O campo de batalha da Web é o seu tempo

No Bubot, uma de nossas preocupações principais é como oferecer bons filtros para os usuários pouparem seu tempo na internet. Dois assuntos altamente comentados no Twitter ilustram um pouco onde queremos chegar com isso.

Ontem, durante o dia todo, vários amigos tuiteiros passaram fazendo piadinhas com o nome de uma garota que foi morar no exterior. A frase dita pelo pai da garota num comercial de empreiteira no Nordeste virou meme. Embora a maior parte das brincadeiras tenha sido em tom crítico, certamente os publicitários que fizeram a campanha estouraram champanhe ontem. Viralizou. Em menos de duas horas já tinha portal noticiando que a família anunciou a volta da garota ao Brasil. Aposto que vai ser um evento de repercussão nacional a chegada dela ao aeroporto.

Ao longo do domingo e segunda, o Twitter foi inundado de mensagens a respeito do que acontecia sob os edredons de um programa de alta audiência. Foi abuso sexual ou não? Deu polícia e tal. Houve portais que resolveram transformar isso em seu único assunto durante três dias. Resultado: 80% a mais de audiência para o programa criticado. Oitenta. Por. Cento. A. Mais. Sucesso, sem dúvida.

Existe um conceito que pouca gente entende na internet: o da economia da atenção (surgido neste livro interessantíssimo, há 11 anos). Há um bom artigo no Read/Write Web a respeito, mas vale a pena dar uma olhada no que significa em bom português.

O princípio fundamental da economia é que os desejos são infinitos mas os recursos são escassos. A economia é a ciência severa da escassez. Num mundo em que as formas de deixar o tempo passar são abundantes, o recurso mais escasso é o seu tempo. Você aloca seu tempo usando uma moeda chamada atenção.

Assim como na economia de reais você pode decidir se vai à balada ou se bota o dinheiro na poupança para usar depois, na economia da atenção você decide a todo instante o que fazer com seu tempo. Você pode assistir TV ou ler um livro ou curtir a família. Você pode prestar atenção no seu trabalho ou retuitar memes da internet.

“Tempo é dinheiro” é uma equação inversamente proporcional: se você tem pouco tempo, você gasta mais dinheiro (ir a um compromisso de táxi versus ir de ônibus); se você tem tempo sobrando, gasta menos dinheiro (espera para comprar passagens de avião quando há uma promoção). Geralmente somos mais ricos em tempo do que em dinheiro. Exatamente por isso tendemos a gastar mal essa moeda.

Assim como na economia de reais, a atenção “non olet”. Para o lojista do shopping center, não importa como você ganhou seu dinheiro; o que importa é que ele entre no caixa. Na economia da atenção, não importa se a atenção é positiva ou negativa. O que importa é fazer barulho, o que se traduz em cliques, vendas e pontos de Ibope.

Rebecca Black descobriu isso do jeito mais doloroso possível para uma menina de 13 anos. Ela gravou um clipe bobinho, infantil (afinal, qual era a idade dela, mesmo?), feito com a grana dos pais. Caiu na má boca do povo – teve 55 milhões de acessos em menos de um mês, com 90% de avaliações negativas e pilhas de sátiras. Mesmo com tanta vibe ruim, rendia R$ 27 mil por semana com vendas no iTunes e anúncios no YouTube. Em 2011, ela lançou mais um clipe.

Que o diga Avnash Kaushik, um papa da análise de métricas da Web, ao discutir as dificuldades de medir o “engajamento” do público online no livro “Web Analytics 2.0“:

“Dados quantitativos são limitados no sentido em que eles podem medir o grau de engajamento, mas não o tipo de engajamento.”

Ele define grau como um contínuo que vai da apatia (não vi, não cliquei) até o envolvimento acima da média com o objeto (passar o dia inteiro bombando a hashtag). O tipo é que pode ser positivo ou negativo, mas as métricas de Web não verificam isso. O clipe de Rebecca Black teve um alto grau de engajamento, ainda que do tipo negativo. Todos os 55 milhões que o assistiram viram impressões de anúncios do YouTube. Mais de 27 mil pessoas por mês compraram a música.

