São Paulo não é cidade para pedestres?

Uma motorista conseguiu a façanha de atropelar e matar, segundo amigos ouviram da família, um respeitado professor do Instituto de Psicologia da USP, César Ades. Ele estava fazendo caminhada na Paulista.

[EDITADO: Segundo o HC, o professor continua internado em estado gravíssimo. Não teve morte cerebral.]

Pedestres morrem mais do que ciclistas na cidade. Por estarem desprotegidos, se um carro bate neles, no mínimo se machucam mais do que o motorista.

A julgar pelo que se ouviu quando morreu a ciclista, vão colocar a culpa no professor. Quem manda andar a pé na rua? São Paulo não está preparada para o pedestre. Andar a pé em São Paulo é utopia, deslumbramento de quem foi à Europa e achou bonito.

Recapitulando: na semana passada, uma ciclista foi atropelada e morreu na Paulista. Alguns especialistas consultados pela imprensa foram rápidos em dizer que a cidade não está preparada para as bicicletas. Comentaristas no Twitter, blogs e seções de cartas também. Muita gente inteligente culpando os ciclistas por se arriscarem no trânsito paulistano – mais ou menos como culpar uma mulher estuprada por andar de saia curta.

Não adianta lembrar que em outros países os ciclistas têm espaço garantido no trânsito – vão dizer que é coisa de elitista, de quem foi à Europa e achou bonito. Não adianta lembrar que o Código de Trânsito prevê respeito às bicicletas – nem as autoridades de trânsito levam a sério essa parte da lei.

Em pior situação do que os ciclistas estão os pedestres. Os pedestres têm as calçadas, dirá um ciclista. Mas será que têm? Em muitos bairros, o pedestre precisa andar pelo meio da rua porque, além de estreitas, as calçadas têm obstáculos – muros recuados, bueiros abertos, carros estacionados, árvores na frente dos muros recuados e todo tipo de coisa garantida pela criatividade dos moradores do quarteirão.

Mesmo assim, calhou de o professor morrer justamente caminhando pela calçada mais decente de São Paulo. Porque precisa atravessar a rua de intervalos em intervalos, e alguns motoristas não podem parar quando o sinal fecha – seu tempo é muito precioso, o trânsito é guerra mesmo e guerra sem vítimas não tem graça.

Cá pra nós? O que falta é respeito.

E a numeralha, que motiva este blog? A prefeitura de Gilberto Kassab ficou devendo.

Eles têm, bem escondido, um sistema de estatísticas de saúde semelhante ao do Datasus. Complexo, mas excelente nas funcionalidades.

O problema é que ele precisa ter a alimentação de dados. A última alimentação foi em janeiro deste ano, com dados de 2009 e 2010. Não há dados de nenhum dos meses de 2011, e os de 2012 ainda são um sonho.

Muito conveniente em ano eleitoral, não?

[EDITADO: Via Twitter, a Secretaria Municipal de Saúde diz que não há conveniência eleitoral e que os dados de 2011 devem ir ao ar no segundo semestre deste ano. Quando, aliás, a campanha estará nas ruas. No Datasus, já estão disponíveis os dados de todas as outras cidades do Estado até dezembro de 2011.]

De qualquer forma, veja neste link minha planilha com os dados de 1996 a 2010, separados por tipo de vítima e tipo de algoz. Compare por si mesmo.

Com o aumento da frota, caem mortes e dispara a invalidez

A Folha de S.Paulo publica hoje uma reportagem interessante, mostrando que quintuplicaram os pagamentos de seguro por invalidez após acidentes de trânsito. Foram pagas 31 mil indenizações em 2005, e em 2010 o número saltou para 151,5 mil.

Em novembro, o jornal já havia publicado reportagem sobre o aumento no número de mortes no trânsito. Levando em conta o aumento da frota de carros no Brasil, porém, a proporção das mortes caiu. Se em 2005 morriam 83,5 pessoas para cada 100 mil veículos circulando no país, em 2010 morreram apenas 62,5 pessoas para cada 100 mil veículos. Isso é positivo. Mas e como se comparam os inválidos a esses mortos?

