior.

Pessoas passavam ao redor e não fizeram nada. Mais tarde, pensando no que houve, caiu a ficha de qual era meu fator de risco. Nós éramos os únicos trouxas que não estavam de roupa de banho e além de tudo usavam mochila. Tudo em nós gritava “ATENÇÃO, DOIS TROUXAS DE FORA DA CIDADE”. Estando vestidos, éramos os únicos que corriam o risco de estar com uma carteira – ou máquina fotográfica, que foi o que o sujeito levou.

Passei um tempo com medo de qualquer mendigo que me encarasse na rua. Aí comecei a avaliar o que eu podia ter feito pra não acontecer mais aquilo. Onde? Quando? Vestido como? Andando como? E é aí que está o que realmente dá pra tirar de lições de uma coisa dessas.

Quer ajudar o planeta? Esqueça iniciativas marqueteiras

Mais uma vez, somos chamados a contribuir com uma iniciativa simbólica cheia de boas intenções e com praticamente zero de resultado. É a “Hora do Planeta“, que ocorre todo ano por iniciativa do WWF no último sábado de março. A intenção declarada é conscientizar sobre a necessidade de agir para contribuir menos para o aquecimento global.

OK, sem que cada um faça alguma parte a coisa não muda mesmo. Nada muda. Mas iniciativas como essa e a infame do xixi no banho, do SOS Mata Atlântica, são um troço mais útil para promover as ONGs do que para reduzir as emissões de carbono.

Não me entendam mal: considero sérias as duas ONGs e justas as suas causas. Sei da necessidade de visibilidade para garantir a arrecadação de fundos, e coisas assim chamam a atenção da imprensa, das redes sociais e etc. “Dá mídia”, como se diz.

Ocorre, porém, que a necessidade de elas aparecerem, a pretexto de botar o tema em discussão, deixa de lado seus aspectos mais importantes, os que realmente fazem a diferença todo dia.

Antigamente as ONGs se batiam nisso, mas era uma coisa que não chamava muito a atenção. “Ah, lá vêm aqueles chatos mandando eu deixar de fazer o de sempre”, é a reação comum. E compreensível. Aí elas apelam a marquetagens que pelo menos garantem uma visibilidadezinha temporária. Não chega a conscientizar muita gente, mas faz uma marola. Não acho que a qualidade disso seja grande, mas não sou eu que tenho que julgar.

De qualquer maneira, a numeralha nos ajuda a ver melhor a questão dos hábitos.

.

NA PONTA DO LÁPIS

Você já calculou quanto gasta de luz? Pegue lá sua conta pra ver. A minha, que vence nesta semana, deu 260 kWh. É um consumo meio alto, porque dois computadores ficam ligados a maior parte do dia para trabalharmos. É considerado baixo em São Paulo o consumo de menos de 220 kWh por mês. A tarifa é inclusive menor.

Em média, se considerarmos 24 horas por dia e 28 dias no mês de fevereiro a março, gastei 0,38 kW a cada hora (divida o total pela quantidade de horas e quantidade de dias). Mas é claro que a média coloca o pé no forno e a cabeça no freezer.

Isso leva em conta as horas em que todos os aparelhos exceto a geladeira, o rádio-relógio e o carregador de celular estão desligados. Consumo muito baixo, portanto. Isso também leva em conta as horas em que já escureceu, acendemos algumas luzes, ainda tem alguém no computador e já tem alguém tomando banho. Consumo muito alto, portanto.

Vamos dar uma mandrakeada nesse dado e dividir esses 260 kW por apenas umas 10 horas do dia, depois dividir pelos 28 dias mesmo. Ou seja: dando de barato que todo o consumo se concentra em algumas horas. Vai dar 0,9 kW gastos a cada hora. É mais que o dobro da média das 24 horas, portanto.

Então digamos que apagando a luz durante uma hora para colaborar com a campanha de marketing do WWF isso é o que eu economizaria para o planeta: 0,9 kW.

