Ser homem-antena deve ser melhor do que catar latinhas

Causou polêmica no Twitter uma iniciativa apresentada no festival South x Southwest, no Texas (EUA): mendigos foram transformados em hotspots ambulantes de wi-fi 4G para acesso rápido à internet. Eles usam camisetas informando seu código pessoal, e o usuário paga usando SMS. O blog Vi na Internet, do Charles Nisz, resume o caso.

Saneel Radia, da empresa de marketing que idealizou o projeto, se antecipou às críticas, segundo o Tecmundo:

“A preocupação é que essas pessoas sejam vistas apenas como hardware. Mas, francamente, eu não teria criado isso se não acreditasse no oposto”

Tem lá seu sentido. Mas mesmo o sujeito ser visto como hardware já é um grande avanço em relação a como ele é visto em outras ocupações disponíveis para mendigos.

Se você acha que carregar antena de wi-fi é indigno porque atende a um luxo de um playboy, pense no grau de dignidade de juntar do lixo a latinha da cerveja bebida pelo playboy. Essa é a ocupação mais frequente para  mais de seis em cada dez moradores de rua de São Paulo, segundo o Censo da População de Rua feito pela prefeitura em 2010 (baixe aqui).

Veja aqui como as opções se dividem:

Os catadores de latinhas seguem uma longa tradição de reciclagem no ambiente urbano. São profissionais úteis, por mais desagradável que seja revirar o lixo. Quem leu o livro “O Mapa Fantasma“, de Steven Johnson, sabe que a situação já foi muito pior nos primórdios do urbanismo. (Leia o primeiro capítulo aqui.)

No meio do século 19, quando uma epidemia de cólera atacou forte no centro de Londres, a profissão mais bem-paga no ramo da reciclagem era a dos sujeitos que recolhiam os dejetos orgânicos depositados nos porões das casas. Cada um tomava um terço de garrafa de conhaque pra encarar o tirão. Dois terços de século depois, quando minha avó era jovem, ainda existia a figura do “cabungueiro” no Brasil. Outra classe de recicladores recolhia cocô de cachorro para vender a quem curtia couro.

Essas profissões, indignas, acabaram quando se teve um sanitarismo mais eficiente. Hoje, foram substituídos pelos catadores de latinhas, que vivem numa situação melhor do que a dos cabungueiros. Os catadores devem existir até que a separação do lixo seja realmente eficaz. (Sim, eu sei que você acha que isso é quase impossível – mas os londrinos que morriam de cólera também tinham ideias definitivas sobre o destino do seu esgoto em 1854.) Aí, quem vivia dessa atividade vai ter que arrumar outra, que provavelmente será melhor mas não sei se tanto.

Convenhamos, carregar antenas para vender acesso rápido à internet é bem mais digno do que ser cabungueiro ou remexer no lixo.

Ainda quero chegar a viver num mundo onde a profissão mais indigna que alguém possa ter seja a de carregar antena pra acessar a internet. O ideal seria nem isso ser preciso – mas o ideal, por definição, não existe.

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Afinal, a estrutura brasileira de aeroportos está bem ou mal?

Sei que pelo menos uma leitora deste blog conhece a fundo o assunto. Eu não entendo absolutamente nada de aeroportos, fora a experiência cada vez menos confortável como usuário deles, mas gosto de observar alguns movimentos na política.

Dia 14 de abril, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) divulgou um estudo sobre aeroportos no Brasil. Você pode baixar a íntegra do estudo aqui.

Os dois autores afirmam, com base nos dados disponíveis, que com base na situação atual dos aeroportos e com os investimentos atuais, dificilmente o Brasil conseguirá terminar até a Copa de 2014 dez dos 13 aeroportos em que há investimentos, se forem mantidos os prazos médios para cumprir as etapas de expansão.

Em português: na avaliação dos pesquisadores, só termina a tempo se correr com a obra. Correr com a obra acarreta problemas, como vimos nas obras da Linha Amarela do metrô de São Paulo e do Rodoanel. Ou acarreta outros tipos de problemas, tipo a necessidade de botar mais dinheiro pra finalizar a tempo. Mas tudo isso por ora está no terreno das possibilidades.

O Ministério Público Federal está pedindo agilidade nas obras  (e não só nas de aeroportos) para que não seja preciso pedir dispensa de licitação nas obras. Foi a dispensa de licitação, em grande parte, que fez os custos das obras dos Jogos Panamericanos terem um superfaturamento de até 600%.  Esse dinheiro sai do meu bolso, do seu bolso e do bolso da sua mãe.

Como não sou especialista em aeroportos, não entro no mérito de o estudo dos economistas do IPEA estar ou não correto. Apenas chamo atenção para um ponto: a reação política.

No que depender do secretário-geral da Presidência, Gilberto Carvalho, o estudo sequer foi feito pelo IPEA: “Não foi o Ipea que fez o estudo. Um pesquisador juntou recortes de jornais para fazer esse pronunciamento. Não representa a posição do Ipea nem do governo. Estamos preocupados em realizar tudo dentro do previsto. Não há desespero nem nenhuma dúvida de que daremos conta. O Brasil vai fazer uma copa bem organizada.”

Ponto a ponto.

1) “Não foi o IPEA que fez o estudo”

O Instituto convocou entrevista coletiva, oficialmente, para divulgar o estudo. Ela foi transmitida ao vivo, em vídeo, pelo site do IPEA. Foi noticiado no site do IPEA. O estudo foi publicado como Nota Técnica da Diretoria de Estudos Setoriais do instituto. É um estudo do IPEA ou não é um estudo do IPEA? Esse estudo especificamente não traz a observação, mas as Notas Técnicas do IPEA costumavam informar na folha de rosto:

As Notas Técnicas visam divulgar, de forma rápida e ampla, 
análises e resultados parciais de pesquisas realizadas no IPEA
ou em parceria com outras instituições, estimulando o debate
corrente em torno de questões específicas de natureza conjuntural
ou metodológica.

O potencial atraso nas obras dos aeroportos se encaixa no primeiro parágrafo.

Não estou em condições de saber se a retirada da observação implica alguma coisa. Mas, pra mim, essas condições não desqualificam de antemão o estudo.

O IPEA faz parte da estrutura do governo federal, dentro do Ministério do Planejamento, ora loteado para o PMDB via Moreira Franco. Em 2009, o IPEA produziu vários estudos que critiquei no “Dicas de um Fuçador”, pai do Numeralha, pela manipulação numérica do oba-oba. Então, ficamos assim: se o IPEA lança um estudo que enche a bola do governo, é do IPEA. Se o estudo não enche a bola do governo, não é do IPEA?

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2) “Um pesquisador”

Na verdade, ministro, foram dois: Carlos Alvares da Silva Campos Neto e Frederico Hartmann de Souza, pesquisadores do IPEA.

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3) “Juntou recortes de jornais para fazer esse pronunciamento”

De fato a bibliografia cita várias notícias publicadas em jornais. Mas boa parte das afirmações feitas no texto se baseia em consultas à execução orçamentária da União (com dados pesquisados nos bancos de dados do SIGA Brasil, DEST e Contas Abertas) e aos dados da Infraero – que mostram aeroportos como o de Vitória (ES) usando atualmente 472% de sua capacidade. Clique nos links para ter acesso direto aos dados.