Como jornais não costumam calcular esse tipo de proporção, ou mesmo cruzar dados de estudos diferentes, a nova reportagem não compara os casos de invalidez nem com a frota e nem com as mortes no trânsito. Fui atrás.

Na proporção da frota, em 2005 mais gente morria do que ficava inválida no trânsito: eram 85,5 mortes versus 73,9 casos de invalidez a cada 100 mil veículos. Em 2010, foram 62,5 mortes versus 233,8 casos de invalidez a cada 100 mil veículos. O gráfico fica assustador:

Boa parte desse crescimento nos inválidos tem a ver com o aumento da quantidade de motocicletas. Sete em cada dez dos inválidos por acidentes são motoqueiros e jovens, diz a reportagem. O motoqueiro está muito mais exposto a ferimentos graves do que o motorista – que, bem ou mal, está protegido deles por uma armadura de lata.  Na moto, mesmo sem o piloto morrer, ainda pode acontecer muita coisa ruim a ele num acidente.

O aumento das motos tem tudo a ver com o aumento dos carros: quanto mais carros, mais lento o trânsito; quanto mais lento, mais as empresas recorrem a motoboys para fazer entregas cortando pelo trânsito.

Considerando o tamanho da indenização paga (os mesmos R$ 13.500 para morte ou para invalidez permanente), quer-me parecer que quem morre se ferra menos do que quem fica inválido. Sem falar que a invalidez é para sempre, enquanto a morte é uma só vez. Se for considerar que o aumento das motos tem a ver principalmente com  cidadãos mais pobres que buscam um bico, pode ter aí inclusive um corte social desigual. É uma medida da crueldade da lógica do trânsito brasileiro.

Estes são os dados que eu usei:

Frota Mortes Invalidez Mortes por 100 mil Invalidez por 100 mil
2005 42.071.961 35.994 31.121 85,55 73,97
2006 45.372.640 36.367 45.635 80,15 100,58
2007 49.644.025 37.407 80.333 75,35 161,82
2008 54.506.661 38.273 89.474 70,22 164,15
2009 59.361.642 37.594 118.021 63,33 198,82
2010 64.817.974 40.610 151.558 62,65 233,82

As fontes:

Noção de risco, essa arte pouco apreciada

“Isso aí é um Fokker 100? Ah, essa não. Foi esse mesmo avião que estava no acidente da TAM. Nunca mais compro passagem desta empresa aérea.”

Ouvi a frase hoje pela manhã, quando embarcava em Brasília voltando para São Paulo. O acidente com o Fokker da TAM ocorreu em 1996. Ao todo, houve apenas 9 acidentes nesse modelo de aeronave (dos quais só três com mortes). O de 1996, com 99 vítimas, foi o pior de todos – elas são mais da metade das 178 mortes nesses acidentes com Fokker. É irracional o medo dela, não? Quase perguntei que modelo de carro ela tem, pra levantar casos de acidentes com ele.

(Veja aqui uma tabela com 450 acidentes de avião ocorridos no Brasil desde 1942.)

Isso me lembrou várias manifestações que ouvi nos últimos dias, que demonstram como o pessoal não tem um feeling muito apurado pra avaliar riscos. Pegue por exemplo a frase do tio de um dos alunos mortos na escola Tasso da Silveira, publicada no sábado na Folha:

“Eu também tenho um filho. Como posso mandá-lo para a escola na segunda-feira? Como posso ficar tranquilo?”

Compreendo que o filho do entrevistado possa ter péssimas lembranças ao voltar à escola onde o primo foi morto. Ninguém gosta de expor um filho a esse tipo de lembrança – e o trauma das crianças é perfeitamente compreensível. Poxa, podiam ser elas, né?

O “como posso ficar tranquilo” é que me intriga.

