Ser homem-antena deve ser melhor do que catar latinhas

Causou polêmica no Twitter uma iniciativa apresentada no festival South x Southwest, no Texas (EUA): mendigos foram transformados em hotspots ambulantes de wi-fi 4G para acesso rápido à internet. Eles usam camisetas informando seu código pessoal, e o usuário paga usando SMS. O blog Vi na Internet, do Charles Nisz, resume o caso.

Saneel Radia, da empresa de marketing que idealizou o projeto, se antecipou às críticas, segundo o Tecmundo:

“A preocupação é que essas pessoas sejam vistas apenas como hardware. Mas, francamente, eu não teria criado isso se não acreditasse no oposto”

Tem lá seu sentido. Mas mesmo o sujeito ser visto como hardware já é um grande avanço em relação a como ele é visto em outras ocupações disponíveis para mendigos.

Se você acha que carregar antena de wi-fi é indigno porque atende a um luxo de um playboy, pense no grau de dignidade de juntar do lixo a latinha da cerveja bebida pelo playboy. Essa é a ocupação mais frequente para  mais de seis em cada dez moradores de rua de São Paulo, segundo o Censo da População de Rua feito pela prefeitura em 2010 (baixe aqui).

Veja aqui como as opções se dividem:

Os catadores de latinhas seguem uma longa tradição de reciclagem no ambiente urbano. São profissionais úteis, por mais desagradável que seja revirar o lixo. Quem leu o livro “O Mapa Fantasma“, de Steven Johnson, sabe que a situação já foi muito pior nos primórdios do urbanismo. (Leia o primeiro capítulo aqui.)

No meio do século 19, quando uma epidemia de cólera atacou forte no centro de Londres, a profissão mais bem-paga no ramo da reciclagem era a dos sujeitos que recolhiam os dejetos orgânicos depositados nos porões das casas. Cada um tomava um terço de garrafa de conhaque pra encarar o tirão. Dois terços de século depois, quando minha avó era jovem, ainda existia a figura do “cabungueiro” no Brasil. Outra classe de recicladores recolhia cocô de cachorro para vender a quem curtia couro.

Essas profissões, indignas, acabaram quando se teve um sanitarismo mais eficiente. Hoje, foram substituídos pelos catadores de latinhas, que vivem numa situação melhor do que a dos cabungueiros. Os catadores devem existir até que a separação do lixo seja realmente eficaz. (Sim, eu sei que você acha que isso é quase impossível – mas os londrinos que morriam de cólera também tinham ideias definitivas sobre o destino do seu esgoto em 1854.) Aí, quem vivia dessa atividade vai ter que arrumar outra, que provavelmente será melhor mas não sei se tanto.

Convenhamos, carregar antenas para vender acesso rápido à internet é bem mais digno do que ser cabungueiro ou remexer no lixo.

Ainda quero chegar a viver num mundo onde a profissão mais indigna que alguém possa ter seja a de carregar antena pra acessar a internet. O ideal seria nem isso ser preciso – mas o ideal, por definição, não existe.