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4) “Não representa a posição do Ipea nem do governo. ”

Por motivos óbvios o ministro quis chamar atenção para o segundo parágrafo que a observação costumava ter e nesse caso não tem:

As opiniões emitidas nesta publicação são de exclusiva e inteira
responsabilidade dos autores, não exprimindo, necessariamente, o
ponto de vista do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada ou do
Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão.

OK, embora feito por funcionários do instituto e divulgado oficialmente pelo órgão, de fato aquela Nota Técnica pode não ser a posição oficial do IPEA ou do governo. Mas precisa representar a opinião do IPEA ou do governo para ser uma observação importante de ser discutida? Eu acho que não.

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5) “Estamos preocupados em realizar tudo dentro do previsto.”

Os atrasos apontados sugerem o contrário, ainda que eu pressuponha a maior boa vontade do pessoal da Infraero dentro dos recursos de que dispõe. Adoraria que o governo fizesse valer a declaração do ministro. Mas notícias como a de que o governo executou apenas 1% do orçamento dos aeroportos da Copa me fazem crer que é blablablá. Em se tratando de governo, preocupação é execução.

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6) “Não há desespero nem nenhuma dúvida de que daremos conta. ”

Nenhuma dúvida da parte de quem?

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7) “O Brasil vai fazer uma copa bem organizada.”

Trata-se mais de uma declaração de intenções do que de uma enunciação de fato. Só se saberá em 2014 se o Brasil fez uma Copa bem organizada. Por ora, sabe-se apenas que a preparação não parece bem organizada. E também se sabe que o Pan não foi bem organizado, tanto que custou 600% a mais no nosso bolso.

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E você, o que pensa a respeito? Da minha parte, espero sempre mais transparência da parte dos governos nessas questões que mexem no nosso bolso. Fazer blablablá de avestruz não é transparência, ministro.

Indústria de multas? Mas multa-se tão pouco…

Outro dia o Fantástico passou uma reportagem do Giovani Grizotti sobre trampolinagens na compra de “pardais”, as câmeras que flagram e multam motoristas barbeiros. Imediatamente surgiu uma gritaria contra a “indústria da multa”. Sempre vem alguém dizer que isso demonstra que a preocupação das prefeituras não é “educativa”, mas “arrecadatória”.

Esse último ponto, aliás, é o que eu acho mais risível. Não existe nada mais educativo do que a certeza da punição. O motorista que comete barbeiragem só o faz quando julga que vai escapar sem problemas. Quando julga que ninguém está vendo. Ora, se o sujeito fez barbeiragem, colocou a segurança alheia em risco de alguma maneira e merece no mínimo uma multinha. Ele tinha opção. Onde o motorista supõe que corre mais risco de ser multado se abusar da boa vontade alheia, ele costuma ser mais prudente.

Multa-se pouco no Brasil. Toda. Hora. Sai. Alguma. Matéria. Mostrando. Isso. E isso não acontece necessariamente porque a lei é severa demais a ponto de ser incumprível (embora possa ser). Ocorre em boa parte porque ela não é fiscalizada. Isso beneficia os maus motoristas e prejudica todos os outros – especialmente os pedestres, como este escriba.

Pessoalmente, sou a favor de colocarem pardais sobre cada faixa de pedestres, multando automaticamente cada carro que parar nela quando ela deve estar liberada ou passando por ela depois de o sinal fechar. A gente já tem pouco tempo pra atravessar, e esse pouco costuma ser invadido pelos carros. Não adianta reclamar com a CET: mesmo quando tem fiscal no cruzamento, eles dizem que se forem ficar de olho só nisso não fazem mais nada.

Certa vez contei num cruzamento de São Paulo: dava 120 segundos abertos para os carros e 7 segundos abertos para os pedestres. Se você descontar os dois segundos e meio que alguns barbeiros roubaram cruzando o sinal vermelho, você tem quatro segundos e meio pra chegar ao outro lado da rua antes de os carros voltarem a rugir. Eu dou uma corridinha. Daqui a 30 ou 40 anos, já vai ser mais difícil.

(Claro que isso não é prioridade pras prefeituras, e nem vai ser enquanto continuarem representando a indústria da barbeiragem.)

Acho justo as prefeituras cobrirem as ruas de câmeras, ainda que com intenção arrecadatória. Punição aos abusos, ou ao menos a perspectiva de punição, educa. Mas ainda assim acho importante a reportagem do Grizotti. Ela revelou que:

1) Empresas que vendem os equipamentos permitem desmultar quem devia ser multado, a pedido de pessoas influentes. Isso é sacanagem da grossa e dá margem à corrupção.

2) Contratos eram obtidos na base da propinagem. Isso é corrupção.

Acho que tem que multar, mas tem que ser transparente e dentro da lei. É sacanagem baixar ridiculamente o limite de velocidade num ponto da rua, por exemplo, e instalar uma câmera pra multar quem em qualquer outro ponto da cidade estaria numa velocidade razoável.

O plano de saúde do José Alencar

Morreu hoje o ex-vice-presidente José Alencar, aos 79 anos. Meus respeitos. Parecia um homem sério, salvo um ou outro escorregão feio. Em 2002, ele era considerado conservador, o que em si não é problema; ao longo do governo Lula, especialmente quanto mais frequentava hospitais, o ex-vice foi ganhando outra imagem pública.

(Para saber mais sobre o ex-vice, leia a biografia “José Alencar: Amor à Vida”, escrita pela Eliane Cantanhêde.)

Assistindo aos telejornais de hoje e lendo o noticiário na Web e em outros lugares, você vai ler uma litania de elogios à sua vontade de viver. À sua força na luta contra o câncer. Até em heroísmo vão falar. Realmente é fofo ver um velhinho saindo do hospital e dizendo querer assistir à formatura do bisneto que ainda não tinha nascido.

Mas devagar com o andor nas homenagens. Se Alencar deixou um exemplo, é um exemplo muito difícil de seguir.

Caso dependesse do Sistema Único de Saúde, como lembrou a Leandra Lima, ele já estaria morto há muito tempo. Marcar uma consulta simples no SUS demora muito. O sistema é relativamente eficiente no básico, mas conforme a situação vai complicando fica mais difícil ter tratamento. E a situação do ex-vice era extremamente complicada (veja no gráfico do IG).

Se ele fosse fazer todas essas cirurgias pagando como particular, não haveria dinheiro que chegasse. Ele devia ter um plano de saúde muito bom – quem não tem plano de saúde morre três vezes mais do que quem tem, segundo estudo de 2006. Mas um plano tão bom quanto o que ele usava também não é pra qualquer um.

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QUANTO CUSTARIA

Consultei o corretor Paulo Sérgio Dias dos Santos, com quem comprei o meu plano de saúde há algum tempo. Perguntei a ele quanto custaria um plano de saúde que cobrisse internações no Einstein e no Sírio-Libanês para procedimentos tão complexos quanto esses pelos quais o ex-vice precisou passar nos últimos anos.

Resposta: na idade dele (79 anos), para essa cobertura, custaria nada menos do que R$ 2.200 por mês, nas principais empresas do ramo no Brasil. Mas elas não costumam aceitar clientes novos depois de certa idade. Geralmente os pacientes que pagam tudo isso já tinham o plano há tempos.