Ora, se a preocupação que lhe tira a tranquilidade é a possibilidade de outro atirador aparecer na escola, as chances são absurdamente baixas. O ataque aparentemente não era uma ação organizada contra a escola, e sim uma coisa pessoal lá do atirador. Como ele se matou, não existe muita chance de ele voltar lá. Houve tiroteio lá perto hoje, mas foi um assalto a banco. Pode acontecer em qualquer lugar, infelizmente.

Pior. A escola Tasso da Silveira estará vigiada pela polícia e pela imprensa nos próximos dias. Outras, nem tanto. Isso torna a Tasso da Silveira mais segura do que a maioria das outras. Nas outras, sempre pode um deserdado da noção resolver ir de arma, sabe-se lá por que motivo, mas possivelmente impressionado com a atenção dispensada nacionalmente ao assassino carioca. Aconteceu hoje em Florianópolis. Pode acontecer em outros lugares.

Isso pode ser a desculpa ideal para uma criança preguiçosa que não quer acordar para ir estudar. “Tá louca, mãe? Vai que um ex-aluno aparece lá de arma na mão…” (Pior: por observação, sei que muitas considerariam isso sensato.)

Em termos de debate público, porém, é completamente contraproducente.

***

O canadense Dan Gardner escreveu um livro precioso, cuja leitura é importante em semanas como esta, cheias de especialistas palpitando sobre tudo. Seu título é “Risco – a ciência e a política do medo“. Logo no prólogo, Gardner conta uma das reações ao 11 de Setembro. Com medo de voar, muita gente passou a pegar seu carro e ir para a estrada.

“Só que ninguém falou a respeito do aumento explosivo das viagens de automóvel. Por que falariam? Era secundário. Havia ameaças mortais com que se preocupar. Uma coisa que nenhum político mencionou foi que as viagens aéreas são mais seguras do que as viagens terrestres. Sensivelmente mais seguras – tanto que a parte mais perigosa de um típico voo comercial é o percurso até o aeroporto. Na verdade, a diferença em termos de segurança é tão grande que os aviões continuariam sendo mais seguros que os carros mesmo que a ameaça de terrorismo fosse inimaginavelmente pior do que ela realmente é: um professor americano calculou que, mesmo que os terroristas estivessem sequestrando e derrubando um jato de passageiros por semana nos Estados Unidos, uma pessoa que voasse uma vez por mês durante um ano teria apenas uma chance em 135 mil de morrer em um sequestro – um risco pequeno se comparado à chance anual de uma em 6 mil de morrer em um acidente de automóvel.”

Isso me lembra em boa parte argumentos que ouço sempre que defendo que faz bem não ter carro. Eu não tenho por opção, por pesar vários bons motivos: um carro a mais na rua é um carro a mais engarrafando a rua; transporte público (ônibus, metrô e até táxi) tá na rua pra isso mesmo; não dirigindo, posso aproveitar o tempo dos deslocamentos pra atualizar as leituras.

“Ah, mas eu prefiro gastar mais pra ter o meu carrinho a ficar pegando ônibus e ser assaltado”, já ouvi. Ora, eu ando de ônibus desde criança. Nunca fui assaltado em ônibus. Talvez um dia seja, embora prefira não – há gente que é, sim, mas não é todo mundo e nem é todo dia.

Eu não conheço ninguém que tenha sido assaltado no ônibus, mas conheço quem tenha sido assaltado no carro. Conheço quem tenha tido o carro roubado – o que é um prejuízo maior do que ter a carteira roubada no ônibus. E conheço mais gente que sofreu acidente de carro do que de ônibus. Aliás, um levantamento recente mostrou que armas de quatro rodas matam muito mais do que armas de fogo em alguns estados.

No limite, precisamos conviver com a noção de que só não corre risco quem não vive. Dá pra avaliar riscos racionalmente, com algum bom senso e um pouco de pesquisa. Riscos avaliados podem ser reduzidos. O lado triste disso é que meus colegas de profissão não ajudam muito a dar a medida das coisas. Especialmente com o tipo de cobertura que fazem de casos como o do tiroteio da escola Tasso da Silveira.