Com o que você gasta seu tempo? Já prestou atenção?

Existem algumas ferramentas como o RescueTime, que ficam no seu browser medindo o tempo que você passa em cada tipo de site. Os relatórios dele chegam a ser assustadores.

O tempo é efetivamente jogado fora quando você o gasta com algo de que não gosta. Eu conheço o sabor do prazer mórbido de falar mal das coisas de que não gosto. Afinal, eu era fã de heavy metal em pleno auge do pagode mauricinho dos anos 90, antes mesmo do Tchan. Mas naquela época falar mal não se traduzia em cliques e trending topics. Que são medidas de sucesso, enfim.

Em bom português: não gosta? Ignore, em vez de ficar criticando. Isso não significa que “é feio criticar”. Significa que a energia que você gasta criticando se traduz em sucesso para os fenômenos que você critica.

Na internet, “sua inveja faz o meu sucesso” não é frase de pára-choque de caminhão. É modelo de negócios.

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London burning

(Publicado primeiro no blog Novo em Folha.)

A imagem da primeira página da Folha, hoje, é chocante: um prédio em Londres, incendiado por manifestantes que protestavam contra a morte de um homem pela polícia. Foram presas 160 pessoas no final de semana.

Os protestos e saques começaram em Tottenham, um bairro pobre com grande população negra, e chegaram até o centro da cidade, em Oxford Street. E o prefeito, Boris Johnson, está em férias. Como sói acontecer nessas horas complicadas, o elemento mais difícil de obter é o porquê. Os manifestantes não são organizados a ponto de publicar uma declaração dos seus princípios. A rigor, praticamente entra no protesto quem quer. E é justamente nessas horas que vêm as interpretações apressada, as simplificações.

Há quem diga que a revolta tem a ver com os cortes nas verbas sociais do Orçamento. O Daily Telegraph diz que comprar essa versão deixa os culpados à solta. Ele culpa a “yob culture”, algo como “cultura de mano”. Para The Sun, não tem conversa: quem se revoltou é tudo bandido mesmo. Mas será que é? O Guardian lembra que Tottenham não é “um lugar mau cheio de gente má”. É um lugar com más condições de vida (mal comparando, é como se fosse uma favela), onde a maioria não é por natureza violenta.

Kevin Anderson, um jornalista freelance, olhou a situação e viu paralelos com um clássico do jornalismo de 1967.

Naquele ano, no bairro negro de Detroit, alguns soldados negros voltaram da guerra do Vietnã e foi feita uma festa para recebê-los. Em dado momento, a polícia bateu lá e botou todo mundo da festa em cana. Daí para estourar uma revolta incendiária foi um pulinho. Até porque já tinha acontecido em outros lugares antes. A reação imediata foi mais ou menos a mesma: especulação desenfreada.

Meu mestre Philip Meyer, que trabalhava para a rede de jornais que publicava o Detroit Free Press, resolveu fazer a cobertura tentando deixar o fígado de lado. Especializado em métodos de pesquisa das ciências sociais, ele preparou um questionário para testar o senso comum. Escolheu uma amostra estatisticamente correta dos moradores do bairro para tentar descobrir o perfil de quem se revoltou, e de suas razões. Chegou a conclusões bem diferentes desse senso comum. Uma delas era que os mais revoltados estavam entre os que mais estudaram, colado com os que largaram os estudos no ensino médio, e não entre os ignorantes.

Inspirado nesse post, o Guardian resolveu adaptar o velho questionário do mestre Philip Meyer e colocar na internet, esperando que viessem respostas interessantes. Além de perguntar se o respondente participou ou não das revoltas e qual seu perfil, são feitas perguntas sobre aprovação ou desaprovação ao governo e sobre como uma vigília tranquila virou uma rebelião incendiária. Algumas das respostas dos leitores parecem interessantes para dar uma perspectiva mais nuançada sobre o que houve.