Lembre que planos de saúde são feitos para serem pouco usados. Quando o são, o cliente sadio paga pelo cliente doente, e é daí que vem o lucro. Aos 34 anos, por exemplo, eu pago mais de R$ 200, mas dificilmente faço consultas mais de uma vez ao mês. Geralmente são consultas “light”: otorrino, nutricionista, um eventual check-up. Na teoria, acaba sendo uma espécie de poupança: hoje você paga mais do que usa para depois usar mais do que paga, caso precise.

Mesmo quando precisa, enfrenta problemas. Alguns hospitais pararam de atender pacientes de planos de saúde em suas emergências, alegando que os planos pagam pouco.

No ano passado, no Notícias MTV, mostramos algumas vezes o caso do Marcelo Yuka, ex-baterista do Rappa. Ele foi baleado e perdeu a capacidade de caminhar. Seu plano de saúde brigou na Justiça para cortar alguns dos tratamentos.

Em 2010, pelo 11º ano consecutivo, os planos de saúde foram líderes de reclamações ao Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor.

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GERALMENTE É VOCÊ QUEM PAGA

Por ter sido senador entre 1999 e 2002, Alencar tinha direito a um plano de saúde vitalício. Consta que teria recusado. Mas mais de 400 senadores e ex-senadores – inclusive os que serviram por apenas meses – têm direito a esse benefício, continuado em março deste ano. Ex-senadores não precisam pagar um centavo sequer por isso. Ex-deputados, por um plano semelhante, pagam R$ 280 mensais. Pouco mais do que eu pago pelo meu.

Quando ficam velhinhos, muitas vezes eles precisam usar esse tipo de plano para coisas caras: no ano passado, o senador Romeu Tuma recebeu um coração artificial de R$ 300 mil no dia 7 de outubro para morrer 19 dias depois. Duvido que tenham lavado o aparelho para implantá-lo em outro paciente com mais chance de viver.

Saíam dos cofres públicos para a cobertura de nossas ex-autoridades, em 2009, o equivalente a R$ 32 mil por senador, todo ano. Isso dá R$ 2.666 por mês, pago por mim, por você e por nossos pais. Fecha mais ou menos com o valor que o corretor me informou.

Não acho injusto que nossos representantes tenham um bom plano de saúde. Acho complicado apenas que eles, que ganham bem e por vezes são empresários, não precisem pôr a mão no bolso sequer para pagar um pedaço do plano.

De qualquer forma, quem tem a atribuição de alocar recursos para o sistema público de saúde passa MUITO longe dele. Quem tem a atribuição de criar regras mais justas para planos de saúde não precisa pagar pelo melhor do mercado. E isso é sempre chato.

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Meus respeitos à família do José Alencar. Meus respeitos aos seus fãs. Mas façam-me o favor de não exaltar exemplos que não possam ser seguidos por qualquer um que não seja poderoso. OK, é fundamental um velhinho ter vontade de viver. Mas se não tiver como bancar, só a vontade não adianta.

Quer ajudar o planeta? Esqueça iniciativas marqueteiras

Mais uma vez, somos chamados a contribuir com uma iniciativa simbólica cheia de boas intenções e com praticamente zero de resultado. É a “Hora do Planeta“, que ocorre todo ano por iniciativa do WWF no último sábado de março. A intenção declarada é conscientizar sobre a necessidade de agir para contribuir menos para o aquecimento global.

OK, sem que cada um faça alguma parte a coisa não muda mesmo. Nada muda. Mas iniciativas como essa e a infame do xixi no banho, do SOS Mata Atlântica, são um troço mais útil para promover as ONGs do que para reduzir as emissões de carbono.

Não me entendam mal: considero sérias as duas ONGs e justas as suas causas. Sei da necessidade de visibilidade para garantir a arrecadação de fundos, e coisas assim chamam a atenção da imprensa, das redes sociais e etc. “Dá mídia”, como se diz.

Ocorre, porém, que a necessidade de elas aparecerem, a pretexto de botar o tema em discussão, deixa de lado seus aspectos mais importantes, os que realmente fazem a diferença todo dia.

Antigamente as ONGs se batiam nisso, mas era uma coisa que não chamava muito a atenção. “Ah, lá vêm aqueles chatos mandando eu deixar de fazer o de sempre”, é a reação comum. E compreensível. Aí elas apelam a marquetagens que pelo menos garantem uma visibilidadezinha temporária. Não chega a conscientizar muita gente, mas faz uma marola. Não acho que a qualidade disso seja grande, mas não sou eu que tenho que julgar.

De qualquer maneira, a numeralha nos ajuda a ver melhor a questão dos hábitos.

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NA PONTA DO LÁPIS

Você já calculou quanto gasta de luz? Pegue lá sua conta pra ver. A minha, que vence nesta semana, deu 260 kWh. É um consumo meio alto, porque dois computadores ficam ligados a maior parte do dia para trabalharmos. É considerado baixo em São Paulo o consumo de menos de 220 kWh por mês. A tarifa é inclusive menor.

Em média, se considerarmos 24 horas por dia e 28 dias no mês de fevereiro a março, gastei 0,38 kW a cada hora (divida o total pela quantidade de horas e quantidade de dias). Mas é claro que a média coloca o pé no forno e a cabeça no freezer.

Isso leva em conta as horas em que todos os aparelhos exceto a geladeira, o rádio-relógio e o carregador de celular estão desligados. Consumo muito baixo, portanto. Isso também leva em conta as horas em que já escureceu, acendemos algumas luzes, ainda tem alguém no computador e já tem alguém tomando banho. Consumo muito alto, portanto.

Vamos dar uma mandrakeada nesse dado e dividir esses 260 kW por apenas umas 10 horas do dia, depois dividir pelos 28 dias mesmo. Ou seja: dando de barato que todo o consumo se concentra em algumas horas. Vai dar 0,9 kW gastos a cada hora. É mais que o dobro da média das 24 horas, portanto.

Então digamos que apagando a luz durante uma hora para colaborar com a campanha de marketing do WWF isso é o que eu economizaria para o planeta: 0,9 kW.

Você pode muito bem dizer que 0,9 kW não é nada, mas os meus 0,9 somados aos 0,8 de outro e aos 1,0 do vizinho acabam virando bastante coisa. E é verdade. Mas eu prefiro olhar por outro aspecto: o dos hábitos.

Desligar a luz por uma hora, ficando em paz com sua consciência planetária, e depois pegar seu carro ou ligar o ar condicionado é mais ou menos o mesmo que pensar que um Big Mac é um alimento balanceado porque tem alface, cebola e pepino. Ou mais ou menos o mesmo que aquela cena de “O Poderoso Chefão” em que os mafiosos vão à igreja pedir perdão por seus pecados pra depois sobrecarregarem o coveiro de trabalho.

Dois exemplos pra deixar isso mais claro.

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A. O AR CONDICIONADO

Nesse calor, um ar condicionado sempre vem bem, né? Digamos que você tenha um de 7500 BTU (1000 watts, ou 1 kW). Para calcular seu consumo em kWh, você multiplica a potência pelo tempo em horas. Se você não o ligou durante uma hora, economizou 1 kWh. Ou seja: economizou mais do que eu economizaria desligando tudo em casa por uma hora.

Um ventilador de teto consome 120 watts, ou 0,12 kW. Se você trocou o ar condicionado pelo ventilador durante uma hora, você economizou 0,88 kWh. Quase toda a economia que eu teria desligando tudo na minha casa por uma hora.