Você pode muito bem dizer que 0,9 kW não é nada, mas os meus 0,9 somados aos 0,8 de outro e aos 1,0 do vizinho acabam virando bastante coisa. E é verdade. Mas eu prefiro olhar por outro aspecto: o dos hábitos.

Desligar a luz por uma hora, ficando em paz com sua consciência planetária, e depois pegar seu carro ou ligar o ar condicionado é mais ou menos o mesmo que pensar que um Big Mac é um alimento balanceado porque tem alface, cebola e pepino. Ou mais ou menos o mesmo que aquela cena de “O Poderoso Chefão” em que os mafiosos vão à igreja pedir perdão por seus pecados pra depois sobrecarregarem o coveiro de trabalho.

Dois exemplos pra deixar isso mais claro.

.

A. O AR CONDICIONADO

Nesse calor, um ar condicionado sempre vem bem, né? Digamos que você tenha um de 7500 BTU (1000 watts, ou 1 kW). Para calcular seu consumo em kWh, você multiplica a potência pelo tempo em horas. Se você não o ligou durante uma hora, economizou 1 kWh. Ou seja: economizou mais do que eu economizaria desligando tudo em casa por uma hora.

Um ventilador de teto consome 120 watts, ou 0,12 kW. Se você trocou o ar condicionado pelo ventilador durante uma hora, você economizou 0,88 kWh. Quase toda a economia que eu teria desligando tudo na minha casa por uma hora.

Mudar hábitos é sempre mais eficaz do que fazer uma “boa ação” esporádica. E não põe azeitona na empada de marqueteiros.

Se você trocou o ar condicionado pelo ventilador durante todo seu sono de 8h, economizou 7,04 kWh. Se você fez isso durante o mês inteiro que veio de fevereiro a março, economizou 197,12 kWh – ou 75% da minha conta de luz.

Sim, eu não tenho ar condicionado em casa. Tem a ver com a renite, mas também tem a ver com ter feito as contas. Não necessariamente as contas do que economiza em kWh, mas do que economiza na conta de luz. Cada kWh em São Paulo, na minha faixa de consumo, custa R$ 0,29651000. Gastar 197,12 kWh a mais me tiraria do bolso R$ 58,44 a mais todo mês.

Veja aqui o consumo médio de outros aparelhos.

.

B. O CARRO

Outra comodidade de que eu não faço questão é o carro particular. Pra mim, é uma máquina de endoidar gente, ainda mais em São Paulo. Claro que preciso me deslocar como qualquer um, mas pra isso existe transporte público. Que tem todos os defeitos do mundo, ainda mais em São Paulo, mas pelo menos não sou eu que dirijo. Meu stress e os postes da cidade agradecem. Queisso, não há de quê.

Certa vez fiz as contas de quanto gastaria tendo um carro – prestação, combustível, seguro, estacionamento, manutenção, flanelinha, eventuais multas -, observei minhas necessidades de deslocamento e cheguei à conclusão de que ter carro sairia mais caro do que andar só de táxi. Obviamente, eu não ando só de táxi, então economizo bastante com isso.

Mas o carro também gasta energia, embora não elétrica. Gasta energia na forma de combustível. E emite mais carbono, e mais diretamente, do que a energia elétrica que se usa no Brasil. Nos EUA e na Europa a maior parte da geração vem de termelétricas, aqui a maior parte da energia vem de hidroelétricas.

É possível comparar os gastos de energia do combustível com os gastos de energia da luz, convertendo ambos para outra unidade, que é o joule.

Calcular isso na mão é complicado. Por isso eu uso um conversor como este. Um kWh, segundo ele, são 3600 kilojoules. Ou 3,6 milhões de joules.

Segundo o HowStuffWorks, um galão de gasolina (3,75l) tem 132 mil kilojoules. Portanto, um litro de gasolina tem 35,2 kilojoules. Ou quase o equivalente em joules a 10 kWh.

Segundo a Quatro Rodas, o Astra, um carro bastante popular no Brasil, roda 10 quilômetros por litro de gasolina.