O que não dá é pra deixar o medo mandar em nós.

No filme “Elsa & Fred“, há uma frase que resume bem isso. Elsa, uma viúva divertida e trapalhona, conhece Fred, um viúvo quietão e hipocondríaco. Acho que a frase vem numa cena em que Fred diz que não pode comer uma sobremesa por causa do colesterol. Elsa diz:

— No tienes miedo de morirte; vos tenés miedo de vivir.

Quem tem medo de tudo não vive.

***

EDITADO: Para você não pensar que eu quero dizer que sou bonzão e sei evitar todos os riscos, vale eu contar uma história de 2006. Fui ao Rio de ônibus e, pra não acordar muito cedo meus amigos, resolvi caminhar pela beira da praia com minha mulher. No aterro do Flamengo, entrando pelo finalzinho da Rio Branco. Em certo trecho, um sujeito veio nos assaltar com uma faca. Eu reagi. O cara me esfaqueou o braço. Podia ser pior.

Pessoas passavam ao redor e não fizeram nada. Mais tarde, pensando no que houve, caiu a ficha de qual era meu fator de risco. Nós éramos os únicos trouxas que não estavam de roupa de banho e além de tudo usavam mochila. Tudo em nós gritava “ATENÇÃO, DOIS TROUXAS DE FORA DA CIDADE”. Estando vestidos, éramos os únicos que corriam o risco de estar com uma carteira – ou máquina fotográfica, que foi o que o sujeito levou.

Passei um tempo com medo de qualquer mendigo que me encarasse na rua. Aí comecei a avaliar o que eu podia ter feito pra não acontecer mais aquilo. Onde? Quando? Vestido como? Andando como? E é aí que está o que realmente dá pra tirar de lições de uma coisa dessas.

Indústria de multas? Mas multa-se tão pouco…

Outro dia o Fantástico passou uma reportagem do Giovani Grizotti sobre trampolinagens na compra de “pardais”, as câmeras que flagram e multam motoristas barbeiros. Imediatamente surgiu uma gritaria contra a “indústria da multa”. Sempre vem alguém dizer que isso demonstra que a preocupação das prefeituras não é “educativa”, mas “arrecadatória”.

Esse último ponto, aliás, é o que eu acho mais risível. Não existe nada mais educativo do que a certeza da punição. O motorista que comete barbeiragem só o faz quando julga que vai escapar sem problemas. Quando julga que ninguém está vendo. Ora, se o sujeito fez barbeiragem, colocou a segurança alheia em risco de alguma maneira e merece no mínimo uma multinha. Ele tinha opção. Onde o motorista supõe que corre mais risco de ser multado se abusar da boa vontade alheia, ele costuma ser mais prudente.

Multa-se pouco no Brasil. Toda. Hora. Sai. Alguma. Matéria. Mostrando. Isso. E isso não acontece necessariamente porque a lei é severa demais a ponto de ser incumprível (embora possa ser). Ocorre em boa parte porque ela não é fiscalizada. Isso beneficia os maus motoristas e prejudica todos os outros – especialmente os pedestres, como este escriba.

Pessoalmente, sou a favor de colocarem pardais sobre cada faixa de pedestres, multando automaticamente cada carro que parar nela quando ela deve estar liberada ou passando por ela depois de o sinal fechar. A gente já tem pouco tempo pra atravessar, e esse pouco costuma ser invadido pelos carros. Não adianta reclamar com a CET: mesmo quando tem fiscal no cruzamento, eles dizem que se forem ficar de olho só nisso não fazem mais nada.

Certa vez contei num cruzamento de São Paulo: dava 120 segundos abertos para os carros e 7 segundos abertos para os pedestres. Se você descontar os dois segundos e meio que alguns barbeiros roubaram cruzando o sinal vermelho, você tem quatro segundos e meio pra chegar ao outro lado da rua antes de os carros voltarem a rugir. Eu dou uma corridinha. Daqui a 30 ou 40 anos, já vai ser mais difícil.