Mudar hábitos é sempre mais eficaz do que fazer uma “boa ação” esporádica. E não põe azeitona na empada de marqueteiros.

Se você trocou o ar condicionado pelo ventilador durante todo seu sono de 8h, economizou 7,04 kWh. Se você fez isso durante o mês inteiro que veio de fevereiro a março, economizou 197,12 kWh – ou 75% da minha conta de luz.

Sim, eu não tenho ar condicionado em casa. Tem a ver com a renite, mas também tem a ver com ter feito as contas. Não necessariamente as contas do que economiza em kWh, mas do que economiza na conta de luz. Cada kWh em São Paulo, na minha faixa de consumo, custa R$ 0,29651000. Gastar 197,12 kWh a mais me tiraria do bolso R$ 58,44 a mais todo mês.

Veja aqui o consumo médio de outros aparelhos.

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B. O CARRO

Outra comodidade de que eu não faço questão é o carro particular. Pra mim, é uma máquina de endoidar gente, ainda mais em São Paulo. Claro que preciso me deslocar como qualquer um, mas pra isso existe transporte público. Que tem todos os defeitos do mundo, ainda mais em São Paulo, mas pelo menos não sou eu que dirijo. Meu stress e os postes da cidade agradecem. Queisso, não há de quê.

Certa vez fiz as contas de quanto gastaria tendo um carro – prestação, combustível, seguro, estacionamento, manutenção, flanelinha, eventuais multas -, observei minhas necessidades de deslocamento e cheguei à conclusão de que ter carro sairia mais caro do que andar só de táxi. Obviamente, eu não ando só de táxi, então economizo bastante com isso.

Mas o carro também gasta energia, embora não elétrica. Gasta energia na forma de combustível. E emite mais carbono, e mais diretamente, do que a energia elétrica que se usa no Brasil. Nos EUA e na Europa a maior parte da geração vem de termelétricas, aqui a maior parte da energia vem de hidroelétricas.

É possível comparar os gastos de energia do combustível com os gastos de energia da luz, convertendo ambos para outra unidade, que é o joule.

Calcular isso na mão é complicado. Por isso eu uso um conversor como este. Um kWh, segundo ele, são 3600 kilojoules. Ou 3,6 milhões de joules.

Segundo o HowStuffWorks, um galão de gasolina (3,75l) tem 132 mil kilojoules. Portanto, um litro de gasolina tem 35,2 kilojoules. Ou quase o equivalente em joules a 10 kWh.

Segundo a Quatro Rodas, o Astra, um carro bastante popular no Brasil, roda 10 quilômetros por litro de gasolina.

Portanto, se você trabalha a 5km de casa e vai e volta de carro, sendo seu carro esse, você gasta um litro de gasolina por dia só nesse deslocamento. Em joules, isso seria o equivalente ao que eu gastaria em 11 horas de energia elétrica.

Ou seja: se você consome o mesmo que eu em energia elétrica, deixando o carro em casa um dia só você poupa ao planeta o equivalente a dez anos de sua participação nessas iniciativas marqueteiras.

Você pode argumentar que o dia mundial sem carro é só em 22 de setembro. Mas é outra iniciativa marqueteira. O que realmente faz a diferença são os hábitos. Fazer pequenas mudanças neles é muito mais eficaz e não tem dia marcado.

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Faça as contas. A numeralha é sua amiga. As iniciativas marqueteiras é que são uma furada.

Especulação imobiliária sideral: planeta Terra valeria US$ 5 quatrilhões

Você, que está sendo vítima da especulação imobiliária no Brasil, precisa saber o valor do planeta em que vive: US$ 5 quatrilhões, ou cerca de 100 vezes o PIB de todos os países.

O cálculo foi feito pelo astrofísico Greg Laughlin, que levou em conta para isso as condições de habitabilidade de planetas para onde, quem sabe um dia, a humanidade possa se mudar. Os fatores vêm dos dados descobertos pela sonda Kepler sobre outros planetas.

Pelas minhas contas, a considerar só a superfície, se a Terra (511 milhões de km² , incluindo oceanos) vale tudo isso, o Brasil (8,5 milhões de km² de superfície) valeria US$ 83,2 trilhões.

Lembre que o PIB mundial, segundo o FMI, é de US$ 61,9 trilhões. O do Brasil é cerca de 3 trilhões. Demoraria anos pra poder pagar o próprio imóvel, enfim.

Mal comparando, se a sua renda familiar é de R$ 30 mil anuais (R$ 2.307 por mês), o Brasil é um imóvel que custaria R$ 832 mil. Fui ao simulador de financiamento imobiliário da Caixa Econômica Federal pra ver se dava pra comprar. Disse que era um imóvel residencial, usado. Botei que tenho 3 anos de FGTS, pra facilitar o financiamento.

Daria pra comprar via carta de crédito, mas eles só financiam R$ 49 mil do valor do imóvel em 360 meses. A entrada teria de ser de R$ 782.313 – ou, convertido para os trilhões, de US$ 78.2 trilhões. Mais do que o PIB mundial, só de entrada. Ou seja: se o Brasil fosse um imóvel, seria impossível de se comprar com o PIB atual, nem com financiamento.

Comprar, nem pensar. Mas quem curte Raul Seixas e acha que a solução é alugar o Brasil pode calcular o preço usando um critério mais ou menos comum: o preço mensal do aluguel costuma ser de até 1% do valor de venda do imóvel. Digamos, então, que o aluguel do Brasil custaria US$ 832 bilhões (R$ 1,4 trilhões) por mês, ou mais que o PIB anual de São Paulo (cerca de R$ 1 trilhão em 2008). No ano, isso dá pouco mais da metade do PIB anual dos EUA (US$ 14,6 trilhões).

Vai ser difícil alugar, parece.

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Mas, enfim, voltemos à especulação imobiliária cósmica.

Eu tendo a achar fascinantes assuntos que tenham um pé no nerdismo. Mas também tendo a desconfiar de muitas extrapolações numéricas.

Antes de ler a entrevista do Laughlin ao Boing Boing, achei que era maluquice ou pelo menos uma tentativa desesperada de aparecer. Mas aí li detalhadamente a entrevista, olhei o que ele levou em conta, e achei a equação simplesmente fascinante:

bigequation.jpg

Esse monte de números assusta, mas Laughlin explicou tintim por tintim.

Primeiro, pega o custo da missão Kepler (US$ 600 milhões) e divide pela quantidade de planetas que podem ser encontrados (100). Ou seja: é o custo-benefício do que se gastou pra descobrir. É isso que vai permitir calcular o valor em dólares.

Aquela coisa que parece um T, dividido por meio bilhão de anos, é a idade da estrela em torno da qual o planeta gravita. Quanto mais velha, melhor, segundo Laughlin: “provavelmente  você deve se interessar mais por estrelas tão velhas quanto ou mais velhas do que o Sol, que oferecem mais tempo para os planetas desenvolverem vida”.

Multiplica isso pela relação entre a massa da estrela e a massa do planeta, elevada a um terço. Ou seja: quanto menor, melhor. “Quanto mais massiva é uma estrela, mais curta é sua existência, e menos oportunidade  ela dá ao surgimento da vida”, diz Laughlin. Outra vantagem é que estrelas menores são mais fáceis de estudar.