Portanto, se você trabalha a 5km de casa e vai e volta de carro, sendo seu carro esse, você gasta um litro de gasolina por dia só nesse deslocamento. Em joules, isso seria o equivalente ao que eu gastaria em 11 horas de energia elétrica.

Ou seja: se você consome o mesmo que eu em energia elétrica, deixando o carro em casa um dia só você poupa ao planeta o equivalente a dez anos de sua participação nessas iniciativas marqueteiras.

Você pode argumentar que o dia mundial sem carro é só em 22 de setembro. Mas é outra iniciativa marqueteira. O que realmente faz a diferença são os hábitos. Fazer pequenas mudanças neles é muito mais eficaz e não tem dia marcado.

.

Faça as contas. A numeralha é sua amiga. As iniciativas marqueteiras é que são uma furada.

Data redonda: 14 de março, o dia do Pi.

No ano passado, tive a satisfação de editar para a Abril alguns volumes didáticos sobre matemática numa série voltada para a gurizada que faria o Enem. O material é recheado de histórias, curiosidades e notícias que conectam a matemática com coisas do dia-a-dia.
Uma das curiosidades tem a ver com o dia de hoje. Esta é uma versão do texto mais longa que a que efetivamente saiu publicada (a imagem não saiu no livro):

Dia do Pi

Nerds ao redor do mundo comemoram a data com festas recheadas de formas redondas, como pizzas e bolos. 

O dia 14 de março não é lembrado no mundo da matemática apenas pelo aniversário do gênio da física Albert Einstein. A data é considerada um “feriado nerd”, algo pouco convencional para os simples mortais, mas a causa é nobre.

O número do Pi é a constante matemática que representa a razão entre o comprimento da circunferência de qualquer círculo e o seu diâmetro, algo como 3,141592653… . Simplificado, o Pi é conhecido apenas como 3,14 e, por isso, é comemorado no 14º dia do mês 3, ou seja, 14 de março.

E para celebrar a razão matemática em grande estilo aritmético, engenheiros, físicos, matemáticos – ou simplesmente tarados pela teoria dos números – organizam festas com quitutes em formas redondas. Alguns preferem pizzas, outros as tradicionais tortas e bolos ou uma simples maçã. O que não pode é deixar o dia passar em branco. Para os simpatizantes dos números, o Dia do Pi é tão importante quanto o Dia dos Namorados, por exemplo.

A primeira festa em comemoração à data foi realizada em 1988, no museu Exploratorium, de São Francisco, nos Estados Unidos. A ideia foi do físico Larry Shaw, que trabalhava no museu e que depois ficou conhecido como o “Príncipe do Pi”.

No Twitter, postei o número Pi até a última casa após a vírgula que cabia nos 140 caracteres:
3.1415926535897932384626433832795028841971693993751058209 74944592307816406286208998628034825342117067982148086513 282306647093844609550582231
Se você quer conhecer mais sobre o Pi e outras histórias da matemática, recomendo vivamente “O Livro dos Números – uma história ilustrada da matemática“, de Peter Bentley. O autor não se preocupa em ensinar você como se eleva um número ao quadrado. Ele conta como surgiu a necessidade e como os antigos a resolveram.
.
Eu, que na escola fui mais fã de história que de matemática, fiquei fascinado. Se a professora Carmen Regina, da sétima série, tivesse um décimo daquela didática, eu dificilmente teria cabulado justamente a aula dela pra assistir à estreia do filme “Batman”, aquele com o Jack Nicholson no papel do Coringa.
.
Na Livraria Cultura, porém, o livro consta como “esgotado no fornecedor”. Mas sebo é pra isso, né? A Estante Virtual tem três volumes à venda.
.
(Por transparência: eu ganho 4% do preço de qualquer coisa que você comprar no site da Livraria Cultura a partir dos links que eu coloco aqui para o site deles. Não sai nem um centavo mais caro para você. Já com a Estante Virtual, que efetivamente tem o livro, eu não tenho acordo nenhum. Meu compromisso com você: eu só indico livros de que eu goste. Vai atrás da dica quem quiser.)