O uso de enquetes eletrônicas para reportagem tem limitações sérias. Primeiro e antes de mais nada porque responde quem quer. Segundo porque responde quantas vezes quiser, do jeito que quiser. Em seu livro “Precision Journalism”, nunca publicado no Brasil, Meyer enfatiza bastante a necessidade de rigor e aleatoriedade na amostra de uma pesquisa séria.

Mandei um email para Meyer perguntando o que ele achou. Ele disse o seguinte:

“Interessante! O problema não é tanto que os dados são coletados online, mas que os entrevistados se auto-escolhem. E a decisão de participar da pesquisa pode estar correlacionada a algo interessante que devia ser medido. Por exemplo, se as pessoas com maiores reclamações tiverem mais probabilidade de participar da pesquisa, então o nível de reclamação medido será exagerado. Ainda vale a pena como pesquisa exploratória. Pode trazer dicas para os repórteres e para uma eventual pesquisa mais rigorosa. Até lá, será difícil resistir à tentação de generalizar a partir dos resultados online. Entrevistas pessoais com os presos também podem trazer dicas. O Guardian é um ótimo jornal, e desejo o melhor para eles.”

Quando o café era uma rede social

Tive o prazer de almoçar hoje com o Milton Jung, da rádio CBN, que brinquei ser o grande animador de torcida do Adote um Vereador. Também estava lá meu amigo Everton Alvarenga, que faz parte da rede do Adote.

Agora, a Câmara Municipal de São Paulo adiou a discussão do aumento para suas excelências. Adiou porque sentiu medo da pressão popular. Essa pressão vem principalmente via internet, mas quem faz a pressão não é “a internet”. São as pessoas que a usam para conversar sobre assuntos públicos e cobrar postura de seus representantes. O Adote um Vereador é isso: vários blogueiros que ficam de olho nos seus representantes e contam o que eles andam fazendo.

O uso da internet pra fazer pressão é fundamental atualmente, mas é preciso ter vagar com o andor, pra não tomar a parte pelo todo. No Webmanário, o Alec Duarte faz uma justa provocação ao tipo de comentário que surge glorificando o Twitter pela revolução do Egito:

“As redes sociais e sua incontestável capacidade de mobilização e difusão de notícias são o ingrediente perfeito para catalisar e amplificar os anseios de um povo em ebulição.

Mubarak desligou a internet no Egito. Em vão: feita pelas pessoas, a rede só reproduz nossas atitudes. São elas que fazem revoluções.”

E é verdade.

O que derrubou o Mubarak foi o povo na rua. O povo se organizou pra ir à rua conversando. O meio utilizado pra essa conversa é quase irrelevante – precisa ser o mais eficiente que estiver à disposição.

Nas revoluções clássicas, a rede social da vez tinha outro nome: café. Ou bar. Ou universidade. Ou clube. Ou barbearia, sei lá. Ou qualquer espaço em que as pessoas possam trocar ideias e se articular, que seja relativamente público o suficiente pra entrar na conversa quem quiser e relativamente privado o bastante pra não dar na cara dos alvos assim tão fácil.

Um dos livros mais fascinantes que já li foi “História do Mundo em 6 Copos“, do Tom Standage. Ele era editor de tecnologia da Economist. Não sei se ainda é; hoje escreve às vezes na “Intelligent Life“, que é da mesma empresa. Enfim: esse livro mostra como seis bebidas emblemáticas de seis épocas diferentes ilustram as mudanças no comportamento da sociedade.

O capítulo sobre o café chama-se “O café público como rede de comunicação”. A partir do século 17, as cafeterias passaram a ser o lugar onde se ia para conversar, para saber as notícias, para fechar negócios e até para tomar café. Mas eram fundamentalmente pontos físicos de troca de informação. Standage foi o primeiro sujeito que eu vi fazer um bom paralelo entre os cafés e as “redes sociais”, quando elas ainda não tinham esse nome da moda:

“Como os websites modernos da internet, eram fontes de informação ressonantes e muitas vezes não confiáveis, normalmente especializadas em determinado tópico ou visão política. Tornaram-se as saídas naturais para uma onda de informativos, panfletos, filipetas de propaganda e ataques verbais.”