Aí vêm três expoentes elevados a quantidades negativas.

O primeiro (do logaritmo) busca calcular uma distribuição normal em torno da massa da Terra. Ou seja: se a Terra pode ser considerada como tendo as condições ideais para o surgimento da vida, como se distribuem as probabilidades de que valores de outros planetas permitam a vida? Quanto mais próximo do da Terra, melhor. Quanto mais afastado, mais difícil.

“Para a habitabilidade, eu acho que precisamos ser fortemente inclinados para planetas com a massa da Terra, porque realmente não sabemos muito sobre planetas cuja massa está entre a da Terra e a de Urano. Não existe nenhum no nosso sistema solar”, diz Laughlin.

O segundo expoente (o do Teff) leva em conta a quantidade de luz e calor que o planeta pode receber de sua estrela, e também gera uma curva normal em torno dos valores da Terra. Faz sentido: se for quente ou frio demais, prejudica. Se tiver luz demais ou de menos, atrapalha.

“Temos apenas um exemplo de planeta habitável, que é a Terra. Então, isto favorece planetas que são semelhantes em quantidade de energia que recebem de sua estrela. Se um planeta possivelmente ganha consideravelmente menos – como Marte – ou consideravelmente mais – como Vênus -, a equação não o trata bem”.

O terceiro expoente (o do 2009) leva em conta o tempo que levou, a partir de seu lançamento em 2009, para a Kepler descobrir o planeta. Quanto mais tempo demorar, significa que mais longe está o planeta, e portanto fica mais difícil de chegar. Mais ainda: quanto mais demora, menos novidade é. “Descobrir um planeta na zona habitável de uma estrela semelhante ao Sol no ano 2060 não tem chance de ser grande coisa”, pondera Laughlin.

O último termo, o do 2.5, verifica o quanto a estrela parece próxima da Terra, por seu brilho. E é isso que permite calcular o valor da Terra, segundo Laughlin. É ele que dá o valor da Terra para quem está aqui.

“Pense assim: se estamos sentados aqui na Terra, o nosso Sol é extraordinariamente brilhante no céu. O brilho do Sol torna esse termo enorme, se calcularmos essa equação para a Terra. Se fizermos para a Terra, temos uma resposta de cerca de 5 quatrilhões de dólares. E esse é basicamente o valor de toda a nossa infra-estrutura, acumulado ao longo da história. Essa não é uma declaração tipo ‘o homem que vendeu a Terra’, é colocar as coisas em perspectiva do outro lado. O de estar lá. Quanto vale um planeta habitável pra quem está lá? Bom, isto mostra que vale bastante.”

Pelas contas de Laughlin, Marte valeria US$ 14 mil. “É realista, no sentido que você duraria 5 segundos se pintasse lá”. O exoplaneta Gliese 581 g, descoberto em janeiro, teria um valor estimado de US$ 160. É pouco. Mas pode ser que haja planetas valendo bem mais, algo na casa dos bilhões. E talvez descobri-los faça valer a pena gastar milhões de dólares numa missão exploratória.

Um planeta que fosse descoberto na zona habitável de Alpha Centauri B, a mais próxima do sistema solar, poderia valer US$ 6 bilhões, segundo Laughlin. E ele acha que isso talvez fizesse valer a pena gastar essa grana pra ir até lá pra ver se é habitável. Quanto mais se aproxima do planeta, o valor também aumenta – vide o valor do planeta em que estamos.

Mas a mesma conta também sugere que ir a Marte – como os EUA já fizeram, com a missão Mars Rover – é um desperdício de dinheiro. Foram gastos US$ 820 milhões só na missão de 2007, por exemplo. Pra um planeta que teoricamente vale US$ 14 mil.

As bicicletas e o Carmageddon em Porto Alegre

Sexta-feira à noite, um sujeito descontrolado avançou com seu Golf  sobre um grupo de cerca de 100 ciclistas que pedalavam na Cidade Baixa, em Porto Alegre. Atropelou intencionalmente vários deles, derrubando bicicletas e ferindo mais de 10, fugindo logo depois. Pela placa do carro, o motorista foi rapidamente identificado como Ricardo José Neif, um senhor de 47 anos. A polícia diz que o dono do carro prometeu aparecer pra depor nesta segunda. (Ao jornal Zero Hora, a ex-mulher de Neif diz que foi “legítima defesa“, porque o carro estaria sendo agredido pelos ciclistas com tapinhas na lataria.)

A TV Globo obteve imagens da câmera de um prédio mostrando o momento em que o sujeito praticamente passou por cima dos ciclistas. Depois, mostrou as imagens do chão, quando ele passa por cima. Parece videogame, Carmageddon.E o pior: o cara estava com o filho de 15 anos do lado. Daqui a 3 anos, esse moleque vai estar dirigindo. Que lição ele vai tirar do resultado desse crime? A de que motorista pode tudo ou a de que respeito é fundamental?

Não obstante, a EPTC – responsável pelo controle do trânsito de Porto Alegre – queixou-se de os ciclistas “não terem avisado” que pedalariam naquele dia e local. Por isso, não havia guardas de trânsito acompanhando o grupo Massa Crítica – que toda sexta-feira programa “bicicletadas” saindo do mesmo lugar e fazendo o mesmo trajeto. Eles têm recomendações bastante detalhadas a seus participantes sobre como pedalar mais seguro no trânsito.

Seria excelente ter guardas de trânsito lá pra ir imediatamente pra cima do “monstrorista”. Mas precisava MESMO ter a supervisão da EPTC, como se fosse babá?

Nessa mesma linha, vi comentários tipo “quem manda sair de bicicleta no trânsito” – coisa que me lembra muito saber que uma mulher foi estuprada e dizer “também, com aquela sainha curta…”.

Um sujeito que respeito muito tuitou que esse negócio de pedalar é muito bonito de ver na Europa, mas que aqui “as cidades não estão preparadas” pra isso. De fato é bonito ver na Europa. Ainda ontem li que em Lyon, na França, estão dando prioridade às bicicletas. E também é fato que as cidades “não estão preparadas” pra isso, como também não estão preparadas para oferecer condições de moradia, saneamento, transporte público decente e segurança para seus moradores.

“Estar preparado” é questão de prioridade das autoridades. E nada costuma ser mais prioridade para elas do que o que pode fazer pingar dinheiro no caixa ou no bolso, tipo abrir estradas, repavimentar ruas e multar por excesso de velocidade. Outro dia, no Rio, ouvi um taxista reclamar que estava mais difícil convencer guardas de trânsito locais a aceitar propina pra aliviar multas. A carrocracia é um excelente negócio pra quem quer lucrar com ela. Pedestre e bicicleta, porém, não garantem cervejinha para o guarda, multa para os cofres públicos, relatórios otimistas para as montadoras e contratos de obras para quem financiou a campanha do prefeito.

Não precisa de muita coisa pra “estar preparado” pra magnanimamente deixar o pessoal andar de bicicleta, não. O Código de Trânsito Brasileiro prevê o uso de bicicletas como meio de transporte. Supõe-se que todos os motoristas devam conhecê-lo pra poder tirar carteira sem comprar. Ele prevê prioridade às bicicletas no trânsito:

Art. 58. Nas vias urbanas e nas rurais de pista dupla, a circulação de bicicletas deverá ocorrer, quando não houver ciclovia, ciclofaixa, ou acostamento, ou quando não for possível a utilização destes, nos bordos da pista de rolamento, no mesmo sentido de circulação regulamentado para a via, com preferência sobre os veículos automotores.