(Claro que isso não é prioridade pras prefeituras, e nem vai ser enquanto continuarem representando a indústria da barbeiragem.)

Acho justo as prefeituras cobrirem as ruas de câmeras, ainda que com intenção arrecadatória. Punição aos abusos, ou ao menos a perspectiva de punição, educa. Mas ainda assim acho importante a reportagem do Grizotti. Ela revelou que:

1) Empresas que vendem os equipamentos permitem desmultar quem devia ser multado, a pedido de pessoas influentes. Isso é sacanagem da grossa e dá margem à corrupção.

2) Contratos eram obtidos na base da propinagem. Isso é corrupção.

Acho que tem que multar, mas tem que ser transparente e dentro da lei. É sacanagem baixar ridiculamente o limite de velocidade num ponto da rua, por exemplo, e instalar uma câmera pra multar quem em qualquer outro ponto da cidade estaria numa velocidade razoável.

As bicicletas e o Carmageddon em Porto Alegre

Sexta-feira à noite, um sujeito descontrolado avançou com seu Golf  sobre um grupo de cerca de 100 ciclistas que pedalavam na Cidade Baixa, em Porto Alegre. Atropelou intencionalmente vários deles, derrubando bicicletas e ferindo mais de 10, fugindo logo depois. Pela placa do carro, o motorista foi rapidamente identificado como Ricardo José Neif, um senhor de 47 anos. A polícia diz que o dono do carro prometeu aparecer pra depor nesta segunda. (Ao jornal Zero Hora, a ex-mulher de Neif diz que foi “legítima defesa“, porque o carro estaria sendo agredido pelos ciclistas com tapinhas na lataria.)

A TV Globo obteve imagens da câmera de um prédio mostrando o momento em que o sujeito praticamente passou por cima dos ciclistas. Depois, mostrou as imagens do chão, quando ele passa por cima. Parece videogame, Carmageddon.E o pior: o cara estava com o filho de 15 anos do lado. Daqui a 3 anos, esse moleque vai estar dirigindo. Que lição ele vai tirar do resultado desse crime? A de que motorista pode tudo ou a de que respeito é fundamental?

Não obstante, a EPTC – responsável pelo controle do trânsito de Porto Alegre – queixou-se de os ciclistas “não terem avisado” que pedalariam naquele dia e local. Por isso, não havia guardas de trânsito acompanhando o grupo Massa Crítica – que toda sexta-feira programa “bicicletadas” saindo do mesmo lugar e fazendo o mesmo trajeto. Eles têm recomendações bastante detalhadas a seus participantes sobre como pedalar mais seguro no trânsito.

Seria excelente ter guardas de trânsito lá pra ir imediatamente pra cima do “monstrorista”. Mas precisava MESMO ter a supervisão da EPTC, como se fosse babá?

Nessa mesma linha, vi comentários tipo “quem manda sair de bicicleta no trânsito” – coisa que me lembra muito saber que uma mulher foi estuprada e dizer “também, com aquela sainha curta…”.

Um sujeito que respeito muito tuitou que esse negócio de pedalar é muito bonito de ver na Europa, mas que aqui “as cidades não estão preparadas” pra isso. De fato é bonito ver na Europa. Ainda ontem li que em Lyon, na França, estão dando prioridade às bicicletas. E também é fato que as cidades “não estão preparadas” pra isso, como também não estão preparadas para oferecer condições de moradia, saneamento, transporte público decente e segurança para seus moradores.