Noves fora o cafezinho, é mais ou menos para isso que servem as redes sociais, não? Dependendo de quem você “frequenta”, recebe um fluxo de informações especializado em um assunto ou outro. São saídas naturais para uma onda de links, propaganda e ataques verbais, certo? Standage continua:

“Os debates nos cafés ao mesmo tempo moldavam e refletiam a opinião pública, formando uma ponte única entre o mundo público e o privado. Teoricamente, os cafés eram locais abertos para qualquer homem (as mulheres eram excluídas, pelo menos em Londres), mas sua decoração simples e mobiliário confortável, bem como a presença de clientes habituais, também lhes conferiam um ar caseiro e aconchegante. Esperava-se que os fregueses respeitassem certas regras que não se aplicavam ao mundo exterior. De acordo com o costume, as diferenças sociais deviam ser deixadas na porta.”

Mas peraí, o Egito era uma ditadura, só se podia trocar informações usando a internet. E o Mubarak ainda conseguiu bloquear. Pois bem, isso também acontecia nos cafés pré-Revolução Francesa, como lembra Standage:

“Mas a circulação de informação nos cafés franceses, tanto oralmente quanto por escrito, estava sujeita a uma vigilância governamental rigorosa. Com fortes restrições à liberdade de imprensa e um sistema burocrático de censura estatal, havia um número muito menor de fontes de notícias do que na Inglaterra ou na Holanda. Isso levou ao surgimento de panfletos noticiosos escritos à mão a respeito de mexericos parisienses, transcritos por dezenas de copistas e enviados por correio para assinantes dentro e fora de Paris. (…) Mesmo assim, os fregueses tinham de tomar cuidado com o que diziam, pois os cafés viviam cheios de espiões do governo. Qualquer um que falasse contra o Estado arriscava-se a ser aprisionado da Bastilha. Os arquivos da Bastilha contêm relatórios de centenas de conversas triviais em cafés públicos, anotadas por informantes da polícia. (…)

À medida que a França esforçava-se para enfrentar uma crise financeira crescente, basicamente causada por seu apoio aos Estados Unidos na guerra revolucionária, os cafés públicos tornavam-se centros de fomento revolucionário. De acordo com uma testemunha ocular em Paris, em julho de 1789: ‘os cafés públicos estão não somente abarrotados, mas multidões se espremem nas portas e janelas para ouvir atentamente alguns oradores que discursam de cadeiras e mesas, cada um para sua pequena plateia; a ânsia com que são ouvidos e o barulho dos aplausos que recebem a cada manifestação mais intensa de violência ou ousadia contra o governo não podem ser facilmente imaginados’.”

A tomada da Bastilha foi em 14 de julho, se não me falham as aulas da professora Rosaura na quinta série. No dia 12, observa Standage, partiu de um café o grito “às armas, cidadãos”, que foi parar no hino francês (ou, na versão de Gainsbourg, “aux armes, etcetera”).

Tudo isso mostra que a questão não é a tecnologia. Mas ninguém diria que foram os cafés que cortaram a cabeça de Luís XVI, da mesma forma como os parvos dizem que foi o Twitter que derrubou o Mubarak. O diferencial foram as pessoas na rua. Elas se organizaram pra ir pra lá por terem conversado.

O que é revolucionário é haver um espaço livre para que o pessoal converse mais livremente sobre assuntos públicos. O pessoal perdeu o costume de conversar livremente sobre assuntos públicos em espaços públicos. Bar é entretenimento, o pessoal geralmente vai ao bar pra esquecer dos problemas. Mas a internet está aí pra facilitar a troca de informações e impressões. Permite que o pessoal se organize. Essa tecnologia pode ser o Twitter hoje, como na falta de silício foi o café em 1789. E a tecnologia atual ainda tem a vantagem de permitir registros em tempo real lidos no mundo inteiro, o que só potencializa a coisa.

Só que, pra tudo isso acontecer, o mais importante é as pessoas conversarem e se mobilizarem. Essa tecnologia está disponível aos seres humanos desde que desenvolvemos a linguagem.