O pessoal da Massa Crítica sabe e usa isso pra dar visibilidade à noção de que bicicleta não é (só) pra lazer. Supõe-se que o órgão regulador do trânsito deva saber disso. Se não sabe, alguém dê uma cópia da lei a Vanderlei Cappellari, diretor da EPTC, por favor. URGENTE.

(Sr. Capellari, caso esteja lendo este post, o link do texto completo do CTB é este aqui. Grato pela audiência.)

Não sou ciclista, mas sou pedestre convicto. E ninguém está mais nu no trânsito do que o pedestre. Os ciclistas vêm logo depois em grau de nudez – e é talvez por isso que tão pouca gente se encoraje a sair de bicicleta. Segundo o Datasus, entre 2008 e 2010 e apenas no Estado de S.Paulo, houve 27.441 pedestres e 9.604 ciclistas internados por acidentes de trânsito. Foram internados 5.352 pedestres e 588 ciclistas após colidir com carros, mas 74 ocupantes de carro foram internados após colidir com pedestres ou animais e 28 foram internados após colidir com ciclistas (baixe o CSV aqui).

Ou seja: para cada ocupante de carro internado após bater em pedestre, 72 pedestres foram internados após bater em carro. Para cada ocupante de carro internado após bater em ciclista, 21 ciclistas foram internados após bater em carro.

Isso ocorre em boa parte porque as autoridades de trânsito dão prioridade absoluta para o carro, apesar de a lei recomendar prioridade para quem é menos protegido por lata em volta. O resultado disso são cidades atravancadas de castelos de lata. O pedestre que se exploda, em calçadas detonadas e dispondo de poucos segundos pra atravessar a rua (e mesmo assim com carros invadindo seu tempo). O ciclista que vá brincar no parque, porque a rua pertence ao carro.

Automóveis são vendidos com a sedução da velocidade, e esta vem em doses ilegais. O Golf que atropelou os ciclistas pode chegar a 188 km/h – e sequer é um dos veículos mais potentes à venda. Muito raramente, tanto em cidades quanto em estradas, é permitida uma velocidade de mais de 120 km/h. Isso permitida, porque a velocidade média dos carros em São Paulo é de 15 km/h. Por causa dos engarrafamentos.

Pra que tanta velocidade potencial, então? OK, antes de mais nada pra vender mais caro. Mas isso tem o efeito colateral de estimular deserdados da noção a pisar no acelerador.

Existe um excelente desenho da Disney em que o Pateta encarna um pacato cidadão que vira um bicho feroz atrás do volante. Quero crer que foi isso que aconteceu com o sr. Ricardo e ele não é psicopata fora do carro. Pessoalmente, estou curioso pra ver o que o Pateta vai dizer à polícia nesta segunda. Enquanto isso, fique com os vídeos com as vítimas da bicicletada e com o Pateta motorista. E conte aqui nos comentários como é sua experiência no trânsito.

Apagões, pedras, vidraças e o trouxa do cidadão

Na madrugada de sexta (4), oito estados do Nordeste ficaram às escuras. Nossa caríssima classe política adora essas horas. Toda ela, tanto oposição quanto governo.

Os oposicionistas aproveitam o ensejo para tachar o governo de incompetente. Os governistas aproveitam o ensejo pra fazer a dança das cadeiras. O trouxa do cidadão, que banca a brincadeira, é que tem que aguentar não apenas os apagões, entra governo e sai governo, como também o blablablá da classe política.

Vale a pena olhar a semântica, que faz tanto barulho, e os dados, que a gente olha tão pouco.
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A SEMÂNTICA

O ministro Edison Lobão, por exemplo, repeliu o uso da palavra “apagão” pra descrever o ocorrido. Para ele, na lógica do seis por meia dúzia, o que houve foi uma “interrupção”. (Assim como o caixa-dois para o Delúbio eram “recursos não-contabilizados”.)

“Apagão” é uma tradução bastante decente de “blackout”. Melhor que “blecaute”, que abrasileira sem traduzir. Se faltou luz e oito estados ficaram no escuro, foi apagão.

Discutindo sobre o assunto na internet, disseram que o problema é com o uso indiscriminado da palavra “apagão” – “apagão aéreo”, “apagão dos portos”, “apagão (fill the blanks)”. Dizem que é coisa da oposição pra desgastar o governo injustamente. Vale dar uma olhada.

OK, eu também não curto essa coisa de ampliar o âmbito da palavra. O dicionário Aulete, porém, considera que a palavra também abrange colapsos estruturais em outras áreas que não a de luz. Pessoalmente? Prefiro usar “apagão” quando cidadãos ficam às escuras. Foi o caso, e não tem tergiversação que resolva.

Pior ainda: os primeiros a adaptarem a palavra “apagão” para outros âmbitos foram membros do PT, que hoje reclama do uso da palavra. Em entrevista à Folha em dezembro de 2002, o hoje novamente ministro Antônio Palocci dizia:

“A capacidade de planejamento estratégico do Brasil teve um apagão maior do que na energia. E ninguém fala nada.” (FSP, 22.dez.2002, para assinantes)

Outro argumento do mesmo amigo que reclamou do uso indiscriminado da palavra “apagão” foi o de que o que houve no Nordeste não se compara à falta de energia que levou a um espartano racionamento no governo Fernando Henrique. Verdade, não se compara. Mas, mesmo na época do racionamento, blecautes semelhantes ou até menores do que o havido ontem no Nordeste também eram chamados de apagões. Inclusive durante a campanha eleitoral:

Pane, que durou aproximadamente uma hora, afetou o fornecimento em 30% da região; causa ainda é desconhecida

Curto-circuito provoca apagão no Nordeste

FÁBIO GUIBU
DA AGÊNCIA FOLHA, EM RECIFE

Um curto-circuito em uma linha de transmissão de energia elétrica da Chesf (Companhia Hidrelétrica do São Francisco) provocou na manhã de ontem um blecaute de até uma hora em cerca de 30% da região Nordeste.
O problema, de causa ainda desconhecida, aconteceu às 10h35, a 70 km de Angelim, município do agreste pernambucano. A linha afetada, de 500 mil volts, abastece a subestação Recife 2, a maior do Estado, localizada em Jaboatão dos Guararapes, na região metropolitana. (FSP, 11.out.2002, para assinantes)

O que mudou de 2002 para cá?

Já vimos que, entra governo e sai governo, o cidadão continuou ficando às escuras por falhas do governo de plantão. Falhas diferentes, mas ainda falhas. Que precisam ser solucionadas, até pra fazer jus ao tanto que a gente paga por um serviço tão precário.

Já vimos que a palavra usada pelos jornalistas para descrever esses incidentes era exatamente a mesma. Não é pra atender ao capricho dos simpatizantes de um governo ou de outro que se vai ter motivo pra mudar.

Já vimos que a ampliação do significado da palavra por parte da oposição ao governo de plantão também já ocorria. Eu pessoalmente não gosto dessa ampliação, mas até o dicionário aceita. Sem falar que os simpatizantes do governo de agora usavam essa mesma ferramenta retórica pra criticar o governo ao qual se opunham.