“Estar preparado” é questão de prioridade das autoridades. E nada costuma ser mais prioridade para elas do que o que pode fazer pingar dinheiro no caixa ou no bolso, tipo abrir estradas, repavimentar ruas e multar por excesso de velocidade. Outro dia, no Rio, ouvi um taxista reclamar que estava mais difícil convencer guardas de trânsito locais a aceitar propina pra aliviar multas. A carrocracia é um excelente negócio pra quem quer lucrar com ela. Pedestre e bicicleta, porém, não garantem cervejinha para o guarda, multa para os cofres públicos, relatórios otimistas para as montadoras e contratos de obras para quem financiou a campanha do prefeito.

Não precisa de muita coisa pra “estar preparado” pra magnanimamente deixar o pessoal andar de bicicleta, não. O Código de Trânsito Brasileiro prevê o uso de bicicletas como meio de transporte. Supõe-se que todos os motoristas devam conhecê-lo pra poder tirar carteira sem comprar. Ele prevê prioridade às bicicletas no trânsito:

Art. 58. Nas vias urbanas e nas rurais de pista dupla, a circulação de bicicletas deverá ocorrer, quando não houver ciclovia, ciclofaixa, ou acostamento, ou quando não for possível a utilização destes, nos bordos da pista de rolamento, no mesmo sentido de circulação regulamentado para a via, com preferência sobre os veículos automotores.

O pessoal da Massa Crítica sabe e usa isso pra dar visibilidade à noção de que bicicleta não é (só) pra lazer. Supõe-se que o órgão regulador do trânsito deva saber disso. Se não sabe, alguém dê uma cópia da lei a Vanderlei Cappellari, diretor da EPTC, por favor. URGENTE.

(Sr. Capellari, caso esteja lendo este post, o link do texto completo do CTB é este aqui. Grato pela audiência.)

Não sou ciclista, mas sou pedestre convicto. E ninguém está mais nu no trânsito do que o pedestre. Os ciclistas vêm logo depois em grau de nudez – e é talvez por isso que tão pouca gente se encoraje a sair de bicicleta. Segundo o Datasus, entre 2008 e 2010 e apenas no Estado de S.Paulo, houve 27.441 pedestres e 9.604 ciclistas internados por acidentes de trânsito. Foram internados 5.352 pedestres e 588 ciclistas após colidir com carros, mas 74 ocupantes de carro foram internados após colidir com pedestres ou animais e 28 foram internados após colidir com ciclistas (baixe o CSV aqui).

Ou seja: para cada ocupante de carro internado após bater em pedestre, 72 pedestres foram internados após bater em carro. Para cada ocupante de carro internado após bater em ciclista, 21 ciclistas foram internados após bater em carro.

Isso ocorre em boa parte porque as autoridades de trânsito dão prioridade absoluta para o carro, apesar de a lei recomendar prioridade para quem é menos protegido por lata em volta. O resultado disso são cidades atravancadas de castelos de lata. O pedestre que se exploda, em calçadas detonadas e dispondo de poucos segundos pra atravessar a rua (e mesmo assim com carros invadindo seu tempo). O ciclista que vá brincar no parque, porque a rua pertence ao carro.

Automóveis são vendidos com a sedução da velocidade, e esta vem em doses ilegais. O Golf que atropelou os ciclistas pode chegar a 188 km/h – e sequer é um dos veículos mais potentes à venda. Muito raramente, tanto em cidades quanto em estradas, é permitida uma velocidade de mais de 120 km/h. Isso permitida, porque a velocidade média dos carros em São Paulo é de 15 km/h. Por causa dos engarrafamentos.

Pra que tanta velocidade potencial, então? OK, antes de mais nada pra vender mais caro. Mas isso tem o efeito colateral de estimular deserdados da noção a pisar no acelerador.

Existe um excelente desenho da Disney em que o Pateta encarna um pacato cidadão que vira um bicho feroz atrás do volante. Quero crer que foi isso que aconteceu com o sr. Ricardo e ele não é psicopata fora do carro. Pessoalmente, estou curioso pra ver o que o Pateta vai dizer à polícia nesta segunda. Enquanto isso, fique com os vídeos com as vítimas da bicicletada e com o Pateta motorista. E conte aqui nos comentários como é sua experiência no trânsito.