Então, a única coisa que mudou foi o seguinte: quem era vidraça passou a ter a pedra na mão; quem tinha a pedra na mão passou a ser a vidraça. Quem com semântica fere, com semântica será ferido – esse é o jogo da classe política.

Enquanto isso, o trouxa do cidadão é quem fica no escuro, tomando pedrada de raspão na cabeça e tendo que pisar em cacos de vidro. Um pouco de memória, que a internet ajuda, e um tanto de honestidade intelectual, que é disciplina e hábito, ajuda a não entrar nas torcidas organizadas de um lado ou de outro nesse pacto de canalhas entre governo e oposição.
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OS DADOS

Outro argumento que ouvi foi que o apagão de ontem foi exceção. O Estadão diz, sem informar nem dados e nem fonte, que “Apagões no Brasil aumentaram nos últimos três anos“. Acho possível que tenham aumentado, mas eu queria ter acesso aos dados inteiros pra tirar conclusões mais detalhadas.

Na falta deles, é possível checar de uma maneira mais trabalhosa.

O site do Operador Nacional do Sistema, uma espécie de guarda de trânsito da energia elétrica do Brasil, publica um boletim diário do estado do sistema. Abra em nova janela ou aba o link “Principais eventos e ocorrências”. Você pode trocar a data no link e ver, dia a dia, voltando no tempo, o que houve. Na maior parte dos dias, você pode ver coisas assim:

No dia 03/02/2011, não foram verificadas ocorrências significativas com origem na Rede de Operação do Sistema Interligado Nacional – SIN.

No dia 4, o boletim disse isto:

No dia 04/02/2011, à 00h21, ocorreu a interrupção de cerca de 5.754 MW de cargas na região Nordeste, atingindo os Estados da Bahia, Sergipe, Alagoas, Penambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará, devido ao desligamento de diversas linhas de transmissão em 500/230 kV e de usinas geradoras nessa região. Posteriormente, à 00h29, devido as condições de degradação das tensões e frequência, houve o desligamento de outras linhas de transmissão e usinas geradoras remanescentes, causando uma interrupção adicional de cerca de 2.246 MW, atingindo os Estados citados anteriormente.
Na Celpe (Estado de Pernambuco) permaneceu o suprimento de cerca de 70 MW e na Coelba (Estado da Bahia), cerca de 340 MW.
O processo de recomposição das cargas foi iniciado à 01h10 e concluído às 05h.
A causa está sendo pesquisada pela Eletrobras Chesf e ONS.

E não foi a primeira vez no ano. Olha só:

No dia 26/01/2011, às 22h15, ocorreu o desligamento automático de todas as unidades geradoras da UHE Funil (Furnas), com geração de 200 MW, e das LT 138 kV Funil/Saudade C1 e C2 e Saudade/Volta Redonda C1. Em seguida, entre 22h23 e 22h25, ocorreram os desligamentos automáticos das LT 138 kV Cachoeira Paulista/Volta Redonda C1 e C2, Nilo Peçanha/Volta Redonda C1 e C4 e Saudade/Volta Redonda C2.
Houve interrupção de 510 MW de cargas no interior do Estado do Rio de Janeiro, sendo 445 MW da LIght e 65 MW da Ampla.
Às 22h28 foi iniciada a recomposição das cargas da Light, sendo concluída à 01h57 do dia 27/01/2011.
À 00h48 foram normalizadas as cargas da Ampla.
A causa está sendo pesquisada pelos agentes Furnas e Light.

ou

No dia 20/01/2011, às 10h26, ocorreu o desligamento automático de toda a SE Figueira.
Em consequencia, houve interrupção de 126 MW de cargas da Copel, na região norte do Estado do Paraná.
A normalização das cargas foi iniciada às 11h00 e concluída às 11h04.
A causa foi cabo rompido na chave seccionadora de 230 kV da SE Figueira, que interligava as barras BP1 e BP2 da referida SE.

ou

No dia 15/01/2011, às 17h44, ocorreu o desligamento automático da LT 230 kV Porto Velho / Abunã, causando a desenergização da LT 230 kV Abunã / Rio Branco e de toda a transformação 230/138/69 kV da SE Rio Branco I, todos os equipamentos e linhas de transmissão da Eletrobras Eletronorte.
Em consequência houve a interrupção de 11 MW do agente de distribuição Ceron, atingindo a cidade de Guajará Mirim, no Estado de Rondônia e de 88 MW de cargas do agente de distribuição Eletroacre, atingindo a região das cidades de Rio Branco, Xapuri, Epitaciolândia e Sena Madureira, no Estado do Acre.
A recomposição das cargas foi iniciada às 18h06 e concluída às 18h16.
A causa está sendo pesquisada pela Eletrobras Eletronorte.

ou

No dia 11/01/2011, às 14h32 (Horário Brasileiro de Verão), ocorreu o desligamento automático dos transformadores TR2, TR3 e TR4 230/69 kV – 100 MVA da SE Cotegipe, da Eletrobras Chesf.
Em consequência houve a interrupção de 245 MW de cargas do agente de distribuição Coelba, atingindo a região metropolitana da cidade de Salvador, no Estado da Bahia.
A recomposição das cargas foi iniciada às 14h34 e concluída às 14h55.
A causa está sendo pesquisada pela Eletrobras Chesf.

ou

No dia 05/01/2011, às 14h27min houve o desligamento do C2 da LT 230 kV Gravatai 2/Porto Alegre 6 (CEEE-GT) e às 14h28min o desligamento do C3 da LT 230kV Gravatai 2/Porto Alegre 6 (CEEE-GT) e da LT 230 kV Porto Alegre 10/Porto Alegre 4 (CEEE-GT). A LT 230 kV Gravataí 2/Porto Alegre 6 C1 (CEEE-GT) já se encontrava desligada em urgência desde às 13h37min devido discordância de pólos no Disjuntor 230 kV 5201 na SE Porto Alegre 6 (CEEE-GT), no estado do Rio Grande do Sul.
Em consequência a partir das 14h28min houve interrupção de 470 MW de cargas da distribuidora CEEE, na região metropolitana de Porto Alegre.
A recomposição das cargas, iniciou às 14h34min, com o religamento da LT 230 kV Porto Alegre 4/Porto Alegre 10, sendo totalmente recompostas às 15h53min.
A causa está sendo pesquisada pela CEEE.

ou

No dia 04/01/2011, às 15h17, ocorreu o desligamento automático da LT 230 kV Cícero Dantas / Catu C1, dos transformadores TR1 230/13,8 kV – 40 MVA da SE Olindina e TR3 230/69 kV – 50 MVA da SE Cícero Dantas, da Eletrobras Chesf.
Em consequência houve a interrupção de 30 MW de cargas do agente de distribuição Coelba, atingindo a região metropolitana da cidade de Salvador, no Estado da Bahia.
A recomposição das cargas foi iniciada às 15h38 e concluída às 16h18.
A causa está sendo pesquisada pela Eletrobras Chesf.

ou

No dia 1º/01/2011, à 00h15, ocorreu o desligamento automático dos transformadores TR1 e TR3 345/88 kV – 400 MVA, da SE Milton Fornasaro, da CTEEP.
Em consequência houve a interrupção de 294 MW de cargas do agente de distribuição Eletropaulo, atingindo a região metropolitana da cidade de São Paulo, no Estado de São Paulo.
A recomposição das cargas, em torno de 280 MW, foi concluída à 00h24. Demais cargas interrompidas, em torno de 14 MW foi concluída à 01h03.
A causa está sendo pesquisada pela CTEEP.

Praticamente um apagão a cada cinco dias, mais ou menos. Isso significa que aumentaram os apagões? Ou significa que reduziram? Ou significa um fluxo normal?

Só tem um jeito de saber: recolhendo os dados de todos os apagões dos últimos vários anos e analisando. É possível transformar esses dados numa planilha. Aí se compara, pode-se até mapear pra ver se eles são mais frequentes em algum ponto mais específico.

Só que cada incidente tem sua característica. Vai ter atingido um número X de consumidores, vai ter atingido um número Y de cidades, vai ter durado Z horas.

Eu suponho que uma medida relevante para comparar incidentes díspares ponderaria as horas de interrupção versus a quantidade de pessoas atingidas.

Não sei qual a melhor maneira de fazer isso. Algum economista na área?

Tombamento do Belas Artes, desabamentos do Rio

Na sexta-feira passada, enquanto o Brasil assistia ao resgate do que até agora são mais de 700 corpos na tragédia da região serrana do Rio de Janeiro, fui ao cinema Belas Artes, em São Paulo, pra encarar uma maratona de filmes ao longo da madrugada e uma homenagem.

O cinema, pra mim um dos melhores do Brasil, passa por bocados complicados. Vai abrir metrô do lado, talvez neste ano, talvez depois (por ora só atende UMA estação durante poucas horas), e o dono do prédio quis cobrar um aluguel muito maior que o então vigente. A ideia do dono do prédio, herdeiro do dono original, é alugar o imóvel para alguma empresa de que possa cobrar mais, tipo uma loja de departamentos. Na boca do metrô, seria um filé de vendas. Mas aí fecharia o cinema. Ou ele teria que procurar outro lugar. É a especulação imobiliária, enfim. Isso é ruim pra qualquer um que não seja o proprietário – que o diga quem procura apartamento levando em conta a localização e os serviços disponíveis.

Há uma choradeira na cidade sobre isso, especialmente entre o pessoal cinéfilo. Eu mesmo gosto do lugar, que tem várias vantagens: fica na esquina da Paulista, pára ônibus na frente dia e noite e tudo mais. Mas aí, como estamos no Brasil, já começou a gritaria pra pedir a ajuda do paizão Estado pra proteger o cinema da especulação imobiliária. É preciso proteger a arte, dizem.

Num intervalo do Noitão, escrevi no Twitter mais ou menos o seguinte: pra mim tanto faz cinema de rua ou cinema de shopping. A diferença é a mesma entre vinho de rolha e vinho de tampa rosca – o que realmente faz diferença é o que tem dentro. Nada impede cinema de shopping de passar filme bom. Aliás, tem vários que o fazem. A única coisa que eu realmente lamento, se fechar o cinema, é o espaço pra ficar de bobeira sem ninguém tentar te vender ou pedir alguma coisa.

Eu adorava sentar naquele janelão pra ler enquanto esperava minha mulher sair de algum filme iraniano que eu não teria saco de assistir. Ali eu tinha certeza que não viria um garçom perguntando se eu quero fazer algum pedido, nem um mendigo pedindo uns trocados pra comprar pão, nem um moleque querendo engraxar meus tênis, nem nada assim. Nem mesmo a balbúrdia de gente te olhando de cara feia por estar ocupando uma mesa de shopping quando eles estão com uma bandeja querendo sentar.

Claro que posso ficar de bobeira em casa. Mas em casa não corro o menor risco de ser encontrado por acaso por algum amigo ou conhecido pra botarmos o café em dia. Espaços assim são preciosos e cada vez mais raros.

Só que mesmo assim eu não acho que seja papel do Estado preservar esses lugares. Ele já renuncia a impostos por meio das leis de incentivo à cultura para o patrocínio do cinema, sem falar na produção e distribuição dos filmes nacionais. Agora também tem que ter o papel de proteger essa empresa da especulação imobiliária? Não adianta dizer “ah, mas então você acha que o Estado não tem que dar cultura pro cidadão”. Não se trata disso, até porque não “dá”: o ingresso lá não é nada barato.

O Brasil montou um sistema em que se espera que o paizão Estado resolva tudo. Que alfabetize as crianças no ensino básico, qualifique a elite no ensino superior, mantenha a qualidade de vida de todos num sistema universal de saúde, dê de graça até os remédios mais exóticos de que até os brasileiros que podem pagar precisem, salve bancos falidos, ajude empresas grandes a comprar empresas no exterior, garanta que as montadoras continuem tendo lucros a cada ano mais fabulosos mesmo no meio da crise e até mesmo proteja cinema da especulação imobiliária.

Aí nem quando a natureza interfere e 700 morrem sem precisar o pessoal se liga na verdade universal de que quem tenta fazer tudo não consegue fazer nada direito.

Sou completamente a favor de tentar convencer o proprietário a especular menos. Sou completamente a favor de manter o cinema aberto. Mas acho que botar o Estado no meio é querer matar rato com bazuca.

Surpresa com data marcada

Todo ano, a chuva tem data marcada para pegar os governos de surpresa. Em São Paulo, costuma ser em janeiro. Todo ano, os governos reclamam da fúria de Deus, São Pedro ou Thor, sei lá. A destruição acontece “por causa do excesso de chuvas”, assim como o congestionamento (desculpe, “lentidão”) no trânsito ocorre “por excesso de veículos”. É fato que chove. Mas também é fato que os danos poderiam ser reduzidos com um pouco mais de ação humana.

A cidade de São Luiz do Paraitinga (SP) é um excelente exemplo disso. Ela foi destruída pela chuva em 2 de janeiro de 2010. Oito em cada 10 dos moradores da cidade estavam desalojados. Parte do dinheiro enviado teria sido desviada. De notícia de agosto:

No total, foram arrecadados R$ 539.949,09. Levantamento feito pela Defensoria mostra que R$ 96 mil foram direcionados para a reforma do prédio da prefeitura e R$ 55 mil, para aquisição de medicamentos. Os R$ 388.460 restantes encontram-se “sem destinação definida”, segundo o município. (Leia também a nota de esclarecimento da prefeitura.)

No final do ano, ainda havia famílias sem casa, em parte por considerações de preservação do patrimônio histórico – justas, mas lentas. Em janeiro, voltou a chover, como sói ocorrer, e em 8 de janeiro desabaram barreiras na cidade. Choveu? Choveu. Mas a ação humana, a ação política, tem um papel importante nisso. Uma distribuição eficiente e rápida dos recursos pode reduzir os danos no ano seguinte. Mas chega março e os casos já foram esquecidos. Em ano eleitoral, quando chega o dia da urna em outubro, longe passam os problemas.

Enquanto chove, chovem notícias de desastres e mortes com as chuvas. Uma maneira de compreendê-las melhor é visualizando sua distribuição no território. O mapa abaixo, feito com dados publicados pela Defesa Civil de São Paulo, mostra os incidentes ocorridos desde primeiro de janeiro de 2011. Clique nos ícones para ler de que se trata.

Veja especialmente São Paulo e Região Metropolitana: